{"id":1477,"date":"2015-06-05T16:06:50","date_gmt":"2015-06-05T16:06:50","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1477"},"modified":"2015-06-13T20:30:03","modified_gmt":"2015-06-13T20:30:03","slug":"desejemos-voltaire","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/desejemos-voltaire\/","title":{"rendered":"Desejemos Voltaire"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Infidel-Ayaan-Hirsi-Ali.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1478\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Infidel-Ayaan-Hirsi-Ali.jpg\" alt=\"Infidel, Ayaan Hirsi Ali\" width=\"657\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Infidel-Ayaan-Hirsi-Ali.jpg 657w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Infidel-Ayaan-Hirsi-Ali-197x300.jpg 197w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Infidel-Ayaan-Hirsi-Ali-370x563.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Infidel-Ayaan-Hirsi-Ali-570x868.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Infidel-Ayaan-Hirsi-Ali-381x580.jpg 381w\" sizes=\"auto, (max-width: 657px) 100vw, 657px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ayaan Hirsi (o nome original \u00e9 Ayaan Hirsi Magan), nasceu em 1969, em Mogad\u00edscio, no seio de uma fam\u00edlia mu\u00e7ulmana importante da Som\u00e1lia, pertencente ao cl\u00e3 Osman Mahamud, um subcl\u00e3 dos Darod. Este livro \u00e9 um obra autobiogr\u00e1fica e tremendamente humana. Relata uma experi\u00eancia de vida simultaneamente dram\u00e1tica (pelas circunst\u00e2ncias que teve de enfrentar) e fascinante (pela sua enorme coragem em superar a adversidade e refutar o papel de submiss\u00e3o que lhe estava destinado, como a tantas outras mulheres mu\u00e7ulmanas). A sua vida de inf\u00e2ncia e juventude, apesar de ter epis\u00f3dios felizes, foi passada em grande parte no ex\u00edlio, entre a Ar\u00e1bia Saudita, a Eti\u00f3pia e o Qu\u00e9nia, devido \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o do seu pai \u2014 um membro proeminente da Frente Somali de Salva\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica \u2014, ao regime ditatorial de inspira\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica de Siad Barr\u00e9. Ainda enquanto crian\u00e7a na Som\u00e1lia foi sujeita, por iniciativa da av\u00f3, \u00e0 chamada circuncis\u00e3o feminina, com a retirada do cl\u00edtoris e dos pequenos l\u00e1bios (uma pr\u00e1tica destinada a garantir a virgindade da mulher at\u00e9 ao casamento). A maior parte da sua juventude decorreu no Qu\u00e9nia, onde frequentou a escola e tirou um curso t\u00e9cnico de secretariado. A\u00ed sentiu a progressiva influ\u00eancia do islamismo radical dos Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos, financiados pelo dinheiro do petr\u00f3leo dos pa\u00edses \u00e1rabes ricos do golfo, e os seus efeitos de radicaliza\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3o, no Qu\u00e9nia e na Som\u00e1lia. Ela pr\u00f3pria tornou-se muito mais rigorista no vestu\u00e1rio e nos h\u00e1bitos religiosos di\u00e1rios e at\u00e9 tentou, ainda que sem sucesso, exercer proselitismo sobre as suas colegas na escola. Todavia, foi tamb\u00e9m no Qu\u00e9nia que teve, pela primeira vez, a oportunidade de contactar com culturas n\u00e3o mu\u00e7ulmanas e com a influ\u00eancia ocidental. Acabou, assim, por adquirir uma crescente consci\u00eancia sobre a desigualdade e injusti\u00e7a com que uma sociedade tradicional, baseada em valores isl\u00e2micos e pr\u00e9-isl\u00e2micos, patriarcais e rigoristas, tratava as mulheres. Lentamente, Ayaan Hirsi, come\u00e7ou tamb\u00e9m a formar um pensamento cr\u00edtico sobre a vis\u00e3o do mundo arcaica e hip\u00f3crita em que assentava essa ordem social. O facto de o seu pai, \u00e0 maneira tradicional somali e mu\u00e7ulmana, lhe ter escolhido um marido dentro do cl\u00e3 \u2014 um homem que nunca tinha visto e residia no Canad\u00e1 \u2014, foi, segundo refere, a gota de \u00e1gua que a levou a ganhar coragem para alterar drasticamente o rumo da sua vida.