{"id":1125,"date":"2015-06-06T12:30:29","date_gmt":"2015-06-06T12:30:29","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1125"},"modified":"2015-06-13T20:23:27","modified_gmt":"2015-06-13T20:23:27","slug":"teorias-das-relacoes-internacionais-da-abordagem-classica-ao-debate-pos-positivista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/teorias-das-relacoes-internacionais-da-abordagem-classica-ao-debate-pos-positivista\/","title":{"rendered":"Teorias das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais: da abordagem cl\u00e1ssica ao debate p\u00f3s-positivista"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1011\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-763x1024.jpg\" alt=\"TRInternacionais\" width=\"763\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-763x1024.jpg 763w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-1527x2048.jpg 1527w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-1568x2104.jpg 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-224x300.jpg 224w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-768x1030.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-1145x1536.jpg 1145w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-370x496.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-570x765.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-770x1033.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-1170x1570.jpg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-432x580.jpg 432w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-scaled.jpg 1908w\" sizes=\"auto, (max-width: 763px) 100vw, 763px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Direi, talvez, \u00e0 laia de introdu\u00e7\u00e3o, por que escolhi exactamente este tema. Sou racionalista, e com isto quero dizer que acredito no debate e na discuss\u00e3o. Do mesmo modo acredito na possibilidade, tanto quanto na conveni\u00eancia, de aplicar a ci\u00eancia aos problemas que se levantam no campo social.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Karl POPPER<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O contacto com a abordagem te\u00f3rico-acad\u00e9mica das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (RI)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> pode ser um exerc\u00edcio simultaneamente fascinante e decepcionante. Abstraindo do facto de essas sensa\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias poderem resultar da motiva\u00e7\u00e3o e apet\u00eancia de cada um de n\u00f3s para esta \u00e1rea do conhecimento, o que ocorre \u00e9 que a literatura desta \u00e1rea acad\u00e9mico-cient\u00edfica, \u00e9, desde logo, marcada por uma extrema diversidade de correntes te\u00f3ricas, com r\u00f3tulos que podem ser t\u00e3o sugestivos, quanto desesperantes, para quem inicia o seu estudo: realista, neo-realista, liberal, neo-liberal, tradicionalista, behaviorista, pluralista, globalista, estruturalista, construtivista, feminista, p\u00f3s-estruturalista, p\u00f3s modernista, etc&#8230; Se, por um lado, isto revela uma aliciante riqueza de perspectivas, por outro lado, traz consigo incertezas te\u00f3ricas e confus\u00f5es conceptuais frequentemente geradas por r\u00f3tulos e classifica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas pouco precisas. Par al\u00e9m disso, encontram-se facilmente abordagens tendencialmente incompat\u00edveis, ou, pelo menos, de dif\u00edcil integra\u00e7\u00e3o num todo coerente, bem como teoriza\u00e7\u00f5es e especula\u00e7\u00f5es algo primitivas<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> as quais, quer do ponto de vista da solidez cient\u00edfica, quer do ponto de vista do rigor anal\u00edtico n\u00e3o deixam de merecer naturais reservas e distanciamento cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Para os esp\u00edritos que gostam de \u00e1reas com s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o, de autonomia acad\u00e9mica longamente estabelecida e inquestionada, e com respostas \u00e0s quest\u00f5es centrais do seu estudo tendencialmente consensuais, ou, pelo menos assentes em consensos bastante alargados, o contacto com a disciplina de RI pode converter-se facilmente num exerc\u00edcio decepcionante, pois quase nada disto existe. N\u00e3o s\u00f3 estas s\u00e3o de recente autonomiza\u00e7\u00e3o no quadro da academia, como abundam as perguntas e as teorias que procuram responder \u00e0s mesmas, mas escasseiam as respostas amplamente partilhadas pelos investigadores e te\u00f3ricos da disciplina. Mas, por outro lado, n\u00e3o \u00e9 esta uma situa\u00e7\u00e3o mais ou menos normal no processo de afirma\u00e7\u00e3o duma disciplina recente, e at\u00e9 do processo de conhecimento cient\u00edfico geral, especialmente do que se desenvolve no \u00e2mbito Ci\u00eancias Sociais e Humanas, as \u00e1reas de refer\u00eancia privilegiadas para o estudo das RI?