{"id":1050,"date":"2015-06-06T23:35:29","date_gmt":"2015-06-06T23:35:29","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1050"},"modified":"2019-04-08T07:33:52","modified_gmt":"2019-04-08T07:33:52","slug":"islamismo-e-multiculturalismo-as-ideologias-apos-o-fim-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/islamismo-e-multiculturalismo-as-ideologias-apos-o-fim-da-historia\/","title":{"rendered":"Islamismo e Multiculturalismo. As Ideologias Ap\u00f3s o Fim da Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Islamismo-e-Multiculturalismo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1147\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Islamismo-e-Multiculturalismo-804x1024.jpg\" alt=\"Islamismo e Multiculturalismo\" width=\"804\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Islamismo-e-Multiculturalismo-804x1024.jpg 804w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Islamismo-e-Multiculturalismo-236x300.jpg 236w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Islamismo-e-Multiculturalismo-768x978.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Islamismo-e-Multiculturalismo-370x471.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Islamismo-e-Multiculturalismo-570x726.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Islamismo-e-Multiculturalismo-770x980.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Islamismo-e-Multiculturalismo-456x580.jpg 456w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Islamismo-e-Multiculturalismo.jpg 1022w\" sizes=\"auto, (max-width: 804px) 100vw, 804px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 um facto que, tal como o liberalismo e o comunismo, o islamismo constitui uma ideologia sistem\u00e1tica e coerente, com um c\u00f3digo pr\u00f3prio de moralidade e uma doutrina de justi\u00e7a e pol\u00edtica e social. O apelo do islamismo \u00e9 potencialmente universal, chegando a todos os homens como homens, e n\u00e3o enquanto membros de um determinado grupo \u00e9tnico e nacional. [&#8230;] Apesar do poder demonstrado pelo islamismo, na sua actual renova\u00e7\u00e3o esta religi\u00e3o n\u00e3o exerce virtualmente nenhum fasc\u00ednio fora das \u00e1reas de tradi\u00e7\u00e3o cultural isl\u00e2mica. Ao que parece, o tempo das conquistas culturais dos Isl\u00e3o chegou ao fim: poder\u00e1 recuperar ap\u00f3statas, mas n\u00e3o encontra eco junto dos jovens de Berlim, T\u00f3quio ou Moscovo [&#8230;] De facto, \u00e9 prov\u00e1vel que, a longo prazo, o mundo isl\u00e2mico de mostre mais vulner\u00e1vel \u00e0s ideias liberais do que o inverso, uma vez que essas ideias atra\u00edram in\u00fameros e poderosos aderentes mu\u00e7ulmanos no \u00faltimo s\u00e9culo e meio.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Francis FUKUYAMA(1992: 64-65)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agora que j\u00e1 existe algum distanciamento hist\u00f3rico sobre os grandes acontecimentos que puseram fim ao conflito ideol\u00f3gico da Guerra-Fria em 1989-1991 \u2013 a queda do Muro de Berlim, a dissolu\u00e7\u00e3o do Pacto de Vars\u00f3via e a desagrega\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013, come\u00e7am a existir mais condi\u00e7\u00f5es para nos voltarmos a interrogar \u00aba frio\u00bb, sobre a quest\u00e3o do \u00abfim da hist\u00f3ria\u00bb, no sentido de fase final da evolu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da humanidade; ou, numa outra formula\u00e7\u00e3o, para nos interrogarmos sobre aquilo que de forma ir\u00f3nica Russel Jacoby (1999:1) chamou \u00abo fim do fim do fim da ideologia\u00bb<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, devido \u00e0s sucessivas proclama\u00e7\u00f5es de \u00abextin\u00e7\u00e3o das ideologias\u00bb feitas ao longo da segunda metade do s\u00e9culo XX, primeiro por Raymond Aron<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> nos anos 50, depois por Daniel Bell<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> na transi\u00e7\u00e3o para os anos 60 e mais recentemente por Francis Fukuyama<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, no final dos anos 80 e in\u00edcio dos anos 90. Na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, onde nos encontramos actualmente, come\u00e7am a existir condi\u00e7\u00f5es para avaliar, de forma mais distante do objecto de estudo, se o colapso do modelo sovi\u00e9tico e a consequente descredibiliza\u00e7\u00e3o do seu principal rival ideol\u00f3gico \u2013 o socialismo-comunista \u2013 deixou, tal como foi sustentado pelo \u00faltimo dos j\u00e1 referidos pensadores, a democracia capitalista liberal sem concorrentes de relevo no terreno das ideologias pol\u00edticas, ou, pelo menos, sem um advers\u00e1rio ideol\u00f3gico capaz de mobilizar as popula\u00e7\u00f5es e se expandir a n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>Para um europeu e ocidental, falar de ideologias pol\u00edticas \u00e9 algo que remete essencialmente para a modernidade europeia e para acontecimentos pol\u00edticos de grande impacto como a Revolu\u00e7\u00e3o