{"id":1283,"date":"2015-06-05T22:03:48","date_gmt":"2015-06-05T22:03:48","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1283"},"modified":"2015-06-13T20:52:43","modified_gmt":"2015-06-13T20:52:43","slug":"a-europa-e-o-islao-regresso-ao-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/a-europa-e-o-islao-regresso-ao-passado\/","title":{"rendered":"A Europa e o Isl\u00e3o: regresso ao passado?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lislam-Politique-et-croyance-.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1515\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lislam-Politique-et-croyance--642x1024.jpg\" alt=\"L'islam - Politique et croyance\" width=\"642\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lislam-Politique-et-croyance--642x1024.jpg 642w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lislam-Politique-et-croyance--188x300.jpg 188w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lislam-Politique-et-croyance--768x1225.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lislam-Politique-et-croyance--370x590.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lislam-Politique-et-croyance--570x909.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lislam-Politique-et-croyance--770x1228.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lislam-Politique-et-croyance--364x580.jpg 364w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lislam-Politique-et-croyance-.jpg 828w\" sizes=\"auto, (max-width: 642px) 100vw, 642px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Os mu\u00e7ulmanos nem sempre t\u00eam consci\u00eancia mas impuseram-se primeiro na Europa como concorrentes, com aspira\u00e7\u00f5es dominadoras. A maior parte dos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos actuais eram ent\u00e3o crist\u00e3os \u2013 o Egipto, a S\u00edria, a Turquia\u2026 durante muito tempo os mu\u00e7ulmanos foram os mais fortes, os mais ricos, os mais civilizados.\u201d Ap\u00f3s v\u00e1rios s\u00e9culos, o Ocidente acabou por levar a melhor, \u201cpela for\u00e7a, mas tamb\u00e9m pelas ideias e pelo com\u00e9rcio\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Maxime RODINSON<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. Em Mar\u00e7o de 1989 o antigo ministro do interior trabalhista e ex-Presidente da Comiss\u00e3o Europeia, Roy Jenkins afirmava, numa entrevista ao jornal brit\u00e2nico The Independent, que os mu\u00e7ulmanos na sociedade brit\u00e2nica \u201cn\u00e3o tinham evidentemente conseguido fundir a\u00ed a sua pr\u00f3pria cultura e menos ainda a sua pr\u00f3pria religi\u00e3o\u201d e que o multiculturalismo lhe parecia \u201cestar a ter principalmente efeitos perversos\u201d. O pano de fundo desta entrevista foi o \u201cauto-de-f\u00e9\u201d dos mu\u00e7ulmanos brit\u00e2nicos de Bradford \u2013 que queimaram publicamente centenas de exemplares do livro Os Vers\u00edculos Sat\u00e2nicos do escritor brit\u00e2nico de origem indiana, Salman Rushdie \u2013 seguido da fatwa (opini\u00e3o legal sobre a interpreta\u00e7\u00e3o da lei isl\u00e2mica) do Ayatollah Khomeini, que se pronunciava no sentido da morte do escritor ap\u00f3stata[1] Mais recentemente, em Outubro de 2001, ap\u00f3s os atentados terroristas de 11 de Setembro em Nova Iorque e Washington, nos EUA, o historiador do Isl\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o marxista, Maxime Rodinson, foi entrevistado pela revista francesa Le Point sobre esses acontecimentos. Questionado sobre as raz\u00f5es do \u00f3dio ao Ocidente, este come\u00e7ou por se interrogar: \u201cO que \u00e9 o Ocidente para os mu\u00e7ulmanos? Um mundo crist\u00e3o, por isso um mundo de infi\u00e9is, de n\u00e3o crentes, de pessoas que dizem horrores do profeta Maom\u00e9. Eles devem ser combatidos pela palavra se poss\u00edvel, se n\u00e3o, em certas circunst\u00e2ncias, pela for\u00e7a. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o de saber se os ressentimentos dos mu\u00e7ulmanos est\u00e3o ligados \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o, este afirmou o seguinte: \u201cIsso come\u00e7ou bastante antes\u2026 Desde o s\u00e9culo VII. Os mu\u00e7ulmanos nem sempre t\u00eam consci\u00eancia mas impuseram-se primeiro na Europa como concorrentes, com aspira\u00e7\u00f5es dominadoras. A maior parte dos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos actuais eram ent\u00e3o crist\u00e3os \u2013 o Egipto, a S\u00edria, a Turquia\u2026 durante muito tempo os mu\u00e7ulmanos foram os mais fortes, os mais ricos, os mais civilizados\u201d. Ap\u00f3s v\u00e1rios