Os EUA abandonam os curdos e a Europa é irrelevante no espaço geopolítico à sua volta

A União Europeia, a cada dia que passa, e a cada acontecimento que se sucede  — desde o “Brexit” se deverá concretizar  a 31 de Outubro ou noutro qualquer dia, até à confusão da Catalunha, às iliberais  Polónia e Hungria, e agora à saída das topas americanas do Nordeste da Síria  — parece esvaziar-se, cada vez mais, de influência, deixando de ser um actor relevante no mundo global. Para nós, os  que ainda acreditamos que a Europa não se irá transformar num mero museu da Antiguidade / Contemporâneo,  a ser visitado em viagens mais ou menos prolongadas e pouco mais que isso, é um tempo de desilusão. Os Estados mais representativos na NATO, leia-se EUA, Turquia e Reino Unido, não dão qualquer importância à UE, ou seja, desprotegemo-nos “em força”. As reacções a este descalabro da Alemanha, da França e de outros Estados menos influentes no espaço europeu são de desnorte e desunião. E continua-se à espera do papel protector militar dos norte-americanos que quase já nem se lembram onde fica a Europa.  

Donald Trump ordenou a retirada imediata das tropas norte-americanas do Nordeste da Síria, junto dos curdos, depois de um telefonema de Erdogan, facilitando assim a ofensiva turca contra os curdos, que foram aliadas fundamentais dos norte-americanos na guerra contra o Daesh. Entretanto curdos e Bashar al-Assad, associam-se só para impedir que os turcos ocupem as cidades mais importantes do Nordeste da Síria. Assim acaba também o sonho de autonomia da população curda naquela região. Foi possibilitado, durante estes anos de guerra, graças à aliança com os EUA para combater o Daesh. Com a retirada dos EUA do terreno no Nordeste da Síria, a Rússia é, em termos geopolíticos, a grande ganhadora da guerra da Síria — ainda mais que Assad —, a qual dura há oito longos anos. Nesta “repartição”, de zonas de influência geopolítica, a Europa não existe, sendo que a Síria é tão próxima desta e tão distante dos EUA. A Europa faz reuniões estéreis a analisar o “Brexit”, sem encerrar definitivamente o assunto. Tem agora a Catalunha “a arder” e, enquanto se perde com trivialidades internas, deixa que outros tomem conta  do espaço geopolítica à sua volta. 

© Augusto Küttner de Magalhães, 16/10/2019