Estamos a perder as democracias e suavemente a globalizar autoritarismos

 

Estamos a assistir e a participar num percurso totalmente inverso ao que, essencialmente no Ocidente e nos que nos são próximos histórica e culturalmente, fizemos a partir do final da II Guerra Mundial até à primeira década deste século XXI. Saímos arduamente de ditaduras, de regimes totalitárias e tremendamente opressores, para regimes democráticos que tinham — mas estão, cada vez mais, a deixar de ter — como base ideias e ideias que eram a “força democrática e legítima “ de grandes maiorias, com valores intrínsecos e verdadeiros. E sem desprezar as minorias. Porém, estamos, passámos a viver uma tendência em substituir “as ideias e os ideais” pela identidade e pela diferença relacionadas com o género humano, a orientação sexual, o grupo étnico, ou o grupo religioso. Sendo que, esta mudança na forma de “lutar contra” a discriminação, criou uma fragmentação da sociedade e passou a focar-se no “grupo” especifico e nosso, que exclui de imediato o outro e o seu grupo.

Até há pouco tempo, as direitas e as esquerdas — hoje conceitos demasiado esvaziados — atraíam simpatizantes com diferentes identidades raciais, religiosas, ideológicas e regionais, mas progressivamente a direita virou-se para eleitores defensores de não mesclar etnias (“raças”) muito conservadores em ideias e costumes, enquanto as esquerdas associam-se à fusão de etnias, a não-crentes, a defensores de temas fracturantes. E desgraçadamente a palavra “raça” que era apanágio de Adolf Hitler e outros, imbuídos de uma visão do mundo racista, mesmo que possa, ainda, não ser utilizada em força, está novamente aí! Evidentemente não é de esperar coerência ideológica, moderação discursiva e política, nos dirigentes populistas que hoje têm voz e a mobilizam eleitoralmente.

Perante este “paisagem”, que já está representado, hoje, nos EUA, na Áustria, na Hungria, na Polónia, amanhã no Brasil e em outros países, o receio de cair numa anarquia, tornou as populações abertas a “salvadores” do Estado, com poderes de vigilância, controlo e detenção, sem mais! As políticas de identidade germinaram de um ideal de justiça, para combater a discriminação de certos grupos sociais. Todavia, na realidade prática, instalam uma importância excessiva no que divide o ser humano em vez de se centrarem no que o devia unir. Os partidos políticos existentes, para não “acabarem” de vez, estão a transformar-se em clãs identitários pós-modernos, e, novos partidos, surgem que nem cogumelos abafando os já existentes e defendendo a diferença, a desunião, mas também o “medo da anarquia, a via do autoritarismo. Este suposto “progresso” faz mal à democracia que tanto nos custou a conquistar e a pôr em prática nas nossas sociedades!

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 16/10/2018