{"id":1290,"date":"2015-06-06T12:45:33","date_gmt":"2015-06-06T12:45:33","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1290"},"modified":"2024-07-23T16:53:39","modified_gmt":"2024-07-23T16:53:39","slug":"ligacoes-perigosas-a-seducao-pos-moderna-da-irracionalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/ligacoes-perigosas-a-seducao-pos-moderna-da-irracionalidade\/","title":{"rendered":"Liga\u00e7\u00f5es perigosas: a sedu\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna da irracionalidade"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/The-Seduction-of-Unreason.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"668\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/The-Seduction-of-Unreason.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1291\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/The-Seduction-of-Unreason.jpeg 668w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/The-Seduction-of-Unreason-196x300.jpeg 196w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/The-Seduction-of-Unreason-370x567.jpeg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/The-Seduction-of-Unreason-570x874.jpeg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/The-Seduction-of-Unreason-378x580.jpeg 378w\" sizes=\"auto, (max-width: 668px) 100vw, 668px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Al\u00e9m do impasse \u00e9tico e do bloqueio da ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a que este tipo de ideias tendencialmente leva (o que, s\u00f3 por si, j\u00e1 \u00e9 negativo) \u00e9 tamb\u00e9m \u00f3bvio que o mesmo procedimento corrosivo pode ser aplicado aos ideais verdadeiramente progressistas, como os direitos humanos.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>1. Um encontro com uma das mais surpreendentes reviravoltas da vida intelectual europeia do s\u00e9culo XX, \u00e9 o que nos prop\u00f5e Richard Wolin, um historiador das ideias da City University de Nova Iorque, neste, agora editado em paperback (a edi\u00e7\u00e3o original \u00e9 de 2004). Os trabalhos de Richard Wolin, oriundo do movimento da New Left dos anos 60, e que se define como um pensador liberal no sentido norte-americano da palavra (ou seja, n\u00e3o conservador), j\u00e1 deixaram um rasto de pol\u00e9mica e muitos intelectuais p\u00f3s-estruturalistas e p\u00f3s-modernistas da Europa e Am\u00e9rica do Norte, \u00e0 beira de um ataque de nervos (sobretudo o entretanto falecido Jacques Derrida). Quando falamos em p\u00f3s-estruturalismo ou p\u00f3s-modernismo, estamos a referir-nos a uma corrente intelectual ampla e heterog\u00e9nea que se caracteriza, essencialmente, pela oposi\u00e7\u00e3o aos ideais racionalistas, humanistas e universalistas do Iluminismo, pela cr\u00edtica ao conhecimento cient\u00edfico considerado uma forma de poder e de opress\u00e3o ao servi\u00e7o da democracia liberal-capitalista, pela desvaloriza\u00e7\u00e3o da racionalidade, pela sustenta\u00e7\u00e3o do relativismo cultural da verdade e pela defesa das pol\u00edticas de identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>2. &nbsp;Richard Wolin dividiu a sua abordagem em duas partes. A primeira \u00e9 dedicada ao que designa como a \u201cideologia alem\u00e3\u201d, ou seja, o contra-iluminismo, empenhado na rejei\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a na raz\u00e3o e na verdade universal, da possibilidade de progress\u00e3o social e pol\u00edtica pelos valores do liberalismo e da democracia e na nega\u00e7\u00e3o do humanismo universalista iluminista do s\u00e9culo XVIII. Aqui, Wolin analisa sobretudo as ideias e o percurso pessoal e pol\u00edtico de pensadores como Nietzsche, Jung, ou Gadamer, efectuando tamb\u00e9m o que este chama uma \u201cexcurs\u00e3o pol\u00edtica\u201d sobre o pensamento da nova direita alem\u00e3. Insere ainda um cap\u00edtulo dedicado especificamente \u00e0 recep\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna de Nietzsche na Am\u00e9rica do Norte, ap\u00f3s a \u201cescala t\u00e9cnica\u201d feita em Fran\u00e7a, onde adquiriu roupagens p\u00f3s-estruturalistas, com o sugestivo t\u00edtulo de \u201cZaratustra vai para Hollywood\u201d (uma alus\u00e3o ir\u00f3nica ao livro Assim Falava Zaratrustra, de Nietzsche). Neste cap\u00edtulo, p\u00f5e em causa o uso selectivo e\/ou as omiss\u00f5es deliberadas dos aspectos mais inc\u00f3modos e comprometedores do pensamento de Nietzsche, usado e abusado pelos nazis como uma esp\u00e9cie de \u201cfil\u00f3sofo da corte\u201d, mas que nos textos dos p\u00f3s-estruturalistas franceses e seus seguidores (os casos de Michel Foucault e Jaques Derrida s\u00e3o talvez o melhores exemplos), surge com uma imagem \u201cdesnazificada\u201d, quase ang\u00e9lica, como um esp\u00edrito sublime com meras preocupa\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e de cr\u00edtica cultural e social, alheado dos meandros terrenos da pol\u00edtica de poder (machtpolitik).