A tragédia das populações cristãs da Nigéria e a indiferença ocidental

Charlie Hebdo

Toda esta imensa tragédia humana, de que são vítimas sobretudo as populações cristãs da Nigéria, ocorre com uma quase indiferença ocidental. Basta comparar a reação a estas atrocidades com a reação aos atentados terroristas ao “Charlie Hebdo” em França.

1. A Nigéria é hoje o Estado do mundo onde populações cristãs estão a ser mais perseguidas por interpretações extremistas do Islão e vítimas de atos de terror perpetrados por grupos Islamistas-jihadistas. Esta antiga colónia britânica na África ocidental, é hoje um Estado federal, sendo o país mais populoso do continente africano, com uma população que ultrapassará os 175 milhões de habitantes. A dimensão da população cristã da Nigéria (sobretudo composta por igrejas protestantes), será na ordem dos 80 milhões, o que lhe dá uma dimensão similar à da população total da Alemanha. Todavia, se recuarmos a meados do século XX o Islão predominava. Segundo dados do Pew Research Center’s Fórum, em 1953 a repartição religiosa seria esta: cristãos 21,4%, muçulmanos 45,3% e outras religiões animistas 33,3%. Devido à sensibilidade política do assunto, os censos e estatísticas oficiais não incorporam informação sobre este assunto desde 1963. Os dados atualmente existentes baseiam-se em estimativas.
2. Há pouco mais de uma década atrás surgiu na Nigéria o grupo islamista-jihadista das “Pessoas Comprometidas com a Propagação dos Ensinamentos do Profeta e a Jihad”. O grupo é vulgarmente conhecido como “Boko Haram”, conjugando as palavras “Haram” (proibido em língua árabe) e Boko (termo que, num dialecto local, significa falso), mas que acabou também por ser associado a “educação ocidental”. O seu guia de conduta parece ser a ideia, extraída do Alcorão e levada ao extremo de que “quem não for governado segundo os preceitos de Alá está entre os transgressores”. Por exemplo, votar em partidos políticos, vestir calças e camisa e, acima de tudo, receber uma educação à ocidental são vistos como “transgressões” e merecedoras de uma forte punição, especialmente grave no caso da “corrupta” educação à ocidental. A sua reivindicação última é a instalação da lei islâmica – a sharia – e a criação de um Estado-sharia. Note-se que a sharia já é uma realidade em nove Estados federados e, em partes específicas de zonas com maiorias muçulmanas, de mais três outros. Nalguns Estados é restrita a matérias de direito da família, mas noutros a sua implementação é generalizada, incluindo as sanções penais.
3. No nordeste do país, em zonas próximas do Chade e dos Camarões, as ações de violência e de terror do Boko Haram têm sido múltiplas. A última destas ocorreu nos primeiros dias de Janeiro de 2015, em Baga, no Estado de Borno (juntamente com os Estados de Yobe e Adamawa, é onde ação deste grupo islamista-jihadista mais se faz sentir). Poderá ter provocado mais de duas mil vítimas, segundo dados da Amnistia Internacional. Anteriormente, em abril de 2014, o grupo já tinha ganho notoriedade internacional por outro acto infame e bárbaro: o rapto de mais de duas centenas de meninas cristãs de uma escola pública da cidade de Chibok, no mesmo Estado de Borno, para serem vendidas como escravas ou casadas à força, segundo a lógica de que as mulheres capturadas em conflito fazem parte do “espólio de guerra”. Toda esta imensa tragédia humana, de que são vítimas sobretudo as populações cristãs da Nigéria, ocorre com uma quase indiferença ocidental. Basta comparar a reação a estas atrocidades com a reação aos atentados terroristas ao “Charlie Hebdo” em França. Infelizmente, neste início de século XXI, há muitas partes do mundo onde a vida humana pouco ou nada vale. Nessas partes do mundo, ser cristão não é sinónimo de fazer parte de uma maioria religiosa e/ou sociológica confortavelmente instalada, como na Europa, mas de uma minoria, de maior ou menor dimensão, objeto frequente de discriminação e de perseguições.

 

© José Pedro Teixeira Fernandes, 1/02/2015

© Imagem: cartoon do Charlie Hebdo, nº 1118, 14/1/2015, p. 10

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