{"id":1255,"date":"2015-06-08T12:24:37","date_gmt":"2015-06-08T12:24:37","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1255"},"modified":"2019-08-05T23:06:23","modified_gmt":"2019-08-05T23:06:23","slug":"a-turquia-entre-a-europa-e-o-islao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/08\/a-turquia-entre-a-europa-e-o-islao\/","title":{"rendered":"A Turquia entre a Europa e o Isl\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Cartoon-Cristina-Sampaio-As-duas-faces-da-Turquia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1256\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Cartoon-Cristina-Sampaio-As-duas-faces-da-Turquia.jpg\" alt=\"Cartoon Cristina Sampaio (As duas faces da Turquia)\" width=\"600\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Cartoon-Cristina-Sampaio-As-duas-faces-da-Turquia.jpg 600w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Cartoon-Cristina-Sampaio-As-duas-faces-da-Turquia-150x150.jpg 150w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Cartoon-Cristina-Sampaio-As-duas-faces-da-Turquia-300x300.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Cartoon-Cristina-Sampaio-As-duas-faces-da-Turquia-370x370.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Cartoon-Cristina-Sampaio-As-duas-faces-da-Turquia-570x570.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Cartoon-Cristina-Sampaio-As-duas-faces-da-Turquia-580x580.jpg 580w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote>\n<p>Os europeus parece n\u00e3o terem visto, ou n\u00e3o quererem ver, mas a Turquia de Recep Tayyip Erdo\u011fan\u00a0tem mostrado onde est\u00e3o as suas principais afinidades culturais-religiosas e as suas prioridades pol\u00edticas. Talvez seja altura de nos come\u00e7armos a habituar \u00e0 sua forma de estar na Europa.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>1. N\u00e3o \u00e9 novidade para ningu\u00e9m que as rela\u00e7\u00f5es entre a Europa e Isl\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o na sua melhor fase, atravessando at\u00e9 um per\u00edodo dif\u00edcil e bastante conturbado politicamente. Se alguns focos de conflito s\u00e3o relativamente antigos, como, por exemplo, a guerra do Kuwait (1991), as guerras da Jugosl\u00e1via (1991-1999), outros s\u00e3o mais recentes, como os atentados de 11 de Setembro nos EUA, com as subsequentes interven\u00e7\u00f5es militares no Afeganist\u00e3o (2001) e no Iraque (2003), lideradas pelos norte-americanos. Ainda mais recentemente, no \u00faltimo ano ou ano e meio, surgiram novos pontos de atrito desencadeados pelas ambi\u00e7\u00f5es nucleares do Ir\u00e3o e pelas sucessivas declara\u00e7\u00f5es pol\u00edticas efectuadas pelo seu actual Presidente, Mahmoud Ahmadinejad, entre as quais uma alegada inten\u00e7\u00e3o de \u00abriscar Israel do mapa\u00bb (e de \u00abdeslocar\u00bb a sua popula\u00e7\u00e3o para a Europa ou para o Canad\u00e1) e a sustenta\u00e7\u00e3o da tese \u00abrevisionista\u00bb sobre a \u00abinexist\u00eancia do genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o judaica\u00bb. J\u00e1 no ano de 2006, a vit\u00f3ria do movimento islamista Hamas nas elei\u00e7\u00f5es da Palestina e a onda de protestos e de viol\u00eancia desencadeada um pouco por todo o mundo mu\u00e7ulmano, na sequ\u00eancia