Americana (1776), a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789), ou a Revolu\u00e7\u00e3o Russa (1917). E \u00e9 algo que remete tamb\u00e9m para ide\u00e1rios extremamente heterog\u00e9neos como o nacionalismo, o liberalismo, a social-democracia, o socialismo-comunista, o fascismo, o nacional-socialismo (nazismo) etc, onde se encontram concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas bem diferenciadas ou at\u00e9 radicalmente opostas. Desta forma, a ideia de concep\u00e7\u00f5es d\u00edspares sobre a forma ideal de organiza\u00e7\u00e3o politica, econ\u00f3mica e social de um Estado e das pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es internacionais, surge estreitamente associada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de ideologia. O automatismo desta associa\u00e7\u00e3o faz normalmente esquecer que existe, pelo menos, um importante tra\u00e7o comum entre estas, geralmente n\u00e3o evidenciado: todas s\u00e3o, na sua ess\u00eancia, produtos da cultura europeia e ocidental, no sentido em que os seus pensadores e as suas ra\u00edzes filos\u00f3fico-pol\u00edticas se encontram nesta. Assim, nomes t\u00e3o d\u00edspares e com formas de pensamento pr\u00f3ximas ou radicalmente opostas, como Karl Marx, Rosa Luxemburg, Antonio Gramsci, Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger, John Stuart Mill ou Alexis de Tocqueville, entre muitos outros, correspondem, tamb\u00e9m, a diferentes facetas da cultura europeia e ocidental, independentemente de poderem ser motivo de exalta\u00e7\u00e3o ou da mais veemente rejei\u00e7\u00e3o. Por outro lado, algumas ideologias \u2013 os casos mais \u00f3bvios s\u00e3o liberalismo e o socialismo-comunista \u2013, est\u00e3o, desde a sua g\u00e9nese, claramente imbu\u00eddas de pretens\u00f5es universalistas, no sentido em que v\u00eam as suas ideias como project\u00e1veis (e v\u00e1lidas) para toda humanidade, embora os seus principais pensadores estejam indubitavelmente enraizados na cultura europeia e ocidental. Uma outra caracter\u00edstica das ideologias pol\u00edticas e da luta ideol\u00f3gica tal como esta \u00e9 tradicionalmente entendida na Europa e Ocidente, \u00e9 que estas t\u00eam um campo de batalha privilegiado no terreno da economia pol\u00edtica<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Esta imagem mental enraizou-se devido a uma longa e \u00e1rdua competi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, cujas ra\u00edzes se encontram no s\u00e9culo XIX, protagonizada, essencialmente, pelo liberalismo e pelo socialismo-comunista, e que marcou o campo da discuss\u00e3o pol\u00edtica durante a quase totalidade s\u00e9culo XX: \u00e0 economia de mercado, baseada na lei da oferta e da procura, na livre iniciativa empresarial e na propriedade privada, articulada com a liberdade de com\u00e9rcio e de investimento no plano internacional, opunha-se a concep\u00e7\u00e3o diametralmente oposta de uma economia planificada de direc\u00e7\u00e3o central, que eliminava os mecanismos do mercado e a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, e, se n\u00e3o suprimia, pelo menos condicionava fortemente o com\u00e9rcio e o investimento internacional, que era feito numa l\u00f3gica n\u00e3o capitalista e de rela\u00e7\u00f5es entre Estados.<\/p>\n<p>Se, tal como num passado que j\u00e1 vem do s\u00e9culo XIX, continuarmos a ver (ou a entender que deve ser) a economia pol\u00edtica o terreno privilegiado onde actuam as ideologias, acabamos por chegar a uma ideia relativamente pr\u00f3xima do \u00abfim da hist\u00f3ria\u00bb (Francis Fukuyama) ou do \u00abfim do fim do fim das ideologias\u00bb (Russel Jacoby), ou seja, que a luta ideol\u00f3gica se dissipou, ou, pelo menos, perdeu a grande import\u00e2ncia que tinha no passado, devido sobretudo ao colapso do modelo sovi\u00e9tico (o principal suporte da ideologia socialista-comunista no plano internacional e do seu modelo econ\u00f3mico-social<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>). Todavia, esta vis\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica tendo como cerne da disputa a economia pol\u00edtica \u2013 a qual, como j\u00e1 fizemos notar, foi herdada do s\u00e9culo XIX e se alicer\u00e7ou ao longo da maior parte s\u00e9culo XX \u2013 n\u00e3o permite captar outras formas da competi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que surgiram nos finais do s\u00e9culo XX e in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, que n\u00e3o devem ser menosprezadas, particularmente enquanto objecto de estudo.