<\/p>\n<p>Na Europa, com algumas excep\u00e7\u00f5es importantes como \u00e9 o caso brit\u00e2nico, que, importa sublinhar, foi onde surgiu, pela primeira vez, uma c\u00e1tedra universit\u00e1ria de RI, no imediato p\u00f3s-I Guerra Mundial, os problemas atr\u00e1s apontados sentem-se ainda com mais intensidade, facto ao qual n\u00e3o \u00e9 certamente estranho uma autonomiza\u00e7\u00e3o muito recente, pelo menos quando comparada com disciplinas acad\u00e9micas cl\u00e1ssicas, como a Hist\u00f3ria, a Economia, a Geografia e o Direito. Neste contexto, importa notar ainda que, em Portugal, a sua autonomiza\u00e7\u00e3o \u00e9 das mais tardias da Europa, s\u00f3 tendo ocorrido nos <em>curricula<\/em> universit\u00e1rios, a partir da segunda metade da d\u00e9cada de 70 do s\u00e9culo XX. Assim, n\u00e3o surpreende que estas sofram duma tibieza<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> bastante similar aquela que h\u00e1 duas d\u00e9cadas atr\u00e1s Jacques Huntzinger (1986: 8) constatava existir no meio acad\u00e9mico franc\u00eas da disciplina. Nem \u00e9 tamb\u00e9m muito surpreendente que o diagn\u00f3stico que, na altura, este efectuou para tentar explicar essa tibieza, possa tamb\u00e9m conter pistas que, ainda hoje, s\u00e3o v\u00e1lidas para n\u00f3s. Estas pistas apontavam duas grandes raz\u00f5es para essa debilidade: (i) uma primeira raz\u00e3o, de tipo ex\u00f3geno, estava relacionada com o cepticismo e resist\u00eancia das disciplinas acad\u00e9micas cl\u00e1ssicas relativamente \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o das RI; (ii) uma segunda raz\u00e3o, de cariz end\u00f3geno, e provavelmente mais preocupante, era a da inexist\u00eancia de verdadeiros teorizadores no \u00e2mbito da disciplina<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Seja como for, uma coisa \u00e9 certa, as pistas explicativas de Huntzinger apontam para uma imagem geral da disciplina que \u00e9 bastante id\u00eantica \u00e0 que foi tra\u00e7ada por Stanley Hoffmann que, num t\u00edtulo bastante conhecido, qualificou-a como <em>An<\/em> <em>American Social Science<\/em> (1977), querendo com isto evidenciar a esmagadora predomin\u00e2ncia da Am\u00e9rica do Norte, ou seja dos Estados Unidos, em aspectos chave que condicionam o desenvolvimento e a afirma\u00e7\u00e3o da disciplina. Estes s\u00e3o: (i) o n\u00edvel do interesse pela tem\u00e1tica das rela\u00e7\u00f5es internacionais, nos meios pol\u00edticos, acad\u00e9micos, e no p\u00fablico em geral; (ii) o est\u00edmulo e o apoio dado \u00e0s actividades de investiga\u00e7\u00e3o nesta \u00e1rea; (iii) o volume e a qualidade da produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Mais recentemente, j\u00e1 no final dos anos 90 do s\u00e9culo XX, Ole W\u00e6ver, num artigo sugestivamente intitulado <em>The Sociology of a Not So International Discipline: American and European Developments in International Relations<\/em> (1998), publicado numa das principais revistas acad\u00e9micas da disciplina, a inevitavelmente norte-americana <em>International Organization<\/em>, chegou a conclus\u00f5es mais ou menos similares, chamando, no entanto, \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para o facto de existir uma excep\u00e7\u00e3o relevante, que resulta dos esfor\u00e7os de autonomia da Escola Inglesa<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, \u00e0 qual ele pr\u00f3prio se considera ligado intelectualmente.