da publica\u00e7\u00e3o das doze caricaturas do Profeta Maom\u00e9, originalmente efectuada pelo jornal dinamarqu\u00eas <em>Jyllands-Posten<\/em>, a 30 de Setembro de 2005 \u2014, e que, ao longo do ultimo m\u00eas, foram sucessivamente publicadas em quase todos os pa\u00edses europeus\/ocidentais \u2014, adensaram a situa\u00e7\u00e3o de crise. \u00c9 tamb\u00e9m um facto politico conhecido que a \u00abguerra das caricaturas\u00bb apenas adquiriu as actuais propor\u00e7\u00f5es em in\u00edcios de 2006, quando j\u00e1 tinham passado v\u00e1rios meses sobre a sua publica\u00e7\u00e3o, e, ao que tudo indica, na sequ\u00eancia de actua\u00e7\u00f5es pol\u00edticas concertadas, combinadas pelo mundo \u00e1rabe-isl\u00e2mico, nas suas principais organiza\u00e7\u00f5es: a Liga \u00c1rabe e a Organiza\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia Isl\u00e2mica (OCI), em particular nesta \u00faltima.<\/p>\n<p>2. Com os seus actuais 57 membros, a OCI \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o mais importante do mundo isl\u00e2mico (a Liga \u00c1rabe, actualmente com 22 membros, restringe-se aos pa\u00edses \u00e1rabes que s\u00e3o minorit\u00e1rios no contexto do Isl\u00e3o). Vale a pena determo-nos um pouco a ver quais s\u00e3o as suas origens e objectivos. A OCI foi estabelecida em 1969, tendo, de acordo com os seus pr\u00f3prios textos oficiais, como evento fundador e primeira raz\u00e3o de ser, \u00abo inc\u00eandio criminal\u00bb perpetrado nesse ano \u00abpor elementos sionistas na mesquita de Al-Aqsa, na Jerusal\u00e9m ocupada\u00bb. Sendo este o impulso fundador, foi institu\u00edda com uma \u00ababsoluta prioridade na liberta\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e da Al-Aqsa, da ocupa\u00e7\u00e3o sionista\u00bb. Para al\u00e9m disso, nos seus objectivos, prop\u00f5e-se tamb\u00e9m aumentar \u00aba solidariedade isl\u00e2mica entre os seus membros\u00bb, refor\u00e7ar a \u00abluta de todos os povos mu\u00e7ulmanos para a salvaguarda da sua identidade\u00bb e desenvolver ac\u00e7\u00f5es coordenadas para \u00absalvaguardar os Lugares Santos\u00bb do Isl\u00e3o. Actualmente a OCI tem como Secret\u00e1rio-Geral o professor de Hist\u00f3ria e Cultura Isl\u00e2mica da Turquia, Ekmeleddin \u0130hsano\u011flu, indigitado pelo governo islamista-conservador do Adalet ve Kalkinma Partisi \/ Partido da Justi\u00e7a e do Desenvolvimento (AKP), de Recep Tayyip Erdo\u011fan. Para al\u00e9m da Turquia, que \u00e9 membro fundador, h\u00e1 ainda a assinalar a presen\u00e7a na OCI de outros Estados e territ\u00f3rios que fizeram parte do antigo Imp\u00e9rio Otomano no Sudeste europeu, como a Alb\u00e2nia (1992). Com o apoio da Turquia entraram ainda, com o estatuto de observadores, a Comunidade Turco Mu\u00e7ulmana de Chipre (1979) \u2014 que s\u00f3 a Turquia reconhece como \u00abEstado soberano\u00bb, com a designa\u00e7\u00e3o de Rep\u00fablica Turca do Norte de Chipre \u2014 e a B\u00f3snia-Herzegovina (1994), cuja comunidade \u00e9tnico-religiosa mais numerosa \u00e9 a dos b\u00f3snios-mu\u00e7ulmanos. Como actuou esta importante organiza\u00e7\u00e3o do mundo mu\u00e7ulmano, liderada por uma personalidade turca, na quest\u00e3o das caricaturas do Profeta Maom\u00e9? Que posi\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-diplom\u00e1ticas tem adoptado a Turquia nestas quest\u00f5es sens\u00edveis de relacionamento entre a Europa e o Isl\u00e3o, um pa\u00eds que est\u00e1 em negocia\u00e7\u00f5es de ades\u00e3o \u00e0 UE e que promete ser uma \u00abponte entre o Oriente e o Ocidente\u00bb?