s\u00e9culos, o Ocidente acabou por levar a melhor, \u201cpela for\u00e7a, mas tamb\u00e9m pelas ideias e pelo com\u00e9rcio\u201d. Interrogado sobre a grande diverg\u00eancia de opini\u00f5es face ao Isl\u00e3o, quanto ao facto de este pregar a paz ou conter em si o germe da viol\u00eancia, Maxime Rodinson chamou \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para a diversidade de leituras que os textos religiosos permitem: \u201cNenhuma religi\u00e3o \u00e9 totalmente pac\u00edfica ou totalmente belicosa. Encontram-se no Alcor\u00e3o suratas que pregam o amor, outras a viol\u00eancia. Os predicadores citam esta ou aquela passagem do Alcor\u00e3o, consoante as suas prefer\u00eancias e as necessidades do momento. O texto cont\u00e9m coisas de facto contradit\u00f3rias. Entre os versos mais antigos do Alcor\u00e3o \u00e9 indicado, por exemplo, que se pode beber vinho, outros, em seguida, pro\u00edbem-no. \u00c9 por isso que as obras cl\u00e1ssicas mu\u00e7ulmanas elaboraram a doutrina dita do \u00abab-rogante e do ab-rogado\u00bb. H\u00e1 a\u00ed uma contradi\u00e7\u00e3o? Foi Deus que mudou de opini\u00e3o.\u201d[2] Em Novembro de 2004, pouco depois do atentado mortal da autoria de um mu\u00e7ulmano holand\u00eas, de origem marroquina, contra o realizador Theo van Gogh, em Amesterd\u00e3o, e da turbul\u00eancia que se seguiu, Helmut Schmidt, o antigo l\u00edder do Partido Social Democrata da Alemanha e ex-chanceler da Rep\u00fablica Federal afirmava, numa entrevista ao jornal alem\u00e3o Hamburger Abendblatt, que \u201ctrazer milh\u00f5es de gastarbeiter (trabalhadores-convidados) turcos para a Alemanha tinha sido um erro\u201d, acrescentando, ainda, que \u201co conceito de multiculturalismo \u00e9 dif\u00edcil de p\u00f4r a funcionar numa sociedade democr\u00e1tica\u201d. Segundo este, \u201cos problemas que resultaram do influxo dos gastarbeiter turcos foi negligenciado na Alemanha e no resto da Europa. Estes s\u00f3 podem ser ultrapassados p\u00f4r governos autorit\u00e1rios\u201d, como, por exemplo, Singapura\u201d[3]. Entretanto, alguns meses antes, o historiador anglo-americano do Isl\u00e3o, Bernard Lewis, professor em\u00e9rito da Universidade de Princeton, numa entrevista dada a um outro jornal alem\u00e3o, o Die Welt, tinha afirmado que \u201ca Al-Qaeda tem muitos aliados no Ocidente, nem todos conhecidos\u201d e que entre os aliados conhecidos se contavam \u201cas crescentes minorias isl\u00e2micas e convertidos na Europa\u201d. Acrescentava ainda que o Isl\u00e3o radical tinha uma for\u00e7a atractiva parecida com aquela que o comunismo tivera no passado, pois \u201ccomunica \u00e0s pessoas convic\u00e7\u00f5es e certezas\u201d dando-lhes \u201cum sentido de miss\u00e3o\u201d: os seus \u201cseguidores parecem unidos enquanto as democracias parecem profundamente divididas\u201d. Ainda na mesma entrevista, e em resposta a quest\u00e3o sobre se a Europa formaria um contrapeso global aos EUA, Bernard Lewis afirmou: \u201cN\u00e3o. Pr\u00f3ximos dos EUA, os futuros actores globais ser\u00e3o a China, a \u00cdndia e possivelmente uma R\u00fassia pr\u00f3spera. Com seguran\u00e7a, ningu\u00e9m sabe o que vai ser o regime dominante em Moscovo, mas certamente n\u00e3o vai ser comunista. A Europa vai ser parte do Ocidente ar\u00e1bico. As migra\u00e7\u00f5es e a demografia apontam nessa direc\u00e7\u00e3o. Os europeus casam-se tarde e t\u00eam poucos filhos, se \u00e9 que t\u00eam algum. Mas permitem uma forte emigra\u00e7\u00e3o: turcos na Alemanha, \u00e1rabes em Fran\u00e7a, paquistaneses no Reino Unido. Essas pessoas casam-se cedo e t\u00eam muitos filhos. De acordo com as tend\u00eancias actuais, a popula\u00e7\u00e3o europeia vai conter maiorias mu\u00e7ulmanas no final do s\u00e9culo XXI, o mais tardar.\u201d[4] Que pensar de todas estas afirma\u00e7\u00f5es verdadeiramente surpreendentes e at\u00e9 algo alarmantes? Estamos perante opini\u00f5es exageradas e desprovidas de qualquer sentido \u00fatil? Ser\u00e1 que tudo isto se pode explicar como uma tend\u00eancia para o racismo e a \u201cislamofobia\u201d das actuais sociedades europeias?<\/p>\n<p>2. At\u00e9 h\u00e1 algum tempo atr\u00e1s os europeus tinham-se praticamente esquecido da exist\u00eancia do mundo \u00e1rabe e isl\u00e2mico. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, acontecimentos extremamente mediatizados como, por exemplo, a guerra israelo-\u00e1rabe do Yom Kippur, em 1973, que provocou um choque petrol\u00edfero, a revolu\u00e7\u00e3o iraniana de 1978-1979 que levou ao poder o Ayatollah Khomeini e provocou um segundo choque petrol\u00edfero, a guerra do golfo de 1991 para liberta\u00e7\u00e3o do Koweit anexado pelo Iraque, os atentados terroristas de Nova Iorque e Washington em 11 de Setembro de 2001 e a guerra do Iraque de 2003, que levou \u00e0 queda do regime de Saddam Hussein, lembraram aos europeus a sua exist\u00eancia bem real. Todavia, estes foram acontecimentos essencialmente long\u00ednquos, ocorridos no M\u00e9dio-Oriente ou na Am\u00e9rica do Norte, e que, na percep\u00e7\u00e3o da maioria da opini\u00e3o p\u00fablica europeia, tenderam a ser vistos, para al\u00e9m da simpatia ou antipatia pelos protagonistas, como uma quest\u00e3o entre norte-americanos e \u00e1rabes. Mais recentemente, em 11 de Mar\u00e7o de 2001, um atentado terrorista em Madrid executado por extremistas mu\u00e7ulmanos, fez cerca de 200 v\u00edtimas mortais; e, em 7 de Julho de 2005, um outro atentado em Londres, tamb\u00e9m executado por radicais mu\u00e7ulmanos, provocou mais de 50 mortes. Estes dois \u00faltimos atentados trouxeram dois dados novos: ocorreram em solo europeu e n\u00e3o no long\u00ednquo M\u00e9dio Oriente ou na Am\u00e9rica do Norte e a sua autoria directa deveu-se, n\u00e3o a cidad\u00e3os estrangeiros, como no 11 de Setembro nos EUA, mas essencialmente a cidad\u00e3os nacionais, respectivamente espanh\u00f3is e brit\u00e2nicos, oriundos das comunidades mu\u00e7ulmanas da emigra\u00e7\u00e3o. Esta desloca\u00e7\u00e3o dos acontecimentos para o solo europeu, com protagonistas europeus, levanta, naturalmente, in\u00fameras interroga\u00e7\u00f5es ao n\u00edvel das causas que est\u00e3o na sua origem e das consequ\u00eancias que da\u00ed podem resultar. Numeros\u00edssimas an\u00e1lises j\u00e1 foram feitas sobre estes dois atentados terroristas, ligando-os ou desligando-os da situa\u00e7\u00e3o no Iraque ou na Palestina, s\u00f3 para referirmos os dois mais conhecidos pontos de conflitualidade no M\u00e9dio Oriente. O que aqui me proponho fazer n\u00e3o \u00e9 entrar directamente nesse debate, mas analisar a desloca\u00e7\u00e3o dos acontecimentos para solo europeu \u00e0 luz de uma perspectiva hist\u00f3rica e pol\u00edtica alargada. A hip\u00f3tese que coloco \u00e9 que estes podem ser o pren\u00fancio de um novo tipo de relacionamento da Europa com o Isl\u00e3o, end\u00f3geno e ex\u00f3geno, que vai ter consequ\u00eancias sobre o pr\u00f3prio funcionamento das sociedades europeias e a cidadania dentro do \u201cEstado-Na\u00e7\u00e3o\u201d. Para analisar a consist\u00eancia desta possibilidade, imp\u00f5e-se enunciar os principais tra\u00e7os que marcaram o relacionamento dos europeus com o Isl\u00e3o nos \u00faltimos dois s\u00e9culos e meio, mais concretamente desde o final do s\u00e9culo XVIII, que marcou um decisivo ponto de viragem nas rela\u00e7\u00f5es de poder, a partir da\u00ed claramente favor\u00e1veis \u00e0s pot\u00eancias europeias, imbu\u00eddas de um zelo colonial-civilizacional.<\/p>\n<p>3. A expans\u00e3o das pot\u00eancias europeias \u2013 R\u00fassia, Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a, \u00c1ustria e It\u00e1lia \u2013, entre os finais do s\u00e9culo XVIII e as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, que se dirigiu para os territ\u00f3rios do dar al-islam (a \u201cterra do Isl\u00e3o\u201d) no Sudeste da Europa geogr\u00e1fica (Balc\u00e3s, Crimeia e C\u00e1ucaso) e na margem Sul e Leste do Mediterr\u00e2neo (Arg\u00e9lia, Tun\u00edsia, L\u00edbia, Egipto, Palestina e S\u00edria), foi feita essencialmente \u00e0 custa do poder imperial\/\u201ccolonial\u201d que dominava o Mediterr\u00e2neo e o Mar Negro desde o s\u00e9culo XVI \u2013 os turcos otomanos. Na historiografia cl\u00e1ssica europeia o marco simb\u00f3lico da viragem decisiva nas rela\u00e7\u00f5es de poder, ocorrida no s\u00e9culo XVIII, \u00e9 o tratado celebrado entre a R\u00fassia e o Imp\u00e9rio Otomano, em 1774, ap\u00f3s a derrota militar deste \u00faltimo \u2013 Tratado de K\u00fc\u00e7\u00fck-Kaijnardja, na actual Bulg\u00e1ria. Este tratado, pelo qual czar russo adquiriu o t\u00edtulo de protector dos crist\u00e3os do Imp\u00e9rio Otomano, marcou o in\u00edcio da \u201cquest\u00e3o do Oriente\u201d, associada \u00e0 decad\u00eancia do \u201chomem doente da Europa\u201d \u2013 o Imp\u00e9rio Otomano, na designa\u00e7\u00e3o do czar Nicolau I, nas v\u00e9speras da guerra da Crimeia (1853-1856). V\u00e1rias crises marcaram o lento decl\u00ednio do \u201chomem doente da Europa\u201d, as quais ocuparam a diplomacia europeia durante um s\u00e9culo e meio. Em 1923, a