{"id":1186,"date":"2015-06-06T22:45:50","date_gmt":"2015-06-06T22:45:50","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1186"},"modified":"2015-06-14T18:40:29","modified_gmt":"2015-06-14T18:40:29","slug":"a-questao-de-chipre-implicacoes-para-a-uniao-europeia-e-a-adesao-da-turquia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/a-questao-de-chipre-implicacoes-para-a-uniao-europeia-e-a-adesao-da-turquia\/","title":{"rendered":"A Quest\u00e3o de Chipre: Implica\u00e7\u00f5es para a Uni\u00e3o Europeia e a Ades\u00e3o da Turquia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Questao-de-Chipre.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1188\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Questao-de-Chipre-839x1024.jpg\" alt=\"A Questao de Chipre\" width=\"839\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Questao-de-Chipre-839x1024.jpg 839w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Questao-de-Chipre-246x300.jpg 246w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Questao-de-Chipre-768x938.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Questao-de-Chipre-370x452.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Questao-de-Chipre-570x696.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Questao-de-Chipre-770x940.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Questao-de-Chipre-475x580.jpg 475w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Questao-de-Chipre.jpg 1117w\" sizes=\"auto, (max-width: 839px) 100vw, 839px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>O problema de Chipre consiste n\u00e3o em uma mas em quatro quest\u00f5es relacionadas. A mais importante destas \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre os cipriotas gregos e os cipriotas turcos, a qual configura a quest\u00e3o mais dif\u00edcil: podem dois grupos nacionais amplamente separados encontrar uma coexist\u00eancia pac\u00edfica envolvendo duas l\u00ednguas, duas religi\u00f5es e duas interpreta\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria?<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Christopher HITCHENS (1984 [1997], p. 158)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Situada no extremo oriental do mar Mediterr\u00e2neo, pr\u00f3xima da Turquia, da S\u00edria e do L\u00edbano, a ilha de Chipre (<em>Kypros<\/em> em grego e <em>Kibris<\/em> em turco) \u00e9 o territ\u00f3rio da actual Uni\u00e3o Europeia (UE) geograficamente mais afastado de Portugal. A dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica parece acompanhar de perto a dist\u00e2ncia hist\u00f3rica e o (des)conhecimento da actual realidade pol\u00edtica, social, econ\u00f3mica e cultural do pa\u00eds. Visto a partir deste extremo ocidental da Europa, Chipre normalmente s\u00f3 tem alguma visibilidade nos <em>media <\/em>quando as negocia\u00e7\u00f5es de ades\u00e3o da Turquia \u00e0 Uni\u00e3o Europeia colidem com o problema da reunifica\u00e7\u00e3o da ilha e as posi\u00e7\u00f5es do governo cipriota. Todavia, v\u00e1rias d\u00favidas ocorrem: como \u00e9 que se chegou a esta situa\u00e7\u00e3o estranha e quase incompreens\u00edvel para a actual <em>island of peace<\/em> europeia? Porque \u00e9 que a ilha foi dividida, de uma maneira que faz lembrar a Alemanha durante a Guerra Fria? Qual a raz\u00e3o pela qual este novo Estado-membro da Uni\u00e3o Europeia entrou truncado <em>de facto<\/em> em mais de 1\/3 do seu territ\u00f3rio e em cerca de 1\/5 da sua popula\u00e7\u00e3o? Porque falhou, em 2004, o plano das Na\u00e7\u00f5es Unidas no seu objectivo de reunificar as duas partes da ilha? Ser\u00e1 poss\u00edvel que, no quadro da Uni\u00e3o Europeia, e num horizonte temporal razoavelmente pr\u00f3ximo, se possa alcan\u00e7ar este objectivo e dispensar definitivamente os servi\u00e7os da mais antiga for\u00e7a de manuten\u00e7\u00e3o de paz das Na\u00e7\u00f5es Unidas ainda a actuar no terreno (a UNFICYP)?