<\/p>\n<p>3. At\u00e9 agora, em todas resolu\u00e7\u00f5es e ac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas discutidas no \u00e2mbito da OCI sobre quest\u00e3o das caricaturas do profeta Maom\u00e9, a Turquia, apesar do seu tom mais suave, n\u00e3o mostrou propriamente discord\u00e2ncia, nem um discurso diplom\u00e1tico substancialmente diferente da generalidade do mundo mu\u00e7ulmano. Entre a solidariedade, ou, pelo menos, alguma compreens\u00e3o para com o governo da Dinamarca \u2014 um antigo parceiro da NATO e um (eventual) futuro parceiro da UE, que, ironicamente, \u00e9 dos pa\u00edses do mundo que mais gasta na ajuda ao desenvolvimento e da qual os pa\u00edses mais pobres da OCI s\u00e3o tamb\u00e9m benefici\u00e1rios \u2014 e as exig\u00eancias de pedidos oficiais de desculpas e as amea\u00e7as de boicotes comerciais e diplom\u00e1ticos, feitas por muitos pa\u00edses da OCI, para que lado pendeu a Turquia? Para o lado da Dinamarca e da UE, onde afirma querer integrar-se em p\u00e9 de igualdade com os outros Estados europeus? Mas esteve a Turquia de facto mais perto das declara\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do Parlamento Europeu e da Comiss\u00e3o Europeia que, embora reconhecendo a necessidade de respeito pelos s\u00edmbolos e convic\u00e7\u00f5es religiosas, insistiram na liberdade de imprensa e condenaram as reac\u00e7\u00f5es violentas? Ou, pelo contr\u00e1rio, esteve a Turquia mais pr\u00f3xima das reac\u00e7\u00f5es pol\u00edtico- diplom\u00e1ticas de pa\u00edses como o Ir\u00e3o (actualmente empenhado na nega\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o judaica e em tornar-se na pot\u00eancia nuclear do Isl\u00e3o xiita); da Ar\u00e1bia Saudita (onde n\u00e3o h\u00e1 uma constitui\u00e7\u00e3o, \u00e9 vedada a entrada e perman\u00eancia a \u00abinfi\u00e9is\u00bb nos lugares santos do Isl\u00e3o e banido o uso de quaisquer sinais religiosos n\u00e3o mu\u00e7ulmanos por mais discretos que sejam); do Sud\u00e3o (bem conhecido pelo desrespeito das minorias, africana-animista e africana- crist\u00e3 no Sul do pa\u00eds e na regi\u00e3o do Darfur, pela maioria \u00e1rabe-isl\u00e2mica do Norte), e do Paquist\u00e3o (simbolicamente o \u00abpa\u00eds dos puros\u00bb, criado em 1947, por recusa de conviv\u00eancia com a \u00cdndia de Gandhi, maioritariamente hindu e que, apesar de ser um dos Estados mais pobres do mundo, gasta os seus escassos recursos na \u00abbomba nuclear mu\u00e7ulmana\u00bb)? Naturalmente que a posi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica da Turquia n\u00e3o era propriamente f\u00e1cil nesta situa\u00e7\u00e3o, mas a interroga\u00e7\u00e3o faz sentido, n\u00e3o s\u00f3 porque esta se prop\u00f5e ser uma \u00abponte entre o Oriente e o Ocidente\u00bb, como por que det\u00e9m o cargo de Secret\u00e1rio-Geral da OCI, o que lhe permite, ou deveria permitir, exercer alguma influ\u00eancia acrescida sobre os seus membros, no sentido da modera\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es