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Assim, e alargando a grelha de leitura de forma a corrigir o estreitamento da perspectiva, a primeira hip\u00f3tese que colocamos \u00e9 a de que dentro das sociedades europeias e ocidentais se atravessa um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o e de reconfigura\u00e7\u00e3o. Neste processo, \u00e9 poss\u00edvel observar-se que, ainda que lentamente, o cerne da disputa est\u00e1 a deslocar-se do terreno da economia pol\u00edtica para a \u00abcultura\u00bb<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> \u2013 a inc\u00f3gnita, \u00e0 qual s\u00f3 o tempo permitir\u00e1 responder, \u00e9 saber se esta \u00e9 apenas uma desloca\u00e7\u00e3o na actual conjuntura e sem grande relev\u00e2ncia no longo prazo (uma moda ef\u00e9mera, como todas as modas, intelectuais ou materiais), ou vai ser uma tend\u00eancia estruturante do confronto ideol\u00f3gico nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas \u2013, surgindo, associadas a esta desloca\u00e7\u00e3o e reconfigura\u00e7\u00e3o, novas teorias e\/ou ideologias pol\u00edticas<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> cujos contornos ainda n\u00e3o est\u00e3o bem definidos. Isto por que estas ainda se encontram em fase formativa e n\u00e3o t\u00eam visibilidade pol\u00edtica junto do cidad\u00e3o comum da maneira tradicional, ou seja, sob a forma de um partido ou movimento pol\u00edtico organizado como tal, pelo que n\u00e3o s\u00e3o percebidas como ideologias (pol\u00edticas). No contexto desta reconfigura\u00e7\u00e3o do terreno ideol\u00f3gico que est\u00e1 a ocorrer dentro das sociedades europeias e ocidentais, provavelmente o principal conjunto de ideias que hoje tem a ambi\u00e7\u00e3o de afirmar-se como uma ideologia (pol\u00edtica) \u00e9 o multiculturalismo \u2013 no sentido que Paul Kelly<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> d\u00e1 aos conceitos de \u00abmulticulturalismo\u00bb e de \u00abideologia\u00bb \u2013, o qual foi qualificado por Russel Jacoby (1999: 33), de forma bastante sugestiva mas tamb\u00e9m que n\u00e3o deixa de ser ir\u00f3nica, como a \u00abideologia de uma era sem ideologia\u00bb.<\/p>\n<p>Uma segunda hip\u00f3tese que colocamos \u00e9 a de que esta reconfigura\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica n\u00e3o est\u00e1 apenas a ocorrer no plano interno das sociedades europeias e ocidentais, mas que se est\u00e3o tamb\u00e9m a verificar desenvolvimentos relevantes e que merecem particular aten\u00e7\u00e3o, no plano internacional. Aqui a dificuldade \u2013 tamb\u00e9m directamente relacionada com a perpetua\u00e7\u00e3o dos quadros mentais que v\u00eam do s\u00e9culo XIX \u2013 \u00e9 a de que para o cidad\u00e3o comum e para o pr\u00f3prio estudioso da Filosofia Pol\u00edtica e da Ci\u00eancia Pol\u00edtica, normalmente \u00e9 assumido, ainda que de forma impl\u00edcita (e geralmente por omiss\u00e3o), que n\u00e3o existem ideologias pol\u00edticas de relevo, que n\u00e3o sejam europeias e ocidentais. Foi com este quadro mental bem interiorizado que o final da Guerra-Fria e o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi amplamente percebido como o final do confronto ideol\u00f3gico, que deixou a democracia capitalista liberal sem um rival ideol\u00f3gico \u00e0 altura. Mas ser\u00e1 esta leitura da realidade inteiramente correcta, ou ser\u00e1 que est\u00e1 a distorcer a nossa percep\u00e7\u00e3o do mundo do s\u00e9culo XXI? Ser\u00e1 que n\u00e3o existem mesmo ideologias pol\u00edticas n\u00e3o ocidentais, com ambi\u00e7\u00f5es de poderem ser abra\u00e7adas (ou impostas) a toda a humanidade, tal como o liberalismo ou o socialismo-comunista, e com potencial de expans\u00e3o a n\u00edvel mundial? Um olhar sobre o t\u00edtulo curioso de um conjunto de ensaios do pensador iraniano Ali Shariati \u2013 <em>Marxismo e outras fal\u00e1cias Ocidentais<\/em> \u2013 publicado postumamente em l\u00edngua inglesa em 1980, logo ap\u00f3s o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o iraniana (1978-1979), pode dar-nos uma primeira pista: o marxismo, uma fal\u00e1cia ocidental? Qual o sentido desse t\u00edtulo?! Mas o marxismo n\u00e3o era a ideologia do \u00abLeste\u00bb, do campo oriental, ou seja da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e seus aliados, e o ide\u00e1rio pol\u00edtico do principal rival\/inimigo do Ocidente? A compreens\u00e3o para este t\u00edtulo talvez se possa encontrar num livro precedente, publicado originalmente em 1949, em plena Guerra Fria, da autoria do eg\u00edpcio Sayyid Qutb, <em>Justi\u00e7a Social no Isl\u00e3o<\/em> \u2013 o principal te\u00f3rico dos Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos (ou Irmandade Mu\u00e7ulmana) \u2013, onde este afirmava: \u00abN\u00e3o nos devemos deixar iludir pela aparentemente dura e amarga luta entre os campos oriental e ocidental. Nenhum deles tem mais do que uma filosofia materialista da vida e no seu pensamento est\u00e3o bastante pr\u00f3ximos\u00bb. E acrescentava ainda: \u00abn\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre os seus princ\u00edpios e as sua filosofias\u00bb. A verdadeira luta \u00e9 \u00abentre o Isl\u00e3o por um lado, e os campos combinados do Oriente e do Ocidente, por outro lado. O Isl\u00e3o \u00e9 o verdadeiro poder que se op\u00f5e \u00e0 for\u00e7a da filosofia materialista professada igualmente pela Europa, Am\u00e9rica e R\u00fassia\u00bb (1949 [2000]: 316). Assim, ao contr\u00e1rio da convic\u00e7\u00e3o