Grécia: uma esquerda radical fora de tempo? (o “timing” desfavorável do Syriza)

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Grécia

 

Há mais neste timing que joga contra o Syriza. Se, na Grécia, o voto de protesto foi sobretudo captado pela esquerda radical, noutros países do Norte da Europa o voto de protesto está a ser essencialmente captado pela direita nacionalista e populista. Estes processos, à primeira vista desligados, alimentam-se.

 

1. Até às eleições legislativas de 2012, ocorridas em plena crise do Euro, a história política da Grécia democrática, que emergiu após a queda da ditadura dos coronéis (1967-1974), era basicamente uma história de alternância entre o PASOK e a Nova Democracia – sem coligações e representando ambos 77,5% a 87,5% dos votos. Nesse ano, mas com raízes anteriores, que mergulham na crise iniciada em 2007/2008, tudo mudou. Assistiu-se a uma implosão do PASOK e à crescente fragmentação do sistema político. Uma força política emergiu em crescendo, obtendo votações próximas dos partidos de poder tradicionais – o Syriza. A vitória eleitoral nas legislativas do passado dia 25/01/2015, no limiar da maioria absoluta de deputados, insere-se nessa tendência anterior. Ao contrário do PASOK (e da Nova Democracia), o Syriza de Alexis Tsipras não pretende ser um partido de esquerda do “business as usual”, como a União Europeia está habituada. Rejeita ideologicamente as orientações de política económica (de austeridade) da Comissão, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI). Rejeita também politicamente a atitude de “bom aluno” similar à dos  governos português, irlandês, ou espanhol e um seguidismo do governo alemão de Angela Merkel. Por outro lado, tem um ambicioso programa de governo – o programa de Salónica –, direccionado para a correção das múltiplas injustiças sociais económicas geradas pela crise e políticas de austeridade. No entanto, para ser exequível, tal programa pressupõe, de alguma forma, o envolvimento das instituições da União Europeia e da Zona Euro e o uso dos seus recursos, ou, se isso não for possível, encontrar alternativas a nível internacional.  Entre as várias questões que aqui se levantam, há uma que tem sido pouco analisada mas é crucial: o timing de chegada ao poder do Syriza é-lhe favorável, ou, pelo contrário, terá chegado “fora de tempo” ao poder?

2. Em termos democráticos, a vitória eleitoral do Syriza tem um mérito inquestionável. Mostra como é possível uma escolha que vai além dos partidos do tradicional consenso europeísta, os quais têm governado a Grécia e a generalidade da União Europeia, desde há longos anos. Estes têm, por isso mesmo, inevitáveis responsabilidades políticas pela atual crise. Mostra também como os eleitores, pelo menos os gregos, estão fartos de escolher partidos e governos que se vêm mais executores – frequentemente até entusiastas, de ordens dos tecnocratas da União Europeia e FMI. Não é pouco. Agora vem, contudo, a parte mais difícil. Como passar de um partido de protesto a um partido de poder? Como impor um rumo substancialmente diferente à Grécia, quando a sua economia está profundamente integrada na União Europeia e na Zona Euro, ambas moldadas por lógicas económicas e financeira de tipo neoliberal? Que efeitos têm eventuais concessões à Grécia, em termos de redução dos prazos dos empréstimos, baixa das taxas de juro ou até perdão parcial da dívida, nos restantes Estados-membros da União? Que interrelações se podem estabelecer entre os partidos de protesto à esquerda (como o Syriza na Grécia e o Podemos, em Espanha), e os partidos de protesto à direita (com a Frente nacional em França, ou Partido dos Verdadeiros Finlandeses, na Finlândia)?  Em que medida o calendário de eleições legislativas em diferentes Estados-membros da União Europeia, em 2015, facilita ou dificulta a tarefa negocial do Syriza?

