{"id":1025,"date":"2015-06-06T23:45:12","date_gmt":"2015-06-06T23:45:12","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1025"},"modified":"2019-04-07T23:02:10","modified_gmt":"2019-04-07T23:02:10","slug":"a-europa-em-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/a-europa-em-crise\/","title":{"rendered":"A Europa em Crise"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1144\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-753x1024.jpg\" alt=\"europa em crise\" width=\"753\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-753x1024.jpg 753w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-1568x2132.jpg 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-221x300.jpg 221w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-768x1044.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-1130x1536.jpg 1130w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-1506x2048.jpg 1506w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-370x503.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-570x775.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-770x1047.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-1170x1591.jpg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-427x580.jpg 427w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/europa-em-crise-scaled.jpg 1883w\" sizes=\"auto, (max-width: 753px) 100vw, 753px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>A Europa \u00e9 antiga e futura ao mesmo tempo. Foi batizada h\u00e1 vinte e cinco s\u00e9culos e, no entanto, continua em fase de projeto. Poder\u00e1 a velha Europa responder aos desafios do mundo moderno?<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Jacques Le GOFF<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>O s\u00e9culo XXI come\u00e7ou mal para a Europa e o Ocidente. Em 2001, o 11\/S marcou um rumo dos acontecimentos que poucos imaginariam no final do s\u00e9culo anterior. O otimismo associado \u00e0 queda do muro de Berlim (1989) e ao fim da Guerra-Fria, j\u00e1 abalado pelas guerras sangrentas que puseram fim \u00e0 ex-Jugosl\u00e1via, dissipou-se rapidamente. A crise financeira iniciada em 2007\/2008 nos EUA e que alastrou, em seguida, para a Europa, transformou-se na crise mais grave do p\u00f3s-II Guerra Mundial, adensando, ainda mais, o clima de pessimismo. A Uni\u00e3o Europeia e zona euro ficaram no centro do turbilh\u00e3o, de uma forma provavelmente surpreendente mesmo para os mais c\u00e9pticos sobre as sua virtudes. Os europeus veem agora o seu n\u00edvel de vida e regalias sociais em constante amea\u00e7a de retrocesso. Quase tudo o que era dado como certo pelas sucessivas gera\u00e7\u00f5es do p\u00f3s-II Guerra Mundial, sobretudo a partir dos anos 60 do s\u00e9culo XX, come\u00e7ou a ser posto em causa.<\/p>\n<p>Como chegamos at\u00e9 aqui? Quais s\u00e3o as ra\u00edzes mais profundas desta crise? Como ser\u00e1 poss\u00edvel ultrapass\u00e1-la? Na reflex\u00e3o sobre a atual situa\u00e7\u00e3o importa distinguir causas estruturais \u2013 mais long\u00ednquas e, por vezes, n\u00e3o percept\u00edveis \u00e0 primeira vista \u2013 e causas conjunturais. Como se ver\u00e1 em seguida, \u00e9 uma particular conjuga\u00e7\u00e3o de causas, estruturais e conjunturais, que d\u00e1 uma dimens\u00e3o especialmente aguda \u00e0 crise financeira iniciada em 2007\/2008. Esta acabou por ser um catalisador de situa\u00e7\u00f5es latentes, as quais v\u00e3o muito para al\u00e9m do dom\u00ednio financeiro e econ\u00f3mico. Na realidade, o modelo europeu desenhado no p\u00f3s II-Guerra Mundial acaba por estar, de uma ou de outra forma, em causa. Pode parecer excessiva esta afirma\u00e7\u00e3o mas h\u00e1 sinais fortes que o <em>welfare-state<\/em>, o modelo de integra\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia e o processo de transforma\u00e7\u00e3o social e liberaliza\u00e7\u00e3o dos costumes simbolizado pelo Maio de 68, se esgotaram. Associados \u00e0 crise econ\u00f3mica e financeira, est\u00e3o a arrastar a Europa para um retrocesso sem precedentes. Mais: visto retrospectivamente o passado europeu dos \u00faltimos vinte anos sugere a ideia de um progresso econ\u00f3mico e social muito mais fr\u00e1gil do que parecia, se n\u00e3o mesmo de uma \u201cfuga para a frente\u201d num caminho que, mais tarde ou mais cedo, acabaria por levar a um beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>Sobre a atual crise europeia, proponho, em seguida, uma reflex\u00e3o alargada, estruturada em cinco t\u00f3picos fundamentais para a sua compreens\u00e3o global. O primeiro t\u00f3pico analisa o efeito de <em>boomerang <\/em>que o capitalismo globalizado est\u00e1 a ter sobre a Europa e os mais antigos pa\u00edses industrializados. Quando se iniciou a atual globaliza\u00e7\u00e3o, na transi\u00e7\u00e3o dos anos 80 para os anos 90 do s\u00e9culo XX, os europeus, norte-americanos e japoneses, viam-se, a si pr\u00f3prios, como ganhadores do processo de abertura dos mercados e liberaliza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio internacional, que, ali\u00e1s, lideraram. Tinham, nessa altura, um monop\u00f3lio praticamente total das economias mais competitivas e de grande capacidade exportadora. Procuravam que as outras economias se abrissem aos seus produtos. Nesse contexto, para al\u00e9m do argumento tradicional a favor do livre com\u00e9rcio \u2013 anunciando ganhos de bem-estar generalizados \u2013, desenvolveu-se uma cren\u00e7a dogm\u00e1tica nas virtudes da competi\u00e7\u00e3o\/competitividade. Se a d\u00e9cada de 90 trouxe, genericamente, ganhos para os europeus, o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI mostrou uma nova realidade \u201cimprevista\u201d: a da crescente transfer\u00eancia dos ganhos da abertura dos mercados para a China, \u00cdndia, Brasil, etc., associada a uma desindustrializa\u00e7\u00e3o e deslocaliza\u00e7\u00e3o generalizada de empresas dos antigos pa\u00edses desenvolvidos para as novas \u00e1reas de crescimento.