A Síria e a memória do holocausto

 

Será que mais de 70 anos é assim tanto, mas tanto tempo, que tudo esquece? Será que estamos propositadamente de memória tão encurtada, que ao vivermos um dia de cada vez, o de hoje, deixávamos de ter passado, mas nem no futuro teremos? Talvez. E por isso repetimos até à exaustão erros horrendos recentes, e vamos sempre continuar a assim fazer, dado que o dia de hoje é que conta, e o resto não agrada. E hoje na Síria, com armas proibidas — se bem que não passe de letra morta, estas proibições —, matam-se crianças, jovens, velhos, sem piedade, sem vergonha. E as televisões passam estes horrores no meio de toda a outra programação, dando azo a que nem respeito haja por tão trágicos acontecimentos. Em directo, ao vivo, a cores, o horror da morte, corpos humanos despedaçados, por bombardeamentos, conta contra quem nem se defender pode.

Há pouco mais de 70 anos aqui na Europa Adolfo Hitler matou 6 milhões de judeus, mais uns quantos ciganos, homossexuais e deficientes por não serem da raça pura ariana. Nada se aprendeu e de nada valeu tanta gente ter morrido, terem-se desfeito famílias, terem-se destruído casas e outros edifícios, tudo para reconstruir e voltar a destruir. Enfim, a indústria do armamento é bem lucrativa, para alguns, muito mais que outras que fariam bem melhor à humanidade.  Ao mesmo tempo, também  se está a repetir  o levantamento de muros, de barreiras, tal como foi feito há 70 anos, aqui na nossa Europa, e agora se renova na Hungria e noutros países, mas também a Sul dos EUA, a bem do isolamento e do nacionalismo. De facto, parece que de nada valeu  ter havido o Holocausto, se ter criado a ONU, a Carta dos Direitos Humanos e tanto que sobre o Holocausto — convém repetir, insistir — se tem escrito e falado. E está visto que continuando a matarmo-nos tragicamente, uns aos outros, parece estarmos de bem.

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 25/2/2018