<\/p>\n<p>Embora estes sejam problemas do presente, o estudo do actual conflito de Chipre acaba por nos reconduzir, de uma ou de outra forma, a um olhar sobre v\u00e1rios aspectos do passado como a Antiguidade Cl\u00e1ssica greco-romana, o nascimento e expans\u00e3o do Cristianismo, o reencontro traum\u00e1tico dos dois ramos desavindos da Cristandade sob as cruzadas, as rela\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas e de rivalidade com um Isl\u00e3o \u00e1rabe (e turco) triunfante e a expans\u00e3o colonial do Ocidente europeu. Mas, talvez mais do que sobre qualquer outro aspecto hist\u00f3rico, a ter de reflectir novamente sobre aquilo a que a historiografia europeia costumava chamar a \u00abquest\u00e3o do Oriente\u00bb<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> e sobre os Estados que surgiram sob as cinzas do Imp\u00e9rio Otomano. Vale a pena ter em mente que esta quest\u00e3o diplom\u00e1tica mais ou menos obscura para o europeu e ocidental m\u00e9dio, ocupou n\u00e3o s\u00f3 as chancelarias europeias durante cerca de um s\u00e9culo e meio, como foi marcada por v\u00e1rias crises graves<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> que colocaram as tradicionais pot\u00eancias (R\u00fassia, Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a e \u00c1ustria e mais tarde tamb\u00e9m a Alemanha e a It\u00e1lia unificadas) em situa\u00e7\u00f5es de conflito pol\u00edtico e militar. E que as principais \u00e1reas de instabilidade e conflitualidade actual na periferia interna ou externa da Uni\u00e3o Europeia t\u00eam em comum o facto de serem todas de territ\u00f3rios ex-otomanos (Chipre, B\u00f3snia, Kosovo, Palestina\/Israel, L\u00edbano, Iraque&#8230;). At\u00e9 h\u00e1 algum tempo atr\u00e1s a \u00abquest\u00e3o do Oriente\u00bb foi vista fazendo parte de um passado j\u00e1 bastante long\u00ednquo e sem qualquer interesse significativo para a compreens\u00e3o dos conflitos do presente, pelo que foi amplamente esquecida pelos pol\u00edticos e pela opini\u00e3o p\u00fablica europeia e ocidental e vista como um assunto de mera curiosidade hist\u00f3rica e acad\u00e9mica. Os tr\u00e1gicos acontecimentos ocorridos no ex-territ\u00f3rio otomano de Chipre, no Ver\u00e3o de 1974, que levaram \u00e0 parti\u00e7\u00e3o <em>de facto <\/em>da ilha, n\u00e3o alteraram a percep\u00e7\u00e3o de que esse era um cap\u00edtulo de um passado long\u00ednquo, encerrado e sem sequelas no presente. Pelo contr\u00e1rio, na \u00e9poca, os acontecimentos foram generalizadamente vistos como (mais) um epis\u00f3dio da cl\u00e1ssica disputa ideol\u00f3gica sovi\u00e9tico-americana pela primazia \u00e0 escala mundial, atrav\u00e9s de actores locais interpostos (uma \u00abguerra por procura\u00e7\u00e3o\u00bb), sem qualquer liga\u00e7\u00e3o especial com um passado pr\u00e9-ideol\u00f3gico. S\u00f3 com o final da Guerra-Fria, nos anos 1989-1991, e com os sangrentos acontecimentos que ocorreram nos Balc\u00e3s, se come\u00e7ou lentamente a alterar esta percep\u00e7\u00e3o, assistindo-se a um maior interesse por este passado na procura de explica\u00e7\u00f5es para os \u00abincompreens\u00edveis\u00bb conflitos que marcaram o fim da ex-Jugosl\u00e1via. Mais recentemente, a j\u00e1 referida integra\u00e7\u00e3o de Chipre na Uni\u00e3o Europeia e o facto da Turquia ser tamb\u00e9m um pa\u00eds candidato \u00e0 Uni\u00e3o, com negocia\u00e7\u00f5es de ades\u00e3o abertas em 2005, trouxeram algum interesse e adicional. Todavia, a quest\u00e3o de Chipre continua a ser vista (na nossa opini\u00e3o erradamente, pela raz\u00f5es que vamos mostrar ao longo deste trabalho), como um assunto de import\u00e2ncia menor para a pol\u00edtica europeia e internacional.<\/p>\n<p>Face \u00e0 necessidade de contextualizarmos historicamente o problema objecto de estudo, vamos, nesta an\u00e1lise, dar alguma primazia aos aspectos hist\u00f3rico-diplom\u00e1ticos, articulados com a realidade sociol\u00f3gico-pol\u00edtica, que nos parecem ser a base mais s\u00f3lida para um trabalho com as caracter\u00edsticas do que nos propomos efectuar. Naturalmente que um estudo deste g\u00e9nero \u2013 o qual se encontra no cruzamento da Hist\u00f3ria com a Ci\u00eancia Pol\u00edtica e as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais \u2013, levanta dificuldades de tipo metodol\u00f3gico e epistemol\u00f3gico a qualquer investigador, especialmente em Portugal, pela escass\u00edssima produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica existente sobre as quest\u00f5es hist\u00f3ricas, pol\u00edticas e de rela\u00e7\u00f5es internacionais do Mediterr\u00e2neo Oriental (um \u00e1rea bastante longe dos tradicionais interesses portugueses, como as rela\u00e7\u00f5es euro-atl\u00e2nticas e os pa\u00edses lus\u00f3fonos), e pelo fr\u00e1gil conhecimento dos seus povos e culturas. Em termos metodol\u00f3gicos, surge o problema de praticamente n\u00e3o existirem fontes documentais, ou mesmo fontes secund\u00e1rias (livros e artigos cient\u00edficos), em l\u00edngua portuguesa. H\u00e1 tamb\u00e9m a dificuldade do acesso \u00e0s fontes em l\u00edngua grega (cl\u00e1ssica e actual) e turca (otomana e actual). Essa dificuldade, que n\u00e3o \u00e9 menor, pode ser ultrapassada, pelo menos em parte, pelo recurso trabalhos anteriores de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, bem como pelo recurso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o oficial publicada em l\u00edngua inglesa pelo governo de Chipre (e da Gr\u00e9cia e Turquia, bem como naturalmente do Reino Unido). Em termos epistemol\u00f3gicos, levanta-se aqui, e com especial intensidade, o problema da equidist\u00e2ncia face \u00e0s partes envolvidas no conflito, pois h\u00e1 naturais sentimentos de empatia ou repulsa face \u00e0s atitudes adoptadas pelos diversos protagonistas envolvidos (que, como veremos ao longo do livro, v\u00e3o muito para al\u00e9m dos pr\u00f3prios cipriotas). A diversifica\u00e7\u00e3o das fontes e a confronta\u00e7\u00e3o de perspectivas foi a maneira que encontr\u00e1mos para tentar reduzir, o mais poss\u00edvel, as distor\u00e7\u00f5es e enviesamento de perspectiva de uma investiga\u00e7\u00e3o sobre um problema particularmente intricado como este.<\/p>\n<p>Ainda sobre o problema epistemol\u00f3gico, \u00e9 inevit\u00e1vel reconhecer-se que o substrato cultural e a vis\u00e3o do mundo do investigador, bem como a influ\u00eancia, consciente ou inconsciente, das ideologias do presente sobre a interpreta\u00e7\u00e3o do passado \u2013 nacionalismo e multiculturalismo \u2013, n\u00e3o s\u00e3o um mero <em>fait-divers<\/em>. At\u00e9 h\u00e1 algum tempo atr\u00e1s, a dificuldade t\u00edpica com que se confrontava quem quisesse analisar com alguma imparcialidade um problema como o de Chipre consistia no cl\u00e1ssico problema de manter equidist\u00e2ncia face \u00e0s historiografias nacionalistas de cipriotas gregos (e da Gr\u00e9cia) e de cipriotas turcos (e da Turquia), e dos respectivos simpatizantes. Hoje, para al\u00e9m desta dificuldade que continua a persistir, surgiu uma nova (o que complica ainda mais a quest\u00e3o), que \u00e9 a dos trabalhos, normalmente de perfil acad\u00e9mico, imbu\u00eddos de uma ideologia p\u00f3s-moderna<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> de tipo multiculturalista<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> e que j\u00e1 come\u00e7am a constituir um acervo consider\u00e1vel. Estes geram, frequentemente, uma ilus\u00f3ria ideia de equidist\u00e2ncia face aos actores do conflito e de um car\u00e1cter progressista da solu\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada para o mesmo \u2013 tipicamente um multiculturalismo p\u00f3s-nacional apresentado como inovador face aos nacionalismos retr\u00f3grados. Todavia, como teremos oportunidade de mostrar ao longo do trabalho, sob esta capa atractiva esconde-se, n\u00e3o invulgarmente, um superficial e distorcido conhecimento do passado n\u00e3o ocidental (por exemplo, ignorando a opress\u00e3o exercida at\u00e9 uma fase avan\u00e7ada do s\u00e9culo XIX pelo sistema de domina\u00e7\u00e3o \u00abmulticultural\u00bb dos <em>millet\/dhimmi<\/em>, o qual marca ainda hoje a mem\u00f3ria colectiva dos povos submetidos ao poder imperial e colonial otomano em todo o Sudeste europeu).