celebra\u00e7\u00e3o do Tratado de Lausana, que regulou a dissolu\u00e7\u00e3o Imp\u00e9rio Otomano e a emerg\u00eancia da Rep\u00fablica da Turquia na Pen\u00ednsula da Anat\u00f3lia marcou, convencionalmente, o encerramento diplom\u00e1tico da quest\u00e3o do Oriente. Se este foi, em grandes linhas, o quadro geral, vale a pena olhar, com um pouco mais de detalhe, para a situa\u00e7\u00e3o no Sudeste da Europa (Balc\u00e3s), o principal ponto de embate entre as pot\u00eancias europeias e o dar al-islam, na margem Norte do Mediterr\u00e2neo. Para al\u00e9m da for\u00e7a das armas e da superioridade tecnol\u00f3gica, a demografia e as ideias desempenharam um papel importante nesse embate. Mas, com que institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais se confrontou o ide\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e Americana, assente na soberania da Na\u00e7\u00e3o, nos Direitos do Homem e na cidadania laica, quando chegou ao Sudeste europeu \u2013 o Pr\u00f3ximo Oriente, na designa\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX? Porque \u00e9 que este ide\u00e1rio, associado \u00e0 for\u00e7a das armas e da demografia, se revelou fatal para a o dar al-islam otomano que persistia na Europa do s\u00e9culo XIX? (O dar al-islam \u00e1rabe j\u00e1 tinha sido erradicado da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica no final do s\u00e9culo XV).<\/p>\n<p>4. Os povos dos Balc\u00e3s, tal como os outros povos do Imp\u00e9rio, do Norte de \u00c1frica ao M\u00e9dio Oriente e ao C\u00e1ucaso, foram governados segundo um sistema fundado na X\u00e1ria, a lei isl\u00e2mica, com voca\u00e7\u00e3o para regular todas as esferas da vida humana. Sob a chefia suprema do sult\u00e3o-califa \u2013 que juntava ao poder pol\u00edtico absoluto o poder religioso de lideran\u00e7a da umma, a \u201ccomunidade dos crentes\u201d \u2013, foi institu\u00eddo o sistema do millet e aplicado o estatuto do dhimmi (ou zimmi) a todos os que n\u00e3o eram mu\u00e7ulmanos e que professavam \u201cas religi\u00f5es do Livro\u201d (uma express\u00e3o da teologia mu\u00e7ulmana que abrangia crist\u00e3os, judeus e persas zoroastrianos, os primeiros povos a serem dominados pelo Isl\u00e3o triunfante do s\u00e9culo VII e seguintes). Esta forma de governa\u00e7\u00e3o marcou profundamente a realidade sociol\u00f3gica e pol\u00edtica dos povos balc\u00e2nicos, submetidos ao poder otomano a partir do s\u00e9culo XIV, e subsistiu, em v\u00e1rias regi\u00f5es, at\u00e9 uma fase tardia do s\u00e9culo XIX. Este sistema, provavelmente pelo pouco conhecimento existente sobre o mesmo, tem-se prestado a diversas vulgatas e distor\u00e7\u00f5es, na\u00effs ou deliberadas, que falam da sua \u201coriginalidade hist\u00f3rica\u201d e tendem a elogiar o car\u00e1cter \u00edmpar da sua \u201ctoler\u00e2ncia\u201d. A mais recente vulgata pode encontrar-se nos te\u00f3ricos do multiculturalismo empenhados na procura de modelos hist\u00f3ricos para a sua nova forma de \u201ccidadania diferenciada\u201d e para as \u201cpol\u00edticas do reconhecimento\u201d da identidade que pretendem promover. Por exemplo, o fil\u00f3sofo canadiano Will Kymlicka afirma que \u201cna medida em que se pode considerar que o sistema do millet constituiu um precedente importante e um modelo para os direitos das minorias, importa examin\u00e1-lo em detalhe\u201d, descrevendo-o como um sistema onde \u201cem todo o imp\u00e9rio se respeitavam as tradi\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas jur\u00eddicas de cada grupo religioso\u201d e no qual \u201ca sua liberdade de culto era garantida\u201d[5]. Quanto ao soci\u00f3logo brit\u00e2nico Tariq Modood, um dos mais entusi\u00e1sticos proponentes do multiculturalismo no Reino Unido, diz que \u201co sistema do millet do Imp\u00e9rio Otomano, que remonta \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o de Medina do Profeta Maom\u00e9 no s\u00e9culo VII, foi chamado a primeira sociedade plural da hist\u00f3ria\u201d[6] Mas vejamos, em concreto, como \u00e9 que funcionava este \u201cmodelo para os direitos das minorias\u201d no \u00e2mbito da \u201cprimeirasociedade plural da hist\u00f3ria\u201d. Tomemos como exemplo os Balc\u00e3s, onde se calcula que durante o per\u00edodo de governa\u00e7\u00e3o otomana, os dhimmi constitu\u00eddos por popula\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, essencialmente ortodoxas, ou judaicas, representariam mais de 80% da popula\u00e7\u00e3o total da regi\u00e3o. Cada uma destas popula\u00e7\u00f5es foi agrupada num millet, ou seja, numa comunidade religiosa reconhecida pelo poder otomano que, sob a responsabilidade da sua chefia, \u201cse auto-administra nos dom\u00ednios que relevam da sua teologia e da sua moral, mas que se conforma com as leis do imp\u00e9rio para tudo o resto.