<\/p>\n<p>A primazia anglo-sax\u00f3nica na disciplina, especialmente pela via do pensamento norte-americano, torna praticamente imposs\u00edvel efectuar um trabalho te\u00f3rico sem refer\u00eancias mais ou menos alargadas aos debates que marcaram, e marcam, a sua evolu\u00e7\u00e3o nesse contexto acad\u00e9mico, cultural e pol\u00edtico. Naturalmente que esta predomin\u00e2ncia esmagadora tem importantes implica\u00e7\u00f5es na maneira como o estudo da disciplina \u00e9 feito fora desse contexto, como \u00e9 o caso portugu\u00eas. Uma primeira implica\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que, como j\u00e1 se pode imaginar, a generalidade das teorias, conceitos e ideias, que marcam a disciplina est\u00e3o amplamente dependentes da importa\u00e7\u00e3o desses desenvolvimentos te\u00f3rico-conceptuais corridos no universo anglo-sax\u00f3nico, o que, em si mesmo, n\u00e3o \u00e9 um nenhum f\u00e9nomeno negativo, bem pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma fonte de imprescind\u00edvel inspira\u00e7\u00e3o e vitalidade para qualquer esfor\u00e7o s\u00e9rio de teoriza\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o \u00e9 que, n\u00e3o invulgarmente, se cai num excesso de centragem nesse universo cultural, o que faz perder de vista que h\u00e1 outros desenvolvimentos<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> relevantes, ainda que mais discretos e limitados, fora do mesmo.<\/p>\n<p>Uma segunda implica\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil efectuar uma filtragem e\/ou adapta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dessas teorias e conceitos \u00e0 realidade portuguesa, pois, a tend\u00eancia natural, \u00e0 qual n\u00e3o escapam certamente os acad\u00e9micos e investigadores das RI, at\u00e9 pela enorme apet\u00eancia sociol\u00f3gica portuguesa pelos produtos importados, sejam eles banais bens de consumo, ou produtos culturais sofisticados, \u00e9 reproduzir, mais ou menos acriticamente, discursos de moda no pa\u00eds a, b, ou c, os quais, frequentemente, se auto justificam, n\u00e3o tanto pelos seus m\u00e9ritos intr\u00ednsecos, mas, mais pela autoridade que lhe \u00e9 implicitamente conferida pela notoriedade do autor, da corrente te\u00f3rica, da universidade, ou do pa\u00eds onde foram produzidos, associada \u00e0 novidade da sua introdu\u00e7\u00e3o em Portugal.<\/p>\n<p>Por isso, na nossa opini\u00e3o, um dos desafios mais interessantes e importantes que se levantam \u00e0 produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica portuguesa \u00e9 o que resulta da possibilidade de se tentar converter a desvantagem que inegavelmente resulta da aus\u00eancia duma tradi\u00e7\u00e3o de estudo e investiga\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma da disciplina, numa certa vantagem, beneficiando do facto do pensamento te\u00f3rico n\u00e3o estar excessivamente moldado, ou at\u00e9 mesmo deformado, por uma determinada escola de pensamento ou universo cultural. Claro que isto s\u00f3 poder\u00e1 ser feito com o desenvolvimento de um esfor\u00e7o deliberado e sistem\u00e1tico para aceder a um leque mais alargado de contributos e perspectivas, o que, convenhamos, n\u00e3o \u00e9 tarefa nada f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Falando, agora, do pequeno contributo que nos propomos dar para o estudo te\u00f3rico da disciplina, imp\u00f5e-se efectuar, previamente, algumas observa\u00e7\u00f5es \u00e0 sua leitura. A primeira observa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que se trata de um trabalho de s\u00edntese de teorias e de ideias, de tipo quase introdut\u00f3rio a uma mat\u00e9ria ampla e complexa como \u00e9 a da(s) Teoria(s) das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> em que os objectivos s\u00e3o os seguintes: (i) funcionar como um elemento de orienta\u00e7\u00e3o e de reflex\u00e3o sobre o estudo da disciplina, fornecendo algumas pistas para estudos subsequentes em maior profundidade; (ii) estimular o interesse intelectual pela disciplina aos alunos das diferentes licenciaturas de RI existentes em Portugal, bem como aos alunos em que a sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica n\u00e3o implica uma abordagem sistem\u00e1tica dos seus conte\u00fados, mas, apenas, contactos mais ou menos selectivo com estas; (iii) e, ainda, agu\u00e7ar a curiosidade intelectual de todos aqueles que t\u00eam apet\u00eancia suficiente para se poderem interessar pela sua produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-acad\u00e9mica, nas suas diferentes facetas.