expressa por Francis Fukuyama no final da Guerra-Fria e, alguns anos mais tarde, tamb\u00e9m por Gilles Kepel em <em>Jihad: expansion et d\u00e9clin de l\u00b4 islamisme\/Jihad<\/em>: Expans\u00e3o e Decl\u00ednio do Islamismo (2000) \u2013 o qual, entretanto, j\u00e1 reviu a sua posi\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> \u2013, a hip\u00f3tese \u00e9 a de que o islamismo, enquanto fen\u00f3meno ideol\u00f3gico, continua a ter um significativo potencial de expans\u00e3o a n\u00edvel internacional \u2013 n\u00e3o s\u00f3 dentro dos pa\u00edses isl\u00e2micos como fora destes, incluindo nas sociedades europeias e ocidentais \u2013, pelo que necessita de ser analisado na sua complexidade (em rigor, n\u00e3o h\u00e1 um islamismo, mas diversos islamismos, com diferen\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o propriamente s\u00f3 de pormenor) evitando a tenta\u00e7\u00e3o de leituras imediatistas e generaliza\u00e7\u00f5es excessivas que, normalmente, originam previs\u00f5es falaciosas<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> (as previs\u00f5es t\u00eam-se mostrado um assunto perigoso nas Ci\u00eancias Sociais&#8230;).<\/p>\n<p>A apreens\u00e3o da reconfigura\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica no plano internacional levanta um problema ainda mais dif\u00edcil e melindroso do que dentro das sociedades europeias e ocidentais, que come\u00e7a logo no facto do assunto nos obrigar a olhar para fora das nossas fronteiras culturais \u2013 no caso em an\u00e1lise para o Isl\u00e3o \u2013, implicando um esfor\u00e7o fundamental em tentar perceber como \u00e9 visto o \u00abpol\u00edtico\u00bb no seu interior, em conhecer os fundamentos e correntes da sua reflex\u00e3o pol\u00edtica e os principais pensadores que lhe est\u00e3o associados, os quais, no essencial, s\u00e3o estranhos, ou, pelo menos, mal conhecidos da tradi\u00e7\u00e3o de pensamento europeia e ocidental; e, tarefa que n\u00e3o \u00e9 de menor import\u00e2ncia, apreender as suas pr\u00f3prias categorias de pensamento e conceitos, que tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o os da Ci\u00eancia Pol\u00edtica com a qual estamos familiarizados. Estas induzem a tomar a parte com o todo, ou seja, a que qualquer ideia pol\u00edtica e\/ou ideologia pol\u00edtica com proveni\u00eancia no Isl\u00e3o acabe por ser quase automaticamente percebida na Europa e Ocidente apenas como \u00abmu\u00e7ulmana\u00bb ou mais provavelmente, no actual contexto, como \u00abfundamentalista mu\u00e7ulmana\u00bb; e, numa vers\u00e3o sim\u00e9trica desta, que as ideias pol\u00edticas e\/ou ideologias pol\u00edticas origin\u00e1rias da cultura europeia e ocidental sejam quase automaticamente rotuladas como \u00abcrist\u00e3s\u00bb, ou eventualmente ocidentais. Estas leituras s\u00e3o incorrectas do ponto de vista do rigor anal\u00edtico, pois entre outras imprecis\u00f5es, sugerem uma uniformidade de ideias e de pontos de vista que, naturalmente n\u00e3o existem, nem dentro Ocidente, nem dentro do Isl\u00e3o. Por isso, s\u00e3o potencialmente negativas<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> do ponto de vista pol\u00edtico, na medida em que tendem a gerar automatismos e estere\u00f3tipos falaciosos na percep\u00e7\u00e3o da outra cultura, do g\u00e9nero mu\u00e7ulmano = fundamentalista, do qual, por exemplo, uma imagem sim\u00e9trica \u00e9 secularista = crist\u00e3o (ou, de uma forma ainda mais absurda para um ocidental, comunista = crist\u00e3o). Assim, a quest\u00e3o da reconfigura\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica no plano internacional implica tra\u00e7ar uma distin\u00e7\u00e3o crucial, embora, como veremos ao longo deste trabalho, bastante complexa e dif\u00edcil de efectuar, entre o Isl\u00e3o como religi\u00e3o e cultura (ou seja, a pr\u00e1tica religiosa-cultural dos mu\u00e7ulmanos) e o Isl\u00e3o como pol\u00edtica (o islamismo<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>) o qual, na nossa opini\u00e3o, deve ser analisado teoricamente e tratado na pr\u00e1tica como uma ideologia pol\u00edtica. Todavia, a representa\u00e7\u00e3o e o estudo do islamismo como uma ideologia pol\u00edtica enfrenta, pelo menos, tr\u00eas poderosos obst\u00e1culos intelectuais: i) o islamismo \u00e9 um movimento muito amplo e heterog\u00e9neo \u2013 onde se reflectem as pr\u00f3prias divis\u00f5es entre o Isl\u00e3o sunita e xiita \u2013, que adquire tonalidades locais nos diferentes pa\u00edses e que tem variantes importantes do ponto de vista dos objectivos e dos meios utilizados para a ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o que torna virtualmente imposs\u00edvel efectuar uma \u00abteoria geral do islamismo\u00bb; ii) o islamismo deriva de uma matriz cultural que n\u00e3o \u00e9 europeia nem ocidental o que dificulta muito o seu conhecimento, mesmo para as camadas da popula\u00e7\u00e3o mais instru\u00eddas da Europa e Ocidente e at\u00e9 com conhecimentos espec\u00edficos na \u00e1rea da Filosofia Pol\u00edtica e