A Áustria e as divisões europeias

Para o chanceler austríaco, Sebastian Kurz, países “inteligentes” são os que foram capazes de lidar com a covid-19 de forma a permitir-lhes estar agora num ponto favorável e em condições de voltar a colocar a funcionar já vários sectores, e claro o turismo é essencial no Tirol e em Viena. Mas a iniciativa que deixa a pairar no ar a ideia de que os outros países não são “suficientemente inteligentes”… Para Sebastian Kurz, além da Áustria  Austrália, Nova Zelândia, Israel, Dinamarca, República Checa e Grécia, ou seja, “países com uma geografia muito diferente, mas que são países em geral mais pequenos, inteligentes, que, como nós  (leia-se Áustria) reagiram de modo rápido e intensivo e por isso têm saído da crise melhor do que outros”. Assim, a oportunidade proposta pelo jovem Sebastian Kurz é estes países fazerem acordos entre si para o turismo ou o comércio — uma ideia que, com 4  deles pertencentes União Europeia, cria evidentemente desagrada à Comissão, que está a tentar criar um plano comum para reabrir fronteiras. De frisar que Sebastian Kurz também convidou a Alemanha, que recusou — o Ministro dos Negócios Estrangeiro disse: “Precisamos de critérios comuns na Europa em relação ao recomeço da liberdade de movimento”. Num momento crucial para a União Europeia, um país pequeno e desenvolvido do espaço europeu escolher uns quantos de fora da Europa, mais alguns europeus entre os quais a Grécia — que até há pouco era considerado um peso morto na Europa — é preocupante pelas divisões que cria.  Ao mesmo tempo, na Áustria há sempre o peso histórico dos fantasmas do passado, da perda do império ao nazismo, o que também não é muito tranquilizador. Para o autor deste texto, que tem um passado familiar que o liga à Áustria,  custa ver estes egoísmos nacionais do Governo austríaco de hoje. Lembram os maus momentos do passado e dividem a União Europeia.

© Augusto Küttner de Magalhães, 9/05/2020