e da desdramatiza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o. Todavia, se repararmos no teor da recente conversa entre Javier Solana, o Alto Representante para a Pol\u00edtica Externa e de Seguran\u00e7a Comum (PESC), e Ekmleddin \u0130hsano\u011flu, n\u00e3o ficamos muito com essa impress\u00e3o. Segundo refere o jornal turco Zaman (edi\u00e7\u00e3o <em>on-line<\/em> de 14\/02\/2006), o Secret\u00e1rio-Geral da OCI disse a Javier Solana que, no mundo mu\u00e7ulmano, \u00aba publica\u00e7\u00e3o das caricaturas ridicularizando o Profeta Maom\u00e9 tinha tido o mesmo efeito dos ataques do 11 de Setembro\u00bb. Aparentemente, o que tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de mostrar a fragilidade pol\u00edtica da Europa, Javier Solana n\u00e3o fez nenhuma objec\u00e7\u00e3o ao facto de que, por muito ofensivas que tais imagens possam ser para as convic\u00e7\u00f5es religiosas mu\u00e7ulmanas, a sua publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 no mesmo plano de gravidade, moral, jur\u00eddica e pol\u00edtica, que um acto premeditado de assass\u00ednio de mais de tr\u00eas mil pessoas, como foi o 11 Setembro de 2001. Ainda a prop\u00f3sito de ofensas a \u00abs\u00edmbolos sagrados\u00bb, agora n\u00e3o de cariz religioso mas de cariz nacional, como \u00e9 o caso da bandeira de um pa\u00eds, vale a pena ver a maneira como na Turquia se olha para o acto de queimar uma bandeira nacional. A 21 de Mar\u00e7o de 2005, quando os curdos, um povo de origem \u00e9tnica iraniana, comemoravam pela primeira vez livremente o Nevroz (o ano novo pr\u00e9-isl\u00e2mico dos povos iranianos), um jovem curdo mais exaltado queimou, ou melhor, \u00abdessacralizou\u00bb, na linguagem da imprensa turca, a bandeira da Turquia. Nos dias seguintes, as reac\u00e7\u00f5es generalizadas a esse acto foram de dura condena\u00e7\u00e3o verbal e de exaltadas manifesta\u00e7\u00f5es de rua, onde se uniram os partidos de esquerda e da direita. Num pa\u00eds onde h\u00e1 tal sensibilidade aos (seus pr\u00f3prios) s\u00edmbolos nacionais, seria de esperar que houvesse tamb\u00e9m uma reac\u00e7\u00e3o firme de condena\u00e7\u00e3o dos actos de pisar e queimar bandeiras da Dinamarca e de outros pa\u00edses da UE e\/ou aliados da NATO, que se generalizaram nas manifesta\u00e7\u00f5es do mundo mu\u00e7ulmano. A realidade \u00e9 que houve apenas uma censura geral bastante benevolente, face \u00e0 raiva exteriorizada pelos manifestantes.<\/p>\n<p>4. Vamos agora \u00e0 quest\u00e3o palestiniana e \u00e0 recente vit\u00f3ria do movimento Hamas, que prev\u00ea, no seu programa politico, a n\u00edvel interno, a instaura\u00e7\u00e3o da X\u00e1ria, a lei isl\u00e2mica, e a n\u00edvel externo a erradica\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, cuja exist\u00eancia at\u00e9 agora se tem recusado a reconhecer. Como \u00e9 que tem actuado diplomaticamente a Turquia? Em sintonia com a UE, que procura pressionar pol\u00edtica e financeiramente o Hamas a abandonar as armas e a transformar-se em num normal partido pol\u00edtico, que aceita as regras do jogo democr\u00e1tico? Ou com a sua pr\u00f3pria diplomacia de relacionamento com o mundo isl\u00e2mico em geral, e com os antigos territ\u00f3rios do Imp\u00e9rio Otomano em