{"id":1251,"date":"2015-06-05T15:00:08","date_gmt":"2015-06-05T15:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1251"},"modified":"2015-06-14T17:46:49","modified_gmt":"2015-06-14T17:46:49","slug":"o-atentado-terrorista-ao-charlie-hebdo-e-os-valores-da-republica-francesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/o-atentado-terrorista-ao-charlie-hebdo-e-os-valores-da-republica-francesa\/","title":{"rendered":"O atentado terrorista ao Charlie Hebdo e os valores da Rep\u00fablica Francesa"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1252\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-1024x811.jpg\" alt=\"Eug\u00e8ne Delacroix  La libert\u00e9 guidantl le peuple, 1830 (museu do Louvre, Paris)\" width=\"1024\" height=\"811\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-1024x811.jpg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-1568x1241.jpg 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-300x238.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-768x608.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-1536x1216.jpg 1536w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-370x293.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-570x451.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-770x610.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-1170x926.jpg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris-733x580.jpg 733w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Eug\u00e8ne-Delacroix-La-libert\u00e9-guidantl-le-peuple-1830-museu-do-Louvre-Paris.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>Este acontecimento, em si mesmo, traz um outro choque para a Fran\u00e7a. As ideologias pol\u00edticas seculares e o conceito de esquerda e direita a que estamos habituados nas democracias ocidentais t\u00eam uma forte liga\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do pa\u00eds e \u00e0 sua cultura pol\u00edtica. A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789 foi um momento chave no seu aparecimento e configura\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>1. Nesta altura, \u00e9 ainda uma inc\u00f3gnita a dimens\u00e3o das repercuss\u00f5es na sociedade francesa do atentado terrorista ao Charlie Hebdo, ocorrido em Paris, a 7\/1. Seja qual for dimens\u00e3o e forma que as repercuss\u00f5es adquirirem, v\u00e3o ocorrer muito prov\u00e1veis \u201condas de choque\u201d ao n\u00edvel pol\u00edtico, de seguran\u00e7a e de rela\u00e7\u00f5es na sociedade.\u00a0O atentado visou atingir o cerne dos valores que se alicer\u00e7a a Rep\u00fablica Francesa \u2013 a liberdade de express\u00e3o incluindo o pluralismo, a democracia humanista e a \u201cla\u00efcit\u00e9\u201d (laicidade, laicismo). O facto de esse ataque ser feito a partir do interior da sociedade francesa exp\u00f5e, por isso, uma realidade particularmente delicada. Mesmo nas interpreta\u00e7\u00f5es mais benignas e ponderadas, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o reconhecer que estamos perante uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e socialmente complexa, tendencialmente traum\u00e1tica e de consequ\u00eancias que podem ser perigosas. Vejamos por que motivos isso ocorre.<\/p>\n<p>2. O atentado, ao que tudo indica perpetrado pelos irm\u00e3os Kouachi de ascend\u00eancia argelina, tornou evidente a n\u00e3o atra\u00e7\u00e3o dos valores franceses da Rep\u00fablica \u2013 ou at\u00e9 a sua rejei\u00e7\u00e3o frontal \u2013, por partes minorit\u00e1rias mas ainda assim significativas da sua popula\u00e7\u00e3o. Nominalmente s\u00e3o cidad\u00e3os franceses como quaisquer outros. Todavia, para al\u00e9m dos s\u00edmbolos formais que os ligam \u00e0 Rep\u00fablica (bilhete de identidade e passaporte) n\u00e3o h\u00e1 identifica\u00e7\u00e3o com os seus valores nucleares. As explica\u00e7\u00f5es para isso s\u00e3o muitas e sujeitas a matizes ideol\u00f3gicas, n\u00e3o cabendo aqui analis\u00e1-las. \u00c9 observ\u00e1vel que esta \u201cdesidentifica\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 um caso isolado, mas o culminar de uma tend\u00eancia cada vez mais vis\u00edvel. Num outro registo, os acontecimentos de 2005 nos sub\u00farbios de Paris, mostraram essa fractura da sociedade francesa, que pode ficar exposta a qualquer altura por um (im)previs\u00edvel acontecimento detonador.