{"id":1029,"date":"2015-06-06T19:00:24","date_gmt":"2015-06-06T19:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1029"},"modified":"2015-06-16T18:39:28","modified_gmt":"2015-06-16T18:39:28","slug":"da-geopolitica-classica-a-geopolitica-pos-moderna-entre-a-ruptura-e-a-continuidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/da-geopolitica-classica-a-geopolitica-pos-moderna-entre-a-ruptura-e-a-continuidade\/","title":{"rendered":"Da Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica \u00e0 Geopol\u00edtica p\u00f3s-moderna: entre a ruptura e a continuidade"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Geopol\u00edtica-logo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2085\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Geopol\u00edtica-logo.jpg\" alt=\"Geopol\u00edtica- logo\" width=\"570\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Geopol\u00edtica-logo.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Geopol\u00edtica-logo-285x300.jpg 285w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Geopol\u00edtica-logo-370x389.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Geopol\u00edtica-logo-551x580.jpg 551w\" sizes=\"auto, (max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p><em>L&#8217; histoire de ce mot n&#8217;est pas simple pas plus que son champ s\u00e9mantique qui tend \u00e0 s&#8217;\u00e9largir: aujoud&#8217;hui on parle de g\u00e9opolitique a propos de la multiplication [&#8230;] de probl\u00e8mes aussi diverses que l&#8217;appartion de nouveaux \u00c9tats, le trac\u00e9 de leurs fronti\u00e8res, leurs conflits territoriaux, l&#8217;expansion de certaines ideologies politiques et religieuses comme l\u00b4islamisme, ou les revendications de peuples qui veulent \u00eatre ind\u00e9pendents; mais on parle aussi de g\u00e9opolitique, et de plus en plus, depuis quelques ann\u00e9es, a propos de probl\u00e8mes politiques au sein d&#8217;un m\u00eame \u00c9tat [&#8230;] Il est tentat de considerer qu&#8217;il s&#8217;agit d&#8217;un ph\u00e9nom\u00e8ne de mode.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Yves LACOSTE (1993 [1995]: 7)<\/p>\n<p>1. A Geopol\u00edtica como disciplina acad\u00e9mico-cient\u00edfica e saber pr\u00e1tico tem m\u00faltiplas hist\u00f3rias relevantes, simultaneamente paralelas e concorrenciais, estando longe de ser um campo do conhecimento unit\u00e1rio, ao contr\u00e1rio do que a palavra usada no singular sugere. Face a esta multiplicidade de abordagens propomo-nos, como primeiro objectivo deste artigo, passar em revista os tra\u00e7os fundamentais da(s) hist\u00f3rias Geopol\u00edtica(s) alem\u00e3 e brit\u00e2nica da primeira metade do s\u00e9culo XX, pelo seu maior impacto sobre este campo do conhecimento. Como segundo objectivo propomo-nos analisar em que medida a Geopol\u00edtica da primeira metade do s\u00e9culo XX (a Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica), que neste artigo designamos tamb\u00e9m por \u00abprimeira vaga\u00bb da Geopol\u00edtica, foi de facto \u00abmorta\u00bb ou continua a influ\u00eanciar, de uma maneira directa ou indirecta, o pensamento ocidental sobre as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais no mundo do s\u00e9culo XXI. E, como terceiro e \u00faltimo objectivo, vamos ainda tentar avaliar at\u00e9 que ponto o interesse acrescido que, a partir dos anos 70 do s\u00e9culo XX, surgiu relativamente a este campo do conhecimento e gerou aquilo que designamos por \u00absegunda vaga\u00bb da Geopol\u00edtica (nome sob o qual agrupamos uma pluralidade de abordagens, entre as quais a p\u00f3s-moderna), radica nas virtudes descritivas, explicativas, anal\u00edticas ou mesmo cr\u00edticas da Geopol\u00edtica, ou, pelo contr\u00e1rio, se estamos, apenas, perante mais um fen\u00f3meno de moda alimentado artificialmente a partir dos meios acad\u00e9micos, pol\u00edticos e jornal\u00edsticos.<\/p>\n<p>2. Um primeiro aspecto relevante na an\u00e1lise da Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica \u00e9 o da origem da pr\u00f3pria palavra \u00abGeopol\u00edtica\u00bb. Embora haja diverg\u00eancias<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> quanto ao momento exacto em que esta foi utilizada pela primeira vez, \u00e9 consensual, no \u00e2mbito dos estudos acad\u00e9micos desta disciplina, que o neologismo foi originalmente cunhado, no crep\u00fasculo do s\u00e9culo XIX, pelo sueco Rudolf Johan Kjell\u00e9n, professor das Universidades de Gotemburgo e Uppsala.<\/p>\n<p>Independentemente das incertezas quanto \u00e0 data da sua primeira utiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil constatar que o neologismo \u00abGeopol\u00edtica\u00bb foi um produto directo do contexto hist\u00f3rico-pol\u00edtico vivido por Kjell\u00e9n, na transi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX. Nessa \u00e9poca, a Su\u00e9cia estava profundamente dividida pelo debate em torno da dissolu\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o de Estados S\u00faecia-Noruega, que datava de 1814, facto que acabou por ocorrer em 1905. O professor de Uppsala foi um forte opositor da independ\u00eancia da Noruega, tendo, para o efeito, redigindo diversos manuscritos (entre os quais aquele em ter\u00e1 utilizado pela primeira vez a palavra \u00abGeopol\u00edtica\u00bb, intitulado <em>Inledning till Sveriges Geografi<\/em>) e efectuado virulentas interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas contra essa dissolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A receptividade ao discurso imperialista\/conservador\/autorit\u00e1rio e ao neologismo de Kjell\u00e9n foi bastante significativa, n\u00e3o s\u00f3 na Su\u00e9cia, como entre o p\u00fablico de l\u00edngua alem\u00e3 (Alemanha e \u00c1ustria). Por isso, as ideias de Kjell\u00e9n rapidamente se tornaram populares no espa\u00e7o cultural germ\u00e2nico, onde o neologismo foi introduzido, tal como os seus trabalhos, pelo ge\u00f3grafo austr\u00edaco Robert Sieger nos primeiros anos do s\u00e9culo XX. (Korinman, 1990: 349, nota 79). Esta r\u00e1pida germaniza\u00e7\u00e3o da Geopol\u00edtica deveu-se tamb\u00e9m ao facto do sueco Kjell\u00e9n ter uma profunda admira\u00e7\u00e3o pela Alemanha imperial e constituir, juntamente com o brit\u00e2nico Houston Stewart Chamberlain e o franc\u00eas Joseph-Arthur, conde de Gobineau, \u00abum famos\u00edssimo trio n\u00e3o alem\u00e3o super german\u00f3filo\u00bb (Weigert, 1942: 275).<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o do significado do neologismo e do objecto deste novo saber foi feita por Kjell\u00e9n na sua obra mais importante, <em>Staten som Lifsform <\/em>(\u00abO Estado como forma de vida\u00bb, 1916) redigida originalmente em sueco, mas rapidamente traduzida para alem\u00e3o (\u00abDer Staat als Lebensform\u00bb, com a 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o em 1917). Nesta obra, a Geopol\u00edtica foi apresentada como \u00aba ci\u00eancia do Estado enquanto organismo geogr\u00e1fico tal como este se manifesta no espa\u00e7o\u00bb sendo o Estado entendido como pa\u00eds, como territ\u00f3rio, ou de uma maneira mais significativa como imp\u00e9rio. Esta nova \u00abci\u00eancia\u00bb tinha por objecto constante o Estado unificado e pretendia contribuir para o estudo da sua natureza profunda, enquanto que a Geografia Pol\u00edtica \u00abobservava o planeta como <em>habitat<\/em> das comunidades humanas em geral\u00bb. (Korinman, 1990: 152).<\/p>\n<p>Assim, para Kjell\u00e9n, a Geopol\u00edtica n\u00e3o era um neologismo in\u00f3cuo de agrad\u00e1vel resson\u00e2ncia erudita, como afirmavam os seus cr\u00edticos e detractores. Tratava-se, antes, de um neologismo que designava uma verdadeira ci\u00eancia aut\u00f3noma, com um objecto novo, diferente da <em>Politische Geographie<\/em> (\u00abGeografia Pol\u00edtica\u00bb, 1897), criada pelo mais importante ge\u00f3grafo germ\u00e2nico da segunda metade do s\u00e9culo XIX \u2013 Friedrich Ratzel<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> \u2013 detentor da c\u00e1tedra de Geografia (1886) na prestigiada Universidade de Leipzig e um dos mais influentes ge\u00f3grafos da Europa novecentista<\/p>\n<p>3. Com liga\u00e7\u00e3o mais ou menos directa \u00e0 prestigiada tradi\u00e7\u00e3o novecentista alem\u00e3 de estudos geogr\u00e1ficos e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica-nacionalista de Leopold von Ranke e Heinrich von Treitschke, surgiu na Alemanha, na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XX, aquilo que ficou conhecido como a \u00abEscola alem\u00e3 da Geopol\u00edtica\u00bb ou \u00abEscola de Munique\u00bb. A sua principal publica\u00e7\u00e3o divulgadora foi a <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em> (\u00abRevista de Geopol\u00edtica\u00bb), fundada em 1924 e destinada preferencialmente a ge\u00f3grafos profissionais, mas visando tamb\u00e9m a divulga\u00e7\u00e3o dos seus conte\u00fados junto de n\u00e3o especialistas, diplomatas, homens pol\u00edticos, jornalistas e industriais.<\/p>\n<p>A personalidade central da <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em> foi Karl Haushofer, que reunia as caracter\u00edsticas de um militar e de um acad\u00e9mico: para al\u00e9m dos conhecimentos de estrat\u00e9gia militar inerentes \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o de alta patente e ao exerc\u00edcio de doc\u00eancia na academia militar, era detentor de significativas credenciais acad\u00e9micas. Os seus trabalhos acad\u00e9micos, livros e artigos publicados, tornaram-se rapidamente populares na Alemanha e tiveram mesmo algum reconhecimento internacional fora do mundo germ\u00e2nico. Note-se que para o seu sucesso contribuiu muito a sua experi\u00eancia no exerc\u00edcio de cargos militares e o vasto conhecimento pr\u00e1tico das imensas regi\u00f5es da \u00c1sia e do Pac\u00edfico, especialmento do Jap\u00e3o, onde desempenhou fun\u00e7\u00f5es como adido militar (1908-1910).