A Europa está em guerra?

Hark! Hark! The Dogs do Bark!

A Grécia tornou-se o “alter ego” dos europeus. Nela se projectam virtudes e defeitos, nalguns casos reais, noutros casos imaginários, frequentemente exagerados. Tomou o lugar de outros conflitos que movem paixões e nos quais ocorrem similares processos de transferência […]

 

1. Ultimato, humilhação, armistício, reparações de guerra, dissuasão do fraco ao forte, Diktat, Tratado de Versalhes, etc., são alguns dos adjectivos e comparações históricas mais utilizados na actual crise da Grécia. Nem sobre um caso real de guerra, como o que tem decorrido no Leste da Ucrânia, se utilizou tanta linguagem militar e analogias históricas com guerras do passado. Se nos tentarmos imaginar na posição de alguém completamente desconhecedor da realidade europeia de Junho / Julho de 2015 – e a procurar inteirar-se do assunto pelos media –, provavelmente ficaria com a sensação de que a Europa estava em guerra. Nada de invulgar na história europeia até ao final da II Guerra Mundial. Vejam-se algum títulos das últimas semana que sugerem essa imagem mental: “Atenas já está a arder?” (Vítor Malheiros in PÚBLICO 22/06/2015); “O Regresso de Versalhes” (Manuel Carvalho in PÚBLICO, 28/06/2015); “Atenas delenda est” (Ricardo Costa in Expresso, 13/07/2015); “Retaliação maciça” (Viriato Soromenho Marques in Diário de Notícias, 14/07/2015). A título exemplificativo, vale a pena olhar um pouco melhor para dois casos. Um primeiro é o do já referido artigo de Viriato Soromenho Marques, onde este escreveu o seguinte: “Na Cimeira do Euro, realizada no domingo, a Alemanha apresentou […] a sua doutrina: ‘retaliação maciça‘. Schäuble foi buscá-la aos manuais estratégicos norte-americanos dos anos 1950, numa altura em que Washington dispunha de clara supremacia atómica sobre a URSS. Qualquer ataque contra os EUA seria respondido com todo o potencial disponível, esmagando o adversário. O ‘acordo‘ da madrugada de ontem consagra a ‘vingança‘ germânica contra o ‘ataque‘ do referendo.” Um segundo caso, é o do comentário e análise feita por José Pacheco Pereira sobre o mesmo assunto (Quadratura do Círculo, SIC Notícias, 16/07/2015). Na sua óptica – julgo estar a reproduzir correctamente o que este pretendeu transmitir –, o que o Eurogrupo fez com a Grécia foi uma deliberada reversão do programa do Syriza, ponto por ponto. Esta seria comparável ao que os nazis fizeram no armistício de 22/06/1940, para se vingaram da França na II Guerra Mundial. Humilhando-a, foram buscar ao museu, a Paris, a carruagem de comboio onde tinha sido assinado o armistício de 11/11/1918. Este marcou o fim da I Guerra Mundial e a derrota germânica. A Alemanha nazi efectuou no mesmo local – em Compiègne, na floresta da Picardia –, uma réplica com a coreografia invertida.

