{"id":1448,"date":"2015-06-05T14:15:09","date_gmt":"2015-06-05T14:15:09","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1448"},"modified":"2015-06-16T18:54:43","modified_gmt":"2015-06-16T18:54:43","slug":"pos-positivismo-e-ideologia-na-teoria-das-relacoes-internacionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/pos-positivismo-e-ideologia-na-teoria-das-relacoes-internacionais\/","title":{"rendered":"P\u00f3s-Positivismo e Ideologia na Teoria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1011\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-763x1024.jpg\" alt=\"TRInternacionais\" width=\"763\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-763x1024.jpg 763w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-1527x2048.jpg 1527w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-1568x2104.jpg 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-224x300.jpg 224w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-768x1030.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-1145x1536.jpg 1145w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-370x496.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-570x765.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-770x1033.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-1170x1570.jpg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-432x580.jpg 432w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/TRInternacionais-scaled.jpg 1908w\" sizes=\"auto, (max-width: 763px) 100vw, 763px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Se as categorias e os valores sociais s\u00e3o o resultado de uma actividade institutiva, ser\u00e1 necess\u00e1rio estudar n\u00e3o apenas os mecanismos e as modalidades desta \u00faltima, mas igualmente as condi\u00e7\u00f5es concretas pelas quais esta \u00e9 feita, pelas rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a que desenha, os sistemas de interesses que ela serve e os grupos que ele institui, ou, pelo contr\u00e1rio, que ele marginaliza, ou at\u00e9 neutraliza. O conhecimento n\u00e3o surge da rela\u00e7\u00e3o de um enunciado com um estado do mundo, mas do facto de impor como objectiva e neutra o que n\u00e3o \u00e9 mais do que uma vers\u00e3o da realidade, uma perspectiva entre outras.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Andrea SEMPRINI<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. \u00c0 semelhan\u00e7a de outras disciplinas das Ci\u00eancias Sociais e Humanas, as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais conhecem actualmente uma enorme diversidade te\u00f3rica e at\u00e9 epistemol\u00f3gica<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. A relativa homogeneidade te\u00f3rica de um passado n\u00e3o muito distante, onde o <em>mainstream<\/em> era constitu\u00eddo pelas abordagens realistas\/neo-realistas, com algum peso das abordagens liberais\/neo-liberais \u2013 sobretudo na teoriza\u00e7\u00e3o norte-americana da disciplina \u2013, deu lugar, desde o final dos anos 80 do s\u00e9culo passado, a um conjunto de novas abordagens, tais como os construtivistas, as feministas, os p\u00f3s-estruturalistas\/p\u00f3s-modernistas, os estudos cr\u00edticos, etc., pulverizando, desta forma, o panorama te\u00f3rico. Esta \u00abviragem p\u00f3s-moderna\u00bb<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> da disciplina, normalmente identificada na Teoria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> como resultante do debate p\u00f3s-positivista<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, \u00e9 essencialmente uma r\u00e9plica, como \u00e9 t\u00edpico das \u00e1reas pluridiscilinares, de id\u00eanticos desenvolvimentos noutras disciplinas, neste caso da Antropologia Cultural, da Sociologia do Desenvolvimento e da Transforma\u00e7\u00e3o Social, dos Estudos P\u00f3s-Coloniais e dos Estudos Culturais \u2013 agora erigidas a novo modelo de \u00abperfei\u00e7\u00e3o\u00bb, em detrimento da \u00abvelho\u00bb modelo das nobeliz\u00e1veis Ci\u00eancias Naturais e da \u00abrainha das Ci\u00eancias Sociais\u00bb (a Economia). Quer dizer, as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais passaram de um processo de <em>imitatio scientia<\/em> para um processo de<em> imitatio post-modernum<\/em>, replicando na disciplina as tend\u00eancias est\u00e9ticas, intelectuais e ideol\u00f3gicas das Artes e Humanidades.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, ou talvez n\u00e3o pelas raz\u00f5es que veremos mais \u00e0 frente, a frequentemente confusa diversidade te\u00f3rica que resultou deste processo \u00aboriginal\u00bb de<em> imitatio post-modernum<\/em> tende a ser vista de forma positiva e enaltecida como \u00abinovadora\u00bb, \u00abenriquecedora\u00bb, \u00ababrindo novas perspectivas\u00bb e possibilidades de investiga\u00e7\u00e3o \u00abradical\u00bb, etc. Isto por contraposi\u00e7\u00e3o com a \u00abvelha\u00bb abordagem monol\u00edtica do realismo\/neo-realismo, qualificada como \u00abestatoc\u00eantrica\u00bb, preocupada com os \u00abantigos\u00bb conceitos de \u00absoberania\u00bb e de \u00abna\u00e7\u00e3o\u00bb, epistemologicamente fundada numa concep\u00e7\u00e3o \u00abrealista\u00bb de Ci\u00eancia ultrapassada e, em termos ideol\u00f3gicos, \u00abconservadora\u00bb da realidade social-internacional. Quer dizer, no argument\u00e1rio t\u00edpico da viragem p\u00f3s-moderna encontram-se, entre outras, a conhecida cr\u00edtica