<\/p>\n<p>O segundo t\u00f3pico \u00e9 sobre as ambi\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias daquilo a que, simbolicamente, chamo o legado do Maio de 68. S\u00e3o evidenciadas as contradi\u00e7\u00f5es intr\u00ednsecas \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es desse movimento, mostrando-se como a transforma\u00e7\u00e3o social e estilos de vida que promoveu, entraram, atrav\u00e9s de um processo de lento deslize, em colis\u00e3o com a sustentabilidade s\u00f3cio-demogr\u00e1fica. Esta \u00e9 uma das causas estruturais profundas que atinge hoje as sociedade europeias e ocidentais, amplificando os efeitos da crise.<\/p>\n<p>Um terceiro t\u00f3pico questiona a cultura hedonista-materialista europeia e ocidental, o <em>ethos<\/em> relativista no qual est\u00e1 enraizada, e as consequ\u00eancias s\u00f3cio-demogr\u00e1ficas do primado absoluto do <em>homo economicus<\/em>. S\u00e3o postos em evid\u00eancia os excessos e contradi\u00e7\u00f5es de um capitalismo globalizado, o qual ultrapassou o \u201c\u00f3ptimo de Pareto\u201d e amea\u00e7a, agora, tornar-se numa \u201cpaix\u00e3o nociva\u201d. Mostra-se como a obsess\u00e3o com o crescimento, ligada \u00e0 obsess\u00e3o com uma expans\u00e3o cont\u00ednua do mercado para novas esferas da vida humana, corr\u00f3i as bases da sustentabilidade societal de que a pr\u00f3pria economia capitalista necessita para prosperar.<\/p>\n<p>O quarto t\u00f3pico \u00e9 sobre o imperativo de as sociedades europeias encontrarem um novo caminho, o qual possa constituir uma alternativa aos modelos lan\u00e7ados no p\u00f3s II Guerra Mundial. Estes respondem, cada vez menos satisfatoriamente, \u00e0s exig\u00eancias pol\u00edticas, econ\u00f3micas e de bem-estar contempor\u00e2neas. Discute-se, em particular, o exemplo do Jap\u00e3o, um caso de extraordin\u00e1rio sucesso na economia internacional entre os anos 60 e 80 do s\u00e9culo XX. O decl\u00ednio econ\u00f3mico japon\u00eas das \u00faltimas duas d\u00e9cadas \u00e9 analisado em conex\u00e3o com tend\u00eancias demogr\u00e1ficas do pa\u00eds, no qual se encontra uma das popula\u00e7\u00f5es mais envelhecidas do mundo. Mostra-se, ainda, como uma an\u00e1lise estritamente econ\u00f3mica pode ser redutora, ao considerar (ou ignorar) como meras externalidades os aspectos s\u00f3cio-demogr\u00e1fico-culturais. A reflex\u00e3o deixa uma quest\u00e3o em aberto: ser\u00e1 que ao olharmos para o Jap\u00e3o de hoje estamos a ver o futuro pr\u00f3ximo da Europa?<\/p>\n<p>O quinto t\u00f3pico aborda especificamente o caso portugu\u00eas e a posi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds na Uni\u00e3o Europeia. \u00c9 revisto, sucintamente, o percurso de Portugal no espa\u00e7o europeu, desde a revolu\u00e7\u00e3o de 1974 at\u00e9 \u00e0 ades\u00e3o \u00e0s Comunidades em 1986, passando pela surpreendente participa\u00e7\u00e3o, nos anos 90, como membro fundador da zona euro. Nesse contexto, s\u00e3o relembradas as interpreta\u00e7\u00f5es flex\u00edveis que prevaleceram na interpreta\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios de converg\u00eancia nominal previstos no Tratado de Maastricht (sobre o d\u00e9fice or\u00e7amental, a d\u00edvida p\u00fablica, a taxa de infla\u00e7\u00e3o, a taxa de juro e a taxa de c\u00e2mbio) e cujos efeitos nefastos se est\u00e3o hoje a sentir. Tal l\u00f3gica pol\u00edtica permitiu obter um \u201csucesso\u201d aos pa\u00edses do \u201cClub Med\u201d (os atuais PIIGS \u2013 Portugal, Irlanda, It\u00e1lia, Gr\u00e9cia e Espanha), os quais surgiram como fundadores do euro, a par das economias do norte europeu. Tudo isto em nome do objectivo grandioso de uma uni\u00e3o pol\u00edtica que hoje se transformou numa necessidade imperiosa de salva\u00e7\u00e3o do euro. A possibilidade mais sugerida \u00e9 a de um governo econ\u00f3mico europeu, sob a forma de um federalismo econ\u00f3mico, a qual parece ter um largo consenso na elite pol\u00edtica e econ\u00f3mica portuguesa. Todavia, face \u00e0s circunst\u00e2ncias econ\u00f3mico-pol\u00edticas, a reflex\u00e3o equaciona em que medida um governo econ\u00f3mico europeu, a ocorrer, n\u00e3o surgir\u00e1 antes pela via da <em>realpolitik<\/em>, como um diret\u00f3rio de pot\u00eancias com nefastas consequ\u00eancias para o futuro do pa\u00eds e da Europa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Jacques Le Goff, <em>A Velha Europa e a Nossa<\/em>, Lisboa, Gradiva, 1995, p. 62.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes<\/p>\n<p>\u00a9 QuidNovi\/Verso da Hist\u00f3ria, 2012 (excerto, Introdu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Europa \u00e9 antiga e futura ao mesmo tempo. 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