A dependência estratégica da China é boa?

 

Torna-se espantoso este “faz de conta” e a normalidade ser “ceder tudo aos chineses”.   Nem os partidos da direita, preocupados com a “soberania nacional”, se incomodaram com a “venda da nação” (leia-se da EDP) aos chineses! Passo a passo, via empresas do Estado chinês, logo do Partido Comunista chinês — a ordem é arbitrária —, vão-nos comprando activos empresariais estratégicos e todos olham para o lado. Em vez de se tentar manter, o mais possível, empresas como a EDP e a REN, essenciais ao país  na energia, abre-se mão delas e todos acham “menos mal”. E se é mesmo necessário vender, seria melhor fazê-lo a países europeus, dentro da União Europeia. Seria melhor estarmos nesta em força do que ficarmos, mais ano menos ano, largamente dependentes  da China, como acabará por nos acontecer. E os defensores exacerbados  da “soberania” onde param nesta altura? E se fosse a Rússia, também com muito dinheiro do petróleo e gás natural, a comprar tudo que o que vendemos “lá para fora” — leia-se ao Estado chinês — , todos achariam muito mal, ou também olhariam para o lado? Claro que não! E se fosse para Donald Trump, o actual “dono” dos EUA? A direita acharia bem, provavelmente, mas os outros à esquerda ignorariam a questão? Certamente não o fariam! 

O governo actual, que chegou ao poder com preocupações em manter empresas no sector público, ilude o problema. Deixa, estranhamente, que aquilo que não pode ser mantido pelo Estado português seja totalmente vendido à China, em vez de preferir que fique maioritariamente num outro(s) país(es) europeu(s)! Mostrou, inicialmente, talvez exagerada preocupação em renacionalizar a TAP, que não nos criaria assim tanta mossa em tempos de muitas companhias aéreas low-cost. Agora,  não vê qualquer problema no sector da energia, e em que tudo que com esta se relaciona fique nas mãos do Estado chinês! Estamos a fazer de conta que não entendemos que, quando a China nos tiver na mão, vamos perder autonomia estratégica em sectores-chave da economia, logo também independência, não para parceiros dentro de uma União Europeia que,  apesar de tudo, nos diz muito, mas sim sob o domínio de um país com um sistema social e político e interesses estratégicos muito diferentes dos nossos. Quando percebermos que os assuntos mais importantes para o país não são o futebol, nem os animais de estimação, talvez se torne claro o grau de dependência em que nos estamos a colocar face à China. Esperemos que não seja é demasiado tarde…

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 14/05/2018