ideol\u00f3gica ao positivismo cient\u00edfico acusado de \u00abmascarar\u00bb (a express\u00e3o original \u00e9 de Nietzsche no j\u00e1 long\u00ednquo s\u00e9culo XIX), a sua ideologia e de legitimar o <em>statu quo <\/em>internacional, sob uma capa de \u00abneutralidade\u00bb e de conhecimento \u00abcient\u00edfico\u00bb. Esta cr\u00edtica levanta uma quest\u00e3o de vulto, normalmente evitada no \u00e2mbito da Teoria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, que \u00e9 a da rela\u00e7\u00e3o entre Ci\u00eancia, conhecimento e ideologia. E, no caso das abordagens p\u00f3s-positivistas (construtivistas, feministas, p\u00f3s-estruturalistas\/p\u00f3s-modernistas, estudos cr\u00edticos, etc.), levanta tamb\u00e9m a quest\u00e3o de saber qual \u00e9 a sua ideologia alternativa ao (\u00abconservadorismo\u00bb) da corrente realista e em que pressupostos epistemol\u00f3gicos assenta. Ambas as quest\u00f5es podem ser analisadas de uma forma interessante a partir de um pequeno estudo de caso comparando a ideologia nacionalista, que tradicionalmente se articula com a vis\u00e3o realista\/neo-realista das rela\u00e7\u00f5es internacionais, com a nova ideologia multiculturalista<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, que tende a surgir ligada \u00e0s abordagens p\u00f3s-positivistas, as quais rejeitam o realismo e pretendem promover a constru\u00e7\u00e3o de entidades p\u00f3s-nacionais (e p\u00f3s-estaduais\/p\u00f3s-soberanas). Antes de o efectuarmos, vamos determo-nos um pouco sobre o conceito de ideologia.<\/p>\n<p>2. \u00c9 ao fil\u00f3sofo franc\u00eas Antoine Destutt de Tracy que se deve o neologismo \u00abideologia\u00bb (cunhado a partir das palavras gregas <em>eidos<\/em> e <em>logos<\/em>), em finais do s\u00e9culo XVIII (1795), em plena Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, com intuito de designar uma nova ci\u00eancia emp\u00edrica das ideias por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 antiga metaf\u00edsica<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Sendo este um conceito evolutivo<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> e complexo, por simplifica\u00e7\u00e3o os seu m\u00faltiplos significados no \u00e2mbito da Filosofia Pol\u00edtica e Ci\u00eancia Pol\u00edtica\/Rela\u00e7\u00f5es Internacionais podem ser apresentados em duas grandes acep\u00e7\u00f5es: i) como um conjunto razoavelmente coerente e articulado de ideias \u2013 ou seja, uma esp\u00e9cie de doutrina \u2013, que pretende fornecer uma vis\u00e3o abrangente, e tendencialmente completa, sobre o ser humano e a sociedade, retirando da\u00ed um esquema de ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade; ii) um conjunto de valores com a fun\u00e7\u00e3o social de legitimar e consolidar o <em>statu quo<\/em>, representando ordem e as estruturas sociais e econ\u00f3micas existentes num determinado momento como sendo resultado da natureza humana (esta \u00faltima acep\u00e7\u00e3o do conceito de ideologia \u00e9 a mais pr\u00f3xima do pensamento marxista cl\u00e1ssico). Note-se que em qualquer destas acep\u00e7\u00f5es a ideologia tem sempre, expl\u00edcita ou implicitamente, uma importante fun\u00e7\u00e3o legitimadora que pode ser: i) do poder institu\u00eddo; ii) dos grupos e movimentos que aspiram \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>At\u00e9 h\u00e1 algum tempo atr\u00e1s, uma dificuldade t\u00edpica com que se confrontava quem quisesse analisar com alguma imparcialidade um conflito internacional (por exemplo, o conflito israelo-palestiniano, o conflito entre a \u00cdndia e o Paquist\u00e3o sobre Caxemira, etc.), era o problema de manter equidist\u00e2ncia face \u00e0 ideologia nacionalista que enviesava a objectividade das vers\u00f5es das partes em conflito. Hoje, para al\u00e9m desta dificuldade que continua a persistir, surgiu uma nova que \u00e9 o dos trabalhos, normalmente de perfil acad\u00e9mico, imbu\u00eddos de uma ideologia multiculturalista<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, que j\u00e1 come\u00e7am a constituir um acervo consider\u00e1vel. Esta ideologia, que resulta da \u00abviragem p\u00f3s-moderna\u00bb das Ci\u00eancias Sociais e Humanas, tem as suas ra\u00edzes na segunda metade do s\u00e9culo passado e baseia-se, em termos ontol\u00f3gicos e epistemol\u00f3gicos, uma atitude de <em>soup\u00e7on<\/em> (suspeita), face ao que chama as \u00abgrandes narrativas\u00bb da cultura ocidental \u2013 o nacionalismo \u00e9 uma delas \u2013 denunciando o perigo de vis\u00f5es essencialistas e a necessidade da sua desconstru\u00e7\u00e3o (Paul de Man, Jacques Derrida, etc.), como se estiv\u00e9ssemos perante uma narrativa liter\u00e1ria<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Ou seja, transpondo-a para o caso aqui em an\u00e1lise, sustenta que a Na\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> (e consequentemente o Estado-Na\u00e7\u00e3o), n\u00e3o \u00e9 uma realidade primordial ou \u00abessencial\u00bb, mas uma mera constru\u00e7\u00e3o social (uma \u00abcomunidade imaginada\u00bb, na express\u00e3o boa resson\u00e2ncia construtivista, celebrizada nas Ci\u00eancias Sociais por Benedict Anderson<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> que, naturalmente, pode ser desconstru\u00edda). Para al\u00e9m do mais, e segundo esta mesma vis\u00e3o, a constru\u00e7\u00e3o social da Na\u00e7\u00e3o e os movimentos nacionalistas a que esta deu origem, est\u00e3o na g\u00e9nese dos maiores dramas humanos do s\u00e9culo XX. Assim, imp\u00f5e-se a cria\u00e7\u00e3o de novas identidades p\u00f3s-nacionais que a superem. Ao contr\u00e1rio do que possa parecer \u00e0 primeira vista, esta n\u00e3o \u00e9 mais do que uma \u00abnarrativa\u00bb p\u00f3s-moderna das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, onde as suas propostas n\u00e3o resultam de uma solu\u00e7\u00e3o neutral ou \u00abcient\u00edfica\u00bb, como assepticamente \u00e9 muitas vezes apresentada em trabalhos e publica\u00e7\u00f5es acad\u00e9micas, mas de uma concep\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica imbu\u00edda do seu pr\u00f3prio esquema de ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (ver quadro).