A guerra civil na Síria e a minoria alauíta de Bashar al-Assad

Selo de Correio da Síria com a inscrição alauítas (1926)

Pensar que o derrube do regime inaugurado por Hafez al-Assad e continuado por Bashar al-Assad, inquestionavelmente autoritário e autocrático, trará a paz e a democracia na Síria, é simplista e ilusório.

1. A destruição e extrema violência da guerra civil na Síria permanece há três anos. Não há sinais de abrandamento, nem de um final negociado entre as partes em confronto, nem se antevê uma rápida e decisiva vitória militar de qualquer dos beligerantes. Se todas as guerras são sempre destruidoras e violentas, as guerras civis tendem a fazer sobressair algumas das piores facetas do ser humano. Originam sangrentas e vingativas lutas fratricidas. A violência tende a aumentar, ainda mais, quando há uma propaganda de “sacralização” daquilo por que se luta, associada a uma desumanização do(s) opositor(es). Pior ainda, a escalada de violência pode ser levada ao extremo quando, por razões objectivas e/ou subjectivas, o conflito é percebido como uma ameaça à própria existência colectiva de um grupo. Tudo isto parece estar a ocorrer na Síria. Os alauítas, uma minoria religiosa que, desde os anos 1960/1970, ocupa o poder, primeiro com Hafez al-Assad, agora com Bashar al-Assad, estão no centro deste conflito. Este é percebido, ou foi deliberadamente configurado, como sendo uma ameaça existencial à sua própria sobrevivência. Na memória colectiva alauíta estão, provavelmente bem vivos, os sentimentos de humilhação e discriminação a que ao longo da sua história foram submetidos. Recuemos um século atrás.

2. Após o colapso do Império Otomano no final da I Guerra Mundial, a maioria das suas províncias árabes ficaram sob administração britânica (atuais territórios de Israel/Palestina, Jordânia e Iraque) e francesa (Síria e Líbano), no âmbito de um mandato atribuído pela Sociedade das Nações (SdN). Encontram-se aqui as raízes do moderno Médio Oriente, das atuais fronteiras políticas na região, bem como dos conflitos mais intrincados. A Síria insere-se neste contexto. Nos anos 1920 e 1930, ao afirmarem o seu poder colonial, os franceses enfrentaram frequentemente resistência da população local. Essa resistência vinha sobretudo de notáveis e clãs árabes sunitas, maioritários na região, a tradicional classe governante dessas ex-províncias do Império Otomano. Todavia, o Líbano e a Síria, esta última nas partes adjacentes ao território libanês, eram, no período otomano, sítios tradicionais de refúgio de substanciais minorias não islâmicas — sobretudo de cristãos ortodoxos, arménios e maronitas — e de grupos heterodoxos (especialmente drusos e alauítas). Em comum tinham o facto de serem vistos como seitas heréticas pelo Islão sunita dominante. O caso dos alauítas merece especial atenção. O nome tem origem no termo francês alaouites, utilizado durante o mandato da SdN. Sob o Império Otomano, eram conhecidos depreciativamente como “nusairitas”, a partir do nome do seu fundador, Muhammad Ibn Nusayr. A sua crença é sincrética e tradicionalmente fechada, por razões de perseguição religiosa. Os seus detractores denunciam-na como tendo práticas secretas heréticas. Sintomático da sua especificidade é o facto de tradicionalmente não usarem mesquitas. O credo contém elementos da tradição islâmica, numa versão mais ou menos próxima do xiismo. A veneração de Ali é o mais óbvio, embora com uma diferença importante: a deificação de Ali. Todavia, integra também aspectos provavelmente absorvidos de outras religiões pré-islâmicas, incluindo do Cristianismo. Aquilo que visto sob o prisma secular e científico ocidental seria tendencialmente objecto de curiosidade, de estudo, ou até de esforços de preservação, pelo seu “exotismo” e diferença cultural, constitui, em sociedades tradicionais do Médio Oriente, uma linha de fractura identitária e religiosa e um problema político. Em épocas de instabilidade, esta diferença cultural-religiosa-política face ao Islão sunita dominante, tende a tornar-se numa linha de conflito aberto.

