O fim das democracias?

 

O agora democraticamente eleito Presidente do Brasil, da “extrema-direita”, convidou para seu ministro da justiça, e este rapidamente aceitou, o juiz, Sérgio Moro, que condenou recentemente um ex-presidente do Brasil (Luiz Lula da Silva) do partido oposto ao do actual. O risco é a partir daqui a justiça funcionar, ou ser percebida como funcionando, com um só propósito: eliminar os que não são “iguais a nós”. E se tantos deram a vitória ao actual Presidente do Brasil, com um voto anti-PT, outorgaram democraticamente a cobertura ao actual presidente para que possa “perseguir” os que votaram PT, ou seja 45% dos eleitores. E a partir deste acto tão simples mas tão — intencionalmente — simbólico da nomeação deste juiz agora ministro, ninguém poderá ter dúvidas, mesmo entre os nossos compatriotas das direitas, que o Brasil está a entrar, e muito rapidamente, num fase de autoritarismo.

Claro que se pode colorir a ditadura das cores mas alegres que se quiser, como acontece Presidente dos EUA, que está satisfeito com a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. Tal como o está por ter o seu amigo Vladimir Putin, na Rússia. Pouco interessa se houve alguma influência “milagrosa” da Rússia nestas eleições, ou no referendo do “Brexit”, passando pelos EUA, e chegando agora ao Brasil. Estamos a ver cair democracias, umas atrás das outras, com uma leveza e facilidade que seria impensável nos anos 1950 de século passado em que se começou a pacificar a Europa e o Ocidente. Talvez por excesso de confiança e pensar-se que as democracias estavam para não mais cair, talvez por as novas gerações terem, sempre que contestar as precedentes, talvez por o ser humano ter sempre uma predominância dentro de si mais forte do mal que do bem, talvez por se querer um salvador para os problemas que temos e não sabemos resolver , as Ditaduras estão a vencer por todo o lado.

A maleita já está também aqui na nossa Europa que muitos davam como impenetrável ao autoritarismo depois da II Guerra Mundial e da queda do muro de Berlim. Mas os partidos encostados às direitas, que, de forma aberta ou camuflada, apoiam o presidente agora vencedor do Brasil, tal como o fazem com Trump, que se acautelem. Podem ser derrubados pelos que mais às direitas estão agora a aparecer e a tentar instalar regimes autoritários. Depois será tarde para recuar. Estamos a viver mais uma fase de decadência da humanidade, que tecnologicamente progrediu muitíssimo nestes últimos anos, contudo, humana e politicamente, regrediu décadas e décadas. Temos a Rússia, a Venezuela, os EUA, o Brasil a Turquia, a Áustria, a Polónia, a Hungria e a Itália, com procedimentos muito pouco recomendáveis e vamos, provavelmente, ter ainda mais. Por culpa de uns e vontade de outros caminhamos rapidamente para regimes nacionalistas e opressores. Poderá ser tarde para mudar de via, mas, para já, ainda temos liberdade para deixar este aviso às democracias!

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 2/11/2018