\u201d[7] A consequ\u00eancia desta forma de governa\u00e7\u00e3o \u00e9 que s\u00f3 os mu\u00e7ulmanos \u201cpodiam ser membros de parte inteira deste Estado\u201d, enquanto que os n\u00e3o-mu\u00e7ulmanos que a\u00ed viviam eram designados, de uma forma eufem\u00edstica, como \u201cprotegidos\u201d (dhimmi), tendo um estatuto constitutivamente inferior (por exemplo, em tribunal o testemunho de um n\u00e3o-mu\u00e7ulmano n\u00e3o valia contra um mu\u00e7ulmano, estavam proibidos de usar armas e de utilizar montadas nobres como cavalos, estavam sujeitos aodevxirme, ou seja, o tributo de sangue para o servi\u00e7o imperial, constitu\u00eddo por crian\u00e7as e jovens do sexo masculino subtra\u00eddos \u00e0s suas fam\u00edlias, etc.). \u201cEm termos jur\u00eddicos os dhimmi s\u00f3 existiam pela gra\u00e7a dos conquistadores que os podiam mandar matar, o que se exprimia pelo pagamento da capita\u00e7\u00e3o (jizya), taxa de compra da vida; naturalmente que n\u00e3o pretendiam exercer um papel pol\u00edtico ou administrativo num organismo fundado sobre uma lei que eles n\u00e3o reconheciam. A convers\u00e3o ao Isl\u00e3o era o \u00fanico meio de ultrapassar esta barreira\u201d[8]. Como se pode verificar, a vis\u00e3o rom\u00e2ntica e idealizada da governa\u00e7\u00e3o otomana sugerida pela qualifica\u00e7\u00e3o \u201ca primeira sociedade plural da hist\u00f3ria\u201d e \u201cmodelo para os direitos das minorias\u201d de alguns te\u00f3ricos do multiculturalismo, pouco tem a ver com a realidade hist\u00f3rica das estrat\u00e9gias de domina\u00e7\u00e3o imperial postas em pr\u00e1tica pelos conquistadores otomanos (ali\u00e1s, copiadas de outros imp\u00e9rios mais antigos como o persa). Para al\u00e9m disso, a utiliza\u00e7\u00e3o de conceitos como \u201ctoler\u00e2ncia\u201d e \u201cminoria religiosa\u201d \u00e9 uma \u00f3bvia fonte de distor\u00e7\u00f5es, pois induz os significados que as palavras t\u00eam hoje na cultura laica europeia e ocidental, o que n\u00e3o \u00e9 o da realidade hist\u00f3rica do millet e dos dhimmi. Esta s\u00f3 pode ser correctamente apreendida no contexto da teologia mu\u00e7ulmana, algo que os referidos te\u00f3ricos do multiculturalismo n\u00e3o fizeram.<\/p>\n<p>5. \u00a0As ideias da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e Americana, da soberania da Na\u00e7\u00e3o, dos Direitos do Homem, da cidadania laica e igualit\u00e1ria levadas da Europa para o Imp\u00e9rio Otomano produziram o seu primeiro grande resultado com a revolu\u00e7\u00e3o grega iniciada em Mar\u00e7o de 1821, que acabou por levar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia moderna, ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o da marinha otomana por uma esquadra anglo-franco-russa na ba\u00eda de Navarino, no Peloponeso (1827). Aos olhos dos mu\u00e7ulmanos otomanos as sucessivas revoltas sangrentas dos dhimmi crist\u00e3os ortodoxos \u2013 gregos, s\u00e9rvios, montenegrinos, b\u00falgaros, valacos, moldavos, etc. \u2013, durante todo o s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, foram uma esp\u00e9cie de \u201cconflito civilizacional\u201d avant la lettre. As rebeli\u00f5es que levaram \u00e0 subvers\u00e3o da pax otomana e ao fim do sistema teocr\u00e1tico do millet, invocavam um ide\u00e1rio pol\u00edtico at\u00e9 ent\u00e3o completamente desconhecido, que n\u00e3o se fundava nos textos religiosos e falava, n\u00e3o em Al\u00e1, nem sequer no Deus dos crist\u00e3os, mas na soberania da \u201cNa\u00e7\u00e3o\u201d: quem se poderia lembrar de combater em nome de tal heresia? (A surpresa que tiveram os mu\u00e7ulmanos otomanos no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, impregnados por um pensamento religioso, ao confrontarem-se com combatentes dispostos a morrer por uma ideia \u201cirreligiosa\u201d, provavelmente s\u00f3 \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0 surpresa que europeus e ocidentais, moldados por um pensamento laico, tiveram nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, quando viram mu\u00e7ulmanos dispostos a morrer por um ide\u00e1rio religioso, em atentados suicidas em Israel, na Palestina, na Chech\u00e9nia ou no Iraque). Ao contr\u00e1rio dos mu\u00e7ulmanos otomanos, para os dhimmi revoltosos o novo ide\u00e1rio da soberania da na\u00e7\u00e3o e da cidadania laica e