Ci\u00eancia Pol\u00edtica; iii) os princ\u00edpios do islamismo s\u00e3o inspirados e\/ou derivados, directa ou indirectamente, do livro sagrado dos mu\u00e7ulmanos \u2013 o Cor\u00e3o \u2013 e da Tradi\u00e7\u00e3o ligada aos ditos e ac\u00e7\u00f5es de Maom\u00e9 \u2013 Suna<em>\/ahadith<\/em> \u2013 os quais funcionam, ou, talvez de forma mais precisa, s\u00e3o objecto de re-apropria\u00e7\u00e3o como \u00abmanifesto pol\u00edtico\u00bb, o que induz, nas categorias de pensamento e linguagem ocidentais, o automatismo de representa\u00e7\u00e3o e classifica\u00e7\u00e3o desta realidade como um assunto de \u00abreligi\u00e3o\u00bb e n\u00e3o como um assunto de \u00abpol\u00edtica\u00bb. Apenas um exemplo muito evidente deste problema, o qual se pode encontrar na Carta de 1988 do movimento palestiniano fundado pelo Xeique Ahmed Yassin, o HAMAS (cujo acr\u00f3nimo significa literalmente \u00abzelo\u00bb ou \u00abfervor\u00bb) \u2013 e que, actualmente, det\u00e9m o poder executivo da Autoridade Palestiniana, atrav\u00e9s de um governo chefiado por Ismail Haniya. Este documento, no seu artigo 8\u00ba, clarifica que, em termos ideol\u00f3gicos, \u00abAl\u00e1 \u00e9 o objectivo, o Profeta o modelo e o Cor\u00e3o a Constitui\u00e7\u00e3o\u00bb (ver anexo 12)<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Devemos, por esse facto, tratar o HAMAS \u2013 ou, para utilizarmos outro exemplo bem conhecido do Isl\u00e3o xiita, o Hezbol\u00e1 (<em>Hezbollah\/Hizbollah<\/em>) do L\u00edbano, o movimento liderado pelo Xeique Sayyid Hassan Nasrallah, literalmente o \u00abPartido de Deus\u00bb, que tamb\u00e9m participa no governo liban\u00eas \u2013 como um grupo religioso e considerar as cr\u00edticas ao seu ide\u00e1rio (que \u00e9 pol\u00edtico, no sentido europeu e ocidental da palavra) como uma ofensa religiosa e aos valores sagrados do Isl\u00e3o, que este afirma defender, tal como o HAMAS?<\/p>\n<p>Para a abordagem desta complexa tem\u00e1tica apresentamos, em seguida, um trabalho que estruturamos em cinco cap\u00edtulos, seguido de doze anexos com documentos e textos diversos. No primeiro cap\u00edtulo analisamos o islamismo como uma ideologia pol\u00edtica de raiz n\u00e3o ocidental com ambi\u00e7\u00f5es universalistas, procurando tra\u00e7ar os seus contornos essenciais e captar a heterogeneidade das suas formas de pensamento e actua\u00e7\u00e3o, sem qualquer pretens\u00e3o de exaustividade e, muito menos, com o intuito de apresentar uma esp\u00e9cie de \u00abteoria geral do islamismo\u00bb. Aqui, por simplifica\u00e7\u00e3o e facilidade anal\u00edtica agrupamos o islamismo que tem, ou pode vir a ter, uma rela\u00e7\u00e3o com a realidade europeia \u2013 aquela que nos interessa mais directamente neste livro \u2013, em tr\u00eas grandes variantes: i) o islamismo radical; ii) o islamismo \u00abcapitalista\u00bb; iii) o islamismo \u00abmulticulturalista\u00bb. Num segundo cap\u00edtulo, abordamos a quest\u00e3o da conex\u00e3o cultural do islamismo na Europa e do potencial para a difus\u00e3o das suas ideias constitu\u00eddo pela significativa di\u00e1spora mu\u00e7ulmana (pa\u00edses da Europa Ocidental) e popula\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas aut\u00f3ctones (pa\u00edses dos Balc\u00e3s), para depois tentarmos ver em que medida os diferentes movimentos islamistas exploram esta conex\u00e3o cultural, tentando mobilizar os mu\u00e7ulmanos religiosos e\/ou sociol\u00f3gicos<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a> para a sua causa pol\u00edtica. Num terceiro cap\u00edtulo, a abordagem incide sobre os desenvolvimentos ideol\u00f3gicos no interior das sociedades ocidentais, associado \u00e0 desloca\u00e7\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o do terreno da economia pol\u00edtica para o terreno da cultura. Desta forma, \u00e9 analisado especificamente o caso do multiculturalismo e da sua ambi\u00e7\u00e3o de moldar a actual agenda pol\u00edtica de acordo com a sua ideologia da diferen\u00e7a, dando origem \u00e0s chamadas \u00abpol\u00edticas da identidade\u00bb. Neste contexto, \u00e9 analisada a quest\u00e3o da perda de relev\u00e2ncia da antiga ideia da luta de classes marxista (proletariado <em>versus <\/em>burguesia), que vem desde o s\u00e9culo XIX, e do potencial de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da nova ideia multiculturalista da \u00abluta pelo reconhecimento\u00bb (identidade oprimida <em>versus <\/em>cultura dominante) a qual, em grande parte, resulta da fragmenta\u00e7\u00e3o e desloca\u00e7\u00e3o para o terreno da cultura da cl\u00e1ssica luta ideol\u00f3gica sobre a economia pol\u00edtica. Num quarto cap\u00edtulo s\u00e3o passadas em revista as op\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gias do islamismo nas sociedades ocidentais, nomeadamente ao n\u00edvel das poss\u00edveis alian\u00e7as que este pode tentar forjar com diversos movimentos sociais e pol\u00edticos das sociedades europeias e ocidentais (por exemplo, com a Igreja Cat\u00f3lica ou as diversas Igrejas Protestantes, em