O governo de Israel faz uma “fuga em frente”

 

Os judeus têm feito um trabalho notável nestes últimos 70 anos pós-guerra, no local onde foram “colocados” pelos britânicos — uma faixa de areia no Mediterrâneo oriental junto a um espaço árabe —, quando estes ainda eram um império. E foram os judeus lá colocados, ou para aí migraram, por motivos históricos, mas também para não ficarem aqui pela Europa, de onde muitos tiveram de fugir pelas perseguições. Apesar de tudo, nessa época a Europa ainda era o centro da civilização, não estava como estamos hoje, sem rumo nem ideias! E  menos ainda, sem verdadeiros ideais. E os britânicos e outros europeus não queriam também a concorrência judaica. E sendo um facto que os judeus onde chegam fazem “obra”, tendo sido ali colocados fizeram o que hoje é visível por todos que queiram ver. Porém, Jerusalém é uma cidade de várias religiões e não só da judaica. E isso foi sendo assim ao longo da história. E se Jesus Cristo aí nasceu era antes judeu, se depois veio o Cristianismo foi num ambiente judaico, que também foi árabe, ou seja, não é um “exclusivo” dos judeus. E se a ONU tivesse força para continuar a ser o que estava previsto nos seus ideais e princípios fundadores, teria influência, ao longo dos anos, para fazer com que dois Estados “civilizados” convivessem naquele espaço — Israel e Palestina —, mas não o conseguiu fazer.

Hoje, embora com um Secretário-Geral competente, ainda menos vai conseguir, dado o que a maior  potência e contribuinte, os EUA, têm um Presidente inconstante, narcísico e que faz uma gestão do país como fazia nas suas empresas, dificultando a tarefa. A Europa, com a sua fragilididade e inconstância, ora defende a Palestina, ora não defende ninguém — nem a si mesma —, ora dá algum apoio a Israel. E o Estado de Israel tem de facto um problema no meio desta confusão, que é poder “ser atirado para a água”, dado que não ter escapatória geográfica num território exíguo e com vizinhos hostis. Tendo um primeiro-ministro com ideias demasiado de direita — e até com alguns casos que estão a ser analisados pela justiça —, que faz “fugas em frente”, e actua sem grande moderação. Claro que tendo a o amparo do Presidente dos EUA, e dos seus enviados — no caso filha e genro, parecendo até mais uma monarquia — aproveita esse apoio. Mas Donald Trump, em vez de criar condições para que Jerusalém fosse a capital de Israel e da Palestina,  lembrou-se de lá “enfiar” a sua embaixada, convertendo-a em cidade capital de um Estado único. Se o ambiente estava já muito tenso, ficou muito pior, e nos 70 anos da criação do Estado de Israel morreram dezenas de pessoas e algumas centenas ficaram feridas. Não se podem assacar culpas só a Israel nessa tragédia — o Hamas, que domina Gaza, não é propriamente um interlocutor para a paz. Quanto a Israel, tem um problema delicado por não ter em quem se apoiar na ONU, mas daí a fazê-lo no actual Presidente dos EUA não será por  certo a melhor opção.

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 15/05/2018