<\/p>\n<p>Assim, para abordarmos este dif\u00edcil problema das actuais rela\u00e7\u00f5es europeias e internacionais e tentarmos responder, com alguma consist\u00eancia e profundidade, \u00e0s interroga\u00e7\u00f5es que formulamos anteriormente, optamos por enquadrar o conflito de Chipre numa vis\u00e3o hist\u00f3rica e pol\u00edtica abrangente. Isto levou-nos a considerar tamb\u00e9m diversos acontecimentos ocorridos na Gr\u00e9cia, no Imp\u00e9rio Otomano\/Turquia e no Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico\/Gr\u00e3-Bretanha\/Reino Unido, como relevantes para o rumo dos acontecimentos em Chipre e a procurar enquadr\u00e1-los no ambiente pol\u00edtico internacional da era colonial, da Guerra Fria e do actual per\u00edodo do p\u00f3s-Guerra Fria. Para o efeito, estruturamos a nossa abordagem em cinco cap\u00edtulos. Num primeiro \u00e9 passado em revista, ainda que de uma forma necessariamente sint\u00e9tica, o passado mais long\u00ednquo, no qual abrangemos o longo per\u00edodo hist\u00f3rico que vai da Antiguidade Cl\u00e1ssica at\u00e9 \u00e0 governa\u00e7\u00e3o veneziana da ilha, terminada na segunda metade do s\u00e9culo XVI com a conquista otomana de 1571. No segundo cap\u00edtulo, a an\u00e1lise vai incidir sobre o longo per\u00edodo de domina\u00e7\u00e3o otomana e de perten\u00e7a da ilha ao <em>devlet-i al-i Osman<\/em> (o Estado e a casa de Osman), o qual se prolongou no tempo at\u00e9 ao \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XIX (1878), quando deu lugar aos brit\u00e2nicos, e nas profundas marcas que este deixou na sociedade e na pol\u00edtica cipriota. O terceiro cap\u00edtulo analisa o relativamente curto per\u00edodo da administra\u00e7\u00e3o colonial brit\u00e2nica (82 anos), com um especial \u00eanfase na forma como foi gerido o processo de descoloniza\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia na d\u00e9cada de 50 do s\u00e9culo XX, e tratadas as pretens\u00f5es contradit\u00f3rias dos crist\u00e3os ortodoxos\/cipriotas gregos de autodetermina\u00e7\u00e3o\/<em>enosis<\/em> (uni\u00e3o com a Gr\u00e9cia) e dos mu\u00e7ulmanos\/cipriotas turcos de manuten\u00e7\u00e3o do <em>statu quo<\/em> ou de <em>taksim<\/em> (parti\u00e7\u00e3o) da ilha. O quarto cap\u00edtulo tem por objecto o curto e conturbado espa\u00e7o temporal que decorreu entre a independ\u00eancia de 1960 e a parti\u00e7\u00e3o da ilha em 1974, como resultado da interven\u00e7\u00e3o militar directa da Turquia no conflito cipriota e da perman\u00eancia das suas tropas no Norte do territ\u00f3rio, \u00e0 margem das resolu\u00e7\u00f5es da Assembleia Geral e Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Num quinto e \u00faltimo cap\u00edtulo a abordagem incidir\u00e1 sobre as diversas tentativas de reunifica\u00e7\u00e3o, at\u00e9 agora infrut\u00edferas, com especial destaque para a mais recente destas \u2013 o plano do ex-Secret\u00e1rio Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Kofi Annan. S\u00e3o discutidas as raz\u00f5es do seu fracasso, bem como as implica\u00e7\u00f5es e oportunidades que decorrem da integra\u00e7\u00e3o europeia da Rep\u00fablica de Chipre, nomeadamente a possibilidade de ser encontrada um solu\u00e7\u00e3o que satisfa\u00e7a as ambi\u00e7\u00f5es das popula\u00e7\u00e3o cipriota grega e turca e os interesses das Pot\u00eancias Garantes (Gr\u00e9cia, Turquia e Reino Unido). Finalmente, s\u00e3o analisadas a consequ\u00eancias que podem advir para a Uni\u00e3o Europeia e o processo de negocia\u00e7\u00f5es de ades\u00e3o da Turquia actualmente em curso, se n\u00e3o for encontrada um solu\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria para o conflito cipriota no decurso dos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> A quest\u00e3o do Oriente esteve directamente ligada ao que normalmente \u00e9 apresentado como tendo sido o processo de decad\u00eancia do \u00abhomem doente da Europa\u00bb (a express\u00e3o foi celebrizada pelo czar russo Nicolau I nas v\u00e9speras da guerra da Crimeia, de 1853-1856, referindo-se ao Imp\u00e9rio Otomano). Os seus marcos convencionais s\u00e3o o tratado Tratado de K\u00fc\u00e7\u00fck-Kaijnardja, celebrado em 1774 entre a R\u00fassia e o Imp\u00e9rio Otomano, ap\u00f3s a derrota militar deste \u00faltimo pelos ex\u00e9rcitos do czar, e o Tratado de Lausana de 1923, que regulou a dissolu\u00e7\u00e3o do multissecular Imp\u00e9rio Otomano e a emerg\u00eancia da Rep\u00fablica da Turquia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Para uma panor\u00e2mica das sucessivas crises que marcaram a quest\u00e3o do Oriente ver o trabalho de A. L. Macfie, <em>The Eastern Question 1774-1923<\/em> (1989).