particular, onde a UE parece ser apenas relevante \u00e0 medida dos seus interesses na regi\u00e3o? De acordo com o jornal<em> Turkish Daily News<\/em> (edi\u00e7\u00e3o on-line de 19\/02\/2006), parece ser esta segunda linha que est\u00e1 a prevalecer, pois, como este referia, \u00aba Turquia espantou o seu p\u00fablico, Israel e os aliados ocidentais ao ser o primeiro pa\u00eds n\u00e3o-\u00e1rabe a receber uma delega\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel do grupo radical palestiniano\u00bb, o Hamas, que recentemente ganhou as elei\u00e7\u00f5es na Palestina, para conversa\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas. Surpresa? Talvez nem tanto se olharmos para as ambi\u00e7\u00f5es do governo do AKP da Turquia, \u00e0 luz da sua ideologia islamista e do passado hist\u00f3rico do pa\u00eds. Ao contr\u00e1rio da Europa, onde a mem\u00f3ria hist\u00f3rica da quest\u00e3o palestiniana n\u00e3o costuma ir mais al\u00e9m do que a I Guerra Mundial \u00a0\u2014 acordo Sykes-Picot (1916) feito entre brit\u00e2nicos e franceses, para a reparti\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Otomano no M\u00e9dio Oriente e declara\u00e7\u00e3o do Foreign Office brit\u00e2nico, \u00abdeclara\u00e7\u00e3o Balfour\u00bb (1917), prometendo um territ\u00f3rio aos judeus na Palestina \u2014, na Turquia a mem\u00f3ria hist\u00f3rica \u00e9 outra e sobretudo bem mais longa. Basta lembrar que os trinta anos de protectorado colonial brit\u00e2nico, nos actuais territ\u00f3rios de Israel\/Palestina (1918-1948), foram antecedidos de uma presen\u00e7a imperial \/ \u00abcolonial\u00bb otomana de \u00abapenas\u00bb quatro s\u00e9culos (mais concretamente, desde 1516, ap\u00f3s a conquista feita por Selim I da S\u00edria e do Egipto, sendo o primeiro sult\u00e3o otomano a assumir o t\u00edtulo de califa, o chefe religioso e pol\u00edtico dos crentes da<em> umma<\/em> mu\u00e7ulmana). Quanto \u00e0s similitudes ideol\u00f3gicas entre o Hamas e o AKP de Recep Tayyip Erdogan, basta pensarmos que este \u00faltimo partido \u00e9 herdeiro dum conjunto heterog\u00e9neo de influ\u00eancias da direita conservadora e islamista da Turquia, numa linha pr\u00f3xima dos sucessivos partidos islamistas formados pelo professor de Engenharia da Universidade de Istambul \u2014 Necmittin Erbakan \u2014 o \u00faltimo dos quais, o Refah Partisi \/ Partido do Bem-Estar, foi dissolvido em 1998. Neste contexto, a abertura aos \u00abirm\u00e3os mu\u00e7ulmanos\u00bb do Hamas surge com uma certa naturalidade e na l\u00f3gica das ra\u00edzes ideol\u00f3gicas e das simpatias do eleitorado do AKP.<\/p>\n<p>5. \u00a0A prop\u00f3sito das declara\u00e7\u00f5es \u00abrevisionistas\u00bb do Presidente iraniano, afirmando que \u00abgenoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o judaica n\u00e3o existiu\u00bb, vale a pena passar tamb\u00e9m um olhar comparativo sobre a maneira como na Turquia se tende a ver alguns acontecimentos dram\u00e1ticos do s\u00e9culo XX que afectaram os <em>ahl al-kitab<\/em> ou \u00abPovos do Livro\u00bb (crist\u00e3os, judeus e mu\u00e7ulmanos), para utilizarmos uma express\u00e3o emprestada pela teologia mu\u00e7ulmana. Essa an\u00e1lise comparativa refere-se a dois acontecimentos tr\u00e1gicos, um ocorrido no in\u00edcio, o outro no