<\/p>\n<p>Para a compreens\u00e3o dos trabalhos de Haushofer e da <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em> \u00e9 importante notar que estes se desenvolveram num per\u00edodo pol\u00edtico, econ\u00f3mico e social extremente conturbado da hist\u00f3ria da Alemanha da primeira metade do s\u00e9culo XX, em que era grande a difus\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o de um sentimento de decad\u00eancia. A este facto temos de juntar a humilha\u00e7\u00e3o sofrida pela derrota militar na I Guerra Mundial e a incapacidade do regime democr\u00e1tico institu\u00eddo pela Rep\u00fablica de Weimar (1918-1933) \u2013 que sucedeu \u00e0 ren\u00fancia do Kaiser Wilhelm II e ao fim da Alemanha imperial do II <em>reich<\/em> (1871-1918) \u2013 em resolver os problemas sociais e territoriais. E temos de adicionar tamb\u00e9m a subvers\u00e3o do regime democr\u00e1tico de Weimar e a sua deposi\u00e7\u00e3o pelo partido nazi de Adolf Hitler, com a funda\u00e7\u00e3o do III <em>Reich<\/em> (1933-1945), estreitamente associada ao desencadear dos tr\u00e1gicos acontecimentos da II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>\u00c9 ainda importante notar que os trabalhos de Haushofer surgiram no contexto de um grande debate<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> que, nos anos 1924-1925, estalou entre a comunidade de ge\u00f3grafos alem\u00e3es e que op\u00f4s os defensores da Geografia Pol\u00edtica cl\u00e1ssica, na linha de Ratzel, aos defensores de uma nova Geopol\u00edtica. Karl Haushofer foi um dos principais protagonistas desse debate. Num artigo que ficou famoso nos anais desta pol\u00e9mica, precisamente intitulado <em>Politische Erdkunde und Geopolitik<\/em> (\u00abGeografia Pol\u00edtica e Geopol\u00edtica\u00bb, 1925), come\u00e7ou por sustentar a necessidade de difundir o conhecimento geopol\u00edtico, como saber estrat\u00e9gico, entre a elite dirigente alem\u00e3 (pol\u00edticos, diplomatas e militares) e a popula\u00e7\u00e3o em geral. E, para isso, era necess\u00e1rio romper com a tradi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica anterior, pois, a disciplina tinha-se constitu\u00eddo de uma maneira errada, sobre o dualismo Geografia F\u00edsica\/Geografia Humana, sendo o trabalho de Ratzel, embora indiscut\u00edvelmente importante, j\u00e1 ultrapassado. Ent\u00e3o, tra\u00e7ou uma distin\u00e7\u00e3o entre a Geografia Pol\u00edtica, que estuda a distribui\u00e7\u00e3o do poder estatal \u00e0 superf\u00edcie dos continentes e as condi\u00e7\u00f5es (solo, configura\u00e7\u00e3o, clima e recursos) nas quais este se exerce, e a Geopol\u00edtica que tem por objecto a actividade pol\u00edtica num espa\u00e7o natural. (Korinman, 1990: 155).<\/p>\n<p>Para al\u00e9m desta tomada de posi\u00e7\u00e3o no debate que op\u00f4s ge\u00f3grafos a geopol\u00edticos podem-se encontrar, no \u00e2mbito dos vast\u00edssimos trabalhos de Haushofer na <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em>, v\u00e1rias ideias e teses geopol\u00edticas importantes, algumas das quais vamos analisar mais de perto, pela sua relev\u00e2ncia, quer para a compreens\u00e3o do seu pensamento, quer pelas suas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na Alemanha do per\u00edodo entre as duas guerras mundiais. A primeira foi formulada em <em>Grenzen in iher Geographischen und Politischen Bedeutung<\/em> (\u00abAs Fronteiras e o seu Significado Geogr\u00e1fico e Pol\u00edtico\u00bb, 1927), onde exortou os seus compatriotas a aprofundarem o conhecimento sobre as fronteiras nacionais, defendendo que estas s\u00e3o factos biogeogr\u00e1ficos, e que por isso n\u00e3o se podem compreender, nem justificar, apenas por crit\u00e9rios jur\u00eddicos.<\/p>\n<p>Num outro trabalho intitulado <em>Geopolitik der Pan-Ideen <\/em>(\u00abGeopol\u00edtica das Ideias Continentalistas\u00bb, 1931), foi desenvolvido aquilo que ficou conhecido como tese das \u00abPan-regi\u00f5es\u00bb.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Nesta tese geopol\u00edtica foram identificadas quatro grandes regi\u00f5es mundiais: a \u00abEuro-\u00c1frica\u00bb (abrangendo toda a Europa, o M\u00e9dio-Oriente e todo o continente africano); a \u00abPan-R\u00fassia\u00bb (abrangendo a generalidade da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o sub-continente indiano e o leste do Ir\u00e3o); a \u00ab\u00c1rea de Co-prosperidade da grande \u00c1sia\u00bb (abrangendo toda a \u00e1rea bordejante da \u00cdnda e sudeste asi\u00e1tico, o Jap\u00e3o, as Filipinas, a Indon\u00e9sia, a Austr\u00e1lia e generalidade das ilhas do Pac\u00edfico); e a \u00abPan-Am\u00e9rica\u00bb (onde se inseria todo o territ\u00f3rio desde o Alaska \u00e0 Patag\u00f3nia e algumas ilhas pr\u00f3ximas do Atl\u00e2ntico e do Pac\u00edfico). Estreitamente ligada com a tese das \u00abPan-regi\u00f5es\u00bb encontra-se a ideia dos \u00abEstados-directores\u00bb (i. e. de um direct\u00f3rio de pot\u00eancias), que consistia na lideran\u00e7a de cada uma dessas \u00e1reas por um Estado forte, din\u00e2mico, com grande popula\u00e7\u00e3o e recursos, dotado de altos padr\u00f5es econ\u00f3micos e industriais, bem como de uma posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica que lhe permitisse exercer um efectivo dom\u00ednio sobre os restantes. Os Estados melhor posicionados para exercer essa lideran\u00e7a seriam, segundo Haushofer, a Alemanha (Euro-\u00c1frica), a R\u00fassia (Pan-R\u00fassia), o Jap\u00e3o (\u00c1rea de Co-prosperidade da grande \u00c1sia) e os EUA (Pan-Am\u00e9rica).<\/p>\n<p>5. Se \u00e9 associado \u00e0 hist\u00f3ria da geopol\u00edtica sueca-alem\u00e3 que encontramos a origem do conceito e os mais significativos esfor\u00e7os de teoriza\u00e7\u00e3o (e justifica\u00e7\u00e3o) de uma disciplina nova \u00e9, por sua vez, no \u00e2mbito da <em>Geopolitics <\/em>(i. e. da geopol\u00edtica brit\u00e2nica) que encontramos o que habitualmente \u00e9 considerado principal texto fundador da disciplina: <em>The Geographical Pivot of History<\/em>, tema da confer\u00eancia proferida pelo<em> Honourable<\/em> <em>Sir<\/em> Halford John Mackinder, em Londres, na Sociedade Real de Geografia, a 21 de Janeiro de 1904. O seu autor foi um not\u00e1vel ge\u00f3grafo e acad\u00e9mico da sua \u00e9poca, professor de Geografia em Oxford (1987-1905), director do Col\u00e9gio Universit\u00e1rio de Reading (1892-1903), director da <em>London School of Economics and Political Sciences<\/em> (1903-1908) e um explorador famoso do continente africano, sendo o primeiro europeu a escalar o monte Qu\u00e9nia at\u00e9 ao seu cume (1899).<\/p>\n<p>Embora <em>The Geographical Pivot of History<\/em> de Mackinder seja generalizadamente considerado o texto fundador do discurso geopol\u00edtico moderno, n\u00e3o deixa de ser curioso notar no mesmo a aus\u00eancia total da palavra Geopol\u00edtica. Essa aus\u00eancia pode-se tamb\u00e9m constatar em todos os outros trabalhos importantes do ge\u00f3grafo brit\u00e2nico. Tudo indica que essa aus\u00eancia foi deliberada, e que n\u00e3o se deve propriamente a um desconhecimento dos trabalhos de Kjell\u00e9n e dos seus seguidores alem\u00e3es, mas a uma premeditada atitude patri\u00f3tica (compreens\u00edvel se atendermos \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas anteriormente expostas), de rejeic\u00e7\u00e3o do neologismo devido \u00e0 sua conota\u00e7\u00e3o germ\u00e2nica.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 an\u00e1lise do texto fundador de Mackinder, verifica-se que este passou em revista, de uma maneira sint\u00e9tica e abrangente, a hist\u00f3ria universal, atrav\u00e9s de uma grelha de leitura geogr\u00e1fica, sustentando que foi nas imensas plan\u00edcies asi\u00e1ticas que ocorreram os acontecimentos decisivos da hist\u00f3ria universal, e que esta zona do mundo teve, milenarmente, uma influ\u00eancia decisiva no rumo dos acontecimentos mundiais. Face a esta constata\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-geogr\u00e1fica prop\u00f4s um conceito anal\u00edtico original \u2013 a \u00e1rea <em>pivot<\/em> (1904) \u2013 cuja designa\u00e7\u00e3o foi posteriormente alterada para <em>Heartland<\/em> (1919), atrav\u00e9s da adop\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora do \u00abcora\u00e7\u00e3o da terra\u00bb, situado no continente Euro-Asi\u00e1tico, e coincidindo, grosso modo, com a ex-URSS, tamb\u00e9m j\u00e1 utilizada por outro ge\u00f3grafo brit\u00e2nico, James Fairgrieve, em <em>Geography &amp; World Power<\/em> (1915).<\/p>\n<p>O trabalho de 1904 de Mackinder pode ser essencialmente interpretado como uma reac\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica \u00e0 influ\u00eancia das teses do almirante norte-americano Alfred Thayer Mahan sobre a apologia do poder mar\u00edtimo (que este considerava serem falaciosas para os brit\u00e2nicos), a mais famosa das quais formulada em <em>The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783<\/em> (1890). O grande impacto dos trabalhos de Mahan sobre os seus contempor\u00e2neos pode facilmente constatar-se na rival Alemanha onde, por exemplo, o Kaiser Wilhelm II determinou que os livros Mahan fossem leitura obrigat\u00f3ria pelos oficiais da sua marinha imperial&#8230;<\/p>\n<p>Por sua vez, em <em>Democratic Ideals and Reality<\/em> (1919) Mackinder fez notar que, apesar da import\u00e2ncia dos ideais democr\u00e1ticos, n\u00e3o se podia subestimar o impacto do pensamento estrat\u00e9gico de \u00abgrandes organizadores\u00bb, como Napole\u00e3o Bonaparte e Otto von Bismarck. Recorrendo a uma met\u00e1fora cheia de simbolismo lembrou aos dirigentes dos Estados vencedores da I Guerra Mundial que, conforme um general romano instru\u00edra um escravo para segredar-lhe ao ouvido que era mortal (de modo a que nos momentos de triunfo militar n\u00e3o perdesse a no\u00e7\u00e3o da realidade), tamb\u00e9m estes deveriam ter algu\u00e9m a lembrar-lhes repetidamente: <em>who rules East Europe commands the Heartland; who rules the Heartland commands the World-Island; who rules the World-island commands the World<\/em> (quem controlar a Europa de Leste domina o <em>Heartland<\/em>; quem controlar o <em>Heartland<\/em> dominar\u00e1 a Ilha-Mundial; quem controlar a Ilha-Mundial dominar\u00e1 o mundo). (Mackinder, 1919 [1942]: 150].<\/p>\n<p>De facto, Mackinder, com a publica\u00e7\u00e3o de <em>Democratic Ideals and Reality<\/em>, pretendeu intervir nesse debate, chamando \u00e0 aten\u00e7\u00e3o dos principais dirigentes pol\u00edticos da alian\u00e7a militar vencedora \u2013 Lloyd George (Reino Unido), Woodrow Wilson (EUA) e Georges Clemenceau (Fran\u00e7a) \u2013 para a necessidade premente de organizar a Europa de Leste, mantendo-a fora do controlo de uma \u00fanica pot\u00eancia terrestre, por for\u00e7a das espec\u00edficas caracter\u00edsticas pen\u00ednsulares da Europa Ocidental. Assim, aquilo que designou como um cord\u00e3o de <em>buffer-states<\/em> (\u00abEstados-tamp\u00e3o\u00bb), deveria separar a Alemanha da R\u00fassia, evitando que uma s\u00f3 pot\u00eancia dominasse o <em>Heartland.