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Tal como a universidade moderna, criada sob o modelo que Whilhelm von Humboldt instituiu em Berlim, na Alemanha do s\u00e9culo XIX, tinha como miss\u00e3o principal ser reposit\u00f3rio da cultura nacional (ou seja, estava imbu\u00edda de uma ideologia nacionalista), hoje \u00e9 a universidade p\u00f3s-moderna que est\u00e1 imbu\u00edda de uma ideologia e fervor multiculturalista (n\u00e3o assumida explicitamente para o grande p\u00fablico, que a julga ainda devotada \u00e0 cultura nacional, \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da Raz\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de Ci\u00eancia, tal como no modelo Iluminista). Se, no passado, pod\u00edamos encontrar alguns dos mais fervorosos adeptos e pros\u00e9litos da cultura nacional nos departamentos de Hist\u00f3ria e de Literatura, hoje, s\u00e3o os departamentos de Antropologia, Sociologia, Estudos Culturais e de Literatura (P\u00f3s-Colonial), que est\u00e3o na linha da frente do zelo mission\u00e1rio.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Esta ideologia tem as suas ra\u00edzes na segunda metade do s\u00e9culo passado e baseia-se, em termos ontol\u00f3gicos e epistemol\u00f3gicos, uma atitude de <em>soup\u00e7on<\/em> (desconfian\u00e7a), face ao que chama as \u00abgrandes narrativas\u00bb da cultura ocidental \u2013 o nacionalismo \u00e9 uma delas \u2013 denunciando o perigo de vis\u00f5es essencialistas e a necessidade da sua desconstru\u00e7\u00e3o (como se estiv\u00e9ssemos perante uma narrativa liter\u00e1ria). Ou seja, no caso aqui em an\u00e1lise, sustenta que a Na\u00e7\u00e3o (e consequentemente o Estado-Na\u00e7\u00e3o) n\u00e3o \u00e9 uma realidade primordial ou \u00abessencial\u00bb, mas uma mera constru\u00e7\u00e3o social (uma \u00abcomunidade imaginada\u00bb, na express\u00e3o celebrizada por Benedict Anderson). Para al\u00e9m do mais, e segundo esta mesma vis\u00e3o ideol\u00f3gica, a constru\u00e7\u00e3o social da Na\u00e7\u00e3o e os movimentos nacionalistas a que esta deu origem, est\u00e3o na g\u00e9nese das maiores trag\u00e9dias do s\u00e9culo XX. Assim, imp\u00f5e-se a cria\u00e7\u00e3o de entidades pol\u00edticas (e de identidades nacionais) p\u00f3s-nacionais que a superem. Como facilmente se compreende, estamos perante mais uma proposta ideol\u00f3gica com o seu pr\u00f3prio esquema de ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e n\u00e3o perante uma solu\u00e7\u00e3o neutral, nem propriamente uma \u00abterceira via\u00bb ou meio termo face aos nacionalismos em disputa (como procura se apresentar), pelo que tamb\u00e9m necessita de uma vigilante cr\u00edtica e equidist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes<\/p>\n<p>\u00a9 Almedina, 2009 (excerto, Introdu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; O problema de Chipre consiste n\u00e3o em uma mas em quatro quest\u00f5es relacionadas. A mais importante destas \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre os cipriotas gregos e os cipriotas turcos, a qual configura a quest\u00e3o mais dif\u00edcil: podem dois grupos nacionais amplamente separados encontrar uma coexist\u00eancia pac\u00edfica envolvendo duas l\u00ednguas, duas religi\u00f5es e duas interpreta\u00e7\u00f5es &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/a-questao-de-chipre-implicacoes-para-a-uniao-europeia-e-a-adesao-da-turquia\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;A Quest\u00e3o de Chipre: Implica\u00e7\u00f5es para a Uni\u00e3o Europeia e a Ades\u00e3o da Turquia&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86,2],"tags":[59,49,43],"class_list":["post-1186","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-investigacao-cientifica","category-livros","tag-chipre","tag-turquia","tag-uniao-europeia","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1186"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1186\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}