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A ideologia nacionalista e a ideologia multiculturalista<\/strong><\/p>\n<table width=\"441\">\n<thead>\n<tr>\n<td width=\"99\"><strong>\u00a0<\/strong><\/td>\n<td width=\"171\"><strong>Ideologia nacionalista <\/strong><\/td>\n<td width=\"171\"><strong> Ideologia multiculturalista<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/thead>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"99\">Comunidade tipo-ideal a construir (\u00abcomunidade imaginada\u00bb pela ideologia)<\/td>\n<td width=\"171\">Na\u00e7\u00e3o(criada pela uniformiza\u00e7\u00e3o cultural e lingu\u00edstica da popula\u00e7\u00e3o \u2013 que poder\u00e1 ser tamb\u00e9m \u00e9tnica e\/ou religiosa \u2013, fixada num territ\u00f3rio hist\u00f3rico delimitado por fronteiras)<\/td>\n<td width=\"171\">Entidade p\u00f3s-nacional(criada pela dissolu\u00e7\u00e3o da Na\u00e7\u00e3o e dilui\u00e7\u00e3o da soberania do Estado atrav\u00e9s da promo\u00e7\u00e3o da diversidade cultural e lingu\u00edstica \u2013 que poder\u00e1 ser tamb\u00e9m \u00e9tnica e\/ou religiosa \u2013 e da abertura de fronteiras)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"99\">Eventos m\u00edticos legitimadores<\/td>\n<td width=\"171\">Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (a \u00abgrande na\u00e7\u00e3o\u00bb, a <em>citoyennet\u00e9<\/em>) e movimentos de independ\u00eancia nacional, para a cria\u00e7\u00e3o de um Estado-Na\u00e7\u00e3o; her\u00f3is nacionais no passado medieval e na Antiguidade (por ex. Joana d\u00b4 Arc em Fran\u00e7a, a Padeira de Aljubarrota em Portugal, etc.)<\/td>\n<td width=\"171\">Imp\u00e9rios \u00abmulticulturais\u00bb pr\u00e9-nacionais; <em>Andalus<\/em> como \u00abconviv\u00eancia lado a lado\u00bb de crist\u00e3os, judeus e mu\u00e7ulmanos; <em>millets<\/em> otomanos e <em>umma<\/em> isl\u00e2mica; her\u00f3is multiculturais do passado pr\u00e9-nacional (por ex. Ibn Rushd\/Averr\u00f3is do <em>Al-Andalus<\/em> etc.)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"99\">Disciplinas de refer\u00eancia<\/td>\n<td width=\"171\">Hist\u00f3riaLiteratura (\u00abgrandes cl\u00e1ssicos\u00bb)<\/td>\n<td width=\"171\">Ci\u00eancias Sociais (Antropologia e Sociologia) e Estudos CulturaisLiteratura (\u00abp\u00f3s-colonial\u00bb)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"99\">Autores de refer\u00eancia<\/td>\n<td width=\"171\">Leopold von Ranke, Johann Gottliebe Fichte, Ernest Renan, Jules Michelet, Guiseppe Mazzini, etc.<\/td>\n<td width=\"171\">Clifford Geertz, Michel Foucault, Edward Said, Benedict Anderson, Bhikhu Parekh, Gayatri Spivak, etc.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"99\">Metodologia<\/td>\n<td width=\"171\">Organiza\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o do passado pr\u00e9-nacional \u00e0 luz da ideologia nacionalista (constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa nacional)<\/td>\n<td width=\"171\">Desconstru\u00e7\u00e3o e (re)interpreta\u00e7\u00e3o do passado nacional \u00e0 luz da ideologia multiculturalista (constru\u00e7\u00e3o de uma nova narrativa p\u00f3s-nacional)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"99\">Atitude epistemol\u00f3gica<\/td>\n<td width=\"171\">Moderna e cient\u00edfica (pretende imitar o modelo das Ci\u00eancias Naturais); aceita a separa\u00e7\u00e3o entre factos e interpreta\u00e7\u00f5es e entre conhecimento e ideologia<\/td>\n<td width=\"171\">P\u00f3s-positivista (p\u00f3s-moderna) e cr\u00edtica da Ci\u00eancia (ou at\u00e9 anti-Ci\u00eancia); contesta a separa\u00e7\u00e3o entre factos e interpreta\u00e7\u00f5es e entre conhecimento e ideologia; para o exterior da academia continua a apresentar-se como \u00abcient\u00edfica\u00bb, procurando beneficiar do poder e prest\u00edgio e social que confere esta categoriza\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"99\">Atitude face ao \u00aboutro\u00bb<\/td>\n<td width=\"171\">A nossa cultura \u00e9 superior \u00e0 do \u00aboutro\u00bb; a nossa identidade nacional tem um car\u00e1cter \u00fanico; moto: <em>my country, right or wrong<\/em><\/td>\n<td width=\"171\">Todas as culturas s\u00e3o boas; a diferen\u00e7a do \u00aboutro\u00bb tem de ser aceite por n\u00f3s; moto: <em>celebrate diversity<\/em><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"99\">Tipo de indiv\u00edduo pretendido<\/td>\n<td width=\"171\">Nacionalista\/patriota<\/td>\n<td width=\"171\">P\u00f3s-nacional\/\u00abmulticulti\u00bb<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"99\">Tabus que garantem a conformidade de pensamento e comportamento (mecanismos de censura social)<\/td>\n<td width=\"171\">Sacraliza\u00e7\u00e3o da Na\u00e7\u00e3o; cr\u00edtica \u00e0 Na\u00e7\u00e3o e \u00e0 identidade nacional estigmatizada como atentat\u00f3ria aos valores p\u00fablicos; eventual criminaliza\u00e7\u00e3o da desconformidade de pensamento e comportamento.