<\/p>\n<p>A segunda observa\u00e7\u00e3o \u00e9 que, face \u00e0 amplitude e complexidade da tem\u00e1tica, bem como \u00e0 diversidade de escolas e correntes que marcam a disciplina, oriundas das mais diversas Ci\u00eancias Sociais e Humanas, opt\u00e1mos por tentar abranger, sem quaisquer pretens\u00f5es de exaustividade, uma razo\u00e1vel diversidade te\u00f3rica, tendo particularmente em conta alguns dos seus desenvolvimentos mais recentes, por n\u00f3s julgados como os mais representativos da evolu\u00e7\u00e3o da disciplina. Neste sentido, as escolhas efectuadas s\u00e3o bastante pessoais e resultam de um acumular de leituras, de actividades de investiga\u00e7\u00e3o, e de experi\u00eancias docentes, pelo que, naturalmente, tamb\u00e9m podem ser objecto de cr\u00edticas e de discord\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A terceira observa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que o facto de termos intitularmos o nosso trabalho<em> Teorias das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais: da abordagem cl\u00e1ssica ao debate p\u00f3s-positivista<\/em><a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> resulta duma dupla inten\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a de chamar \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para a extrema diversidade te\u00f3rica que se pode encontrar no \u00e2mbito da disciplina, bem como para o controverso debate que, desde finais dos anos 80 do s\u00e9culo XX se instalou na Teoria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, por um processo de importa\u00e7\u00e3o e transposi\u00e7\u00e3o de ideias, que teve origem em disciplinas como a Filosofia, a Sociologia e a Literatura. A quarta observa\u00e7\u00e3o \u00e9 que este debate \u00e9, sem qualquer margem para d\u00favidas, amplamente difundido pelo pensamento anglo-sax\u00f3nico da disciplina, pelo que, ao procedermos \u00e0 sua transposi\u00e7\u00e3o para Portugal, estamos, inevitavelmente, n\u00e3o s\u00f3 em d\u00e9bito intelectual com este, como incorremos no risco, que atr\u00e1s apontamos, de podermos ser reprodutores acr\u00edticos do mesmo e de enviesarmos a imagem da disciplina por um enfoque excessivo na agenda de investiga\u00e7\u00e3o do universo intelectual anglo-sax\u00f3nico. Contudo, achamos que vale a pena correr esses riscos. Desde logo, o facto de temos consci\u00eancia destes, \u00e9, em si mesmo, j\u00e1 um bom ponto de partida. Depois, porque este debate, ao contr\u00e1rio dos anteriores que s\u00e3o razoavelmente conhecidos em Portugal, \u00e9 praticamente desconhecido, ou, pelo menos, bastante ignorado<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>; mas tamb\u00e9m porque este \u00e9 marcado, quer por saud\u00e1veis preocupa\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> e ontol\u00f3gicas<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, quer por um certo radicalismo de perspectivas que se op\u00f5em \u00e0s abordagens realistas-racionalistas-empiricistas tradicionalmente dominantes na disciplina, cujas implica\u00e7\u00f5es vale a pena analisar com alguma profundidade.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, vamos agora fazer uma breve refer\u00eancia \u00e0 estrutura do trabalho que a seguir apresentamos. Este foi dividido em duas partes que podem ser consideradas essencialmente aut\u00f3nomas entre si. Numa I\u00aa Parte, expomos e analisamos, de uma maneira essencialmente cronol\u00f3gica, os grandes debates (re)fundadores da disciplina desde a c\u00e9lebre controv\u00e9rsia que op\u00f4s realistas a idealistas, e que marcou definitivamente a autonomiza\u00e7\u00e3o do estudo acad\u00e9mico das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, passando pelo debate entre behavioristas a tradicionalistas e pelo debate inter-paradigm\u00e1tico, e terminando com o mais recente debate p\u00f3s-positivista. Por sua vez, na II\u00aa Parte, s\u00e3o analisadas algumas das teorias gerais ou parciais que, na nossa \u00f3ptica, representam as principais propostas contempor\u00e2neas da disciplina, e que, impl\u00edcita ou explicitamente, cont\u00eam vis\u00f5es prospectivas, por procurarem antever e\/o influenciar a constru\u00e7\u00e3o do Mundo em devir. O objectivo \u00e9 naturalmente explicar o teor dessas diferentes propostas, mas \u00e9 tamb\u00e9m o de enquadr\u00e1-las nas grandes correntes te\u00f3ricas da disciplina. Essas