<\/em> (Mackinder, 1919 [1942]: 158). Assinal\u00e1vel \u00e9 o facto de este trabalho do geogr\u00e1fo brit\u00e2nico ser n\u00e3o s\u00f3 um marco importante do pensamento realista-pol\u00edtico, em defesa da tradicional <em>balance of powers<\/em> (\u00abbalan\u00e7a de poderes\u00bb), como constituir uma interessante antecipa\u00e7\u00e3o de muitos dos argumentos usados nos virulentos ataques a que foi sujeito o idealismo consubstanciado na Sociedade das Na\u00e7\u00f5es (institu\u00edda precisamente em 1919), ao longo da segunda metade dos anos 30<\/p>\n<p>6. \u00a0N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender as imagens profundamente negativas e diabolizadas (criadas sobretudo no mundo anglo-sax\u00f3nico e especialmente nos EUA), em torno da <em>Geopolitik<\/em> e de Karl Haushofer, se n\u00e3o se tiver em conta o enorme impacto (e apreens\u00e3o) gerado junto do p\u00fablico norte-americano, pelos sucessos da <em>wermacht<\/em> (o ex\u00e9rcito da Alemanha nazi) na II Guerra Mundial, durante a sua <em>blitzkrieg<\/em> (\u00abguerra rel\u00e2mpago\u00bb) que levou \u00e0 conquista de quase toda a Europa, nos anos 1939-1941. Nem \u00e9 poss\u00edvel compreender tamb\u00e9m essas imagens, sen\u00e3o tivermos em considera\u00e7\u00e3o o envolvimento directo dos EUA nesse conflito, a partir do ataque do Jap\u00e3o \u00e0 base naval de Pearl Harbour, nas ilhas do Hawai, no Oceano Pac\u00edfico, a 8 de Dezembro de 1941.<\/p>\n<p>No processo de descredibiliza\u00e7\u00e3o e \u00abdiaboliza\u00e7\u00e3o\u00bb da <em>Geopolitik<\/em> o ano de 1942 foi particularmente importante tendo sido, durante o mesmo, publicados diversos trabalhos influentes, todos da autoria de emigrantes europeus da <em>Mittel Europa<\/em> (\u00abEuropa Central\u00bb), que se radicaram nos EUA. Entre esses trabalhos destacam-se os de Hans Weigert<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> intitulado <em>Generals and Geographers: The Twilight of Geopolitics<\/em> (\u00abGenerais e Ge\u00f3grafos: O Crep\u00fasculo da Geopol\u00edtica\u00bb) e o de Robert Strausz-Hup\u00e9, Geopolitics: <em>The struggle for Space and Power<\/em> (\u00abGeopol\u00edtica: A luta pelo Espa\u00e7o e pelo Poder\u00bb), que vamos analisar sinteticamente e apenas nos seus tra\u00e7os essenciais.<\/p>\n<p>Paralelamente ao processo de descredibiliza\u00e7\u00e3o e de \u00absataniza\u00e7\u00e3o\u00bb que se desenvolvia nos <em>media<\/em> norte-americanos e na literatura do tipo <em>middle-brow<\/em>, a <em>Geopolitik<\/em> foi simultaneamente objecto de um processo de descredibiliza\u00e7\u00e3o mais profundo, especificamente a um n\u00edvel acad\u00e9mico-cient\u00edfico. Nesse processo, destacou-se o mais c\u00e9lebre e influente ge\u00f3grafo norte-americano da primeira metade do s\u00e9culo XX, Isaiah Bowman, director da <em>American Geographical Society <\/em>(1915-1935), conselheiro-chefe para as quest\u00f5es territoriais do presidente Woodrow Wilson, na Confer\u00eancia de paz de Versalhes (1919), membro fundador e presidente (1931-1934) do <em>Council on Foreign Relations<\/em> que esteve na origem da funda\u00e7\u00e3o da revista norte-americana, <em>Foreign Affairs<\/em> (1922), presidente da Universidade John Hopkins (1935-1945) e conselheiro do departamento de Estado para as quest\u00f5es territoriais durante a II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Isaiah Bowman come\u00e7ou a ser conhecido do grande p\u00fablico, pela organiza\u00e7\u00e3o de expedi\u00e7\u00f5es patrocinadas pela <em>American Geographical Society<\/em> e posterior publica\u00e7\u00e3o dos seus relatos, sendo a mais importante aos Andes, ao Sul do Per\u00fa, em 1915 (numa semelhan\u00e7a not\u00f3ria com o percurso de Mackinder). Mas foi sobretudo o trabalho intitulado <em>The New World: Problems in Political Geography<\/em> (\u00abO Novo Mundo: Problemas de Geografia Pol\u00edtica\u00bb, 1921), onde descreveu e analisou os imp\u00e9rios, os Estados e as col\u00f3nias do mundo, na sequ\u00eancia dos arranjos territoriais sa\u00eddos da I Guerra Mundial, que lhe deu maior notoriedade.<\/p>\n<p>Por sua vez, com os desenvolvimentos da II Guerra Mundial e a crescente aten\u00e7\u00e3o prestada pelos <em>media<\/em> \u00e0 Geopol\u00edtica aumentou a notoriedade de Bowman. No discurso p\u00fablico norte-americano era referido correntemente como \u00abo nosso\u00bb geopol\u00edtico; e, simultaneamente, gerou-se nos <em>media<\/em> uma tend\u00eancia espont\u00e2nea de o qualificar como o \u00abHaushofer americano\u00bb o que, por raz\u00f5es patri\u00f3ticas e acad\u00e9micas compreens\u00edveis, irritou o ge\u00f3grafo. E, por reac\u00e7\u00e3o a esta \u00abliga\u00e7\u00e3o perigosa\u00bb, Isaiah Bowman publicou um influente artigo na <em>Geograghical Revue<\/em>, em Outubro de 1942, intitulado<em> Geography versus Geopolitics<\/em>, onde afirmava que \u00aba Geopol\u00edtica representa uma vis\u00e3o distorcida das rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, pol\u00edticas e geogr\u00e1ficas do mundo e das suas partes&#8230; os seus argumentos tal como s\u00e3o desenvolvidos na Alemanha servem apenas para sustentar o caso da agress\u00e3o alem\u00e3\u00bb (Isaiah Bowman citado por \u00d3 Tuathail, 1996: 154).<\/p>\n<p>Este esfor\u00e7o de demarca\u00e7\u00e3o de Isaiah Bowman face \u00e0 Geopol\u00edtica (i.e. \u00e0 <em>Geopolitik<\/em>) foi secundado em publica\u00e7\u00f5es sobre Pol\u00edtica Internacional dirigidas a p\u00fablicos selectivos, como a <em>Foreign Affairs,<\/em> atrav\u00e9s da contraposi\u00e7\u00e3o de teses geopol\u00edticas \u00abboas\u00bb<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, onde se evitava o uso da palavra proscrita. Nesse mesmo ano de 1942 surgiram ainda dois importantes trabalho da autoria de um norte-americano de origem holandesa, Nicholas John Spykman, ex-jornalista (1913-1920) e professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na Universidade de Yale desde 1928, (onde foi tamb\u00e9m director do Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. O primeiro, intitulado <em>The America\u00b4s Strategy in World Politics. The United States and the Balance of Power <\/em>(\u00abA Estrat\u00e9gia Americana na Pol\u00edtica Mundial. Os Estados Unidos e Balan\u00e7a de Poder\u00bb, 1942). Para al\u00e9m de ter recebido coment\u00e1rios elogiosos de Isaiah Bowman, foi qualificado pelo seu editor, a <em>Harcourt, Brace and Company<\/em>, como \u00aba primeira an\u00e1lise geopol\u00edtica abrangente da posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos no mundo\u00bb feita pela \u00abmaior autoridade norte-americana em geopol\u00edtica\u00bb (apresenta\u00e7\u00e3o de Spykman na capa da edi\u00e7\u00e3o de 1942). Quanto ao segundo, <em>The Geography of the Peace<\/em> (\u00abA Geografia da Paz\u00bb, 1944), redigido em 1943 mas publicado postumamente, marcou decisivamente a pol\u00edtica externa dos EUA no p\u00f3s-II Guerra Mundial, com o conceito de <em>rimland <\/em>(uma zona entre os poderes mar\u00edtimo e terrestre, que abrangia parte da Europa Ocidental, o M\u00e9dio Oriente, a Turquia, o Ir\u00e3o, a \u00cdndia, o Paquist\u00e3o, a China, a Coreia, o Jap\u00e3o, o Sudoeste Asi\u00e1tico e a costa do pac\u00edfico da R\u00fassia) uma \u00e1rea geoestrat\u00e9gica determinante para a seguran\u00e7a dos EUA no mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto politicamente tumultuoso e de separa\u00e7\u00e3o de \u00e1guas entre uma geopol\u00edtica \u00abboa\u00bb e uma geopol\u00edtica \u00abm\u00e1\u00bb que tem de ser entendida a afirma\u00e7\u00e3o do professor da Universidade de Chicago, Hans J. Morgenthau, de que \u00aba Geopol\u00edtica \u00e9 uma pseudoci\u00eancia\u00bb (1948 [1997]: 178). O que Morgenthau, tal como Bowman, quis de facto qualificar como uma pseudoci\u00eancia n\u00e3o foia Geopol\u00edtica (entendida como o saber geopol\u00edtico em geral), mas, apenas, uma determinada vis\u00e3o geopol\u00edtica particular, a da <em>Geopolitik<\/em> (i.e. a geopol\u00edtica alem\u00e3-nazi). Certamente que nem Bowman, nem Morgenthau, pretendiam incluir nas suas cr\u00edticas os trabalhos geopol\u00edticos do brit\u00e2nico Mackinder (que sempre evitou usar a palavra Geopol\u00edtica&#8230;) nem os do seu compatriota Spykman que, ali\u00e1s, se inserem perfeitamente na sua vis\u00e3o realista e anglo-sax\u00f3nica das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Mas, o esfor\u00e7o empreendido pelos meios acad\u00e9mico-cient\u00edficos norte-americanos de \u00absepara\u00e7\u00e3o de \u00e1guas\u00bb, entre uma \u00abGeopol\u00edtica boa\u00bb (n\u00e3o designada por Geopol\u00edtica&#8230;) e uma \u00abGeopol\u00edtica m\u00e1\u00bb n\u00e3o foi em v\u00e3o: o uso da palavra Geopol\u00edtica foi praticamente banido durante tr\u00eas d\u00e9cadas, encerrando-se, assim, aquilo que parafraseando um conhecido t\u00edtulo de Alvin Toffler, podemos designar como a \u00abprimeira vaga\u00bb da Geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>7. Foi s\u00f3 a partir dos anos 70 do s\u00e9culo XX que ocorreu a (re)entrada em for\u00e7a da palavra \u00abGeopol\u00edtica\u00bb no l\u00e9xico acad\u00e9mico-pol\u00edtico e dos \u00abmass media\u00bb, que est\u00e1 na g\u00e9nese da \u00absegunda vaga\u00bb. Essa (re)entrada resultou essencialmente da conjuga\u00e7\u00e3o de duas circunst\u00e2ncias: um maior distancimento temporal face \u00e0 II Guerra Mundial e \u00e0 Alemanha nazi e o aparecimento de conflitos que \u00abn\u00e3o encaixavam\u00bb na l\u00f3gica dominante da confronta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica (por exemplo, o conflito entre o Vientame e o Cambodja, no final anos 70, ocorrido entre dois Estados que perfilhavam uma similar ideologia socialista-comunista). Mas, se este interesse pelo saber geopol\u00edtico cl\u00e1ssico retirou, progressivamente, a palavra \u00abGeopol\u00edtica\u00bb do ostracismo, o facto \u00e9 que tamb\u00e9m acabou por transform\u00e1-la numa palavra de moda, o que acarreta m\u00faltiplas dificuldades e ambiguidades. A este prop\u00f3sito, e tal como j\u00e1 fizera notar com alguma ironia Robert Harkavy, atente-se na seguinte aprecia\u00e7\u00e3o critica que Daniel Deudney (1997: 93) faz sobre a utiliza\u00e7\u00e3o indiscriminada da palavra:<\/p>\n<blockquote><p><em>Few words in the study of world politics are widely used and vaguely defined as the term \u00abgeopolitics\u00bb. As Robert Harkavy has observed, \u00abthe term geopolitics has come to be used in such a variety of contexts that it is no longer clear just what it means&#8230; It has come to mean almost everything, and therefore, perhaps almost nothing\u00bb.