{"id":1088,"date":"2015-06-06T23:00:46","date_gmt":"2015-06-06T23:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1088"},"modified":"2019-04-07T23:00:49","modified_gmt":"2019-04-07T23:00:49","slug":"turquia-metamorfoses-de-identidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/turquia-metamorfoses-de-identidade\/","title":{"rendered":"Turquia: Metamorfoses de Identidade"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Turquia-Metamorfoses-de-Identidade.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1089\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Turquia-Metamorfoses-de-Identidade.jpg\" alt=\"Turquia Metamorfoses de Identidade\" width=\"408\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Turquia-Metamorfoses-de-Identidade.jpg 408w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Turquia-Metamorfoses-de-Identidade-204x300.jpg 204w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Turquia-Metamorfoses-de-Identidade-370x544.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Turquia-Metamorfoses-de-Identidade-394x580.jpg 394w\" sizes=\"auto, (max-width: 408px) 100vw, 408px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>Dificilmente se encontrar\u00e1 outro povo mantendo durante tanto tempo rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o conflituais e amb\u00edguas com a Europa, formando um contencioso feito de invejas e ressentimentos, de fascina\u00e7\u00e3o e de terror, tudo isto depositado em sedimentos de preconceitos, onde se enterra toda a abordagem pouco racional do problema. Assim, uma vez cometida a imprud\u00eancia da escolha de tal objecto de estudo, era sobretudo necess\u00e1rio fazer prova de humildade, n\u00e3o pretendendo fazer a hist\u00f3ria dos turcos e da sua rela\u00e7\u00e3o com o Ocidente, enumerar os seus pretensos defeitos e qualidades, para acabar por lhe atribuir bons e maus pontos, ou, ainda, revestir-se duma objectividade condescendente esquecendo os milhares de volumes j\u00e1 escritos sobre este assunto.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">St\u00e9phane YERASIMOS (1994a: 9-10)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Encontrando-se no centro da problem\u00e1tica das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, a quest\u00e3o da \u00abidentidade\u00bb<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> cultural\/social\/nacional s\u00f3 nos anos 90 do s\u00e9culo XX adquiriu, especialmente sob o impulso dos conflitos da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da ex-Jugosl\u00e1via, uma merecida aten\u00e7\u00e3o nos estudos desta \u00e1rea acad\u00e9mico-cient\u00edfica. Todavia, apesar do grande aumento de interesse por esta problem\u00e1tica no Mundo Ocidental, a generalidade das abordagens n\u00e3o conseguiu, ainda hoje, particularmente em Portugal, ultrapassar uma certa superficialidade, quer factual, quer anal\u00edtica. Provavelmente, a este facto n\u00e3o s\u00e3o estranhos nem o car\u00e1cter perif\u00e9rico do Estado portugu\u00eas, face \u00e0 Geografia e \u00e0 Hist\u00f3ria europeia, nem as exig\u00eancias de uma an\u00e1lise acad\u00e9mico-cient\u00edfica de tipo pluridisciplinar que esta tem\u00e1tica requer.