<\/p>\n<p>3. Para percebermos como tudo isto pode ser traum\u00e1tico para a Fran\u00e7a, importa lembrar que tem uma enorme tradi\u00e7\u00e3o, e voca\u00e7\u00e3o, como centro difusor de ideias de vanguarda e de progresso. Foi em Fran\u00e7a que primeiro surgiu a ideia moderna de cidadania (a \u201ccitoyennet\u00e9\u201d), com direitos e deveres, fazendo parte da na\u00e7\u00e3o. Isto por oposi\u00e7\u00e3o ao absolutismo do Antigo Regime que era a tradi\u00e7\u00e3o europeia da \u00e9poca, ao qual esta concep\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria era absolutamente estranha. A cultura pol\u00edtica francesa est\u00e1 imbu\u00edda, pelo menos desde o s\u00e9culo das Luzes e da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789, de ideias universalistas. Por outras palavras, at\u00e9 um passado relativamente recente parecia inquestion\u00e1vel que a cultura francesa e os valores da Rep\u00fablica eram um modelo que orgulhava os franceses. Originava, tamb\u00e9m, atra\u00e7\u00e3o no exterior e seduzi-a os que, por uma ou outra raz\u00e3o, procuravam a Fran\u00e7a para viver.<\/p>\n<p>4. O atentado ao Charlie Hebdo representa, no mundo real e simb\u00f3lico, um ataque aos valores nucleares da Rep\u00fablica Francesa. N\u00e3o foi s\u00f3 liberdade de opini\u00e3o, mas tamb\u00e9m um modo de vida pluralista e tolerante, bem como a \u201cla\u00efcit\u00e9\u201d que foram atacadas pelos perpetradores. \u201cNos vingamos o Profeta\u201d, ter\u00e3o gritado ao cometerem a sua chacina em nome de uma ideologia sacralizada, vista como superior a qualquer outro valor da Rep\u00fablica Francesa, incluindo a vida humana. Importa aqui clarificar um aspecto. Trata-se de um ato de terror, o qual, sob uma fraseologia religiosa, esconde uma atua\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica pr\u00f3pria ao Islamismo-jihadista, entendido como ideologia pol\u00edtica totalit\u00e1ria de raiz n\u00e3o ocidental, que germina, se apropria e (re)interpreta o Isl\u00e3o. (Sobre as suas carater\u00edsticas ver \u201cO Islamismo-jihadista como ideologia totalit\u00e1ria\u201d, P\u00fablico, 27\/09\/2014).<\/p>\n<p>5. Este acontecimento, em si mesmo, traz um outro choque para a Fran\u00e7a. As ideologias pol\u00edticas seculares e o conceito de esquerda e direita a que estamos habituados nas democracias ocidentais t\u00eam uma forte liga\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do pa\u00eds e \u00e0 sua cultura pol\u00edtica. A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789 foi um momento chave no seu aparecimento e configura\u00e7\u00e3o. O posicionamento das for\u00e7as pol\u00edticas na assembleia constituinte revolucion\u00e1ria marcou profundamente a linguagem pol\u00edtica francesa e ocidental. Por isso, uma ideologia pol\u00edtica n\u00e3o ocidental, n\u00e3o secular, n\u00e3o derivada desse momento fundador revolucion\u00e1rio de 1789, como o Islamismo-jihadista, a qual atrai cidad\u00e3os franceses dispostos a lutar por ela, fanaticamente, at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, em rejei\u00e7\u00e3o dos valores nucleares da Rep\u00fablica, \u00e9 um fen\u00f3meno estranho e perturbador. Deixa confusa toda uma cultura pol\u00edtica moderna de separa\u00e7\u00e3o entre o religioso e o pol\u00edtico que se sedimentou nos \u00faltimos duzentos anos.<\/p>\n<p>6. H\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o que a Fran\u00e7a e as democracias ocidentais, bem como todas as sociedades livres, abertas, democr\u00e1ticas e respeitadoras dos direitos humanos no mundo devem tirar destes acontecimentos. Os seus valores n\u00e3o podem nunca ser dados como adquiridos. Os inimigos reemergem, em cada gera\u00e7\u00e3o, sob outras formas, algumas mais familiares outras estranhas. No passado do s\u00e9culo XX foram os totalitarismos nazi e estalinista os seus piores inimigos. Hoje \u00e9 o totalitarismo Islamista-jihadista. Se as gera\u00e7\u00f5es atuais sentem que n\u00e3o t\u00eam uma causa onde dar o melhor de si, aqui t\u00eam uma pela qual vale a pena lutar. Essa luta, que \u00e9, simultaneamente, intelectual e pol\u00edtica, n\u00e3o pode \u00e9 ser feita atrav\u00e9s de vias que, sob uma outra forma \u2013 por exemplo atrav\u00e9s da reintrodu\u00e7\u00e3o da pena de morte, ou da destrui\u00e7\u00e3o da toler\u00e2ncia face \u00e0 diferen\u00e7a cultural \u2013, limitam a liberdade, a democracia, o pluralismo e os direitos humanos. Ou seja, tudo aquilo sobre o qual foi constru\u00edda a forma de estar da qual a Fran\u00e7a se orgulha e de que somos herdeiros. Fazer isso \u00e9 cair num retrocesso civilizacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes. Artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 9\/01\/2015<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1197\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\" alt=\"dom\u00ednio p\u00fablico\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a>\u00a0Imagem: foto (dom\u00ednio p\u00fablico \/ Wikip\u00e9dia), \u00a0quadro de\u00a0Eug\u00e8ne Delacroix, La libert\u00e9 guidantl le peuple, 1830 (museu do Louvre, Paris)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este acontecimento, em si mesmo, traz um outro choque para a Fran\u00e7a. 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