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Como todas as palavras de moda (veja-se por exemplo o caso da globaliza\u00e7\u00e3o) tende a ser usado de uma maneira \u00ablivre\u00bb e indiscriminada, o que n\u00e3o s\u00f3 d\u00e1 origem a confus\u00f5es conceptuais, como lhe pode retirar alcance anal\u00edtico, no \u00e2mbito dos estudos acad\u00e9mico-cient\u00edficos da disciplina. Voltaremos a este aspecto na parte final do nosso artigo. Para j\u00e1, vamos deter-nos na an\u00e1lise aprofundada das circunst\u00e2ncias e vias pelas quais a palavra e o saber geopol\u00edtico foi (re)introduzido.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito processo de (re)introdu\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica da plavra \u00abGeopol\u00edtica\u00bb, o ge\u00f3grafo franc\u00eas Yves Lacoste, e a revista de Geografia e Geopol\u00edtica <em>H\u00e9rodote<\/em> (1976), ocupam normalmente um lugar de destaque. Um primeiro passo na direc\u00e7\u00e3o da Geopol\u00edtica foi dado por Yves Lacoste, professor de Geografia na c\u00e9lebre Universidade experimental de Vincennes (actual Paris VIII), com a publica\u00e7\u00e3o do muito aplaudido <em>La G\u00e9ographie \u00e7a sert d\u00b4abord \u00e0 faire la guerre<\/em> (\u00abA Geografia, isso serve para fazer a guerra\u00bb, 1976), um trabalho escrito com a inten\u00e7\u00e3o de provocar uma ruptura<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> com a tradi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica francesa, essencialmente herdeira da Geografia descritiva de Paul Vidal de la Blanche. Um segundo passo mais expl\u00edcito foi dado com a incorpora\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria palavra Geopol\u00edtica, no subt\u00edtulo do <em>H\u00e9rodote<\/em>, que passou tamb\u00e9m a designar-se como <em>Revue de G\u00e9ographie et G\u00e9opolitique<\/em> (1983). Um terceiro passo foi a edi\u00e7\u00e3o de um trabalho colectivo de fundo de an\u00e1lise geopol\u00edtica: o <em>Dictionnaire de G\u00e9opolitique<\/em> (1993).<\/p>\n<p>Paralelamente aos trabalhos de Yves Lacoste e do <em>H\u00e9rodote<\/em> podem tamb\u00e9m destacar-se os de Michel Korinman sobre a <em>Geopolitik<\/em>, entre os quais de destaca o intitulado <em>Quand l\u00b4Allemagne pensait le monde. Grandeur et d\u00e9cadence d\u00b4une G\u00e9opolitique <\/em>(\u00abQuando a Alemanha pensava o mundo. Grandiosidade e decad\u00eancia de uma Geopol\u00edtica\u00bb,1990); o do general franc\u00eas Pierre-Marie Gallois, o principal teorizador da for\u00e7a nuclear francesa criada nos anos 60 por decis\u00e3o do general de Gaulle, intitulado <em>G\u00e9opolitique: les voies de la puissance<\/em> (\u00abGeopol\u00edtica: as vias da pot\u00eancia\u00bb, 1990); o de um outro importante ge\u00f3grafo franc\u00eas, o professor da Sorbonne (Paris I), Paul Claval, com <em>G\u00e9opolitique et G\u00e9ostrat\u00e9gie<\/em> (\u00abGeopol\u00edtica e Geoestrat\u00e9gia\u00bb,1994); o de Fran\u00e7ois Thual, director-adjunto do <em>Institut de Relations Internationales et Strat\u00e9giques<\/em> (IRIS), intitulado <em>M\u00e9thodes de la G\u00e9opolitique. Apprendre \u00e0 d\u00e9chiffrer la realit\u00e9<\/em> (\u00abM\u00e9todos de Geopol\u00edtica: Aprender a decifrar a realidade\u00bb, 1996); e o investigador do <em>Institut International d&#8217;\u00c9tudes Strat\u00e9giques<\/em> (IIES) e da Universidade de Paris II, Alexandre Del Valle, sugestivamente intitulado <em>Guerres contre l \u00b4Europe <\/em>(\u00abGuerras contra a Europa\u00bb, 2000). O sucesso das publica\u00e7\u00f5es francesas e em especial da revista <em>H\u00e9rodote<\/em>, estimulou o aparecimento de outras publica\u00e7\u00f5es sobre geopol\u00edtica em diversos pa\u00edses europeus. O caso mais evidente \u00e9 o de It\u00e1lia, onde no in\u00edcio dos anos 90, surgiu a <em>Limes <\/em>\u2013<em> Rivista Italiana di Geopolitica<\/em> (1993), uma publica\u00e7\u00e3o que arrancou com o apoio e colabora\u00e7\u00e3o de alguns elementos da equipa redactorial<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> do <em>H\u00e9rodote<\/em>.<\/p>\n<p>Paralelamente aos esfor\u00e7os europeus, especialmente franceses, de recupera\u00e7\u00e3o da Geopol\u00edtica, surgiram nos EUA movimentos que convergiram no processo de (re)entrada em for\u00e7a da palavra \u00abGeopol\u00edtica\u00bb no l\u00e9xico acad\u00e9mico-pol\u00edtico e dos \u00abmass media\u00bb. Neste contexto, destaca-se a publica\u00e7\u00e3o, na d\u00e9cada de 70, do importante trabalho do estratega anglo-americano Colin S. Gray, intitulado <em>The Geopolitics of Nuclear Era. Heartlands, Rimlands and the Technological Revolution<\/em> (1977), seguido de um outro, j\u00e1 em meados dos anos 80, intitulado <em>Maritime Strategy, Geopolitics and the Defence of the West <\/em>(1986). Mas foi uma personalidade emblem\u00e1tica do mundo acad\u00e9mico e pol\u00edtico norte-americano \u2013 o ex-secret\u00e1rio de Estado da administra\u00e7\u00e3o Nixon, Henry Kissinger \u2013 quem deu o impulso mais importante na (re)introdu\u00e7\u00e3o da Geopol\u00edtica, ao utilizar a palavra, durante os anos 70, nas suas an\u00e1lises sobre diversos conflitos internacionais, associando-a \u00e0s virtudes do realismo pol\u00edtico, do qual \u00e9 um dos defensores mais famosos.<\/p>\n<p>Com o final da Guerra Fria e o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (1989-1991), assistiu-se \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o de trabalhos e artigos de an\u00e1lise geopol\u00edtica, nos EUA. Tamb\u00e9m a\u00ed surgiu um dicion\u00e1rio, o <em>Dictionary of Geopolitics<\/em>, editado por John \u00d3 Loughlin (1994), bem como importantes trabalhos de teoriza\u00e7\u00e3o. Entre estes destacam-se o de Samuel P. Huntington <em>The Clash of Civilizations. Remaking of World Order <\/em>(\u00abO Choque das Civiliza\u00e7\u00f5es e a Mudan\u00e7a na Ordem Mundial\u00bb, 1993-1996); o do ex-conselheiro do presidente norte-americano James Carter, Zbigniew Brezinski, intitulado <em>The Grand Chessboard<\/em> (\u00abO Grande Jogo\u00bb, 1997).<\/p>\n<p>\u00c9 importante notar que a \u00absegunda vaga\u00bb da Geopol\u00edtica n\u00e3o surgiu apenas pela m\u00e3os da corrente realista norte-americana das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, a qual, ali\u00e1s, nunca deixou propriamente cair<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> as an\u00e1lises da geopol\u00edtica cl\u00e1ssica (como comprovam, por exemplo, os trabalhos do ge\u00f3grafo\/geopol\u00edtico Saul B. Cohen, nomeadamente atrav\u00e9s do c\u00e9lebre <em>Geography and Politics in a World Divided<\/em> \u00abGeografia e Pol\u00edtica num Mundo Dividido\u00bb, 1963) apenas se limitando, conforme j\u00e1 assinal\u00e1mos, a banir a palavra e a repudiar as teses germ\u00e2nicas. Na Am\u00e9rica do Norte, outras vias marcaram o regresso da disciplina, sobretudo nas abordagens de cariz mais acad\u00e9mico. Este \u00e9 o caso da chamada <em>Critical Geopolitics<\/em> (\u00abGeopol\u00edtica Cr\u00edtica\u00bb), protagonizada, entre outros, pelo irland\u00eas Gear\u00f3id \u00d3 Tuathail, professor de Geografia na <em>Virginia Tech<\/em> dos EUA, pelo canadiano Simon Dolby e tamb\u00e9m pelo brit\u00e2nico Paul Routledge, juntamente com os quais editou uma interessante compila\u00e7\u00e3o dos principais textos de geopol\u00edtica intitulada <em>The Geopolitics Reader<\/em> (\u00abO Leitor da Geopol\u00edtica\u00bb, 1998). Esta corrente filia-se num movimento acad\u00e9mico que ganhou for\u00e7a durante os anos 80 e 90 no \u00e2mbito das Ci\u00eancias Sociais e Humanas e que por simplifica\u00e7\u00e3o podemos designar por \u00abp\u00f3s-modernismo\u00bb<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Tem o que \u00e9 provavelmente o seu trabalho mais emblem\u00e1tico em <em>Critical Geopolitics: The Politics of Writing Global Space<\/em> (\u00abGeopol\u00edtica Cr\u00edtica: A Pol\u00edtica de Escrever o Espa\u00e7o Global\u00bb1996), do j\u00e1 referido Gear\u00f3id \u00d3 Tuathail. Outros contributos relevantes para esta abordagem, embora mais na perspectiva da chamada Economia Pol\u00edtica Internacional (EPI), podem ser encontrados no trabalho de John Agnew e Stuart Corbridge intitulado, <em>Mastering Space: Hegemony, Territory and International Political Economy<\/em> (\u00abDominando o Espa\u00e7o: Hegemonia, Territ\u00f3rio e Economia Pol\u00edtica Internacional\u00bb, 1995).<\/p>\n<p>7. Face ao aumento do interesse pela Geopol\u00edtica que est\u00e1 na origem de uma \u00absegunda vaga\u00bb de livros e artigos acad\u00e9micos e de refer\u00eancias e an\u00e1lises nos <em>mass media<\/em>, uma quest\u00e3o que inevitavelmente se coloca \u00e9 a de saber at\u00e9 que ponto os desenvolvimentos ocorridos nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX surgiram em ruptura ou em continuidade, com a tradi\u00e7\u00e3o da Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica da primeira metade do s\u00e9culo. A resposta a esta quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, dada a multiplicidade de abordagens que marcam este campo do conhecimento. Por isso, e sem pretendermos ser exaustivos, vamos passar previamente em revista alguns dos principais desenvolvimentos da disciplina, para depois delinear uma resposta consistente.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, parece-nos bastante evidente que a Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica procurou afirmar-se como uma nova ci\u00eancia atrav\u00e9s de um processo que podemos designar como <em>imitatio scientiae<\/em><a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> (i.e. procurou constituir-se como ci\u00eancia por c\u00e2nones positivistas, mais ou menos pr\u00f3ximos do modelo das chamadas Ci\u00eancias Naturais). Este facto pode detectar-se na sua preocupa\u00e7\u00e3o de captar a realidade geogr\u00e1fico-pol\u00edtica tal como ela \u00e9 (i. e. na sua preocupa\u00e7\u00e3o de uma objectividade \u00abrealista\u00bb), na separa\u00e7\u00e3o das an\u00e1lises geogr\u00e1fico-pol\u00edtcas e das quest\u00f5es \u00e9ticas por elas levantadas, e no seu esfor\u00e7o de estabelecer leis e efectuar previs\u00f5es, entre outros aspectos. Sintomaticamente, este esfor\u00e7o de aproxima\u00e7\u00e3o ao modelo das Ci\u00eancias Naturais ressalta, de alguma maneira, da j\u00e1 referida cita\u00e7\u00e3o de <em>Democratic Ideals and Reality<\/em>, de Halford Mackinder: \u00abquem controlar a Europa de Leste domina o <em>Heartland<\/em>; quem controlar o <em>Heartland<\/em> dominar\u00e1 a Ilha-Mundial; quem controlar a Ilha-Mundial dominar\u00e1 o mundo\u00bb, que \u00e9 a mais famosa de toda a Geopol\u00edtica, e que, talvez por isso mesmo, foi quase elevada ao estatuto de \u00ablei cient\u00edfica\u00bb em muitos dos textos que a referem simplificadamente (ou simplisticamente&#8230;).