<\/td>\n<td width=\"171\">Sacraliza\u00e7\u00e3o da diversidade cultural; cr\u00edtica \u00e0 identidade do \u00aboutro\u00bb (sobretudo das culturas n\u00e3o ocidentais) estigmatizada como atentat\u00f3ria aos valores p\u00fablicos; eventual criminaliza\u00e7\u00e3o da desconformidade de pensamento e comportamento.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Fonte: <\/strong>Quadro elaborado pelo autor<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Onde se alicer\u00e7a, em termos espistemol\u00f3gicos, esta \u00abnarrativa\u00bb p\u00f3s-moderna que difunde a ideologia do multiculturalismo (e pretende substituir a \u00abnarrativa\u00bb nacionalista moderna, criando novas \u00abcomunidade imaginadas\u00bb p\u00f3s-nacionais)? Como explica o soci\u00f3logo Andrea Semprini, \u00abpara al\u00e9m do seu lado \u2018militante\u2018, o multiculturalismo \u00e9 um poderoso movimento de ideias, alimentado por um corpo te\u00f3rico que lhe serve de base conceptual e de legitima\u00e7\u00e3o intelectual\u00bb. Este <em>corpus<\/em> pode ser designado como \u00abepistemologia multicultural\u00bb, ainda que esta express\u00e3o sugira \u00abuma homogeneidade e uma coer\u00eancia que n\u00e3o correspondem a uma fragmenta\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que a comp\u00f5em\u00bb. Em termos hist\u00f3ricos, esta posi\u00e7\u00e3o nasceu da \u00abreviravolta epistemol\u00f3gica que ganhou forma na Europa a partir dos anos 1920, como reac\u00e7\u00e3o ao positivismo, ao racionalismo e aos determinismos que tinham dominado a cena intelectual durante quase um s\u00e9culo\u00bb. Esta deveu-se aos trabalhos de \u00abMead e Husserl na Filosofia, de Saussure e Whorf na Lingu\u00edstica, de Schutz na Sociologia, e de Boas e Kroeber na Antropologia, os quais \u2018abalaram o pensamento positivo\u2018\u00bb. Por sua vez prosseguiu com a \u00abcr\u00edtica radical\u00bb feita no p\u00f3s-guerra \u00abgra\u00e7as \u00e0 vaga estruturalista\u00bb (Barthes, Greimas, Jakobson, Lacan, L\u00e9vi-Strauss, Foucault), mas tamb\u00e9m a figuras de \u00abhorizontes te\u00f3ricos muito diferentes: Merleau-Ponty para a Fenomenologia, Fayerabend e Khun para a Epistemologia, Rorty e o segundo Wittgentsein para a Filosofia da Linguagem, Eco e Ricoeur para a Semi\u00f3tica, e Sacks para a Sociologia\u00bb. Nos \u00faltimos vinte anos \u00abesta renova\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica prosseguiu ainda o seu desenvolvimento em direc\u00e7\u00f5es mais dispersas. Uma aten\u00e7\u00e3o acrescida foi dada aos fen\u00f3menos cognitivos (Cicourel, Geertz), ao papel que o sentido e as interpreta\u00e7\u00f5es jogam na produ\u00e7\u00e3o da \u2018realidade\u2018 e dos valores sociais (Baudrillard, Garfinkel) e \u00e0 critica de toda a possibilidade de conhecimento objectivada do mundo (Derrida, Lyotard, Vattimo)\u00bb<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Ainda segundo Andrea Semprini, de uma maneira esquem\u00e1tica podem-se identificar quatro aspectos principais da \u00abepistemologia multicultural\u00bb, os quais podem ser apresentados da seguinte maneira:<\/p>\n<p>(i) \u00ab<em>A realidade \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o<\/em>. A realidade social n\u00e3o tem exist\u00eancia independente dos actores que a moldam, das teorias que lhe d\u00e3o forma e da linguagem que permite conceptualiz\u00e1-la e comunic\u00e1-la. Toda a objectividade \u00e9 uma objectividade \u00absob uma descri\u00e7\u00e3o\u00bb que fornece apenas uma vers\u00e3o mais ou menos eficiente da realidade.<\/p>\n<p>(ii)<em> As interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o subjectivas.<\/em> Se a realidade n\u00e3o tem objectividade, ela reduz-se a uma s\u00e9rie de enunciados em que o sentido e o estatuto referencial s\u00e3o largamente submetidos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de enuncia\u00e7\u00e3o, \u00e0 identidade e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o daquele que emitiu os enunciados e daquele que os recebe. A interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 por ess\u00eancia um acto individual. Se \u00e9 colectivo, est\u00e1 de qualquer maneira enraizado num horizonte interpretativo e condicionado pelas compet\u00eancias de recep\u00e7\u00e3o que orientam a interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(iii) Os <em>valores s\u00e3o relativos<\/em>. As principais consequ\u00eancias do car\u00e1cter radicalmente subjectivo e enunciativo da experi\u00eancia \u00e9 a impossibilidade de fixar um plano de objectividade que escaparia a este constrangimento. A verdade s\u00f3 pode ser relativa, enraizada numa hist\u00f3ria pessoal ou em conven\u00e7\u00f5es colectivas. A constata\u00e7\u00e3o da relatividade da verdade obriga a relativizar todo o julgamento de valor, que n\u00e3o pode visar a adequa\u00e7\u00e3o com uma objectividade que se oculta. O julgamento apenas adquire sentido no interior de uma configura\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, mediatizada pela l\u00edngua e inserido no interior de uma forma\u00e7\u00e3o discursiva.