propostas e\/ou vis\u00f5es do Mundo em devir s\u00e3o a(s) realista(s), a(s) liberal(ais), a(s) construtivista(s) e a(s) p\u00f3s-modernista(s). Em liga\u00e7\u00e3o com estas \u00abvis\u00f5es do Mundo\u00bb<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>, apresentamos, no final do nosso trabalho, um estudo de caso te\u00f3rico sobre a polimorfia das concep\u00e7\u00f5es da seguran\u00e7a, cujo objectivo \u00e9 analisar as diferentes formas de conceptualiza\u00e7\u00e3o dessa realidade e evidenciar a maneira como essas conceptualiza\u00e7\u00f5es se articulam com as diferentes correntes te\u00f3ricas da disciplina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Popper (1948 [1964]: 336).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Utilizamos a pr\u00e1tica usualmente institu\u00edda de usar a sigla \u00abRI\u00bb para falar da disciplina e a palavra \u00abrela\u00e7\u00f5es internacionais\u00bb, por extenso, para falar do conte\u00fado da disciplina.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Contrariando o discurso laudat\u00f3rio que habitualmente se pode encontrar nos textos da disciplina, esta \u00e9 tamb\u00e9m a opini\u00e3o do brit\u00e2nico Barry Buzan (1995 [1997]: 214), quando, ao pronunciar-se sobre esta quest\u00e3o, refere que \u00abInternational Relations theory is still in its infancy, and there is no disguising the fact that the discipline is theoretically primitive\u00bb.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ainda assim, importa lembrar h\u00e1 contribui\u00e7\u00f5es indubitavelmente merit\u00f3rias feitas entre n\u00f3s. Desde logo, o trabalho fundador de Adriano Moreira, ao qual se deve a primeira e \u00fanica <em>Teoria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/em> at\u00e9 agora elaborada por um acad\u00e9mico portugu\u00eas, a qual foi publicada pela primeira vez no ano de 1996, e j\u00e1 teve v\u00e1rias reedi\u00e7\u00f5es. Para al\u00e9m deste trabalho fundador, e sem quaisquer preocupa\u00e7\u00f5es de exaustividade, importa referir que outras publica\u00e7\u00f5es de relevo foram feitas nesta \u00e1rea, como, por exemplo, o trabalho de Manuel Gon\u00e7alves Martins, especialmente direccionado para o campo da pol\u00edtica internacional, intitulado <em>Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (Pol\u00edtica Internacional), <\/em>originalmente publicado em 1995 e tamb\u00e9m j\u00e1 objecto de uma reedi\u00e7\u00e3o, em finais do ano transacto., ou o de Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Fernandes, sobre as organiza\u00e7\u00f5es internacionais, <em>Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Factos, Teorias e Organiza\u00e7\u00f5es<\/em> (1990). Entretanto, outros trabalhos relevantes surgiram recentemente, como o <em>Curso de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/em> de Adelino Maltez e as <em>Vis\u00f5es do Mundo<\/em> de Jo\u00e3o Gomes Cravinho, ambos editados em 2002, e que parecem apontar para um interesse acrescido pela produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-acad\u00e9mica no \u00e2mbito da disciplina, neste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Segundo Huntzinger (1986: 8), em Fran\u00e7a, as \u00fanicas excep\u00e7\u00f5es dignas de registo eram constitu\u00eddas pelos trabalhos de cariz sociol\u00f3gico, ou hist\u00f3rico-sociol\u00f3gico, de Raymond Aron e Marcel Merle.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Sobre a agenda de investiga\u00e7\u00e3o da Escola Inglesa e a sua contribui\u00e7\u00e3o para o estudo acad\u00e9mico e a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica das RI, ver Barry Buzan (1999) e Jo\u00e3o Marques de Almeida (1999).