<\/p>\n<p>Este tipo de \u00abconstru\u00e7\u00f5es cient\u00edficas\u00bb \u00e9 hoje normalmente merecedor de um certo distanciamento, em graus bastante vari\u00e1veis (menor nas an\u00e1lises realistas ou neo-realistas das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e bastante mais elevado nas chamadas abordagens p\u00f3s-positivistas<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>) e tamb\u00e9m por raz\u00f5es substancialmente diferentes. Por exemplo, para Fran\u00e7ois Thual (1996: 8) a Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica, com a sua caracter\u00edstica oposi\u00e7\u00e3o mar\/terra e o seu determinismo geogr\u00e1fico revela uma atitude intelectual e uma forma de conhecimento que pode ser qualificada como esp\u00e9cie de \u00abGeografia metaf\u00edsica\u00bb. J\u00e1 para Gear\u00f3id \u00d3 Tuathail (1996b: 5) a Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica deve mercer uma atitude de cepticismo e descren\u00e7a generalizado, sendo considerada uma \u00abnarrativa\u00bb no sentido que Jean-Fran\u00e7ois Lyotard deu ao termo (1979), (qualifica\u00e7\u00e3o que, ali\u00e1s, serve tamb\u00e9m para as Ci\u00eancias Naturais, no p\u00f3s-modernismo mais radical)<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p><em>Geopolitics can be thought of as a regime of power\/knowledge which produced international politics as an objective global spatial drama, a ceaselless global struggle between pre-determinated geographical entities, and a vision of territorial states dominating global space [\u2026] Its essentialist reading of international politics reveal the hubris of Western scientific myths about timeless essences and determining universal causation. Its naturalization of an idealized version of the European state system, projecting this upon the world, and representing global politics as balance-of-power politics, reveal the operation of an ethnocentric grand narrative wherein history has realized itself as European conceptions alone. In sum, modern geopolitics is a condensation of Western epistemological and ontological hubris, an imagination of the world from an imperial point of view.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Assim, podemos afirmar que a \u00absegunda vaga\u00bb da Geopol\u00edtica \u00e9, em geral, menos ambiciosa nas suas pretens\u00f5es cient\u00edficas, abandonando, em graus vari\u00e1veis, os processos de <em>imitatio scientiae<\/em>, e mais cuidadosa com a sua fundamenta\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica. Estas caracter\u00edsticas podem tamb\u00e9m encontrar-se em Fran\u00e7ois Thual (1996: 10), quando este em <em>M\u00e9thodes de la G\u00e9opolitique<\/em>, come\u00e7ou por justificar a pertin\u00eancia da Geopol\u00edtica por refer\u00eancia \u00e0 \u00abfenomenologia\u00bb de Edmund Husserl, sustentando que, diferentemente dos fen\u00f3menos f\u00edsicos, os fen\u00f3menos pol\u00edticos s\u00e3o caracterizados pela \u00abintencionalidade\u00bb. E que dessa especificidade resulta a necessidade de \u00abelabora\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo que permita a interpreta\u00e7\u00e3o dos factos da pol\u00edtica internacional\u00bb. Esta metodologia, que assenta no conceito de \u00abrepresenta\u00e7\u00e3o\u00bb oriundo da Psicologia Social, foi originalmente proposta por Yves Lacoste no <em>H\u00e9rodote <\/em>e \u00e9 explicada por este autor nas considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas efectuados no pre\u00e2mbulo do <em>Dictionnaire de G\u00e9opolitique<\/em> (1993 [1995]: 29):<\/p>\n<blockquote>[La]<em> G\u00e9opolitique, en tant que d\u00e9marche scientifique, a pour objet l \u00e9tude des rivalit\u00e9s territoriales de puvoirs et leurs r\u00e9percussions dans l\u00b4opinion, et puisque c\u00b4est par l\u00b4interm\u00e9diaire d\u00b4un certain nombre de r\u00e9presentations que l \u00f3n peut comprendre l \u00ednter\u00eat strat\u00e9gique ou la valeur symbolique de ces territoires qui sont enjeux ou espaces de rivalit\u00e9s ou d&#8217;affrontements <\/em>[&#8230;].<\/p><\/blockquote>\n<p>Deste modo, e uma vez que a principal tarefa da Geopol\u00edtica \u00e9 descobrir essa intencionalidade, esta deve recorrer a uma perspectiva pluridisciplinar, baseada essencialmente nos ensinamentos da Hist\u00f3ria e da Psicologia Social e em menor grau da Psican\u00e1lise<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Nesta abordagem geopol\u00edtica os chamados \u00abconflitos de identidade\u00bb surgem como uma das tem\u00e1ticas centrais, cuja an\u00e1lise consiste em tra\u00e7ar as diferentes \u00abrepresenta\u00e7\u00f5es\u00bb que os povos ou colectividades fazem de si pr\u00f3prios e dos outros, sobre o mart\u00edrio e o sofrimento, ou sobre a sobreviv\u00eancia her\u00f3ica, baseada em mitos e contra-mitos, que transcendem interesses econ\u00f3micos e geopol\u00edticos e est\u00e3o na origem de muitos conflitos violentos mais ou menos insol\u00faveis. Uma das formas mais complexas dos conflitos de identidade \u00e9 aquela que Fran\u00e7ois Thual designa por \u00abconflito de anterioridade\u00bb, que incide sobre um territ\u00f3rio ou parcela de um territ\u00f3rio, que \u00e9 considerado inalien\u00e1vel e um imperativo \u00e0 perpetua\u00e7\u00e3o de uma determinada colectividade ou na\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 caso da oposi\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a> servo-albanesa no Kosovo; \u00e9 o caso do diferendo entre Hungria e a Rom\u00e9nia sobre a Transilv\u00e2nia; e \u00e9 ainda caso da rivalidade entre arm\u00e9nios e azeris sobre o Alto-Karabakh.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de Fran\u00e7ois Thual sugere que a \u00absegunda vaga\u00bb da Geopol\u00edtica tem uma tem\u00e1tica preferencial nas quest\u00f5es culturais-civilizacionais e de identidade colectiva. De facto, no p\u00f3s-Guerra Fria, os trabalhos com mais impacto acad\u00e9mico e medi\u00e1tico incidiram sobre esta tem\u00e1tica. \u00c9 nomeadamente o caso do j\u00e1 referido trabalho do professor de Harvard, Samuel P. Huntington \u00abO Choque das Civiliza\u00e7\u00f5es&#8230;\u00bb (1996); \u00e9 ainda o caso do tamb\u00e9m j\u00e1 referido trabalho do investigador da Universidade de Paris II, Alexandre del Valle, \u00abGuerras contra a Europa\u00bb (2000).<\/p>\n<p>O aspecto mais interessante destes trabalhos \u00e9 que estes foram significativamente influenciados pela Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica, nas suas diferentes vers\u00f5es, sendo duas variantes do mesmo racioc\u00ednio de tipo realista-geopol\u00edtico (e geoestrat\u00e9gico), agora enriquecido com argumentos de tipo cultural-civilizacional. No caso de Samuel P. Huntington \u00e9 f\u00e1cil verificar que este faz, implicitamente, a apologia da \u00abpot\u00eancia mar\u00edtima\u00bb na tradi\u00e7\u00e3o anglo-americana de Mackinder\/Spykman e das talassocracias, como \u00abpot\u00eancias do bem\u00bb, para a defesa do Ocidente (entendido como Europa cat\u00f3lica\/protestante + EUA\/Canad\u00e1\/Austr\u00e1lia\/Nova Zel\u00e2ndia = Ocidente). Nesta constru\u00e7\u00e3o os EUA s\u00e3o um dos pilares do conceito de \u00abn\u00f3s\u00bb, o Ocidente; a Europa ortodoxa, inclu\u00edndo a R\u00fassia s\u00e3o o \u00aboutro\u00bb; e os Turco-mu\u00e7ulmanos s\u00e3o tamb\u00e9m o \u00aboutro\u00bb. Todas as civiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o ocidentais s\u00e3o potenciais inimigos, sendo particularmente perigosa uma coliga\u00e7\u00e3o sino-islamita contra o Ocidente.<\/p>\n<p>Por sua vez, Alexandre del Valle faz uma certa apologia das \u00abpot\u00eancias terrestres\u00bb ou epirocracias, na vers\u00e3o francesa, (agora apresentadas como \u00abpot\u00eancias do bem\u00bb\u2026), recuperando a ideia da alian\u00e7a franco-russa do final s\u00e9culo XIX (quando a Fran\u00e7a se sentiu cercada pela Alemanha ap\u00f3s a sua unifica\u00e7\u00e3o de 1871), para a defesa da Europa. Esta \u00e9 entendida como a Europa Cat\u00f3lica\/Protestante\/Ortodoxa incluindo a R\u00fassia = Grande Europa ou \u00abEuropa das P\u00e1trias\u00bb da tradi\u00e7\u00e3o gaulista. Nesta constru\u00e7\u00e3o os EUA s\u00e3o o \u00aboutro\u00bb do qual \u00e9 preciso desconfian\u00e7a e distanciamento; e os \u00abTurco-mu\u00e7ulmanos\u00bb s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 o \u00aboutro\u00bb como o principal inimigo que quer conquistar a Europa pela <em>jihad<\/em> (\u00abguerra santa\u00bb), baseados na cren\u00e7a mu\u00e7ulmana de que <em>Al\u00e1<\/em> lhes prometeu a Europa como <em>Das ul Harb<\/em> (\u00abterra dos crentes\u00bb). Mas a \u00abcontra-teoria\u00bb<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a> de Alexandre del Valle \u00e9 mais do que uma reac\u00e7\u00e3o \u00e0 tese geopol\u00edtica-civilizacional defendida por Samuel P. Huntington, em grande parte baseada na Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica de tipo anglo-sax\u00f3nico. Ela \u00e9 sobretudo uma rejeic\u00e7\u00e3o francesa do pensamento geopol\u00edtico norte-americano, na vers\u00e3o apresentada por Zbigniew Brezinski em <em>The Grand Chessboard<\/em> (1997), no qual foi analisada a complexa teia de interesses geopol\u00edticos dos EUA e a sua rede de alian\u00e7as geoestrat\u00e9gicas, especialmente na \u00c1sia central p\u00f3s-sovi\u00e9tica. E essa an\u00e1lise n\u00e3o foi particularmente abonat\u00f3ria para os europeus, que aparecem retratados com um estatuto de menoridade pol\u00edtico-militar e designados pejorativamente como \u00abvassalos\u00bb.<\/p>\n<p>Nem todas as correntes que actualmente marcam, ou, pelo menos, influenciam a disciplina, partilham da opini\u00e3o que a Geopol\u00edtica (re)entrou em for\u00e7a no p\u00f3s-Guerra Fria. \u00c9 o caso do conhecido estratega militar norte-americano, Edward N. Luttwak, que, num artigo intitulado <em>From Geopolitics to Geoeconomics<\/em> (\u00abDa Geopol\u00edtica \u00e0 Geoeconomia\u00bb, 1990), publicado na revista norte-americana <em>The National Interest<\/em>, defendeu que o final da Guerra Fria deu origem \u00e0 \u00abGeoeconomia\u00bb descrita como \u00abuma nova vers\u00e3o da antiga rivalidade entre os Estados\u00bb, que surgiu em substitui\u00e7\u00e3o da Geopol\u00edtica. Para Luttwak, a Geoeconomia \u00e9 o principal factor explicativo das rela\u00e7\u00f5es internacionais do p\u00f3s-Guerra Fria, entre o mundo capitalista desenvolvido, devido \u00e0 perda de import\u00e2ncia do tradicional poder militar e da diplomacia cl\u00e1ssica. A excep\u00e7\u00e3o continuam a ser as zonas conflituais da periferia subdesenvolvida, onde a diplomacia e a guerra continuam a ser t\u00e3o relevantes quanto o foram no passado. (Luttwak, 1988: 160-170).