fechar do s\u00e9culo XX: o caso dos arm\u00e9nios (crist\u00e3os) durante o Imp\u00e9rio Otomano (1915- 1917) e a I Guerra Mundial; e o caso dos b\u00f3snios (mu\u00e7ulmanos) e dos kosovares (mu\u00e7ulmanos) durante as guerras de secess\u00e3o da Jugosl\u00e1via (1991-1999). Comecemos pelos acontecimentos mais recentes. Na imprensa e em todos os sectores opini\u00e3o p\u00fablica da Turquia, os sofrimentos dos antigos mu\u00e7ulmanos-otomanos dos Balc\u00e3s (b\u00f3snios, albaneses, kosovares e maced\u00f3nios) tiveram um grande eco, reabrindo mesmo feridas do passado. Em 1992-1993, a imprensa nacionalista evocava uma imagem hist\u00f3rica que se tornou um slogan dos meios religiosos e islamistas: \u00aba B\u00f3snia n\u00e3o ser\u00e1 uma nova Andaluzia\u00bb. Esta compara\u00e7\u00e3o, que aos olhos europeus\/ocidentais, n\u00e3o deixa de ser surpreendente (o \u00faltimo territ\u00f3rio do Al- Andalus da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica foi \u00abperdido\u00bb pelos \u00e1rabes-berberes no long\u00ednquo ano de 1492), mostra, de alguma maneira, as imagens mentais da mem\u00f3ria mu\u00e7ulmana-turca. Por sua vez, a 11 de Julho 1995, o massacre pelas tropas e mil\u00edcias s\u00e9rvias (crist\u00e3o ortodoxos) de cerca de oito milhares de b\u00f3snios-mu\u00e7ulmanos, ocorrido na localidade de Srebrenica \u2014 um enclave mu\u00e7ulmano-b\u00f3snio na maioritariamente s\u00e9rvia-b\u00f3snia Rep\u00fablica Srpska (mais de 88% da popula\u00e7\u00e3o), uma das duas entidades aut\u00f3nomas constitutivas da Federa\u00e7\u00e3o da B\u00f3snia e Herzegovina \u2014, foi motivo de grande consterna\u00e7\u00e3o e de uma onda de solidariedade com as v\u00edtimas, em toda a Turquia. Na \u00f3ptica dos media e da opini\u00e3o p\u00fablica turca, sobretudo dos mais nacionalistas e religiosos, este acontecimento converteu-se at\u00e9 no arqu\u00e9tipo dos sofrimentos dos mu\u00e7ulmanos turc\u00f3fonos, \u00e0s m\u00e3os da Europa\/Ocidente. Importa notar que esta percep\u00e7\u00e3o resulta do facto de, para a generalidade da opini\u00e3o p\u00fablica mu\u00e7ulmana, Turquia inclu\u00edda, qualquer povo que possa ser qualificado religiosa ou sociologicamente como \u00abcrist\u00e3o\u00bb (\u00e9 o caso dos s\u00e9rvios, que professam o cristianismo ortodoxo), \u00e9 no imagin\u00e1rio mu\u00e7ulmano associado a europeu\/ocidental. Vejamos agora o outro acontecimento do in\u00edcio do s\u00e9culo XX: o massacre de cerca de 800 mil a 1 milh\u00e3o de arm\u00e9nios, em 1915-1917 que envolveu, directa ou indirectamente, os l\u00edderes do CUP, o partido dos \u00abjovens turcos\u00bb, liderado por Enver Pax\u00e1. Os acontecimentos ocorreram ap\u00f3s a declara\u00e7\u00e3o de guerra do Imp\u00e9rio Otomano \u00e0 Entente franco-brit\u00e2nico-russa, em finais de 1914, feita na linguagem pol\u00edtico-diplom\u00e1tica da Europa\/Ocidente, sendo, paralelamente, proclamada tamb\u00e9m uma jihad na linguagem pol\u00edtico-religiosa do Isl\u00e3o. Os factos hist\u00f3ricos sugerem que um c\u00edrculo restrito dentro do Comit\u00e9 para a Uni\u00e3o e o Progresso (CUP) \u2014 o partido dos \u00abjovens turcos\u00bb liderado por Enver, que governava o Imp\u00e9rio Otomano\/Turquia \u2014, sob a direc\u00e7\u00e3o de Tal\u00e2t, o Ministro