A tecnologia das redes sociais é neutra, os humanos não

 

As redes sociais para funcionarem, de facto, têm naturalmente de ter mão humana, não se iniciam sozinhas, alguém as cria e muitos as utilizam no seu dia-a-dia, para tudo, e durante o máximo de tempo que podem. O interesse de quem as criou pode ser unicamente ganhar dinheiro, ficar muito, ser reconhecido mundialmente, ir para o topo da “Forbes”. As “start-ups” tecnológicas de maior sucesso são idolatradas na nossa sociedade. Os seus criadores aparecem em grande na “Forbes”. Enriquecem à custa do que “criam” e todos as querem comprar. Assim, o mesmo aconteceu com as “redes sociais”, que alguém colocou, suavemente, a entrar nas nossas vidas, a bem. Fazem supostas transformações políticas boas, como na Primavera Árabe, e supostamente, também, divulgam cultura  que muitos, de outra forma, não teriam como obter. E tudo foi correndo tão bem, foram todos tão bem sucedidos, tão reconhecidos. E alguém muito humano a fazê-las crescer e a ganhar fortunas, reconhecido como sendo fantástico, por todo o lado, e a espalhar a democracia!

De repente, essa forma benigna de inovação e interacção humana passou a ser o contrário do que estava a acontecer. Passou a dar visibilidade aos que não defendem, de facto, a democracia. Pronto, as redes sociais agora são um perigo! Antes, exactamente as mesmas redes sociais, não o eram: só faziam bem às pessoas e à democracia. As pessoas até podiam colocar nas ditas redes sociais tudo e mais tudo, das suas vidas privadas e menos privadas, sem um mínimo de cuidado ou consistência. Podiam até defender ideias políticas e convicções absurdas. Não importava. Tudo era tão bom, tão fácil e utilizado por humanos “bons”. Quando os humanos por trás disto, para continuarem a enriquecer ou com outros fins, começaram também a prestar os serviços aos “maus”, desabou o paraíso das redes sociais. Mas será que não fizemos nas redes sociais o que fazíamos antes directamente entre humanos, e agora queremos um bode expiatório para o que nos não deveríamos ter feito?

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 22/03/2018