<\/p>\n<p>Para caracterizar a emergente Geoeconomia, Luttwak estabeleceu ainda v\u00e1rios paralelismos, com a <em>power politics<\/em>, a Geopol\u00edtica e a Estrat\u00e9gia militar: \u00abo capital para investimento na ind\u00fastria proporcionado ou orientado pelo Estado \u00e9 o equivalente ao poder de fogo; o desenvolvimento de produtos subsidiados pelo Estado \u00e9 o equivalente \u00e0s inova\u00e7\u00f5es no armamento; e a penetra\u00e7\u00e3o nos mercados sustentada pelo Estado substitui as bases e guarni\u00e7\u00f5es militares em solo estrangeiro, bem como a influ\u00eancia diplom\u00e1tico.\u00bb (<em>idem<\/em>: 171). Por sua vez, o arsenal geoecon\u00f3mico est\u00e1 tamb\u00e9m dotado de uma grande diversidade de armas, algumas velhas outras novas. Por exemplo, as tarifas \u00abpodem ser simples impostos cobrados sem outro fim em mente que n\u00e3o seja obter rendimentos; da mesma maneira os limites impostos pela quotas e a pura e simples proibi\u00e7\u00e3o \u00e0s importa\u00e7\u00f5es poder\u00e3o visar apenas a resolu\u00e7\u00e3o de uma escassez aguda de moeda. Mas, quando o objectivo dessas barreiras comerciais \u00e9 proteger essa ind\u00fastria e permitir o seu crescimento passamos uma vez mais para a geoeconomia \u2013 o equivalente \u00e0 defesa das fronteiras na guerra e da pol\u00edtica mundial tradicional.\u00bb Apesar de os acordos do GATT\/OMC proibirem a imposi\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de tarifas, quotas ou limita\u00e7\u00f5es \u00e0s importa\u00e7\u00f5es \u00e9 frequente ver Estados recorrerem a barreiras comerciais dissimuladas, o que \u00e9 o equivalente geoecon\u00f3mico \u00abda emboscada, essa poderos\u00edssima t\u00e1ctica de guerra\u00bb. Neste contexto competitivo, \u00e9 um m\u00e9todo muito comum \u00abestabelecer deliberadamente regulamentos de sa\u00fade e de seguran\u00e7a, ou exig\u00eancias de etiquetagem, empacotamento ou reciclagem, a fim de excluir produtos estrangeiros.\u00bb (<em>ibidem<\/em>: 172).<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a abordagem realista e neo-mercantilista de Edward Luttwak que contesta a import\u00e2ncia da Geopol\u00edtica no mundo actual, ou pelo menos no mundo capitalista avan\u00e7ado. Uma outra corrente de tipo p\u00f3s-modernista\/p\u00f3s-estruturalista, embora por raz\u00f5es substancialmente diferentes, considera tamb\u00e9m que esta tem vindo a perder a sua import\u00e2ncia, desde os anos 80 do s\u00e9culo XX. Essa corrente tem a sua origem nas ideias sobre a velocidade do arquitecto e historiador militar franc\u00eas, Paul Virilio, que \u00e9 um dos p\u00f3s-modernistas que mais influ\u00eancia exerce em certos sectores acad\u00e9micos da Geopol\u00edtica e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais norte-americanas. Essa influ\u00eancia resulta da difus\u00e3o da ideia que a \u00abCronopol\u00edtica\u00bb, um conceito cunhado pelo pr\u00f3prio Virilio, est\u00e1 a substituir a tradicional Geopol\u00edtica, pela perda de import\u00e2ncia do espa\u00e7o material resultante da revolu\u00e7\u00e3o provocada pela microelectr\u00f3nica e pelas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o. Nesta concep\u00e7\u00e3o, a ubiquidade, um privil\u00e9gio dos deuses, est\u00e1 a transformar-se numa possibilidade humana, pela primazia que o \u00abtempo\u00bb adquiriu sobre o \u00abespa\u00e7o\u00bb<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>.<\/p>\n<p>A teoriza\u00e7\u00e3o da Cronopol\u00edtica foi aplicada \u00e0s Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pelo professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade norte-americana de Massachusetts, em Amherst, James Der Derian, em diversos trabalhos desenvolvidos na \u00faltima d\u00e9cada, entre os quais se destaca <em>Antidiplomacy: Spies, Terror, Speed and War<\/em> (\u00abAnti-Diplomacia: Espi\u00f5es, Terror, Velocidade e Guerra\u00bb, 1992). No centro desta abordagem \u00abanti-ci\u00eancia\u00bb, que ataca os c\u00e2nones positivistas-realistas tradicionais, est\u00e1 a \u00abvelocidade\u00bb<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>, a vari\u00e1vel fundamental da Cronopol\u00edtica. A reflex\u00e3o sobre a velocidade\/acelera\u00e7\u00e3o abriu um novo campo de abordagem que Virilio designou por \u00abdromologia\u00bb.<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a> Este campo tem essencialmente por objecto o estudo cr\u00edtico das consequ\u00eancias da velocidade\/acelera\u00e7\u00e3o nos diferentes aspectos da vida humana, provocados pelo \u00abprogressos\u00bb cient\u00edficos nos campos da microelectr\u00f3nica e das novas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o e que levaram Paul Virilio a afirmar, na esteira de Jean Braudillard, que as distin\u00e7\u00f5es entre imagens visuais e mentais est\u00e3o a esbater-se, e que o \u00abvirtual est\u00e1 a destruir o real\u00bb. (Der Derian, 1998: 7).<\/p>\n<p>A cr\u00edtica ao chamado \u00ablado negro\u00bb do Iluminismo, \u00e0 racionalidade cient\u00edfica separada das quest\u00f5es \u00e9ticas pelo positivismo, e tamb\u00e9m \u00e0 Geopol\u00edtica enquanto saber positivista e discurso de poder com a ambi\u00e7\u00e3o de \u00abdar conselhos ao princ\u00edpe\u00bb, \u00e9 feita por Paul Virilio e James Der Derian, com base num conjunto de trabalhos que podem ser considerados precursores do actual p\u00f3s-modernismo\/p\u00f3s-estruturalismo. \u00c9 o caso da chamada \u00abEscola de Frankfurt\u00bb fundada nos anos 20-30 do s\u00e9culo XX; e \u00e9 tamb\u00e9m o caso de Michel Foucault e das suas arqueologias-genealogias, e, especialmente, dos seus trabalhos sobre o poder disciplinar e as t\u00e9cnicas de controlo derivadas do \u00abpanoptismo\u00bb (um sistema de vigil\u00e2ncia prisional proposto originalmente por Jeremy Bentham, num trabalho sobre a organiza\u00e7\u00e3o das pris\u00f5es brit\u00e2nicas efectuado no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX).<\/p>\n<p>Por tudo o que anteriormente foi dito, falar em \u00abrenascimento\u00bb da Geopol\u00edtica, nos anos 70, n\u00e3o deixa de ser equ\u00edvoco. E \u00e9 equivoco porque sugere que a Geopol\u00edtica esteve \u00abmorta\u00bb, num per\u00edodo algo \u00abnebuloso\u00bb para a maioria das an\u00e1lises, grosso modo situado entre os anos 1945-1975, facto que n\u00e3o corresponde exactamente \u00e0 realidade. Como vimos, o que efectivamente ocorreu ap\u00f3s a II Guerra Mundial foi uma condena\u00e7\u00e3o ao \u00abostracismo\u00bb da palavra, pela sua conota\u00e7\u00e3o com a Alemanha nazi e de uma determinada forma de pensamento geopol\u00edtico (a <em>Geopolitik<\/em>), pelas suas alegadas liga\u00e7\u00f5es ao poder nazi. Quanto \u00e0 <em>Geopolitics<\/em> anglo-americana, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o desapareceu como at\u00e9 floresceu nos EUA do p\u00f3s II Guerra Mundial, num contexto de confronta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\/pol\u00edtica\/militar com a ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Neste sentido, \u00e9 mais exacto afirmar o que o ocorreu nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX n\u00e3o foi propriamente um \u00abrenascimento\u00bb mas mais um aumento interesse de pela Geopol\u00edtica, que n\u00e3o se circunscreveu aos meios acad\u00e9micos e pol\u00edticos, mas foi tamb\u00e9m projectado para o grande p\u00fablico pelos <em>mass media<\/em>.<\/p>\n<p>Todavia, \u00e9 importante notar que o facto a Geopol\u00edtica nunca ter estado propriamente \u00abmorta\u00bb n\u00e3o significa que n\u00e3o se possa falar numa \u00absegunda vaga\u00bb, como movimento com algumas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e originais, face \u00e0 Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica anglo-germ\u00e2nica, da primeira metade do s\u00e9culo XX. O que de facto se pode constatar numa an\u00e1lise mais aprofundada \u00e9 que h\u00e1, simultaneamente, um misto de continuidades e descontinuidades face ao passado. Se, por um lado, as ideias centrais da Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica, exceptuada a vers\u00e3o \u00abHaushofer<em>\/Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em>\u00bb, continuam a existir e a influenciar muitos dos trabalhos actuais, por outro lado, tamb\u00e9m surgiram novas abordagens em ruptura ou descontinuidade com a \u00abGeopol\u00edtica cl\u00e1ssica\u00bb e que rejeitam, em graus vari\u00e1veis, essa heran\u00e7a.<\/p>\n<p>O caso mais evidente desse esfor\u00e7o de ruptura \u00e9 o das abordagens p\u00f3s-modernistas\/p\u00f3s estruturalistas de Paul Virilio e James der Derian e o da chamada \u00abGeopol\u00edtica cr\u00edtica\u00bb protagonizada, entre outros, por Gear\u00f3id \u00d3 Thuatail, que se demarcam dos trabalhos da \u00abGeopol\u00edtica cl\u00e1ssica\u00bb e dos seus continuadores actuais como, por exemplo, Colin S. Gray, Samuel P. Huntington ou Zibigniew Brezinski, os quais s\u00e3o (des)qualificados como \u00abnarrativas\u00bb, discursos de poder e instrumentos de domina\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do mais, esta abordagem recusa a tradicional postura de \u00abdar conselhos ao pr\u00edncipe\u00bb, que marca o pensamento ocidental sobre a Pol\u00edtica, desde a publica\u00e7\u00e3o de \u00abO Pr\u00edncipe\u00bb (1513), de Nicolau Maquiavel, no Renascimento, assumindo, em alternativa, um novo papel de \u00abconsci\u00eancia cr\u00edtica\u00bb e transformadora da realidade social.