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Parece-nos ser bastante razo\u00e1vel admitir que existem, um pouco por toda a Europa, contributos aut\u00f3nomos relevantes para a disciplina, especialmente em Fran\u00e7a, na Alemanha e nos pa\u00edses Escandinavos, e at\u00e9 em outras \u00e1reas do Mundo, como, por exemplo, no Jap\u00e3o, na China, na \u00cdndia ou no Brasil. O problema \u00e9 que estes normalmente n\u00e3o s\u00e3o objecto de divulga\u00e7\u00e3o fora dos pa\u00edses onde s\u00e3o produzidos, nem junto do Mundo anglo-sax\u00f3nico, o que leva a que estes contributos sejam mais ou menos ignorados, dada a enorme predomin\u00e2ncia na disciplina dos textos escritos em l\u00edngua inglesa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Quando nos referimos \u00e0 Teoria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, no singular, estamos a dar-lhe um sentido amplo, que \u00e9 pr\u00f3ximo daquele que lhe \u00e9 dado por Philippe Braillard [ed.] (1977a: 113), e que abrange quer as teorias gerais, quer as pr\u00f3prias teorias parciais: \u00abPor uma teoria geral das rela\u00e7\u00f5es internacionais entendemos uma teoria que procura que procura, a partir de uma vis\u00e3o global, esclarecer estas rela\u00e7\u00f5es no seu conjunto, por oposi\u00e7\u00e3o a uma teoria parcial que se limita a um aspecto destas rela\u00e7\u00f5es, a um tipo de processo que elas manifestam, que procura explicar em detalhe certos tipos precisos de comportamento\u00bb.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> O nome debate \u00abp\u00f3s-positivista\u00bb \u00e9 tomado de empr\u00e9stimo a um t\u00edtulo da autoria de Yosef Lapid <em>The Third Debate: On the Prospects of International Theory in a Post-positivist Era<\/em>, originalmente publicado na revista acad\u00e9mica norte-americana, <em>International Studies Quarterly<\/em>, no ano de 1989.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Algumas excep\u00e7\u00f5es a este <em>statu quo<\/em> de indiferen\u00e7a ao debate p\u00f3s-positivista s\u00e3o os artigos de Jos\u00e9 Manuel Pureza (1998a e 1998b), desenvolvidos, sobretudo, numa perspectiva socol\u00f3gico-jur\u00eddica, e, tamb\u00e9m, o trabalho de investiga\u00e7\u00e3o de Ana Paula Brand\u00e3o (1999) sobre a reconceptualiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a no \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es internacionais, onde a diversidade te\u00f3rica que marca o debate p\u00f3s-positivista \u00e9 bem evidenciada.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Epistemol\u00f3gicas, no sentido que habitualmente \u00e9 dado \u00e0 palavra no \u00e2mbito da Filosofia das Ci\u00eancias, que \u00e9 o estudo da origem, da natureza ou do valor do conhecimento, ou seja, o estudo cr\u00edtico dos princ\u00edpios, das hip\u00f3teses e resultados das diferentes Ci\u00eancias, procurando determinar-lhes a origem l\u00f3gica, o valor e o alcance objectivo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ontol\u00f3gicas, no sentido em que normalmente \u00e9 dado no \u00e2mbito da Filosofia, que \u00e9 o de uma reflex\u00e3o de tipo sobre ser enquanto ser, que aqui \u00e9 efectuada especificamente sobre a disciplina de RI.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Express\u00e3o que tomamos de empr\u00e9stimo ao t\u00edtulo do livro de Jo\u00e3o Gomes Cravinho, <em>Vis\u00f5es do Mundo. As Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e o Mundo Contempor\u00e2neo<\/em> (2002).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes<\/p>\n<p>\u00a9 Almedina, 2009 (excerto, Introdu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Direi, talvez, \u00e0 laia de introdu\u00e7\u00e3o, por que escolhi exactamente este tema. Sou racionalista, e com isto quero dizer que acredito no debate e na discuss\u00e3o. Do mesmo modo acredito na possibilidade, tanto quanto na conveni\u00eancia, de aplicar a ci\u00eancia aos problemas que se levantam no campo social. Karl POPPER[1] &nbsp; O contacto &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/teorias-das-relacoes-internacionais-da-abordagem-classica-ao-debate-pos-positivista\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;Teorias das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais: da abordagem cl\u00e1ssica ao debate p\u00f3s-positivista&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,56],"tags":[57],"class_list":["post-1125","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livros","category-manuais-academicos","tag-teorias-das-relacoes-internacionais","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1125","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1125"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1125\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1125"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1125"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1125"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}