do Interior, pretendeu \u00ablivrar-se\u00bb dos arm\u00e9nios, usando a \u00abdeporta\u00e7\u00e3o como capa para essa pol\u00edtica\u00bb (o argumento oficial, provavelmente com fundamento hist\u00f3rico mas exagerado na sua dimens\u00e3o, foi o de que os arm\u00e9nios estavam a desertar para as fileiras do ex\u00e9rcito russo). Como refere o historiador Erik Z\u00fcrcher, na sua execu\u00e7\u00e3o no terreno \u00abum determinado n\u00famero de chefes provinciais do partido deu assist\u00eancia a este exterm\u00ednio, o qual foi organizado atrav\u00e9s da Teskil\u00e2t-i Mahsusa (literalmente Organiza\u00e7\u00e3o Especial), sob a direc\u00e7\u00e3o de Bahaeddin Sakir, director pol\u00edtico do CUP. Qual \u00e9 a atitude da Turquia face a este acontecimento tr\u00e1gico do seu passado? Similar \u00e0 sua consterna\u00e7\u00e3o face aos massacres dos mu\u00e7ulmanos dos Balc\u00e3s nas guerras da Jugosl\u00e1via e apoio \u00e0s suas v\u00edtimas? Id\u00eantica ao acto de mea culpa da Alemanha face ao tr\u00e1gico genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o judaica? Na realidade n\u00e3o \u00e9 nenhuma destas duas. Nesta mat\u00e9ria, a diferen\u00e7a entre a Turquia e a Alemanha \u00e9 t\u00e3o pequena, ou t\u00e3o grande, quanto isto: na Alemanha a nega\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o judaica durante a II Guerra Mundial \u00e9 considerado crime, sendo os seus autores pass\u00edveis de san\u00e7\u00f5es penais; ao contr\u00e1rio, na Turquia, a afirma\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o arm\u00e9nia durante a I Guerra Mundial \u00e9 considerado trai\u00e7\u00e3o e crime suscept\u00edvel de condena\u00e7\u00e3o penal. Repare-se no caso de Orhan Pamuk, provavelmente o mais importante escritor turco da actualidade, que foi objecto de acusa\u00e7\u00e3o criminal por ter \u00abdenegrido publicamente a identidade turca\u00bb. Recordemos os factos. Na entrevista dada ao jornal <em>Tagesanzeiger<\/em>, de Zurique, na Su\u00ed\u00e7a, publicada a 6 de Fevereiro de 2005, este foi questionado sobre a \u00abcortina de sil\u00eancio\u00bb que paira na Turquia (a express\u00e3o \u00e9 de Halil Berktay, um dos rar\u00edssimos acad\u00e9micos turcos que assumiu publicamente o genoc\u00eddio dos arm\u00e9nios), tendo dito que \u00ab30 mil curdos e 1 milh\u00e3o de arm\u00e9nios foram mortos na Turquia. Quase ningu\u00e9m ousa falar desse assunto e os nacionalistas odeiam-me por causa disso\u00bb. Nos meses seguintes, quando os ecos desta entrevista come\u00e7aram a chegar \u00e0 Turquia, levantaram-se ondas de indigna\u00e7\u00e3o e de fervor nacionalista. O jornal <em>H\u00fcrriyet<\/em> qualificou o escritor como \u00abuma criatura abjecta\u00bb. Outro jornal, o Vatan, questionou se \u00aba liberdade de express\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma liberdade de trai\u00e7\u00e3o\u00bb. Em termos de autoridades p\u00fablicas, Mustafa Altinpinar, o governador do distrito de S\u00fct\u00e7\u00fcler, na prov\u00edncia de Isparta, chegou a enviar uma directiva \u00e0s bibliotecas sob a sua jurisdi\u00e7\u00e3o, ordenando que fossem apreendidos e destru\u00eddos todos os livros do escritor Orhan Pamuk, pelas suas afirma\u00e7\u00f5es sobre o \u00abalegado genoc\u00eddio arm\u00e9nio\u00bb.