<\/p>\n<p>(iv)<em> O conhecimento \u00e9 um facto pol\u00edtico<\/em>. Se as categorias e os valores sociais s\u00e3o o resultado de uma actividade institutiva, ser\u00e1 necess\u00e1rio estudar n\u00e3o apenas os mecanismos e as modalidades desta \u00faltima, mas igualmente as condi\u00e7\u00f5es concretas pelas quais esta \u00e9 feita, pelas rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a que desenha, os sistemas de interesses que ela serve e os grupos que ele institui, ou, pelo contr\u00e1rio, que ele marginaliza, ou at\u00e9 neutraliza. O conhecimento n\u00e3o surge da rela\u00e7\u00e3o de um enunciado com um estado do mundo, mas do facto de impor como objectiva e neutra o que n\u00e3o \u00e9 mais do que uma vers\u00e3o da realidade, uma perspectiva entre outras\u00bb<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>3. Uma cr\u00edtica particularmente demolidora \u00e0s concep\u00e7\u00f5es da \u00abepistemologia multiculturalista\u00bb, do g\u00e9nero das apresentadas por Andrea Semprini \u2013 que, grosso modo, s\u00e3o as mesmas que sustentam as abordagens p\u00f3s-positivistas das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais \u2013, foi feita por John Searle<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, o conhecido fil\u00f3sofo e epistem\u00f3logo da Universidade de Berkeley, nos EUA. Segundo este, as raz\u00f5es do ataque \u00abaos c\u00e2nones de objectividade, justifica\u00e7\u00e3o, cuidada aten\u00e7\u00e3o aos factos e, acima de tudo, verdade\u00bb, ou seja, do ataque \u00e0 racionalidade e ao realismo (entendido n\u00e3o exactamente no sentido da corrente te\u00f3rica das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, mas no sentido filos\u00f3fico, como crit\u00e9rio de verdade e valida\u00e7\u00e3o do conhecimento, que valida a teoria em fun\u00e7\u00e3o da sua conformidade com a realidade exterior ao sujeito), baseiam-se num \u00abprop\u00f3sito de atingir objectivos sociais mais importantes\u00bb:<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u00a0<\/strong>Apesar da sua diversidade, a maior parte das pessoas que colocam em causa a concep\u00e7\u00e3o tradicional de ensino percebem correctamente que se forem for\u00e7adas a conduzir uma vida acad\u00e9mica de acordo com um conjunto de regras determinadas por constrangimentos de verdade, objectividade, clareza, racionalidade, l\u00f3gica e a exist\u00eancia bruta do mundo real, a sua tarefa torna-se mais dif\u00edcil, talvez at\u00e9 imposs\u00edvel. Por exemplo, se pensarmos que o objectivo de ensinar a hist\u00f3ria do passado \u00e9 alcan\u00e7ar a transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social do presente, os c\u00e2nones tradicionais de idoneidade hist\u00f3rica \u2013 os c\u00e2nones de objectividade, justifica\u00e7\u00e3o, cuidada aten\u00e7\u00e3o aos factos e, acima de tudo, verdade \u2013 podem por vezes parecer um conjunto desnecess\u00e1rio e ma\u00e7ador de obst\u00e1culos ao prop\u00f3sito de atingir objectivos sociais mais importantes<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Este critica tamb\u00e9m as concep\u00e7\u00f5es anti-realistas e anti-racionalistas (ou seja, p\u00f3s-positivistas na terminologia usual das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais) que actualmente, pela sua influ\u00eancia, tendem a ser o <em>mainstream<\/em> das diferentes disciplinas acad\u00e9micas na \u00e1rea das Ci\u00eancias Sociais e Humanas nas quais, naturalmente, se incluem as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais:<\/p>\n<blockquote>[Estas] concep\u00e7\u00f5es come\u00e7am a afectar tanto o conte\u00fado como o estilo do ensino superior. Nos casos em que o objectivo \u00e9 usar o ensino superior como dispositivo de transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a justifica\u00e7\u00e3o habitual \u00e9 que o ensino superior sempre foi, em qualquer caso, pol\u00edtico; e uma vez que \u00e9 uma fantasia e uma fraude a pretens\u00e3o, por parte das universidades, de transmitir aos estudantes um conjunto de verdades objectivas sobre uma realidade cuja exist\u00eancia \u00e9 independente, devemos converter o ensino superior num dispositivo para alcan\u00e7ar objectivos sociais e pol\u00edticos ben\u00e9ficos, em vez de prejudiciais<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>E repare-se no seu coment\u00e1rio c\u00e1ustico sobre o uso dos <em>curricula<\/em> acad\u00e9micos \u00abcomo dispositivo de transforma\u00e7\u00e3o\u00bb que, segundo este, de forma subtil faz passar uma disciplina de \u00abum dom\u00ednio a estudar\u00bb para \u00abuma causa a promover\u00bb:<\/p>\n<blockquote><p>Deste ponto de vista, um dos prop\u00f3sitos do ensino j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, com antes se pensava, permitir que o estudante se torne membro de uma cultura humana, intelectual e universal mais ampla; ao inv\u00e9s o novo objectivo \u00e9 refor\u00e7ar o seu orgulho como membro de um subgrupo particular e a sua auto-identifica\u00e7\u00e3o com esse grupo [&#8230;] A conex\u00e3o entre o ataque desferido contra a racionalidade e o realismo e a reforma curricular nem sempre \u00e9 \u00f3bvia, mas podemos encontr\u00e1-la se quisermos olhar com suficiente aten\u00e7\u00e3o. Por exemplo, muitas das propostas multiculturalistas a favor da reforma curricular envolvem uma redefini\u00e7\u00e3o subtil da ideia de disciplina acad\u00e9mica, passando da ideia de um <em>dom\u00ednio a estudar<\/em> para a ideia de uma <em>causa