2. A comparação de acontecimentos deve ter por base a escolha de situações históricas adequadas, nomeadamente por ocorrerem em similar contexto da vida humana. Existindo características comuns às situações comparadas, será então apropriado projectar uma faceta do passado na nova situação. É frequente a comparação de acontecimentos históricos do passado com situações do presente, procurando beneficiar desses ensinamentos. O objectivo é também dar sentido a um acontecimento novo. Fundamental é que exista uma intrínseca semelhança entre ambos, para se aceitar uma determinada conclusão, ou, pelo menos, uma certa interpretação dos factos. Frequentemente as comparações são usadas com a finalidade de despertar na mente do receptor imagens fortes e sugestivas. Nestes casos, estamos perante um uso retórico mais próximo da metáfora, não existindo uma genuína analogia das situações. Isso ocorre, por exemplo, quando usamos expressões como combate à pobreza, ou guerra à exclusão social. Mas não é esse o contexto aqui em análise. A utilização da linguagem bélica e o recurso a episódios de guerra para explicar a situação presente da Grécia e Zona Euro, levanta, por isso, questões sérias e profundas. É clarificador o seu uso e o recurso a exemplos de conflitos político-militares do passado, para explicar a actual crise? Mas não tem esta, no seu cerne, um problema de dívida pública? Para além da erudição histórica mostrada por quem recorre a essas técnicas argumentativas, são adequadas as analogias que citámos anteriormente? Os paralelismos com episódios de conflito e guerra da conturbada história europeia ajudam a perceber a questão? Ou será que o seu uso, se torna, ele próprio, parte do problema que pretende analisar, alimentando a engrenagem do conflito? E se a explicação é retórica e de recurso a figuras de estilo, não será uma forma de argumentação dispensável num debate sereno e esclarecedor? Importa notar: a escolha das palavras não é inócua. (Logos, em grego, significa quer palavra, quer razão.) Permite representar bem a realidade, mas permite também manipulá-la. Permite criar uma consciência para agir, mas permite também bloquear a acção humana. Tínhamos já o léxico anestesiante da tecnocracia europeia, com o intuito de despolitizar e esconder o carácter conflitual da realidade. Agora temos também um léxico bem mais excitante, como antídoto. Joga com as emoções da linguagem bélica fazendo comparações históricas, pertinentes ou arbitrárias, com o passado guerreiro e trágico da Europa.

3. A Grécia tornou-se o “alter ego” dos europeus. Nela se projectam virtudes e defeitos, nalguns casos reais, noutros casos imaginários, frequentemente exagerados. Tomou o lugar de outros conflitos que movem paixões e nos quais ocorrem similares processos de transferência – o caso clássico é o conflito israelo-árabe, onde David desafia Golias, mas quem é um e outro varia com o observador. Frequentemente, as análises e comentários dizem mais sobre a visão do mundo de quem os emite do que explicam os conflitos em si mesmos. Consciente ou inconscientemente, omitem as suas causas complexas e as motivações não invulgarmente contraditórias dos intervenientes. Assim, para uns, a Grécia é a plenitude das virtudes: democracia / resistência à tecnocracia / alternativa ao capitalismo global / patriotismo / orgulho nacional; para outros é uma mera súmula de defeitos: populismo / corrupção / clientelismo / laxismo orçamental / viver à custa dos outros. Nesta construção mental binária, a Alemanha ocupa o lugar de uma Némesis da mitologia clássica, a deusa poderosa e vingativa que exige retaliação; ou então surge como uma espécie de Afrodite protectora da “beleza” e equilíbrio da Zona Euro e das suas regras actuais. Esta construção mental binária prolonga-se no “Grexit” / “Germanexit”. Este último emerge como a resposta simétrica dos críticos da Alemanha aos que pretendem ver a Grécia fora da Zona Euro. Ou seja, é a mesma imagem, mas agora invertida no espelho. Ironicamente, faz lembrar a atitude mental do eurocentrismo herdada do século XIX – a visão de mundo colocava Europa como protagonista único da história. Em seu lugar, surgiu um novo enviesamento da realidade: o germanocentrismo. Na União Europeia, tudo parece gravitar à volta da Alemanha, para o bem ou para o mal. Os restantes Estados-membros são entes amorfos. Os epítetos variam conforme a perspectiva adoptada. Virtuosos, responsáveis e cumpridores, ou moralmente indignos, colaboracionistas e vassalos. Não se deixar arrastar para este terreno envenenado é optar por uma hipócrita atitude salomónica? Pode ser mero bom senso. Ambas as partes pretendem recrutar partidários e soldados num combate configurado como uma luta entre o bem e o mal absolutos. Em comum, o mesmo objectivo: sob a cortina de fumo das palavras desadequadas à realidade, impedir o pensamento crítico equilibrado. Não, não é da Grécia que estamos fartos, mas deste debate redutor e maniqueísta e da sua linguagem excessiva que está a criar feridas profundas entre os europeus.

 

© José Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no Público, 21/07/2015

domínio público Imagem: mapa satírico britânico da Europa em 1914 (Guardian / domínio público)

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