<\/p>\n<p>Esta constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de causar preocupa\u00e7\u00f5es, sobretudo se tivermos em conta que, para o portugu\u00eas e europeu do s\u00e9culo XXI, a quest\u00e3o da \u00abidentidade\u00bb se reveste de uma especial import\u00e2ncia, que se pode facilmente aferir pela observa\u00e7\u00e3o das seguintes tend\u00eancias hist\u00f3rico-sociol\u00f3gicas, e pelas interroga\u00e7\u00f5es que estas inevitavelmente projectam quanto aos seus desenvolvimentos futuros:<\/p>\n<p>(i) o ideal de uma identidade (nacional<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>) relativamente homog\u00e9nea e controlada pelo Estado, est\u00e1, cada vez mais, a ser confrontado com uma realidade cultural-nacional muito mais heterog\u00e9nea e pluralista, de tipo multicultural;<\/p>\n<p>(ii) o processo de integra\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia (UE) pode estar a produzir, ainda que lentamente, uma nova identidade \u2013 a europeia \u2013, a qual, no futuro, poder\u00e1 tender para uma sobreposi\u00e7\u00e3o face \u00e0(s) identidade(s) nacionais;<\/p>\n<p>(iii) os sucessivos alargamentos da UE aos pa\u00edses do Centro e Leste europeu, e, especialmente, o poss\u00edvel alargamento \u00e0 Rep\u00fablica da Turquia, oriunda de uma matriz cultural-civilizacional com um grau de diferencia\u00e7\u00e3o mais evidente, colocam n\u00e3o s\u00f3 a interroga\u00e7\u00e3o de saber quais as consequ\u00eancias destes processos ao n\u00edvel pol\u00edtico e estrat\u00e9gico, mas, tamb\u00e9m, <em>a quest\u00e3o da possibilidade, e dos limites, duma osmose cultural, ou seja, da possibilidade de integra\u00e7\u00e3o de culturas claramente diferenciadas, numa identidade europeia que se pretende (minimamente) harmoniosa e consistente.<\/em><\/p>\n<p>Estas \u00faltimas s\u00e3o as quest\u00e3o centrais da investiga\u00e7\u00e3o que a seguir apresentamos, com particular incid\u00eancia no problema identit\u00e1rio. Para a sua an\u00e1lise, propomo-nos explorar aquele que, na nossa opini\u00e3o, \u00e9, muito provavelmente, o caso mais interessante, multifacetado e complexo de (re)constru\u00e7\u00e3o de uma identidade cultural-nacional, em moldes radicalmente diferentes do passado, que se pode encontrar no mundo do s\u00e9culo XX\/XXI: a transforma\u00e7\u00e3o do antigo Imp\u00e9rio Otomano na actual Rep\u00fablica da Turquia. Desde logo, porque envolveu um esfor\u00e7o de metamorfose cultural, percebido no exterior como \u00abocidentalizador\u00bb, que pode ser considerada \u00fanico no contexto Euro-Asi\u00e1tico, uma vez que se desenrola entre duas \u00e1reas civilizacionais bem diferenciadas e historicamente rivais: o Ocidente e o Isl\u00e3o. Mas tamb\u00e9m porque este processo teve, e tem, consequ\u00eancias sobre a Europa, cuja imagem de si pr\u00f3pria tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9, propriamente, uma constante ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Um estudo acad\u00e9mico-cient\u00edfico com o(s) objectivo(s) que nos propomos, levanta, naturalmente, dificuldades de tipo metodol\u00f3gico e epistemol\u00f3gico a qualquer investigador origin\u00e1rio do Mundo Ocidental, especialmente em Portugal, pela reduzida dimens\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o existente nesta \u00e1rea espec\u00edfica das Ci\u00eancias Sociais e Humanas. Desde logo, em termos metodol\u00f3gicos, levanta-se o problema de praticamente n\u00e3o existirem quaisquer documentos oficiais, ou mesmo fontes secund\u00e1rias, em l\u00edngua portuguesa. H\u00e1 tamb\u00e9m o problema do acesso \u00e0s fontes em l\u00edngua turca, dificuldade essa que pode ser ultrapassada, pelo menos em parte, pelo recurso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o oficial do governo da Rep\u00fablica da Turquia, publicada em l\u00edngua inglesa, nos \u00absites\u00bb oficiais na Internet dos seus diferentes org\u00e3os ministeriais e organismos associados.