3. A mentalidade secular ocidental é um obstáculo à compreensão do funcionamento social e político do Médio Oriente e dos seus intrincados conflitos, incluindo o caso aqui analisado da Síria. A esse obstáculo acresce o superficial conhecimento da região, do seu passado histórico, do seu tecido social e valores. Leva a que os acontecimentos sejam frequentemente lidos e interpretados através de analogias e extrapolações com o passado ocidental. Os exemplos abundam. A qualificação das revoltas no mundo árabe em 2011 como uma “Primavera Árabe” foi uma extrapolação, simultaneamente ingénua é abusiva, do termo usado para qualificar as revoluções nacionais de 1848 na Europa. Outro exemplo é a configuração do derrube de ditadores como uma espécie de réplicas da história europeia e ocidental. O imaginário implícito é que a deposição de regimes autoritários e ditatoriais dará lugar, mais tarde ou mais cedo, a formas de democracia liberal — ainda que com tonalidades islâmicas —, à semelhança do que ocorreu na Europa da segunda metade do século XX. Há, todavia, um problema de fundo com este imaginário. A democracia só pode emergir e ganhar raízes a par de uma secularização do político aceite pela população. Implica, ainda, uma cultura política pluralista e de negociação, onde as eleições não sejam vistas como mera forma de legitimar o autoritarismo de uma maioria. Por outras palavras, pressupõe que as ideias políticas, de esquerda ou direita, se sobreponham a lógicas étnicas e/ou religiosas. Pressupõe uma integração das minorias na vida política. Pressupõe ainda que a legitimidade última do poder é a vontade popular/nacional e não religiosa/divina. Fora disso, o melhor que podemos ter é uma espécie de “democracia” étnico-religiosa (com corpos eleitorais separados para diferentes grupos religiosos, como, por exemplo, no Líbano); ou uma “democracia” que se restringe a um mero jogo eleitoral, mais ou menos condicionado, como no Egipto após o afastamento de Hosni Mubarak em 2011. Nenhum dos casos cabe em qualquer definição rigorosa de democracia.

4. A sociedade síria enferma dos problemas anteriormente apontados. Os alauítas, o grupo religioso de origem do regime autoritário de Bashar al-Assad, serão 12% ou 13% da população. São a principal proveniência dos elementos do exército e do poder governamental. Historicamente situam-se entre o litoral e as montanhas, na região a norte do Líbano e a sul da Turquia. Hoje vivem também nas grandes cidades sírias. Sob a administração colonial francesa, nos anos 1920 e 1930, tiveram o seu próprio território estadual (o Estado de Latakia), tal como outras minorias, drusos e cristãos maronitas (a separação do Líbano da Síria tem origem nesse período). Na época, a administração colonial francesa procurava alicerçar o seu poder através de alianças com as minorias, numa sociedade dominada pelos notáveis e burguesia sunitas. Não foi por acaso que, em meados do século XX e no pós-independência (ocorrida em 1946), as ideologias políticas seculares, de tipo ocidental, ganharam sobretudo aceitação entre as minorias. Estas permitiam uma ascensão social e política, combatendo a cidadania de segunda classe a que eram relegados os não muçulmanos sunitas. Michel Aflaq, originário de uma família cristã ortodoxa de Damasco, foi o principal fundador do Partido Baath. Quando chegou ao poder em 1970/1971, Hafez al-Assad, um alauíta de Qardaha, na região de Latakia, também era membro do Partido Baath. Originalmente o partido assentava num ideário de tipo secular e inspirado em valores socialistas. Promovia um nacionalismo pan-árabe. Acabou por ser distorcido pelo autoritarismo de tipo autocrático do regime de Hafez al-Assad. Sintomático é que as grandes revoltas contra Hafez al-Assad, no poder entre 1970/1971 e 2000, não ocorreram em nome da liberdade, ou de qualquer ideologia democrática e secular, mas em nome do Islão (sunita), sendo lideradas pelos islamistas da Irmandade Muçulmana. Os acontecimentos de 1982, em Hama, pela sua grande violência e repressão, fazem lembrar os episódios mais trágicos da actual guerra civil.

5. Pensar que o derrube do regime inaugurado por Hafez al-Assad e continuado por Bashar al-Assad, inquestionavelmente autoritário e autocrático, trará a paz e a democracia na Síria, é simplista e ilusório. As tensões religioso-étnico-políticas agravadas pela guerra, tornam muito improvável esse resultado. Entre os grupos que se opõem ao regime de Bashar Al-Assad, os que lutam por uma alternativa democrática e liberal são poucos, mal organizados e sem capacidade militar relevante. A agudização do conflito levou a que os alauítas, simpatizantes ou não do regime, passassem, cada vez mais, a recear pela sua própria existência e a cerrar fileiras, num reflexo autodefensivo. Os múltiplos grupos islamistas-jihadistas que combatem na guerra civil da Síria, tipicamente oriundos do Islão sunita — dos quais o Estado Islâmico do Iraque e do Levante é apenas o mais conhecido pela sua barbárie —, acentuaram esse medo existencial. Se vencer a guerra, a alternativa do radicalismo islamista que domina a aposição armada a Bashar al-Assad, significará passar de uma opressão de tipo secular para uma opressão teocrática. A tragédia da Síria continuará de uma outra forma e não apenas para os alauítas, que passarão a ser objecto de vingança. Para a maioria dos muçulmanos sunitas, excepto para islamistas convictos ou oportunistas, não é discernível um futuro melhor. Quanto às minorias religiosas (cristãos e drusos), ou étnicas (curdos), poderão ter de enfrentar também a sua própria ameaça existencial.

 

© José Pedro Teixeira Fernandes. Artigo originalmente publicado no Público, 17/11/2014

domínio público Imagem: selo de correio da Síria (domínio público / Wikipedia) com a inscrição alauítas (1926)

 

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