a promover<\/em>. <a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Independentemente da concord\u00e2ncia ou discord\u00e2ncia face \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o e cr\u00edticas que John Searle dirige \u00e0 \u00abepistemologia do multiculturalismo\u00bb e, por essa via, \u00e0s abordagens p\u00f3s-positivistas (naturalmente que esta poder\u00e1 ser tamb\u00e9m criticada e sujeita a uma contra-argumenta\u00e7\u00e3o com o intuito de a tentar refutar) \u00e9 inevit\u00e1vel reconhecer que este coloca o dedo na ferida, particularmente num aspecto sens\u00edvel: h\u00e1 uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica e pol\u00edtica em aberto que as abordagens p\u00f3s-modernistas ou p\u00f3s-positivistas, instaladas como <em>mainstream <\/em>de v\u00e1rias disciplinas acad\u00e9micas, ocultam sob uma fraseologia e jarg\u00e3o t\u00e9cnico e \u00abcient\u00edfico\u00bb. Se a abordagem do realismo\/neo-realismo na Teoria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais n\u00e3o \u00e9 neutra ideologicamente, como estas denunciam, e tende a conservar e legitimar o <em>statu quo<\/em>, a verdade \u00e9 que as abordagens p\u00f3s-positivistas nas suas diferentes vers\u00f5es (construtivistas, p\u00f3s-modernistas, feministas, estudos cr\u00edticos, etc.), s\u00e3o pass\u00edveis de similar cr\u00edtica, pois, ao pretenderem substituir a abordagem realista e racionalista, usam uma \u00abm\u00e1scara\u00bb acad\u00e9mico-cient\u00edfica, para legitimiar o seu discurso ideol\u00f3gico e transformar a realidade de acordo com o seu programa pol\u00edtico (veja-se o caso anteriormente apontado do multiculturalismo e das suas pretens\u00f5es de substituir o nacionalismo como ideologia identit\u00e1ria). Face a esta situa\u00e7\u00e3o de argumentos sim\u00e9tricos, que tendem a anular-se reciprocamente, tem alguma raz\u00e3o Andrea Semprini quando afirma que a \u00abfractura que separa as duas epistemologias torna dif\u00edcil toda a forma de media\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica e transforma as controv\u00e9rsias em aporias conceptuais\u00bb<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>, ou seja, transforma a confronta\u00e7\u00e3o entre realismo e p\u00f3s-modernismo ou p\u00f3s-positivismo em conflitos dificilmente san\u00e1veis e que tendencialmente se saldam por um impasse. Porqu\u00ea, ent\u00e3o, a crescente popularidade das abordagens p\u00f3s-positivistas entre a comunidade acad\u00e9mica<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a> das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais quando n\u00e3o h\u00e1, num plano filos\u00f3fico e epistemol\u00f3gico, argumentos particularmente inovadores face a um cepticismo sobre as possibilidades de apreens\u00e3o do mundo exterior ao sujeito que j\u00e1 \u00e9, pelo menos, t\u00e3o antigo quanto a Filosofia grega, e, muito menos, quaisquer argumentos decisivos que desequilibrem a balan\u00e7a a seu favor?<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a> Sendo esta uma quest\u00e3o de dif\u00edcil resposta provavelmente tem pouco a ver com a progress\u00e3o do estudo \u00abcient\u00edfico\u00bb das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, em qualquer sentido reconhec\u00edvel do termo \u00abcient\u00edfico\u00bb<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>; a n\u00e3o ser, claro, como \u00abci\u00eancia p\u00f3s-moderna\u00bb, o que, em si mesmo, encerra uma contradi\u00e7\u00e3o pelos pr\u00f3prios pressupostos epistemol\u00f3gicos do p\u00f3s-modernismo, que negam a possibilidade de um conhecimento cient\u00edfico \u2013 pelo menos tal como est\u00e1vamos habituados a reconhec\u00ea-lo, desde Galileu, Kepler, Newton, Einstein, etc. \u2013, ao considerarem a Ci\u00eancia como mais uma \u00abnarrativa\u00bb, similar \u00e0 das Artes, Literatura, etc. Assim, a resposta ter\u00e1 de ser sobretudo procurada nas rela\u00e7\u00f5es da academia com as correntes e grupos ideol\u00f3gicos da sociedade civil (por exemplo, num contexto anglo-sax\u00f3nico, com a <em>New Left<\/em>) e nas causas<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a> que acabam por ser promovidas \u00abcientificamente\u00bb devido a essa agenda pol\u00edtica. A atrac\u00e7\u00e3o com r\u00f3tulos aliciantes nos manuais e na literatura te\u00f3rica que a apresentam como \u00abnova\u00bb teoria, \u00abnovo\u00bb paradigma, \u00abinovadora\u00bb abordagem, etc, sugerindo a ideia que esta \u00e9 <em>melhor<\/em> por ser &#8230; <em>nova<\/em><a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>, tamb\u00e9m tem aqui o seu papel. A \u00abvelha\u00bb ideia de progresso cumulativo, herdada da modernidade, do Racionalismo e do Iluminismo, t\u00e3o denegrida pelo p\u00f3s-modernismo, torna-se muito \u00fatil para criar indiv\u00edduos que se pretendem, por um lado, imbu\u00eddos de um <em>soup\u00e7on <\/em>p\u00f3s-moderno face \u00e0s \u00abnarrativas\u00bb da modernidade, e, por outro lado, crentes <em>na\u00effs<\/em> nas \u00abnarrativas\u00bb p\u00f3s-modernas\/p\u00f3s-positivistas. A \u00abdesconstru\u00e7\u00e3o\u00bb desta nova ortodoxia, de <em>imitatio post-modernum<\/em>, \u00e9 a principal tarefa com que se confronta a Teoria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais neste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Andrea Semprini, <em>Le Multucuturalisme<\/em>, Paris, PUF, pp. 59-60.