Um novo “normal”? A extrema-direita no governo da Áustria

 

Desde que perdeu o Império Austro-Húngaro à Áustria navega à vista, ainda para mais sem mar para o fazer. Quem isto escreve é meio austríaco, mas não lhe dá satisfação alguma fazê-lo, bem pelo contrário. E é pena, mas é verdade. A extrema-direita austríaca garantiu pastas decisivas no novo executivo liderado pelos conservadores, incluindo a Defesa, os Negócios Estrangeiros e a Administração Interna, mas promete cooperar com Bruxelas. A Áustria contraria assim a tendência europeia e permite que o crescimento eleitoral da extrema-direita se traduza em poder governamental. Como a direita conservadora austríaca não tendo maioria se recusou a negociar com os sociais-democratas — esperemos que ocorra o inverso no caso do SPD alemão —, fez uma coligação com a extrema-direita. E como a nossa Memória colectiva hoje tem pouco mais do que uma escassa semana, convirá relembrar que Hitler nasceu na Áustria e chegou a “dono e senhor“ da Alemanha entre 1933 e 1945, fazendo o que fez, do Nazismo ao Holocausto. Logo, a propensão austríaca para extremismos depois da queda do tal Império Austro-Húngaro já vem detrás e tem péssimos exemplos.

A partir de Junho do próximo ano a Áustria vai assumir a presidência rotativa da UE, defendendo o levantamento das sanções à Rússia devido à anexação da Crimeia, apesar de assumir que apoiará a posição maioritária dos 28 Estados-Membros. Temos aqui mais um país que nunca esteve para lá da Cortina de Ferro, mas sempre teve medo de ser anexado com aconteceu com a Checoslováquia, e, tal como hoje a Hungria e não só, aproxima-se de Putin. O Governo austríaco terá como Primeiro-Ministro o chefe do partido conservador de direita que tem 31 anos, e como vice-primeiro ministro o chefe do partido da extrema-direita. Já em 2000, o então célebre por vários motivos Jörg Haider, integrou uma coligação com os conservadores. Na altura, a inclusão da extrema-direita num governo europeu levou a UE a suspender o direito de voto da Áustria no Conselho Europeu. As sanções acabaram por ser levantadas por Bruxelas, que receava um crescimento do sentimento eurocéptico entre os austríacos. Com este acordo de coligação, a Áustria torna-se o único país na UE a contar com uma formação de extrema-direita no Governo. Esperemos que o SPD alemão olhe pela Alemanha e não deixe de formar coligação e Governo o mais rapidamente possível com Angela Merkel. E que estes desvarios extremistas — da Áustria, da Polónia, da Hungria e sabe-se de quem mais — não estraguem de vez uma Europa que não está lá muito bem composta!

 

© Augusto Küttner de Magalhães, 2/12/2017