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, a interroga\u00e7\u00e3o que inevitavelmente se coloca \u00e9 a de saber at\u00e9 que ponto este interesse acrescido pela Geopol\u00edtica radica nas virtudes descritivas, explicativas, anal\u00edticas ou cr\u00edticas deste campo do conhecimento, face aos acontecimentos do mundo real, especialmente no p\u00f3s-Guerra Fria, ou, pelo contr\u00e1rio, estamos apenas perante mais um fen\u00f3meno de moda, alimentado artificialmente nos meios acad\u00e9micos, pol\u00edticos e jornal\u00edsticos. Tamb\u00e9m aqui nos parece que a resposta \u00e9 marcada pela ambival\u00eancia, pela simples raz\u00e3o que todos estes aspectos explicam o interesse acrescido pela Geopol\u00edtica. Se, por um lado, o saber geopol\u00edtico tem provas dadas na descri\u00e7\u00e3o\/interpreta\u00e7\u00e3o\/an\u00e1lise dos fen\u00f3menos geogr\u00e1fico-pol\u00edticos com relev\u00e2ncia internacional, por outro, a verdade \u00e9 tamb\u00e9m que o aumento de interesse pelo Geopol\u00edtica, verificado nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, foi, muitas vezes, feito \u00e0 custa de um alargamento bastante discut\u00edvel do seu objecto de estudo (por exemplo, atrav\u00e9s da sua expans\u00e3o para os fen\u00f3menos geogr\u00e1fico-pol\u00edticos com mera relev\u00e2ncia interna) e acompanhado de um uso tendencialmente \u00ablivre\u00bb do conceito. Ora, pelo menos de um ponto de vista acad\u00e9mico-cient\u00edfico, este fen\u00f3meno deve ser encarado com bastante precau\u00e7\u00e3o. Isto porque uma utiliza\u00e7\u00e3o proteiforme do conceito \u00abGeopol\u00edtica\u00bb significa, inevitavelmente, aus\u00eancia de rigor e utilidade t\u00e9cnico-cient\u00edfica. Mas tamb\u00e9m porque um alargamento indiscriminado do seu objecto de estudo pode acarretar como consequ\u00eancia a perda de coer\u00eancia da pr\u00f3pria Geopol\u00edtica, enquanto disciplina acad\u00e9mica. Por isso, n\u00e3o \u00e9 demais (re)lembrar o j\u00e1 referido coment\u00e1rio de Robert Harkavy: \u00abthe term geopolitics has come to be used in such a variety of contexts that it is no longer clear just what it means&#8230; It has come to mean almost everything, and therefore, perhaps almost nothing\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p>Blouet, Brian W. (1987), <em>Halford Mackinder. 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Por sua vez, Michel Korinman (1990: 152) refere que Kjell\u00e9n utilizou pela primeira vez a palavra numa comunica\u00e7\u00e3o intitulada <em>Inledning till Sveriges geografi<\/em> (\u00abIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Geografia da Su\u00e9cia\u00bb), efectuada no \u00e2mbito das confer\u00eancias destinadas ao grande p\u00fablico da Universidade de Gotemburgo, que decorreram no Ver\u00e3o de 1900.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> O trabalho de Ratzel est\u00e1 tamb\u00e9m associado \u00e0s concep\u00e7\u00f5es evolucionistas e biol\u00f3gicas do Estado e da sociedade que progressivamente se difundiram pelo campo das Ci\u00eancias Sociais, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o por Charles Darwin de <em>On the Origin of Species<\/em> <em>by means of Natural Selection or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life<\/em> (\u00abA Origem das Esp\u00e9cies por meio da Selec\u00e7\u00e3o Natural ou a Preserva\u00e7\u00e3o das Esp\u00e9cies mais favorecidas na Luta pela Vida\u00bb, 1859). Com a<em> Politische Geographie<\/em> de 1897 e <em>Der Lebensraum <\/em>(\u00abO Espa\u00e7o Vital\u00bb) de 1901 as concep\u00e7\u00f5es evolucionistas e biol\u00f3gicas fizeram tamb\u00e9m sua apari\u00e7\u00e3o na Geografia e, Ratzel, foi acusado de ter o seu trabalho imbu\u00eddo de uma perversa \u00abfilosofia darwinista do espa\u00e7o\u00bb. Todavia, n\u00e3o est\u00e1 isenta de controv\u00e9rsia a qualifica\u00e7\u00e3o de Ratzel com o ep\u00edteto de \u00abdarwinista social\u00bb porque em diversas partes dos seus trabalhos este se demarcou das teses racistas de Gobineau e de Chamberlain e das pr\u00f3prias teses do darwinismo social europeu, de Spencer. O que se pode constatar \u00e9 que este recorreu, num certo n\u00famero de casos concretos, a uma esp\u00e9cie \u00abracismo funcional ligado \u00e0 ideologia colonialista do s\u00e9culo XIX europeu, posi\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, frequente na \u00e9poca\u00bb. (Korinman, 1990: 41).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> A cria\u00e7\u00e3o da <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em> resultou de um esfor\u00e7o conjunto do editor, Kurt Vowincker, e de uma equipa redactorial de ge\u00f3grafos, com compet\u00eancias repartida por \u00e1reas ge\u00f3gr\u00e1ficas espec\u00edficas, composta por Karl Haushofer (\u00c1sia), Erich Obst (Europa e \u00c1frica), Otto Maull (Am\u00e9ricas) e Hermann Lautensach (mundo na sua globalidade). Nela colaboraram tamb\u00e9m alguns dos mais importantes ge\u00f3grafos, polit\u00f3logos e especialistas de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da \u00e9poca (n\u00e3o s\u00f3 alem\u00e3es como austr\u00edacos, hungaros, polacos, romenos, sul americanos e at\u00e9 sovi\u00e9ticos\u2026).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Este debate desencadeou-se essencialmente por duas grandes raz\u00f5es: a primeira, de contornos marcadamente acad\u00e9micos e de tipo epistemol\u00f3gico, resultava do facto de Kjell\u00e9n ter sustentado a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de um neologismo, como tamb\u00e9m de uma ci\u00eancia original, s\u00f3 que a sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o era propriamente consensual entre a comunidade dos ge\u00f3grafos alem\u00e3es (os detractores de Kjell\u00e9n afirmavam que este n\u00e3o tinha criado nenhuma disciplina nova, pois apenas tinha deslocado a Geografia Pol\u00edtica para o espa\u00e7o da Antropogeografia de Ratzel, e colocado a Geopol\u00edtica no lugar da Geografia Pol\u00edtica ratzeliana\u2026 ); a segunda raz\u00e3o tinha contornos menos acad\u00e9micos e bastante mais pol\u00edticos, e era consequ\u00eancia directa do j\u00e1 referido ambiente conturbado que se vivia na Alemanha ap\u00f3s a derrota na I Guerra Mundial, existindo, dentro da comunidade de ge\u00f3grafos, diversas vozes que sustentavam que esta tinha tido tamb\u00e9m grandes responsabilidades nessa derrota, por n\u00e3o ter sabido contribu\u00edr para uma forma\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica adequada da classe dirigente e da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que acontecera nas rivais Inglaterra e Fran\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ironicamente a sua concep\u00e7\u00e3o foi influenciada pela ideia da \u00abPan-Europa\u00bb, promovida na \u00e9poca pelo conde austr\u00edaco Richard Coudenhove-Kalergi, uma personalidade que figura, com um merecido lugar de destaque, nos anais dos movimentos europe\u00edstas do s\u00e9culo XX, que defendiam a unifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica europeia por via pac\u00edfica, nada tendo por isso a ver com os meios de conquista preconizados, ou, pelo menos, admitidos por Haushofer.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Uma quest\u00e3o ainda hoje n\u00e3o totalmente esclarecida \u00e9 a da influ\u00eancia de Haushofer sobre Hitler. Neste aspecto, Hans Weigert demarcou-se, pelo menos em parte, daqueles que sustentavam existir o dedo de Haushofer em toda a ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Hitler e na redac\u00e7\u00e3o do <em>Mein Kampf <\/em>(\u00abA Minha Luta\u00bb), referindo, em tom ir\u00f3nico, que Haushofer certamente \u00abteve o azar de perder o autocarro para visitar Hitler na pris\u00e3o de Landsberg\u00bb quando este estava a escrever o famoso cap\u00edtulo XIV do <em>Mein Kampf<\/em>, o qual cont\u00e9m as principais directrizes da pol\u00edtica externa do <em>III Reich <\/em>(Weigert, 1942: 151). Isto porque o seu conte\u00fado diverge das principais teses geopol\u00edticas de Haushofer, que sempre foi contr\u00e1rio \u00e0 \u00abopera\u00e7\u00e3o Barbarossa\u00bb, ordenada por Hitler, em 1941, e que levou, \u00e0 invas\u00e3o da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, com resultados catastr\u00f3ficos para os ex\u00e9rcitos nazis e para a sobreviv\u00eancia do regime hitleriano.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Nesse contexto, e na consequ\u00eancia do interesse do p\u00fablico norte-americano por <em>Democratic Ideals and Reality<\/em> de Mackinder, surgiram duas reedi\u00e7\u00f5es desse trabalho (respectivamente em Maio e Outubro) e Hamilton Fish Armstrong, o editor na \u00e9poca da <em>Foreign Affairs<\/em>, solicitou a Mackinder uma revis\u00e3o da teoria do <em>Heartlland<\/em> face aos acontecimentos da II Guerra Mundial. Dessa solicita\u00e7\u00e3o resultou um famoso artigo intitulado <em>The Round World and the Winning of the Peace<\/em>, publicado em Julho de 1943, onde Mackinder formulou a tese do <em>Midland Ocean<\/em>, numa antecipa\u00e7\u00e3o daquilo que ficou conhecido por pol\u00edtica de <em>containment <\/em>do expansionismo sovi\u00e9tico e que esteve na g\u00e9nese da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Para o efeito, Yves Lacoste recuperou tamb\u00e9m os trabalhos do g\u00e9ografo-anarquista do s\u00e9culo XIX, Elys\u00e9e Reclus.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Na altura da funda\u00e7\u00e3o do <em>Limes<\/em>, Michel Korinman a ocupou o lugar de director, em parceria com o italiano Luccio Caracciolo, e Yves Lacoste colaborou tamb\u00e9m no arranque da publica\u00e7\u00e3o italiana, como conselheiro especial da direc\u00e7\u00e3o da revista.