<\/p>\n<p>Por outro lado, em termos epistemol\u00f3gicos, levanta-se aqui, e com especial intensidade, a quest\u00e3o do etnocentrismo uma vez que o tema em an\u00e1lise implica, frequentemente, o recurso \u00e0s perspectivas do \u00aboutro\u00bb, quer sobre si p\u00f3prio, quer sobre n\u00f3s \u00abeuropeus\u00bb e \u00abocidentais\u00bb, tudo isto num objecto de an\u00e1lise que implica conjugar conceitos, ideias e teorias oriundas de duas \u00e1reas culturais-civilizacionais, as quais, apesar das suas frequentes interac\u00e7\u00f5es, t\u00eam, paralelamente, as suas pr\u00f3prias matrizes culturais espec\u00edficas profundamente enraizadas. Tamb\u00e9m aqui, a diversifica\u00e7\u00e3o das fontes e a confronta\u00e7\u00e3o de perspectivas pareceu-nos ser a melhor maneira de tentar reduzir, o mais poss\u00edvel, o inevit\u00e1vel etnocentrismo subjacente a uma investiga\u00e7\u00e3o particularmente complexa, onde o substracto cultural do investigador n\u00e3o \u00e9 um mero <em>fait-divers <\/em>e a objectividade \u00e9 um ideal nunca atingido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Conforme faz notar o antrop\u00f3logo Bozkurt G\u00fcven\u00e7 (1997:2), a identidade permite responder a uma quest\u00e3o primordial: \u00abquem \u00e9s tu?\u00bb. Muitas das respostas a essa quest\u00e3o podem ser qualificadas como escolhas pessoais; outras s\u00e3o modelos de identidades sociais (colectivas) que podem ser qualificadas como culturais (lingu\u00edstica, \u00e9tnica, religiosa) ou de tipo nacional (oficial ou ideol\u00f3gica). A afilia\u00e7\u00e3o tende a ser identificada com um grupo social onde o volunt\u00e1rio, ou o imposto, leva um sujeito a demarcar-se do(s) outro(s), atrav\u00e9s de um processo de metacontraste, onde se acentuam aquelas caracter\u00edsticas que o separam do(s) \u00aboutro(s)\u00bb. Por outras palavras, a identidade social envolve, simultaneamente, um processo de inclus\u00e3o e exclus\u00e3o e est\u00e1 associada a uma categoriza\u00e7\u00e3o n\u00f3s\/eles. Para al\u00e9m disso, importa notar que as imagens nunca s\u00e3o congruentes ou similares na medida em que o conceito de \u00abn\u00f3s\u00bb \u00e9 tendencialmente diferente das imagens externas que os outros t\u00eam \u00absobre n\u00f3s\u00bb.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Para al\u00e9m das tradicionais categorias de identidade (individual, social e nacional), o soci\u00f3logo Manuel Castells (1997 [2003]: 4-5) fala na exist\u00eancia de outras categorias como a \u00abidentidade legitimadora\u00bb, entendida como a identidade que \u00ab\u00e9 introduzida pelas institui\u00e7\u00f5es dominantes na sociedade no intuito de expandir e racionalizar a sua domina\u00e7\u00e3o sobre os actores sociais\u00bb (por exemplo, a identidade nacional que \u00e9 gerida e controlada pelas institui\u00e7\u00f5es do Estado); e na \u00abidentidade de resist\u00eancia\u00bb que, por sua vez, este define como aquela que \u00e9 \u00abcriada por actores que se encontram em posi\u00e7\u00f5es\/condi\u00e7\u00f5es desvalorizadas e\/ou estigmatizadas pela l\u00f3gica de domina\u00e7\u00e3o, constru\u00edndo, assim, trincheiras de resist\u00eancia e sobreviv\u00eancia com base em princ\u00edpios diferentes dos que permeiam as institui\u00e7\u00f5es da sociedade, ou mesmo opostos a estes \u00faltimos\u00bb (por exemplo, os grupos sociais, \u00e9tnicos e\/ou religiosos que n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos pelo Estado).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes<\/p>\n<p>\u00a9 Imprensa de Ci\u00eancias Sociais, 2005 (excerto, Introdu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dificilmente se encontrar\u00e1 outro povo mantendo durante tanto tempo rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o conflituais e amb\u00edguas com a Europa, formando um contencioso feito de invejas e ressentimentos, de fascina\u00e7\u00e3o e de terror, tudo isto depositado em sedimentos de preconceitos, onde se enterra toda a abordagem pouco racional do problema. 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