Catalunha versus Espanha: não é um jogo de futebol

 

De facto “cá dentro”, mas não só, temos tantas pessoas que percebem tanto, mas tanto, de futebol, que assumem que aquilo que  se está a passar hoje na Catalunha, “ainda” parte integrante de Espanha, é um “jogo de futebol.” Não é por muito que assumem o futebol como aquilo que move a vida de tantos! Tantos! Mas o assunto é  dos mais sérios. A Catalunha, há menos de um século, teve um breve episódio de independência que correu muito mal,  precisamente em Outubro 1934. Tentou, sob a Presidência de Lluís Companys na Generalitat, controlar política e militarmente o seu território,  apoiando-se nos Mossos d’Esquadra e em alguns milhares de milícias armadas. Mas o Governo espanhol declarou o estado de guerra e enviou o exército, sendo o estatuto de autonomia da Catalunha suspenso. Lluís Companys fugiu para o exílio em França, após a vitória de Francisco Franco na guerra civil de 1936-1939. Com a França invadida e ocupada pela Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial foi detido e entregue a Espanha, sendo fuzilado em 1940.

Hoje assiste-se a duas forças “fracas” pelas coligações frágeis que as sustentam a nível parlamentar, o Governo Central Espanhol e o Governo Regional da Catalunha, que estão a “degladiar-se”, cada um apostando no seu “nacionalismo, algo que, como sabemos, abunda novamente pela Europa. Para mais enevoar a situação, o Rei, Felipe VI de Espanha, num discurso ao país, culpou a Generalitat de “deslealdade” e dizendo aos catalães que “não estavam sós”. Foi um discurso rígido e institucional, quando se “exigia”  sobretudo um discurso agregador. O monarca anterior, Juan Carlos, o pai deste rei, era  um “pouco” aventureiro” mas sabia saber o Chefe de Estado de todos os espanhóis.  Não é caso de Felipe VI, um monarca pouco empático e inexperiente ainda. Falou, sem dúvida, mas por certo em nada ajudou à resolução de tão complexo problema político e constitucional. E, de facto, nesta trapalhada” que tantos vêm com a displicência de  um jogo de futebol, há demasiados culpados de ambos os lados.

Neste assunto difícil, se a União Europeia se “meter”, arrisca-se a alimentar mais uma vaga da nacionalismos contra si própria, que, no pior cenário, a poderá até auto-destruir. Não esqueçamos Hungria e Polónia onde parece estar tudo democraticamente bem.  Andamos esquecidos com as recentes eleições na Alemanha e agora surgiu esta crise constitucional grave em Espanha. Não queiramos voltar ao passado do século XX, aos anos  1930, e derreter de vez a ainda possível  — mas cada vez menos fácil  — União na Europa. Tentemos, em todo o lado, conseguir muito melhores e autênticos políticos, com muito mais qualidade e responsabilidade, do que aqueles que andam “por aqui e por aí”, em todo o lado, pondo os seu interesses  próprios acima do do interesse geral de um país e do seu povo.  Deixemos de ver o que é importante na vida política nacional e internacional com o clubismo — politicamente irresponsável —, de um jogo de futebol.  Este não é tudo na vida pessoal e colectiva, embora pareça assim para alguns…

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 4/10/2017