igualit\u00e1ria tendeu a ser visto como libertador. Dentro dos povos submetidos ao poder otomano, foi entre os crist\u00e3os dos Balc\u00e3s, e mais tarde da \u00c1sia Menor e das prov\u00edncias \u00e1rabes do Imp\u00e9rio, que este ide\u00e1rio laico teve uma mais r\u00e1pida e entusi\u00e1stica difus\u00e3o (mais tarde, tamb\u00e9m entre os mu\u00e7ulmanos n\u00e3o turcos, \u00e1rabes e curdos). As raz\u00f5es s\u00e3o de v\u00e1ria ordem e t\u00eam a ver quer com os contactos comerciais que estes mantinham frequentemente com os europeus \u2013 o com\u00e9rcio otomano era sobretudo efectuado por dhimmis gregos, arm\u00e9nios e judeus, dado o menosprezo que a tradicional elite dirigente otomana tinha pelo exerc\u00edcio das actividades comerciais e industriais (o que, ironicamente, com a expans\u00e3o do capitalismo industrial, at\u00e9 acabou por ser favor\u00e1vel aos dhimmis) \u2013, a maior proximidade cultural, e, talvez mais importante do que tudo isto, a possibilidade de acabar com o estatuto de sujei\u00e7\u00e3o que implicava o sistema do millet. Se entre finais do s\u00e9culo XV e meados do s\u00e9culo XVII esse sistema foi, quando genericamente considerado, provavelmente um mal menor, sobretudo se o compararmos com o clima de guerras religiosas que a Europa viveu e com a inquisi\u00e7\u00e3o que levou, por exemplo, \u00e0 expuls\u00e3o dos judeus da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. A quest\u00e3o \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o se alterou drasticamente a partir dessa altura. O Estado liberal que come\u00e7ou a emergir da paz de Vestef\u00e1lia (1648), do Iluminismo e das Revolu\u00e7\u00f5es Francesa e Americana, estabeleceu novos direitos igualit\u00e1rios de cidadania e colocou a na\u00e7\u00e3o como detentora do poder soberano. Isto fez com que com que a teocracia dos millet e o pr\u00f3prio Imp\u00e9rio Otomano que assentava nesta (apesar de reformas como as Tanzimat que pretenderam introduzir uma esp\u00e9cie de \u201ccidadania otomana\u201d), se tornasse, cada vez mais, um sistema arcaico e opressivo aos olhos dos que viveram no s\u00e9culo XIX e nas primeiras duas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Ap\u00f3s o fim do Imp\u00e9rio Otomano, o per\u00edodo entre as duas guerras foi marcado por um ilus\u00f3rio apogeu colonial das pot\u00eancias europeias nos territ\u00f3rios do dar al-islam, com os novos protectorados franceses (S\u00edria e L\u00edbano) e brit\u00e2nicos (Iraque, Koweit, Jord\u00e2nia, Palestina) no M\u00e9dio Oriente, que sucederam ao antigo poder imperial\/\u201dcolonial\u201d, derrotado na I Guerra Mundial. De um ponto de vista hist\u00f3rico, este foi um per\u00edodo bastante curto, se o compararmos com os v\u00e1rios s\u00e9culos de domina\u00e7\u00e3o otomana da regi\u00e3o. De facto, no imediato p\u00f3s-II Guerra Mundial as pot\u00eancias coloniais europeias j\u00e1 estavam a bra\u00e7os com um impar\u00e1vel processo de descoloniza\u00e7\u00e3o: o ciclo iniciou-se com a independ\u00eancia do antigo Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico da \u00cdndia, em 1947 (que deu origem \u00e0 \u00cdndia e ao Paquist\u00e3o e mais tarde, em 1971, tamb\u00e9m ao Bangladesh) e fechou-se com o fim do imp\u00e9rio colonial portugu\u00eas, em 1975. \u00c9 este processo de descoloniza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na origem de uma nova fase de rela\u00e7\u00f5es com o Isl\u00e3o: no plano externo, as antigas rela\u00e7\u00f5es coloniais deram lugar a rela\u00e7\u00f5es entre Estados independentes; no plano interno, os tradicionais movimentos migrat\u00f3rios de popula\u00e7\u00f5es europeias para o resto do mundo (col\u00f3nias e ex-col\u00f3nias) come\u00e7aram a inverter-se. De grande exportadora de popula\u00e7\u00e3o devido ao seu dinamismo demogr\u00e1fico (e aos conflitos militares), das d\u00e9cadas e s\u00e9culos anteriores, a Europa come\u00e7ou progressivamente a ser o destino de grandes fluxos de popula\u00e7\u00f5es extra-europeias (emigrantes volunt\u00e1rios e refugiados). Foi neste contexto hist\u00f3rico que se come\u00e7aram a desenhar os contornos do que actualmente podemos designar como o novo Isl\u00e3o da Europa Ocidental, por contraposi\u00e7\u00e3o ao antigo Isl\u00e3o da \u201cTurquia da Europa\u201d \u2013 nome dado aos territ\u00f3rios otomanos no Sudeste europeu \u2013, que hoje continua a ter uma presen\u00e7a significativa (B\u00f3snia, Maced\u00f3nia, Chipre e Bulg\u00e1ria) e nalguns casos at\u00e9 maiorit\u00e1ria (Alb\u00e2nia e Kosovo) de popula\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas.<\/p>\n<p>6. Visto retrospectivamente, o ano de 1989 n\u00e3o s\u00f3 marcou o final da Guerra Fria com a queda do muro de Berlim, como tamb\u00e9m nele ocorreram outros eventos \u2013 na altura percebidos como de import\u00e2ncia menor \u2013 que j\u00e1 prenunciavam rumos importantes do Isl\u00e3o da Europa. De facto, sendo agora conhecida a sequ\u00eancia dos acontecimentos, podemos verificar que j\u00e1 nessa altura este dava os primeiros sinais p\u00fablicos de afirma\u00e7\u00e3o. Dois acontecimentos sustentam esta re-leitura a posteriori: o caso Salman Rushdie no Reino Unido e a controv\u00e9rsia sobre o uso do v\u00e9u na escola p\u00fablica em Fran\u00e7a. No caso brit\u00e2nico, os acontecimentos ligados ao \u201cauto-de-f\u00e9\u201d dos mu\u00e7ulmanos de Bradford e \u00e0 fatwa Ayatollah Khomeini foram seguidos de um outro evento simb\u00f3lico relevante: a cria\u00e7\u00e3o de um \u201cParlamento Mu\u00e7ulmano\u201d, por Kalim Siddiqui, antigo sub-editor do jornal brit\u00e2nico Guardian, ao lado do Parlamento de Westminster. No caso franc\u00eas, o despertar simb\u00f3lico do Isl\u00e3o ocorreu tamb\u00e9m em 1989 \u2013 precisamente na altura das comemora\u00e7\u00f5es dos duzentos anos da Revolu\u00e7\u00e3o de 1789, com todo o simbolismo do evento sobre a la\u00efcit\u00e9 \u2013, quando a quest\u00e3o do uso do v\u00e9u isl\u00e2mico (foulard) em locais p\u00fablicos foi desencadeada por tr\u00eas alunas de uma escola da cidade de Creil, que insistiam no seu uso durante as aulas, lan\u00e7ando uma onda de pol\u00e9mica na sociedade francesa e entre a classe pol\u00edtica. Se estes foram os desenvolvimentos mais importantes do lado ocidental da Europa, no lado oriental da Europa \u2013 o \u201cPr\u00f3ximo Oriente\u201d na designa\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX \u2013 a aceita\u00e7\u00e3o da candidatura da Turquia \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e a abertura oficial de negocia\u00e7\u00f5es de ades\u00e3o em 2005 trouxe, aquilo que, numa analogia hist\u00f3rica, pode ser qualificado como a \u201cquest\u00e3o do Oriente\u201d do s\u00e9culo XXI. Nesta nova vers\u00e3o, o antigo \u201chomem doente da Europa\u201d do s\u00e9culo XIX est\u00e1 recuperado das enfermidades do passado. Agora, prop\u00f5e-se at\u00e9 tratar das maleitas que afligem a Europa neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI \u2013 o envelhecimento e a quebra demogr\u00e1fica, a falta de popula\u00e7\u00e3o activa que suporte o crescimento da economia e sustente o Estado-Provid\u00eancia, e o infame \u201cconflito de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d diagnosticado por Bernard Lewis[9] e Samuel P. Huntington \u2013 com o seu dinamismo demogr\u00e1fico (71 milh\u00f5es contra 13,5 milh\u00f5es nos anos 20 do s\u00e9culo XX) e a sua experi\u00eancia de s\u00e9culos de \u201cpluralismo\u201d otomano (leia-se do sistema teocr\u00e1tico dos millet derivado da X\u00e1ria) seguida de d\u00e9cadas de secularismo nacionalista \u201cdemocr\u00e1tico\u201d (onde a minoria curda foi inexistente e deu lugar aos \u201cturcos da montanha\u201d). Esta tranquilizante imagem dada pelo governo dos conservadores-islamistas do Partido da Justi\u00e7a e do Desenvolvimento (AKP), de Recep Tayyip Erdogan, parece ter impressionado favoravelmente l\u00edderes europeus como o Primeiro-Ministro brit\u00e2nico, Tony Blair, que, aparentemente, acreditam nela. Todavia, nem todos t\u00eam uma percep\u00e7\u00e3o t\u00e3o optimista e cr\u00e9dula quanto a esta terap\u00eautica, talvez por conhecerem bem os seus efeitos secund\u00e1rios. Nos actuais Estados soberanos dos Balc\u00e3s e M\u00e9dio Oriente, formados a partir da decomposi\u00e7\u00e3o do dar al-islam otomano, a ambi\u00e7\u00e3o europeia da Turquia enfrenta bastante cepticismo e desconfian\u00e7a. \u00c9 esse o caso da Gr\u00e9cia, apesar da sua recente atitude mais flex\u00edvel face \u00e0 ades\u00e3o turca, motivada, muito provavelmente, por c\u00e1lculos estrat\u00e9gicos de vantagens na multilateraliza\u00e7\u00e3o do conflito heleno-turco, e de alguns pa\u00edses \u00e1rabes, como, por exemplo, a L\u00edbia do sempre imprevis\u00edvel Muammar Kadafi, que j\u00e1 qualificou a ades\u00e3o da Turquia como um \u201ccavalo de Tr\u00f3ia\u201d[10] para a Uni\u00e3o Europeia. As raz\u00f5es s\u00e3o relativamente \u00f3bvias, se tentarmos olhar para as ambi\u00e7\u00f5es europeias desse pa\u00eds, a partir de um olhar grego, ou at\u00e9 \u00e1rabe. A