causas como o aborto, a cr\u00edtica aos dogmas religiosos, ou a difus\u00e3o do \u00abcriacionismo\u00bb contra a teoria da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies de Charles Darwin; ou, numa outra via, com \u00abideologias fortes\u00bb de direita, explorando afinidades ideol\u00f3gicas como a concep\u00e7\u00e3o \u00abtotalizante\u00bb do pol\u00edtico e interesses comuns \u2013 a democracia capitalista liberal como principal inimigo de ambas; ou ainda com a esquerda multiculturalista empenhada no \u00abreconhecimento da identidade\u00bb e na \u00abcelebra\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a\u00bb, pela oportunidade de promover a islamiza\u00e7\u00e3o social e pela alian\u00e7a contra um advers\u00e1rio comum: as sociedades ocidentais estruturadas pelos valores do liberalismo. No \u00faltimo cap\u00edtulo do livro efectuamos um estudo de caso sobre o <em>Andalus<\/em> (a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica mu\u00e7ulmana), onde analisamos a maneira como esta realidade hist\u00f3rica tem vindo a ser retratada em diversos livros e artigos de autores ocidentais e mu\u00e7ulmanos. Mais concretamente, analisamos a actual tend\u00eancia para considerar o<em> Andalus<\/em> um modelo de \u00absociedade multicultural\u00bb e de conviv\u00eancia entre os \u00abPovos de Livro\u00bb, bem como para sustentar que o \u00abprocesso do colonialismo europeu come\u00e7ou no mundo mu\u00e7ulmano com a reconquista\u00bb. A nossa an\u00e1lise vai discutir em que medida isto se apoia em dados hist\u00f3rico-cient\u00edficos novos, que est\u00e3o a levar a um aperfei\u00e7oamento do conhecimento que t\u00ednhamos do passado; ou, pelo contr\u00e1rio, se o passado conhecido \u00e9 o mesmo, sendo o elemento novo a ideologia multiculturalista do presente, que induz uma reinterpreta\u00e7\u00e3o \u00abrevisionista\u00bb do passado, funcionando como \u00abimagem no espelho\u00bb da distor\u00e7\u00e3o nacionalista e euroc\u00eantrica do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>The end of the of the end of ideology<\/em>\/O fim do fim do fim da ideologia \u00e9 o curioso t\u00edtulo do primeiro cap\u00edtulo do livro de Russel Jacoby, <em>The End of Utopia. Politics and Culture in an Age of Apathy<\/em> (1999).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ver Raymon Aron (1955), <em>L&#8217;Opium des intellectuals<\/em>, Paris: Calmann-L\u00e9vy.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver Daniel Bell (1960), <em>The End of Ideology: On the Political Exhaustion of Political Ideas in the Fifties<\/em>, New York: The Free Press.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ver o artigo de Francis Fukyama <em>The End of History?<\/em> originalmente publicado em 1989 na revista <em>The National Interest<\/em>, bem como ao livro posteriormente publicado por este sob o t\u00edtulo <em>The End of History and the Last Man<\/em> (1992), onde a ideia do ensaio inicial foi desenvolvida e aprofundada.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> O estudo da economia pol\u00edtica preocupa-se com o significado e a import\u00e2ncia da economia para a sociedade dentro do quadro fornecido pelo poder pol\u00edtico do Estado. A sua an\u00e1lise combina o estudo dos factores econ\u00f3micos com o estudo dos factores pol\u00edticos, centrando especialmente a aten\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem, ou s\u00e3o suscept\u00edveis de ser estabelecidas, entre a riqueza e o poder, quer dentro Estado (disciplina de Economia Pol\u00edtica), quer ao no plano das rela\u00e7\u00f5es internacionais (disciplina de Economia Pol\u00edtica Internacional).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Em rela\u00e7\u00e3o a esta vis\u00e3o algo simplista da \u00abfal\u00eancia\u00bb do socialismo-comunista importa notar que, para al\u00e9m da nebulosa constitu\u00edda pelos movimentos anti-globaliza\u00e7\u00e3o\/alterglobaliza\u00e7\u00e3o \u2013 os quais s\u00e3o alimentados, numa parte n\u00e3o despicienda, por concep\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas derivadas dessa \u00e1rea pol\u00edtica \u2013, actualmente podem observar-se v\u00e1rias tentativas de recupera\u00e7\u00e3o, ainda que de forma parcial, deste ide\u00e1rio pol\u00edtico na Am\u00e9rica Latina, como, por exemplo, no caso Venezuela e, aparentemente tamb\u00e9m, da Bol\u00edvia. Todavia, \u00e9 ainda prematuro avaliar estes desenvolvimentos pol\u00edticos e saber se s\u00e3o um tend\u00eancia consistente e em afirma\u00e7\u00e3o, ou estamos apenas perante um mero fen\u00f3meno conjuntural desta regi\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Note-se que com isto n\u00e3o estamos a querer valorar positivamente esta \u00abdeslocaliza\u00e7\u00e3o\u00bb do terreno competi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, mas apenas a constatar uma realidade que \u00e9 observ\u00e1vel no terreno social e pol\u00edtico.