3. Olhando para o calendário – as datas são aproximativas – das eleições parlamentares em vários Estados-Membros em 2015, vemos um problema que se pode facilmente antecipar. Finlândia (abril); Reino Unido (maio); Dinamarca (setembro); Portugal (outubro); Polónia (outubro); Espanha (dezembro). Nos Estados onde há governos de direita ou centro-direita no poder que vão a eleições, as pretensões negociais do Syriza vão enfrentar forte resistência dos seus governos na União Europeia. A Espanha é o caso mais óbvio, onde o governo de direita do Partido Popular enfrenta já internamente um fenómeno político parecido com o do Syriza (o Podemos). Assim, é previsível que o governo espanhol, tal como o português, o irlandês, ou o finlandês, entre outros, alinhem – se não mesmo promovam – posições de pouca flexibilidade, ou até intransigência negocial face à Grécia, próximas Alemanha e de outros Estados do núcleo duro da Zona Euro. A alternativa seria conceder a todos os países endividados concessões similares às da Grécia…. Em ano eleitoral, o sucesso ou fracasso do governo do Syriza vai potenciar ou descredibilizar partidos de oposição e/ou de protesto noutros Estados-membros. A questão vai assumir, por isso, contornos de luta político-ideológica. Aqui o timing parece pouco favorável para o Syriza. Até final de fevereiro terá de obter uma extensão do apoio à compra de dívida do BCE. Em julho e agosto terá de pagar tranches importantes dos empréstimos aos credores. A partir de meados de março vai começar um período crítico. Para obter o financiamento que urgentemente necessita tem, necessariamente, de negociar a nível europeu e obter o acordo dos governos dos Estados que vão a eleições…. Alguém imagina que os governos de centro-direita vão querer que o Syriza mostre resultados positivos de melhoria da economia e do bem-estar da população, pela sua atitude contestatária? Como explicariam depois estes governos aos seus eleitores que ser “bom aluno”  e  “fazer sacrifícios” é que dava resultados?

4. Há mais neste timing que joga contra o Syriza. Se, na Grécia, o voto de protesto foi sobretudo captado pela esquerda radical, noutros países do Norte da Europa o voto de protesto está a ser essencialmente captado pela direita nacionalista e populista. Estes processos, à primeira vista desligados, alimentam-se. As razões são várias, mas a mais óbvia é que tipicamente esses partidos são anti-União Europeia, ou muito críticos desta. Entre outros males, atribuem-lhe um desbaratar de recursos financeiros feito à custa do trabalho dos seus próprios cidadãos contribuintes. Com mais ou menos fundamento, invocam uso indevido e/ou fraudes com os fundos estruturais, resgates dos países do “Club Med/PIGS” que podem por em causa o seu bem-estar etc.. Este argumento tem particular ressonância nos Estados que são contribuintes líquidos para o orçamento da União Europeia, como a Alemanha, Holanda ou a Finlândia. Mais concessões à Grécia, vão, por isso, provavelmente alimentar o voto de protesto à direita. Para além desse problema político, já nem o poder negocial e de pressão que resulta de uma ameaça de provocar “danos colaterais” pela saída do Euro, tem hoje o mesmo impacto. O efeito negativo de contágio a outras economias parece hoje bem menor do que em 2012, no pico da crise. Por último, poderíamos pensar nas alternativas de financiamento gregas e apoios políticos fora da União Europeia. Mas nem aí o timing é muito favorável. A Rússia poderia ser um parceiro e aliado natural. Embora por diferentes razões, tem simpatias na Grécia à esquerda (mais ideológicas e nostálgicas do passado soviético) e à direita (mais religiosas e nacionalistas). O governo do Syriza já jogou a cartada russa na entrada na cena política europeia, ao opor-se a mais sanções económicas. Resta saber se isso lhe vai aumentar a margem de manobra política, ou ter efeito “boomerang”, incrementando a hostilidade dentro da União Europeia a concessões substanciais sobre a dívida grega. Se tivesse chegado ao poder nas eleições de 2012, até seria plausível a opção russa. Hoje, a Rússia começa também a estar sufocada pela quebra do preço do petróleo e gás natural. Os títulos da dívida pública russos estão, como os da Grécia, ao nível “junk” (lixo). Tal como na mitologia grega da Antiguidade, adivinha-se uma luta titânica do Syriza para por em prática um programa “fora de tempo”.

 

© José Pedro Teixeira Fernandes, 30/01/2015. Última revisão 15/06/2015

© Imagem: bandeira da República Helénica