<\/p>\n<p>6. \u00c0 luz destes acontecimentos, as recentes reac\u00e7\u00f5es de f\u00faria \u00e0s caricaturas do Profeta Maom\u00e9, ocorridas tamb\u00e9m na Turquia, deixam uma certa sensa\u00e7\u00e3o de previsibilidade. Mas uma reflex\u00e3o sobre tudo isto talvez nos possa ajudar a compreender porque vemos o actual governo conservador-islamista turco alinhado com o resto do Isl\u00e3o, e desalinhado com a Europa \/ Ocidente, na subscri\u00e7\u00e3o duma peti\u00e7\u00e3o depositada nas Na\u00e7\u00f5es Unidas com um projecto de resolu\u00e7\u00e3o que prev\u00ea, entre outras coisas, a proibi\u00e7\u00e3o da \u00abdifama\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es ou dos profetas\u00bb. Em face do que foi exposto coloca-se, ainda, uma \u00faltima e importante quest\u00e3o, que \u00e9 a de saber para que lado pender\u00e1 a Turquia se ficar na dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o de um conflito de interesses entre a Europa e o Isl\u00e3o: para o lado da Europa, \u00e0 qual sustenta pertencer, invocando a heran\u00e7a da Antiguidade Cl\u00e1ssica existente no seu territ\u00f3rio (a antiga \u00c1sia Menor, onde est\u00e1 Tr\u00f3ia, \u00c9feso, etc.), os lugares simb\u00f3licos dos primeiros tempos do Cristianismo (Constantinopla, Niceia, Antioquia, etc.) que a\u00ed se situam, a rep\u00fablica secularista fundada por Mustafa Kemal (Atat\u00fcrk) sob o modelo do Estado-Na\u00e7\u00e3o europeu\/ocidental e a perten\u00e7a \u00e0 NATO e de antigo aliado do Ocidente na Guerra-Fria? Ou para o lado do Isl\u00e3o e dos \u00abpa\u00edses irm\u00e3os\u00bb da OCI, onde se afirma, n\u00e3o sem orgulho, como terra do Isl\u00e3o (<em>dar al-islam<\/em>), herdeira dos sult\u00f5es-califas que guiaram pol\u00edtica e espiritualmente a <em>umma<\/em> durante quatro s\u00e9culos, e l\u00edder de uma expans\u00e3o duradoura da f\u00e9 isl\u00e2mica na Rumelia \u2014 o nome otomano dado antigos territ\u00f3rios imperiais na Europa \u2014 superando os seus \u00abirm\u00e3os \u00e1rabes\u00bb, que n\u00e3o conseguiram criar ra\u00edzes duradouras no m\u00edtico Al-Andalus (a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica)? Os europeus parece n\u00e3o terem visto, ou n\u00e3o quererem ver, mas a Turquia de Recep Tayyip Erdo\u011fan\u00a0tem mostrado onde est\u00e3o as suas principais afinidades culturais-religiosas e as suas prioridades pol\u00edticas. Talvez seja altura de nos come\u00e7armos a habituar \u00e0 sua forma de estar na Europa.<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no Expresso n\u00ba 1747 (Actual, 22 de abril de 2006, pp. 20-23). \u00daltima revis\u00e3o 15\/06\/2014<\/p>\n<p>\u00a9 Cartoon de Cristina Sampaio publicado originalmente no Expresso n\u00ba 1747 (capa da Actual, 22 de abril de 2006 \/ o desenho foi\u00a0Pr\u00e9mio Stuart de Desenho Editorial em 2006)<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os europeus parece n\u00e3o terem visto, ou n\u00e3o quererem ver, mas a Turquia de Recep Tayyip Erdo\u011fan\u00a0tem mostrado onde est\u00e3o as suas principais afinidades culturais-religiosas e as suas prioridades pol\u00edticas. Talvez seja altura de nos come\u00e7armos a habituar \u00e0 sua forma de estar na Europa. 1. 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