A União Europeia com critérios díspares e a auto-fragilizar-se!

 

A União Europeia que, de facto, de junção tem relativamente pouco, está, nesta altura, com uma debilidade. Donald Trump, Vladimir Putin e outros líderes de grandes potências exteriores tudo fazem para a dividir. Em Itália, por razões se calhar não (apenas) nacionalistas, mas porque os italianos não quererem ser totalmente “comandados” por Bruxelas — e pela Alemanha que determina as regras fundamentais do Euro —, nas últimas eleições para Parlamento e implicitamente para o Governo, este ficou demasiado à direita e numa lógica populista. Neste contexto político, não ajuda nada que um Comissário Europeu (alemão e responsável pelo orçamento), tenha feito declarações que, de forma directa ou indirecta, se prestam a interpretações de ingerância nos assuntos internos de Itália. O país teria de seguir as regras do Euro ou então “os mercados iriam ensinar os italianos a votar bem”. Ou seja, um voto que possa implicar por em causa o que os países do Norte (e os mercados) estipularam, está desacertado.

Claro que depois, como sempre, aparece o disse que disse, usual nestas situações, a dar a entender que não era bem aquilo que se quereria dizer, mas foi dito espontaneamente. E isto por haver em Itália um possível novo Governo eleito, com um Ministro das Finanças que iria, talvez, colocar em causa a permanência no Euro. Tudo isto dado a Comissão não querer dar folga a países que estão no Euro para não fazerem disparates e gastarem livremente dinheiro que podem não ter. Só que assim assim estes acabam também por não conseguirem ter, dentro de um espaço supostamente unido, livre e democrático, alguma liberdade de escolha. Ao mesmo tempo, esta mesma União Europeia de concreto pouca faz quando a Hungria, persistentemente, caminha “dentro da União”, para a direita nacionalista, para um fechamento nos mais diversos aspectos e até das fronteiras, e agora prepara penalização a quem ajude migrantes ilegais a passar a fronteira.

Tais critérios díspares e formas diferentes de encarar os países do Sul da União dos antigos países de Leste, não podem ser assumidos como uma hipotética afronta contra Vladimir Putin. Nem de um medo avassalador de que o Leste europeu possa fugir e reformular a União Soviética. O que acaba por acontecer é que tudo isto desune e fragiliza a União Europeia. A União não pode ser algo em que cada Estado faz o que bem entender, mas de forma alguma também pode ser uma tentativa de disciplinar, à força, os países do Sul pelos do Norte, e, em simultâneo, não olhar com o mesmo rigor para o Leste. Assim, acabamos por nos fragilizar, ou até caminhar para dissolver a União Europeia, dando abertura a Trump e Putin e outros, de fazerem de nós os restos mortais de uma Europa que já chegou a ter a centralidade cultural, cientifica, económica do mundo. Agora parece mais estar a tornar-se num “museu da história”.

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 4/06/2018

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