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ver Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, <em>Teorias das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais: da abordagem cl\u00e1ssica ao debate p\u00f3s-positivista<\/em>, Coimbra, Almedina, 2004.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver Steven Best e Douglas Kellner, <em>The Postmodern Turn<\/em>, New York-London, The Gilford Press.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Que hoje, com mais propriedade, se deveria designar por Teorias (no plural) das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, dada a pulveriza\u00e7\u00e3o de teorias na disciplina, n\u00e3o suscept\u00edveis de serem integradas num todo articulado e coerente.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Cfr. Yosef Lapid, \u00abThe Third Debate: on the Prospects of International Theory in a Post-Positivist era\u00bb in <em>International Studies Quarterly<\/em>, 1989, vol. 33, n\u00ba 3, pp. 235-254.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> O multiculturalismo \u00e9 um conceito poliss\u00e9mico que pode ser usado essencialmente em dois grandes sentidos: i) num sentido descritivo, que descreve um facto da vida, ou seja, a diversidade cultural observ\u00e1vel, por exemplo, numa determinada cidade, pa\u00eds, etc.; ii) num sentido prescritivo, consitui uma forma de activismo social e de ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que promove as pol\u00edticas de reconhecimento da identidade e da diferen\u00e7a dos grupos minorit\u00e1rios ou considerados \u00absubalternos\u00bb. Neste segundo sentido do conceito, que \u00e9 o mais importante para a Ci\u00eancia Pol\u00edtica e as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, o multiculturalismo \u00e9 uma ideologia que d\u00e1 origem a um conjunto de prescri\u00e7\u00f5es pol\u00edticas espec\u00edficas, normalmente conhecidas pelo nome gen\u00e9rico de pol\u00edticas de identidade. Estas pol\u00edticas multiculturais come\u00e7aram a surgir nos finais dos anos 60 e princ\u00edpios dos nos 70 do s\u00e9culo XX, sobretudo em pa\u00edses como a o Reino Unido, a Holanda, a Su\u00e9cia, o Canad\u00e1 ou a Austr\u00e1lia. Ideologicamente o multiculturalismo v\u00ea-se a si pr\u00f3prio como \u00abprogressista\u00bb e op\u00f5e-se \u00e0 ideia de uma Na\u00e7\u00e3o homog\u00e9nea, de uma cidadania igualit\u00e1ria sob o modelo da <em>citoyennet\u00e9<\/em> herdado da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e de uma assimila\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 mesmo de uma integra\u00e7\u00e3o baseada numa acultura\u00e7\u00e3o aos valores e pr\u00e1ticas da sociedade de acolhimento. Ver tamb\u00e9m Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes \u00abMulticulturalismo e Seguran\u00e7a Societal\u00bb in<em> Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/em>, n\u00ba 9, Mar\u00e7o 2006, pp. 129-149.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Andrew Vincent, <em>Modern Political Ideologies<\/em>, Malden-Oxford, Blackwell, pp. 1-2.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> O conceito adquiriu v\u00e1rios sentidos diferentes ao longo do s\u00e9culo XIX e do s\u00e9culo XX, existindo um forte incremento na sua utiliza\u00e7\u00e3o, que se deve, em grande parte, aos trabalhos de Karl Marx (entre outros, com o livro <em>A Ideologia Alem\u00e3<\/em>, escrito em parceria com Friedrich Engels em 1846, que s\u00f3 foi publicado postumamente em 1932) e aos pensadores marxistas que lhe sucederam.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Sobre este assunto ver tamb\u00e9m Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, <em>Islamismo e Multiculturalismo. As ideologias Ap\u00f3s o Fim da Hist\u00f3ria<\/em>, Coimbra, Almedina, 2006.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Harold Bloom <em>et. al<\/em>., <em>Deconstruction and Criticism<\/em>, 1979, 2\u00aa ed.\u00aa 2004, London-New York, Continuum.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Tradicionalmente existem, pelo menos, duas grandes concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que a encaram de maneira diferente a Na\u00e7\u00e3o: i) a concep\u00e7\u00e3o objectiva (ou transpersonalista) da \u00abNa\u00e7\u00e3o etno-cultural\u00bb, que tem as suas principais refer\u00eancias nos alem\u00e3es Johann Gottfried Herder (influenciado pelo movimento cultural do romantismo emergente na \u00e9poca), atrav\u00e9s do seu trabalho intitulado <em>Ideias sobre a filosofia da hist\u00f3ria da humanidade<\/em> (1784-1791) e em Johann Gottlieb Fichte com o seu <em>Discurso \u00e0 Na\u00e7\u00e3o alem\u00e3<\/em> na Universidade de Berlim (1807), assenta na <em>Kulturnation<\/em> (Herder). Nesta cancep\u00e7\u00e3o, a Na\u00e7\u00e3o \u00abidentifica-se com uma l\u00edngua que reflecte o seu g\u00e9nio e regula os seus costumes. Est\u00e1 acima do Estado e igualmente dos modelos de governo artificiosos\u00bb. Posteriormente Ficthe acrescentou \u00e0 ideia da \u00abna\u00e7\u00e3o-comunidade inaugurada por Herder\u00bb, uma outra, que \u00e9 a da \u00abnatureza volunt\u00e1ria do la\u00e7o de cidadania\u00bb, conciliando \u00aba soberania nacional na sua acep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u00bb com a legitimidade \u00abmais eminente da na\u00e7\u00e3o etnolingu\u00edstica\u00bb. ii) A concep\u00e7\u00e3o subjective (ou personalista) da \u00abNa\u00e7\u00e3o electiva\u00bb, tem a sua principal refer\u00eancia no franc\u00eas Ernest Renan, atrav\u00e9s das ideias desenvolvidas na c\u00e9lebre confer\u00eancia da Universidade de Sorbonne, em Paris (1882), subordinada ao tema <em>O que \u00e9 uma Na\u00e7\u00e3o? <\/em>Nesta, Ernest Renan desenvolveu a ideia de que uma \u00abna\u00e7\u00e3o \u00e9, pois uma grande solidariedade, constitu\u00edda pelo sacrif\u00edcio dos sacrif\u00edcios feitos e dos que ainda se est\u00e1 disposto a fazer. Sup\u00f5e um passado; resume-se, todavia, no presente, por um facto tang\u00edvel: o consentimento e o desejo claramente expresso de prosseguir a vida em comum\u00bb. A exist\u00eancia de uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00abum plebiscito de todos os dias\u00bb. Cfr. Guy Hermet, <em>Hist\u00f3ria das Na\u00e7\u00f5es e do Nacionalismo na Europa<\/em> (trad. port.), Lisboa, Editorial Estampa, 1996, pp. 117, 121 e 129-30.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ver Benedict Anderson, <em>Comunidades Imaginadas. Reflex\u00f5es sobre a Origem a Expans\u00e3o do Nacionalismo<\/em> (trad. port.), 2005, Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es 70.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Andrea Semprini, <em>op. cit. ant<\/em>, pp. 57-58.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Andrea Semprini, <em>op. cit. ant<\/em>, pp. 59-60.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> John Searle, \u201cRationality and Realism: What is at Stake?\u201d in <em>D\u00e6dalus<\/em>, vol 122, n\u00ba 4, 1993 (trad. port. Racionalidade e Realismo: o que est\u00e1 em jogo? publicada na <em>Disputatio<\/em> n\u00ba 7, November 1999, http:\/\/www.disputatio.com\/articles\/007-1.pdf).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> John Searle, op<em>. cit. ant. pag<\/em>. 17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> John Searle, op<em>. cit. ant. pag<\/em>. 18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> John Searle, <em>op. cit. ant. pag<\/em>. 19-20.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Andrea Semprini, <em>op. cit. ant<\/em>, pag. 64.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Tend\u00eancia que se pode facilmente constatar pelos conte\u00fados dos manuais editados na \u00faltima d\u00e9cada no mundo anglo-sax\u00f3nico, como, por exemplo, o de Ken Booth e Steve Smith, <em>International Relations Theory Today<\/em>, Pennsylvania, The Pennsylvania State University Press, 1995, 2\u00aa ed. 1997; ou o de Scott Burchill <em>et al<\/em>., <em>Theories of International Relations<\/em>, Palgrave Macmillan, 1995, 2\u00aa ed. revista e aumentada, 2005.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Bem pelo contr\u00e1rio, como mostra o professor de Filosofia da Universidade de Nova Iorque, Paul Boghossian no seu pequeno mas denso livro <em>Fear of Knowledge. Against Relativism and Constructivism<\/em>, London-New York, Oxford University Press, 2006, onde este desmonta filosoficamente os argumentos construtivistas e relativistas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Naturalmente que isto custar a admitir a todos os que investiram anos da sua vida a fazer licenciaturas, trabalhos de mestrado ou teses doutoramento &#8230;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Paul Boghossian, <em>op. cit. ant<\/em>., pag. 130.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Um exemplo concreto desta estrat\u00e9gia \u00abnarrativa\u00bb pode encontrar-se no t\u00edtulo da revista <em>New Political Economy<\/em> \u2013 uma das publica\u00e7\u00f5es de refer\u00eancia das \u00abnovas abordagens\u00bb \u2013, editada por Michael Dietrich,\u2028 Andrew Gamble, Graham Harrison, \u2028Michael Kenny e Anthony Payne, a partir da Universidade de Sheffield, no Reino Unido. Resulta \u00f3bvio, sobretudo ap\u00f3s a leitura dos seus conte\u00fados habituais, que a palavra <em>nova<\/em> \u00e9 uma pe\u00e7a de uma estrat\u00e9gia de auto-promo\u00e7\u00e3o deliberadamente centrada na ideia de <em>novidade<\/em> e n\u00e3o na clarifica\u00e7\u00e3o da sua orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica no t\u00edtulo da revista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado na R:I Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, n\u00ba 17 dezembro (2007): 75-83.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Se as categorias e os valores sociais s\u00e3o o resultado de uma actividade institutiva, ser\u00e1 necess\u00e1rio estudar n\u00e3o apenas os mecanismos e as modalidades desta \u00faltima, mas igualmente as condi\u00e7\u00f5es concretas pelas quais esta \u00e9 feita, pelas rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a que desenha, os sistemas de interesses que ela serve e os grupos que ele &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/pos-positivismo-e-ideologia-na-teoria-das-relacoes-internacionais\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;P\u00f3s-Positivismo e Ideologia na Teoria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,52],"tags":[36,64,57],"class_list":["post-1448","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-cientificos","tag-ideologia","tag-pos-modernismo","tag-teorias-das-relacoes-internacionais","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1448"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1448\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}