Cem vidas humanas na Síria não valem duas em Inglaterra

 

De facto o ser humano tem várias medidas quanto aos seus iguais, de qualidade e préstimo, conforme a zona onde “está, nasce ou vive”. Se isto se pensou ter mudado com o fim da II Guerra Mundial, tudo está na mesma ou pior, com ou sem ONU, com ou sem Direitos Humanos. E assim, por algo que, evidentemente, nunca deveria acontecer, um ex-espião duplo russo/britânico e sua filha foram envenenados (embora não se saiba se pela Federação Russa ou por outros), criando os britânicos conflitos diplomáticos com a Rússia em que a Europa foi de arrasto.

Como é evidente Putin, tal como Trump, Erdogan, ou Maduro — são demasiados para citar todos —, não são “incapazes” de fazer algo deste género (podem  até fazer muito pior se lhes der jeito), mas não está ainda provado ter sido Putin a ordenar o ataque com um gás letal para sistema nervoso, nas Ilhas Britânicas. Apesar de tal ter sido “assumido” que foi assim por demasiados países ocidentais, tendo tomado medidas diplomáticas de que se podem até vir a arrepender.  (Felizmente o nosso país teve o bom senso de não se deixar arrastar.) Mas em simultâneos 100 (cem) e não 2 (dois) seres humanos terão sido mortos com armas químicas na Síria. Isto sem Assad ter sido supostamente ajudado por Putin, o que, pelos vistos, não tem qualquer importância, excepto para Trump que pouco mais sabe fazer que enviar “tweets” (agora qualificando de “animal” Assad). 

É dramático fazem-se intoxicações com armas químicas em massa contra inocentes na Síria, numa guerra sem fim que tudo destrói. Cortam-se vidas a crianças, velhos e outras e outros de todas as idades, mas são unicamente mais  números. Acontece o mesmo com um ex-espião duplo russo/britânico em Inglaterra e fazem-se conjunturas, fazem-se guerras diplomáticas, mesmo sem haver, pelo menos até agora, uma justificação sólida. Ou seja, uma vida nas Ilhas Britânicas, duas vidas nas Ilhas Britânicas vale bem mais que cem vidas na Síria? Que raio de ideia temos ainda hoje do que é o ser humano? De que valeu o que o Holocausto fez? De que serviram as atrocidades provocadas por Hitler? Nada!

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 10/04/2018