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Quando falamos em \u00abcultura\u00bb estamos a utilizar o conceito n\u00e3o no sentido cl\u00e1ssico mo mesmo \u2013 que \u00e9 o da no\u00e7\u00e3o de cultura que emergiu com o Iluminismo, e que inclui \u00abideias sobre a educa\u00e7\u00e3o, sobre cultivar-se e sobre o progresso\u00bb (Russel Jacoby, 1999: 35) \u2013 mas no sentido amplo do conceito de \u00abcultura\u00bb que emergiu na sequ\u00eancia de v\u00e1rios trabalhos antropol\u00f3gicos influentes da primeira metade do s\u00e9culo XX (Franz Boas, Margaret Mead, Ruth Benedict, etc.). Como explica Russel Jacoby (<em>idem<\/em>: 38) \u2013 que \u00e9 um cr\u00edtico deste alargamento excessivo do conceito de \u00abcultura\u00bb, que acabou por se impor ao longo da segunda metade do s\u00e9culo XX \u2013 \u00aba no\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica de cultura exclui um <em>ethos <\/em>liberal e igualit\u00e1rio; este \u00e9 o seu apelo e a sua verdade. Assim, a <em>cultura<\/em> perdeu qualquer especificidade, tornando-se tudo e qualquer coisa. Quando a <em>cultura <\/em>\u00e9 definida como um \u2018conjunto de instrumentos, c\u00f3digos, rituais, comportamentos\u2018, n\u00e3o apenas cada povo, mas cada grupo ou subgrupo tem a sua cultura [&#8230;] A cultura deixou de se restringir ao \u2018conjunto\u2018 das actividades de um povo, podendo <em>qualquer <\/em>actividade de<em> qualquer<\/em> grupo formar uma cultura ou subcultura\u00bb.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Mas que j\u00e1 come\u00e7am a ser bastante identificadas como teorias e\/ou ideologias pol\u00edticas no campo acad\u00e9mico, sobretudo nos meios anglo-sax\u00f3nicos. Veja-se, entre outros, o manual editado em 2004 por<em> Colin Farrelly <\/em>sob o t\u00edtulo<em> Contemporary Political Thory<\/em>\/Teoria Pol\u00edtica Contempor\u00e2nea, onde existe um cap\u00edtulo espec\u00edfico para o multiculturalismo, com artigos de Charles Taylor, Bhikku Parekh e Chandran Kukathas (e existem tamb\u00e9m um outro cap\u00edtulo com uma tem\u00e1tica de alguma maneira relacionada com o multiculturalismo, que \u00e9 chamada \u00abdemocracia deliberativa\u00bb, com artigos de Iris Marion Young, Amy Gutmann e Dennis Thompson, e John S. Dryzek, sendo os dois primeiros autores bem conhecidos tamb\u00e9m pelos seus contributos para a teoria e o debate sobre o multiculturalismo).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Paul Kelly na introdu\u00e7\u00e3o livro <em>Multiculturalism Reconsidered<\/em>\/Reconsiderar o Multiculturalismo (2002), editado com um conjunto de artigos que debatem as cr\u00edticas de fundo anteriormente feitas por Brian Barry em <em>Culture and Equality<\/em>\/Cultura e Igualdade (2001), explica o significado do multiculturalismo como ideologia: \u00abBut what does multiculturalism mean? If we stick to the \u2018circumstances of multiculturalism\u2018, it seems to mean little more than the fact of societies with more than one culture in the public realm. The claims of these cultures may conflict the holders of one may find themselves subordinated to another culture, but the point is that merely that there is more than one. In this sense, multiculturalism is largely uncontroversial as it is a fact; but clearly that is not what is at stake [\u2026] To respond to these new circumstances, it is argued, we need rethink our categories and values and offer a new form of theoretical language or ideology. (By ideology, I simply mean a political theory that is rooted in political practice and experience and not any technical or philosophical claim about the cognitive or epistemological status of political concepts and discourse.) In this latter sense multiculturalism is a new ideology or form of political theory \u2013 it is the latest \u2018ism\u2018. It is primarily in this sense that we will be discussing multiculturalism in this book. It is as a new ideology of form of political that multiculturalism has become the focus of such hated debate. That said, even within the respective camps of both theoretical or ideological multiculturalists there are also heated debates about which particular public policies are best suited to deal with the issues of group recognition, integration or accommodation\u00bb (Paul Kelly, 2002 [2005]: 4).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ver Gilles Kepel (2004).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Tal como aconteceu com o trabalho de Francis Fukuyama (1989 e 1992), que foi objecto de in\u00fameras cr\u00edticas e coment\u00e1rios bastante mordazes ao longo dos \u00faltimos anos devido \u00e0 sua previs\u00e3o do \u00abfim da hist\u00f3ria\u00bb (a universaliza\u00e7\u00e3o da democracia capitalista liberal e o triunfo do <em>american way of life<\/em>), tamb\u00e9m a previs\u00e3o de \u00abdecl\u00ednio do islamismo\u00bb de Gilles Kepel, feita em 2000, lhe valeu v\u00e1rias cr\u00edticas sarc\u00e1sticas devido ao rumo dos acontecimentos internacionais ap\u00f3s o 11 de Setembro de 2001 (anteriormente, em 1992, outro acad\u00e9mico franc\u00eas, Olivier Roy, tinha tamb\u00e9m previsto \u00abo fracasso do Isl\u00e3o pol\u00edtico\u00bb no seu livro L<em>\u00b4 \u00e9chec de l\u00b4 Islam politique<\/em>&#8230;). Provavelmente por essa raz\u00e3o, nas edi\u00e7\u00f5es mais recentes do livro de Gilles Kepel a \u00abexpans\u00e3o e decl\u00ednio do islamismo\u00bb desapareceu do t\u00edtulo. Isto pode-se verificar quer nas actuais edi\u00e7\u00f5es (edi\u00e7\u00f5es de bolso) dispon\u00edveis no mercado, efectuadas em l\u00edngua francesa, quer na edi\u00e7\u00e3o actualizada em l\u00edngua inglesa, publicada em 2003 j\u00e1 sob um t\u00edtulo diferente (<em>Jihad: The Trail of Political Islam<\/em>\/<em>Jihad<\/em>: O Rasto do Isl\u00e3o pol\u00edtico)<em>.