<\/p>\n\n\n\n<p>3. Na segunda parte, Wolin aborda o que chama as \u201cli\u00e7\u00f5es francesas\u201d e a viagem da \u201cideologia alem\u00e3\u201d para a outra margem do Reno, ou seja, a desloca\u00e7\u00e3o do contra-iluminismo com \u201ca cr\u00edtica da raz\u00e3o, da democracia e humanismo, que teve origem na direita alem\u00e3 dos anos 20\u2033, para Fran\u00e7a, pela via, bastante ins\u00f3lita, de parte da esquerda intelectual e pol\u00edtica francesa, que se apropriou e interiorizou essas ideias. A an\u00e1lise de Richard Wolin incide sobre os pensadores que, segundo este, tiveram um papel central nessa \u201ctransmuta\u00e7\u00e3o\u201d de ideias reaccion\u00e1rias e pr\u00f3ximas de ideologias totalit\u00e1rias de direita \u2013 fascismo e nazismo \u2013 em ideias que passaram a ser apresentadas como \u201cprogressistas\u201d, \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d e de esquerda. Esses pensadores foram Georges Bataille, Maurice Blanchot e Paul de Man, passando pela influ\u00eancia filos\u00f3fica de Martin Heidegger, para culminar no desconstrucionismo de Jacques Derrida e nas implica\u00e7\u00f5es do seu relativismo extremo sobre a pr\u00f3pria ideia de verdade e de justi\u00e7a. H\u00e1 tamb\u00e9m uma segunda \u201cexcurs\u00e3o pol\u00edtica\u201d, agora sobre o pensamento da nova direita francesa da Frente Nacional de Le Pen e seus seguidores. O que se torna perturbante ao longo da leitura do livro \u00e9 a evidencia\u00e7\u00e3o das similitudes filos\u00f3fico-pol\u00edticas entre o actual p\u00f3s-modernismo e as suas pretens\u00f5es de cr\u00edtica e supera\u00e7\u00e3o da modernidade, e muitas das ideias dos intelectuais \u201cprotofascistas\u201d dos anos 20 e 30, que aderiram a ideologias totalit\u00e1rias, e que pretendiam erradicar a democracia parlamentar e o liberalismo, revelando a exist\u00eancia de um vasto \u201cpatrim\u00f3nio negro\u201d habitualmente omitido ou \u201cembelezado\u201d pelos seus adeptos.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Indubitavelmente desconcertante \u00e9 ver como a ideia de uma esquerda tradicionalmente universalista, herdeira do iluminismo e da revolu\u00e7\u00e3o francesa, baseando os seus ideais e reivindica\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas nas no\u00e7\u00f5es de raz\u00e3o, verdade, direitos humanos, justi\u00e7a e democracia e que estava na linha da frente da luta contra o obscurantismo, se perdeu na nebulosa do p\u00f3s-estruturalismo\/p\u00f3s-modernismo. Ao assimilar, entre outras influ\u00eancias, o \u201cperspectivismo\u201d de Nietzsche (bem expresso no dito \u201cn\u00e3o h\u00e1 factos, s\u00f3 h\u00e1 interpreta\u00e7\u00f5es\u201d) parte do pensamento de esquerda \u2014 a chamada \u201cnova esquerda p\u00f3s-marxista\u201d \u2014 pretendeu relativizar as normas sociais e\/ou jur\u00eddicas da sociedade liberal-burguesa, denunciando-as como express\u00e3o de interesses particulares ou rela\u00e7\u00f5es de poder que arbitrariamente favorecem alguns povos, culturas ou grupos sociais em detrimento de outros. Com este fundamento filos\u00f3fico e epistemol\u00f3gico os \u201cprogressistas p\u00f3s-modernistas\u201d consideram-se em posi\u00e7\u00e3o de \u201cdesconstruir\u201d as normas dos grupos dominantes, ou privilegiados socialmente, e denunciar a hipocrisia social que lhe est\u00e1 subjacente, proclamando, em alternativa, que todas as \u201cculturas s\u00e3o boas\u201d. Al\u00e9m do impasse \u00e9tico e do bloqueio da ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a que este tipo de ideias tendencialmente leva (o que, s\u00f3 por si, j\u00e1 \u00e9 negativo) \u00e9 tamb\u00e9m \u00f3bvio que o mesmo procedimento corrosivo pode ser aplicado aos ideais verdadeiramente progressistas, como os direitos humanos. Se os virmos sob o prisma do p\u00f3s-modernismo chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que s\u00e3o uma express\u00e3o da cultura ocidental (o ide\u00e1rio liberal contido nas revolu\u00e7\u00f5es francesa e americana) e de uma vontade de poder do ocidente, que pretende impor a \u201chegemonia cultural\u201d denunciada por Gramsci, n\u00e3o havendo, por isso, raz\u00e3o s\u00f3lida para que outras culturas os adoptem. Isso \u00e9 o que dizem tamb\u00e9m os ide\u00f3logos do islamismo radical, como Mawdudi e Qutb. \u00c9 o que faz tamb\u00e9m a Organiza\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia Isl\u00e2mica, com a sua Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos no Isl\u00e3o, que n\u00e3o s\u00e3o os da Declara\u00e7\u00e3o Universal das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, recens\u00e3o originalmente publicada sob o t\u00edtulo \u201cOposi\u00e7\u00e3o \u00e0 raz\u00e3o\u201d na revista Cr\u00edtica, 10 de abril de 2007<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Image: capa do Livro de Richard Wolin \u201cThe Seduction of Unreason: The Intellectual Romance with Fascism from Nietzsche to Postmodernism\u201d (Princeton University Press, 2006)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Al\u00e9m do impasse \u00e9tico e do bloqueio da ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a que este tipo de ideias tendencialmente leva (o que, s\u00f3 por si, j\u00e1 \u00e9 negativo) \u00e9 tamb\u00e9m \u00f3bvio que o mesmo procedimento corrosivo pode ser aplicado aos ideais verdadeiramente progressistas, como os direitos humanos. &nbsp; 1. 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