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Para uma vis\u00e3o mais aprofundada sobre os principais trabalhos geopol\u00edticos desenvolvidos nos EUA, entre os anos 50-70, ver Pol\u00edbio F. Valente de Almeida <em>Do poder do pequeno Estado: enquadramento geopol\u00edtico da hierarquia das pot\u00eancias (<\/em>1988) que \u00e9, na nossa opini\u00e3o, o mais completo trabalho sobre este assunto redigido em l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> O p\u00f3s-modernismo \u00e9 uma corrente intelectual bastante ampla e heterog\u00e9nea, abrangendo diversos movimentos com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, como os p\u00f3s-estruturalistas, os defensores das teorias cr\u00edticas, as abordagens feministas, etc., o que dificulta a identifica\u00e7\u00e3o dos contornos exactos desta corrente intelectual. Todavia, h\u00e1 normalmente alguns pontos de contacto entre estes movimentos, como uma certa descren\u00e7a na racionalidade e no valor das metodologias quantitativas, uma avers\u00e3o a m\u00e9todos formais, a (re)valoriza\u00e7\u00e3o do senso comum e da intui\u00e7\u00e3o, o nivelamento dos saberes e a promo\u00e7\u00e3o de um discurso de tipo multicultural. Por \u00faltimo, \u00e9 necess\u00e1rio ter ainda em conta o facto de muitos dos autores normalmente rotulados como \u00abp\u00f3s-modernistas\u00bb, rejeitarem esse ep\u00edteto, o que aumenta mais a dificuldade da sua identifica\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> \u00c9 importante que o processo de <em>imitatio scientiae<\/em> n\u00e3o foi exclusivo da Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica. Nos anos 70, o norte-americano Ray S. Cline, provavelmente influenciado pelo impacto que a chamada \u00abrevolu\u00e7\u00e3o behaviorista\u00bb teve nas Ci\u00eancias Sociais durante os anos 60, nos EUA, empreendeu uma c\u00e9lebre tentativa de quantifica\u00e7\u00e3o do poder estadual, cujos resultados foram publicados em <em>World Power Assessment: a calculus of strategic drift<\/em> (1975). O objectivo era superar, atrav\u00e9s de uma f\u00f3rmula matem\u00e1tica, as cl\u00e1ssicas formula\u00e7\u00f5es qualitativas de poder, o que deu lugar \u00e0 chamada \u00abequa\u00e7\u00e3o de Cline\u00bb, cuja formula\u00e7\u00e3o \u00e9 Pp=(C+E+M) x (S+W) e em que Pp= poder suposto (<em>perceived power<\/em>); C= massa cr\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o e territ\u00f3rio (<em>critical mass<\/em>); E= capacidade econ\u00f3mica (<em>economic capability<\/em>); M= capacidade militar (<em>military capability<\/em>); S= objectivos estrat\u00e9gicos (<em>strategic purpose<\/em>); e W= vontade de executar as estrat\u00e9gias nacionais (<em>will to porsue national strategy<\/em>). Mas, como assinalou Adriano Moreira (1996: 208) numa aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da mesma, esta f\u00f3rmula implica assumir que \u00abo poder \u00e9 o produto das capacidades f\u00edsicas e das capacidades psicol\u00f3gicas, tornando assim muito prec\u00e1ria a confiabilidade dos resultados, ou, pelo menos, fornecendo dados para muito curto prazo, e exigindo uma verifica\u00e7\u00e3o cont\u00ednua\u00bb.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> As abordagens \u00abp\u00f3s-positivistas\u00bb, tamb\u00e9m qualificadas como <em>reflectivists<\/em> (\u00abreflectivistas\u00bb), abrangem m\u00faltiplas correntes como os p\u00f3s-modernistas\/p\u00f3s-estruturalistas, as teorias cr\u00edticas, as abordagens feministas, os contrutivistas, etc. S\u00e3o essencialmente marcadas por preocupa\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas e ontol\u00f3gias e, de alguma maneira, op\u00f5em-se \u00e0s abordagens racionalistas-positivistas dominantes na disciplina das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. A designa\u00e7\u00e3o resulta do impacto que um artigo da autoria de Yosef Lapid teve no \u00e2mbito da Teoria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Esse artigo intitulado \u00abThe Third Debate: On the Prospects of International Theory in a Post-positivist Era\u00bb (1989) foi publicado originalmente na revista norte-americana <em>International Studies Quarterly<\/em>, n\u00ba 33 (3). Sobre o debate p\u00f3s-positivista em Portugal v\u00ear o interessante artigo de Jos\u00e9 Manuel Pureza intitulado \u00abO Pr\u00edncipe e o Pobre: as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais entre a tradi\u00e7\u00e3o e a reinven\u00e7\u00e3o\u00bb publicado no n\u00b452\/53 da <em>Revista Cr\u00edtica de Ci\u00eancias Sociais<\/em>, da Universidade de Coimbra.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> O p\u00f3s-modernismo mais radical tem gerado reac\u00e7\u00f5es bastante cr\u00edticas um pouco por toda a comunidade cient\u00edfica. A reac\u00e7\u00e3o mais c\u00e9lebre aos excessos do p\u00f3s-modernismo foi o artigo-par\u00f3dia dos f\u00edsicos Alain Sokal e Jean Bricmont intitulado \u00abTransgredir as fronteiras: rumo a uma hermen\u00eautica transformativa da gravita\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica\u00bb (1996), o qual foi constru\u00edda \u00abem torno de cita\u00e7\u00f5es de autores eminentes sobre as implica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e sociais das ci\u00eancias da natureza e da matem\u00e1tica\u00bb, mas que eram \u00ababsurdas ou desprovidas de sentido\u00bb, e que a revista norte-americana <em>Social Text<\/em>, publicou como sendo&#8230; um texto s\u00e9rio! (Sokal e Bricmont, 1999: 19).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> O recurso a esta perspectiva pluridisciplinar tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 totalmente isento de dificuldades. Desde logo, estas resultam dos problemas epistemol\u00f3gicos levantados por disciplinas como a Psican\u00e1lise, cuja classifica\u00e7\u00e3o como \u00abCi\u00eancia\u00bb \u00e9 controversa (pelo menos esta \u00e9 a opini\u00e3o cl\u00e1ssica dos epistem\u00f3logos do c\u00edrculo de Viena, nomeadamente de Karl Popper, que lhe recusaram essa qualifica\u00e7\u00e3o devido \u00e0 impossibilidade de \u00abfalsifica\u00e7\u00e3o dos enunciados\u00bb).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Atente-se, a t\u00edtulo de exemplo, nas diferentes representa\u00e7\u00f5es que s\u00e9rvios e albaneses fazem sobre o Kosovo. Para os S\u00e9rvios, representa o \u00abcora\u00e7\u00e3o nuclear\u00bb da sua hist\u00f3ria religiosa e pol\u00edtica, por refer\u00eancia ao Estado ordoxo s\u00e9rvio da Idade M\u00e9dia, que tinha a\u00ed a sua sede pol\u00edtica e religiosa. E como foi no Kosovo, no s\u00e9culo XIV, que o Estado s\u00e9rvio medieval foi derrotado e ocupado pelos ex\u00e9rcitos turcos, foi em torno do Kosovo que o nacionalismo s\u00e9rvio constru\u00edu o mito do sofrimento. Para os albaneses, e para do argumento da actual presen\u00e7a num\u00e9rica maiorit\u00e1ria nessa regi\u00e3o, a sua historiografia retomou o tema da chegada \u00abrecente\u00bb dos Eslavos aos Balc\u00e3s (instalados na regi\u00e3o \u00abapenas\u00bb entre os s\u00e9culos X-XIV), desenvolvendo o contra-mito de que o Kosovo estava povoado de povos Il\u00edrios desde a Antiguidade, dos quais os albaneses s\u00e3o os descendentes directos&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> A tese central de Alexandre del Valle, na qual assenta a sua \u00abcontra-teoria\u00bb foi originalmente desenvolvida em <em>Islamisme et \u00c9tats-Unis: une Alliance contre l\u00b4Europe<\/em> (1997). A ideia principal \u00e9 a de que os EUA desenvolveram uma estrat\u00e9gia de alian\u00e7a <em>de facto <\/em>com os Estados \u00e1rabes ricos do M\u00e9dio Oriente (especialmente com Ar\u00e1bia Saudita <em>whabita<\/em>, particularmente zelosa do seu proselitismo isl\u00e2mico), para manter a lideran\u00e7a mundial e o acesso aos recursos energ\u00e9ticos do M\u00e9dio-Oriente, em detrimento da Europa que foi abandonada ao \u00abislamismo militante\u00bb violento enraizado no mundo isl\u00e2mico pobre. Ainda segundo del Valle, esta estrat\u00e9gia geopol\u00edtica pode detectar-se pela observa\u00e7\u00e3o de um cintur\u00e3o de turbul\u00eancia terrorista, desde a R\u00fassia (Chech\u00e9nia) at\u00e9 \u00e0 Europa (Kosovo). E \u00e9 o resultado de uma (re)orienta\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e geoestrat\u00e9gica dos EUA, que durante a Guerra Fria mobilizaram diversos Estados isl\u00e2micos, na periferia da ex-URSS, para um cerco estrat\u00e9gico ao \u00abimp\u00e9rio do mal\u00bb, criando um \u00abcintur\u00e3o verde\u00bb. No p\u00f3s-Guerra Fria, essa estrat\u00e9gia voltou-se contra a Europa e \u00e9 mesmo uma amea\u00e7a \u00e0 exist\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o europeia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> \u00abIn the realm of territorial development, <em>time<\/em> now counts more than <em>space<\/em>. But it is no longer a matter of some chronological local time, as it once was, but of universal world time, opposed not only to the local space of region\u00b4s organization of land, but to the world space of planet on the way to becoming homogeneous. From the urbanization of the real space of national geography to the urbanization of the real time of international telecommunications, the <em>world space<\/em> of geopolitics is gradually yielding its strategic primacy to the <em>world time<\/em> of chronostrategic proximity without any delay and without any antipodes\u00bb. (Virilio, 1995 [1998]: 183).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> A importa\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o de conceitos da f\u00edsica para a teoriza\u00e7\u00e3o da velocidade, est\u00e3o no centro da pol\u00e9mica sobre a obra de Paul Virilio. Esta utiliza\u00e7\u00e3o de conceitos e teorias da f\u00edsica foi qualificada por Sokal e Bricmont (dois acad\u00e9micos da \u00e1rea F\u00edsica), como \u00abuma mistura de confus\u00f5es monumentais e fantasias delirantes\u00bb, sendo as analogias cient\u00edficas utilizadas por Virilio \u00abo mais arbitr\u00e1rio que possa imaginar-se, quando este autor n\u00e3o se afunda pura e simplesmente numa embriaguez verbal\u00bb. (1999: 165-170).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Um termo cunhado por Virilio a partir da palavra grega <em>dromos<\/em> que significa corrida ou acto de correr.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, &#8220;Da Geopol\u00edtica Cl\u00e1ssica \u00e0 Geopol\u00edtica P\u00f3s-Moderna: Entre a Ruptura e a Continuidade&#8221; artigo originalmente publicado em Pol\u00edtica Internacional 26, Outono-Inverno (2002): 161-186.<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, logo &#8220;Geopol\u00edtica&#8221;, 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L&#8217; histoire de ce mot n&#8217;est pas simple pas plus que son champ s\u00e9mantique qui tend \u00e0 s&#8217;\u00e9largir: aujoud&#8217;hui on parle de g\u00e9opolitique a propos de la multiplication [&#8230;] de probl\u00e8mes aussi diverses que l&#8217;appartion de nouveaux \u00c9tats, le trac\u00e9 de leurs fronti\u00e8res, leurs conflits territoriaux, l&#8217;expansion de certaines ideologies politiques et religieuses comme l\u00b4islamisme, &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/da-geopolitica-classica-a-geopolitica-pos-moderna-entre-a-ruptura-e-a-continuidade\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;Da Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica \u00e0 Geopol\u00edtica p\u00f3s-moderna: entre a ruptura e a continuidade&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,52],"tags":[32,64],"class_list":["post-1029","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-cientificos","tag-geopolitica","tag-pos-modernismo","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1029","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1029"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1029\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1029"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1029"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1029"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}