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Essa confus\u00e3o conceptual \u2013 que infelizmente \u00e9 muito vulgar dentro e fora da literatura acad\u00e9mica \u2013 pode detectar-se no excerto inicialmente citado do livro de Francis Fukuyama (1992: 64-65), onde \u00abIsl\u00e3o\u00bb (que deveria designar uma religi\u00e3o e cultura) e o \u00abislamismo\u00bb (que deveria designar especificamente uma ideologia politica) s\u00e3o utilizados de forma equivalente, quando, numa utiliza\u00e7\u00e3o com maior rigor anal\u00edtico deveriam ter conte\u00fados conceptuais diferenciados (isto, ressalvando a hip\u00f3tese de tal confus\u00e3o se dever a uma tradu\u00e7\u00e3o infeliz para l\u00edngua portuguesa, o que s\u00f3 poder\u00e1 ser confirmado atrav\u00e9s da compara\u00e7\u00e3o do texto com o original em l\u00edngua inglesa, a qual n\u00e3o tivemos oportunidade de efectuar). Mais do que em Francis Fukuyama, \u00e9 provavelmente no trabalho de Samuel P. Huntington (1993 e 1996), pelo seu grande impacto dentro e fora da academia (est\u00e1 na origem da actual vulgata do \u00abchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u00bb, uma express\u00e3o utilizada por muitos que nunca leram sequer os trabalhos de Huntington), que a n\u00e3o separa\u00e7\u00e3o conceptual entre o \u00abIsl\u00e3o\u00bb e o \u00abislamismo\u00bb \u00e9 mais lament\u00e1vel e pode ter consequ\u00eancias pol\u00edticas negativas, gerando imagens distorcidas destas duas realidades. Isto, apesar de existir algum m\u00e9rito na chamada de aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia das quest\u00f5es \u00abculturais\u00bb nas rela\u00e7\u00f5es internacionais (Bassam Tibi, 1998: 16 e ss). Como teremos oportunidade de ver no desenvolvimento deste livro, esta confus\u00e3o conceptual est\u00e1 longe de ocorrer apenas nos te\u00f3ricos, nos <em>media<\/em>, e no p\u00fablico em geral das sociedades ocidentais. Tamb\u00e9m no mundo mu\u00e7ulmano se verifica, frequentemente, uma mistura, deliberada ou n\u00e3o, entre o Isl\u00e3o e o islamismo \u2013 basta lembrar os j\u00e1 citados casos de Sayyid Qutb e Ali Shariati \u2013, a qual tem a ver, entre outras raz\u00f5es que aprofundaremos, com as estrat\u00e9gias pol\u00edticas islamistas, os quais se pretendem apresentar a si pr\u00f3prios como os verdadeiros (e \u00fanicos) representantes do Isl\u00e3o, tentando abafar as correntes e os movimentos pol\u00edticos que se lhe op\u00f5em.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> No sentido pr\u00f3ximo do que Bruno \u00c9tienne (1997) e Antoine Sfeir <em>et al.<\/em> (2002), deram ao conceito de \u00abislamismo\u00bb, o qual ser\u00e1 objecto uma an\u00e1lise detalhada no trabalho que a seguir apresentamos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> A Carta do Hamas de 1988 pode ser tamb\u00e9m consultada numa tradu\u00e7\u00e3o do texto integral, em l\u00edngua inglesa, que est\u00e1 dispon\u00edvel no <em>site<\/em> da Cornell University\/<em>Middle East &amp; Islamic Studies Collection<\/em> em http:\/\/www.library.cornell.edu\/colldev\/mideast\/hamas.htm<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Quando falamos em \u00abmu\u00e7ulmano sociol\u00f3gico\u00bb, estamos a referir-nos a uma identidade social que se pode aplicar a todos aqueles que descendem de pai(s) mu\u00e7ulmano(s), independentemente do seu grau de convic\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica religiosa, que at\u00e9 pode ser muito baixa ou mesmo nula. Naturalmente que num estudo em profundidade sobre as comunidades mu\u00e7ulmanas na Europa, ser\u00e1 necess\u00e1rio avaliar, entre outros aspectos importantes (como, por exemplo, o rito do Isl\u00e3o sunita e\/ou xiita seguido, a origem nacional e \u00e9tnica das popula\u00e7\u00f5es, etc.), o grau de ades\u00e3o \u00e0 cren\u00e7a e pr\u00e1tica religiosa dos \u00abmu\u00e7ulmanos sociol\u00f3gicos\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes<\/p>\n<p>\u00a9 Almedina, 2006 (excerto, Introdu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 um facto que, tal como o liberalismo e o comunismo, o islamismo constitui uma ideologia sistem\u00e1tica e coerente, com um c\u00f3digo pr\u00f3prio de moralidade e uma doutrina de justi\u00e7a e pol\u00edtica e social. 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