Solidariedade humana em épocas de catástrofe

Speakers' Corner - Augusto Küttner de Magalhães

 

Um judeu que foi salvo por Cristãos quer hoje fazer o inverso. Um judeu – como tantos, entre os quais permito incluir o meu avô materno – que em 1938, aquando do “Anschluss” teve que fugir da Áustria para o Reino Unido, foi ajudado aqui neste caso, por Cristãos, quer hoje fazer o mesmo com Crianças Cristãs, que estando a ser trucidadas pelo putativo Estado Islâmico, têm que fugir da Síria e do Iraque para sobreviver, e ser ajudados para que tal possa acontecer. Nestas ocasiões de desespero, quer-se estar vivo e não perder tudo, tudo, quando a casa, o lar, os bens materiais já foram saqueados, quer-se defender a própria Vida e alguma Dignidade. E não é de todo fácil, como me foi contado, ao vivo, por minha avó materna cá, e meu avô em Londres, que fizeram respectivamente Áustria/Porto, Áustria/Londres, também em 1938. E não poucas vezes, nas mais diversas situações esquecemo-nos do que nos fizeram.

Aqui não está a ser o caso, e é um acto de beleza humana a realçar. George Weidenfeld, há 77 anos, com 18 anos, foi ajudado a fugir da Áustria – ocupada pelos Nazis – pela Organização Cristã Plymouth Brethren, que evacuou crianças em perigo, sobre a ameaça Nazi. Hoje com 95 anos, no Reino Unido, diz querer “pagar” o que lhe foi feito por Cristãos sendo ele, Judeu. E hoje, o que o putativo Estado Islâmico está a fazer a estas crianças é semelhante ou pior, segundo o próprio, ao que os Nazis fizeram a crianças judias em 1938, e salvas como é o seu caso por Cristãos. O Fundo que pretende criar para fazer a ponte e salvar estas crianças cristãs Sírias e Iraquianas do opressor Estado Islâmico, está a ser um agradecimento por algo que lhe aconteceu inversamente. E convenhamos que, para quem seja crente, seja no Judeu, Cristão ou Islâmico, tem a virtude de ser crente, quando os que o não somos não a temos, mas ajudar uns de uma Religião, outros de outra Religião, como em 1938 fizeram Cristãos com Judeus, sem esperar nada em troca, e hoje ser possível repagar-lhes, é digno, muito, de ser “louvado” – deve ser o termo mais indicado! A minha família seria mais velha em 1938, quando fugiram já não eram crianças, mas claro que foram ajudados, no caso, talvez não por outros de alguma Religião, mas por Pessoas dignas que o quiseram fazer. Mas aqui, há que felicitar/louvar, George Weidenfeld, Judeu salvo por Cristãos em 1938, e hoje a querer estes salvar em circunstâncias de total brutalidade Humana! Que se repete, repete, repete… Bem-haja George Weidenfeld!

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 16/07/2015