sua re-entrada europeia tende a ser vista como uma esp\u00e9cie de \u201cregresso ao passado\u201d, onde o antigo poder imperial\/\u201ccolonial\u201d tem ambi\u00e7\u00f5es sobre a \u201cTurquia da Europa\u201d, os ex-territ\u00f3rios otomanos do Sudeste europeu, pelo menos ao n\u00edvel da influ\u00eancia cultural, religiosa e pol\u00edtica. Antecipando um pouco mais essa (im)previs\u00edvel ambi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da Turquia, esta procurar\u00e1, atrav\u00e9s dos mecanismos institucionais da Uni\u00e3o Europeia, sempre zelosa com os direitos das minorias, tornar-se, de iure ou de facto, no Estado protector da identidade e do \u201cdireito \u00e0 diferen\u00e7a\u201d dos antigos mu\u00e7ulmanos religiosos e sociol\u00f3gicos do Sudeste europeu (cerca de 8 milh\u00f5es), bem como dos novos mu\u00e7ulmanos religiosos e sociol\u00f3gicos da Europa Ocidental (12 a 15 milh\u00f5es), dos quais mais de 3,5 milh\u00f5es s\u00e3o de origem turca (e curda). Se a isto juntarmos as revindica\u00e7\u00f5es comunitaristas j\u00e1 existentes em pa\u00edses oficialmente multiculturais, como o Reino Unido \u2013 bem simbolizadas pelo Parlamento Mu\u00e7ulmano de Kalim Siddiqui \u2013, facilmente percebemos que se est\u00e1 a abrir a porta a formas arcaizantes de \u201ccidadania diferenciada\u201d onde a perten\u00e7a comunit\u00e1ria, \u00e9tnica e religiosa, corrompe a cidadania igualit\u00e1ria e universalista herdada das Revolu\u00e7\u00f5es Francesa e Americana. Ser\u00e1 este multiculturalismo um progresso social e pol\u00edtico, ou ser\u00e1 que estamos no limiar de um retrocesso civilizacional da Europa do s\u00e9culo XXI?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n[1] Gilles Kepel, \u00c0 l Ouest d\u2019Allah, Paris, \u00c9ditions du Seuil, pp. 218-219.<br \/>\n[2] Jer\u00f4me Cordelier e Marie-Sandrine-Saherri (entrevista a Maxime Rodinson), \u201cCe qui s\u00b4est pass\u00e9 \u00e0 New York n\u00b4est pas isolable de la lutte Orient-Occident\u201d in Le Point (5 de Outubro de 2001).<br \/>\n[3] Hannah Cleaver, Turkish workers a mistake, claims Schmidt, http:\/\/www.telegraph.co.uk\/news\/main.jhtml?xml=\/news\/2004\/11\/25\/wturk25.xml&amp;sSheet=\/news\/2004\/11\/25\/ixworld.html<br \/>\n[4] Wolfgang Schwanitz (entrevista a Bernard Lewis), \u201cEuropa wird am Ende des Jahrunderts islamisch sein\u201d, in Die Welt (28 de Julho de 2004).<br \/>\n[5] Will Kymlicka, La citoyennet\u00e9 multiculturelle: une th\u00e9orie lib\u00e9rale du droit des minorities (trad. fr. de Multicultural Citizenship: a Liberal Theory of Minority Rights, 1995), Paris, \u00c9ditions La D\u00e9couverte, 2001, pp. 222-223.<br \/>\n[6] Tariq Modood, Multicultural Politics. Racism, Ethnicity and Muslims in Britain, Edinburgh, Edinburgh University Press, 2005, pag. 139.<br \/>\n[7] Georges Castellan, Histoire des Balkans. XIVe \u2013 XXe si\u00e8cle, Paris, Fayard, 1991, pp. 118-119.<br \/>\n[8] Georges Castellan, op. cit. ant., pag. 108.<br \/>\n[9]Bernard Lewis, \u201cThe Roots of Muslim Rage\u201d in Atlantic Monthly (Setembro de 1990).<br \/>\n[10] \u201cGadhafi warns Turkey threatens EU\u201d in CNN International on-line (16 de Dezembro de 2004).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no Expresso n\u00ba 1737 (Atual, 11 fevereiro de 2006, pp. 20-23). \u00daltima revis\u00e3o 14\/06\/2014<\/p>\n<p>\u00a9 \u00a0Imagem: capa do Livro de Maxime Rodinson, L&#8217;Islam: Politique et Croyance (Fayard, 1993)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Os mu\u00e7ulmanos nem sempre t\u00eam consci\u00eancia mas impuseram-se primeiro na Europa como concorrentes, com aspira\u00e7\u00f5es dominadoras. A maior parte dos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos actuais eram ent\u00e3o crist\u00e3os \u2013 o Egipto, a S\u00edria, a Turquia\u2026 durante muito tempo os mu\u00e7ulmanos foram os mais fortes, os mais ricos, os mais civilizados.\u201d Ap\u00f3s v\u00e1rios s\u00e9culos, o Ocidente acabou &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/a-europa-e-o-islao-regresso-ao-passado\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;A Europa e o Isl\u00e3o: regresso ao passado?&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,6],"tags":[63,51,62],"class_list":["post-1283","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-imprensa","tag-europa","tag-imperio-otomano","tag-islao","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1283"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1283\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}