Donald Trump não será uma evidência de que os EUA também não estão bem?

Speakers' Corner - Augusto Küttner de Magalhães

 

A única “coisa” em que nós europeus nos entendemos é quando achamos ser possível tomar decisões relativamente aos “outros”. Cá dentro, nunca! Das duas vezes possíveis, em que Obama concorreu à Casa Branca, os europeus, se votassem nos EUA, fá-lo-iam ganhar por 90%. E, nesse seguimento, hoje, “cá dentro “, neste espaço “dito” único que deveria ser o nosso, Europeu, mas não é, e cada vez menos será, se pudéssemos votar nos EUA fá-lo-íamos todos no Partido Democrata, se calhar até em Sanders. Não podemos, mas seria bom ter essa  intenção cá dentro, nesta desunião europeia, pois seria a prova de que caminharíamos para uma União e não o contrário, como nos está a acontecer. E será que não temos políticos válidos em lado nenhum, ou até merecemos “estes” que temos?

Assim, nos EUA, não parece que seja só Donald Trump que se candidata como o “maluco de serviço”, com o seu desgarrado penteado, que não lembraria a ninguém. Donald Trump no seguimento da linha ultraconservadora do Partido Republicano, está ainda mais à direita que o Tea Party, e, tal como alguns governantes de países que fazem parte do espaço Europeu, quer erguer muros entre os EUA e o México, quer expulsar os muçulmanos, não quer fechar Guantánamo, e por aí adiante. Se conseguirmos pensar um pouco talvez possamos considerar que o problema deixou de ser de Donald Trump, passando as ser de uma grande faixa dos americanos. Se assim não fosse, já haveria outro posicionado em primeiro lugar para a corrida presidencial nos EUA, no fim do corrente ano, pelos republicanos.

Os EUA como a Europa, como o Ocidente, vivem tempos de incertezas, de vontade de fechamento num mundo global, e tudo vai sendo feito com “fugas” para a frente, que nos são prejudiciais. Vejamos como a Europa não sabe lidar com a Crise dos Refugiados! Cada um faz o que lhe apetece. Ao que parece as Presidenciais nos EUA serão disputadas entre Trump pelos Republicamos, e Hillary Clinton pelos Democratas. Esta última é a eterna candidata, que não conseguiu chegar às eleições da última vez, por Obama a ter ultrapassado, o que esteve agora quase a acontecer com Sanders. Mas, parece que a escolha das primárias aponta para estes dois: Trump e Hillary.

Claro que se nós votássemos lá, era certa a eleição de Hillary Clinton, e até mais a de Sanders. Mas será que a população americana está, também ela, desiludida com os seus políticos? Será que a recordação de Reagan, tal como Thatcher no Reino Unido puxaram demasiado os seus países para um tempo sem regras, em que ficou a valer, unicamente, a força do dinheiro. E, hoje, estando a acabar estes tempos muito positivos, mas pouco conseguidos, de Obama na Presidência, houve um recuo de mentalidades? Se de facto Trump fosse um possível absurdo para os americanos, já não estaria na corrida Presidencial, havia mais candidatos, que ficaram pelo caminho. Se não somos nós europeus a votar  nos EUA, se Trump ganhar, haverá mais um deriva populista e talvez totalitária nos EUA, com consequências para todo o Ocidente. Não estarão os EUA também sem ideias, sem rotas de futuro, tal como nós, Europa, e grande parte do Ocidente estamos? Não estaremos  todos a tão desacreditar nos políticos e nas  políticas, e, porventura, em nos próprios, que aparecendo um tontinho/salvador gritamos para que nos ajude?

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 3/03/2016