<\/p>\n<p>Em finais de 1992, ap\u00f3s ter viajado para a Alemanha, e enquanto aguardava os documentos para se juntar ao seu &#8220;marido&#8221; no Canad\u00e1, Ayaan Hirsi decidiu fugir para a Holanda. Isto foi feito n\u00e3o s\u00f3 com a inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o se casar, como de quebrar os la\u00e7os com o seu passado que lhe coarctavam a sua liberdade como pessoa e ser humano. Os seus primeiros tempos decorreram no centro de acolhimento de Zeewolde, onde, na multid\u00e3o de refugiados, se encontravam tamb\u00e9m outros somalis. Decorrido algum tempo acabou por ser localizada pelo seu &#8220;marido&#8221; e fam\u00edlia, e foi submetida ao veredicto de um &#8220;Tribunal dos Anci\u00e3os&#8221;, ironicamente nas instala\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio campo de refugiados de Zeewolde. Este tribunal improvisado, pretendia resolver a quest\u00e3o com base nos princ\u00edpios tradicionais da X\u00e1ria (Sharia) isl\u00e2mica, pressionando-a a ir ter com o seu &#8220;marido&#8221; e a preservar a honra da fam\u00edlia, que dependia do cumprimento da promessa de oferta da filha em casamento. Ao recusar-se a acatar o veredicto do &#8220;Tribunal dos Anci\u00e3os&#8221;, Ayaan Hirsi sabia que corria o risco de ser rejeitada pela sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, que n\u00e3o iria aceitar esta decis\u00e3o, o que de facto veio a acontecer, como mostra uma troca emotiva de cartas com o seu pai, reproduzida no livro (entre as p\u00e1ginas 160-161). Nos anos subsequentes, teve v\u00e1rios empregos, desde empregada de limpeza a tradutora de refugiados e emigrantes, acabando por conseguir frequentar o curso de Ci\u00eancia Pol\u00edtica na prestigiada Universidade de Leida. Entretanto, outra trag\u00e9dia pessoal se abateu sobre a sua vida. A sua irm\u00e3 Haweya, que tamb\u00e9m tinha fugido para a Holanda e vivia consigo, nunca se adaptou \u00e0 sociedade holandesa. J\u00e1 com uma hist\u00f3ria pessoal anterior complexa, foi afectada por uma doen\u00e7a psiqui\u00e1trica grave que a levou a regressar a casa da m\u00e3e, em Nairobi, no Qu\u00e9nia, sucumbindo \u00e0 doen\u00e7a em in\u00edcios de 1998.<\/p>\n<p>O principal momento de viragem de Ayaan Hirsi para um activismo pol\u00edtico ocorreu quando, em 2001, o Instituto Wiardi Beckman ligado ao Partido Trabalhista, a contratou como investigadora (entretanto, j\u00e1 tinha obtido a nacionalidade holandesa e conclu\u00eddo o seu curso em Leida). Uma semana depois de ter iniciado o trabalho nessa institui\u00e7\u00e3o \u2014 a sua actividade consistia na participa\u00e7\u00e3o em grupos de trabalho e em efectuar pesquisas sobre os problemas de integra\u00e7\u00e3o das mulheres estrangeiras na sociedade holandesa \u2014, ocorreram os atentados terroristas de 11 de Setembro. A conjuga\u00e7\u00e3o destas duas circunst\u00e2ncias teve um enorme impacto na vida de Ayaan Hirsi e acabou tamb\u00e9m por project\u00e1-la como figura p\u00fablica. A quest\u00e3o do terrorismo isl\u00e2mico e das suas motiva\u00e7\u00f5es acabou por absorver grande parte do seu pensamento e energias. Poucos meses depois do 11 de Setembro, num debate efectuado sob o t\u00edtulo &#8220;O Isl\u00e3o e o Ocidente: Quem precisa de um Voltaire?&#8221; (e quando o p\u00fablico se inclinava sobretudo para concordar com aqueles que criticavam este ou aquele aspecto do mundo ocidental), fez uma interven\u00e7\u00e3o contracorrente afirmando:<\/p>\n<blockquote><p>Pensem na quantidade de Voltaires que o Ocidente j\u00e1 tem. N\u00e3o nos negueis o direito de termos, tamb\u00e9m n\u00f3s, um Voltaire. Olhem para as nossas mulheres e olhem para os nossos pa\u00edses. Vejam como somos tantos a fugir e a procurar ref\u00fagio aqui. E vejam essas pessoas que, na sua loucura, fazem despenhar avi\u00f5es contra as vossas cidades. Permitam-nos que desejemos a chegada de um Voltaire, porque vivemos verdadeiramente na idade das trevas (p. 276).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ap\u00f3s relatar esta sua primeira interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica, Ayaan Hirsi comenta tamb\u00e9m no seu livro a ideologia multiculturalista da sociedade holandesa, e a sua vis\u00e3o id\u00edlica sobre a integra\u00e7\u00e3o (que, ironicamente, funcionava at\u00e9 contra a pr\u00f3pria vontade de integra\u00e7\u00e3o de muitos mu\u00e7ulmanos):<\/p>\n<blockquote><p>Na altura, especialmente nos c\u00edrculos do Partido Trabalhista, toda a gente tinha uma opini\u00e3o muito positiva do Isl\u00e3o. Se os mu\u00e7ulmanos exigiam mesquitas, cemit\u00e9rios separados, matadouros rituais, constru\u00edam-lhos. Forneciam-lhes locais para os seus centros culturais, onde o fundamentalismo se poderia desenvolver \u00e0 vontade [&#8230;] Pareciam esquecer-se de quanto tempo tinha sido necess\u00e1rio \u00e0 Europa para se libertar do obscurantismo e da intoler\u00e2ncia, e at\u00e9 que ponto a luta tinha sido encarni\u00e7ada (p. 277).<\/p><\/blockquote>\n<p>Pela sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de vida, sabia bem como o idealismo ing\u00e9nuo das elites holandesas, sobre as virtudes do multiculturalismo, abria a porta a interpreta\u00e7\u00f5es retr\u00f3gradas do Isl\u00e3o e \u00e0 difus\u00e3o da ideologia dos islamistas:<\/p>\n<blockquote><p>O governo holand\u00eas precisava de parar urgentemente com a funda\u00e7\u00e3o das escolas cor\u00e2nicas, pensava eu. As escolas mu\u00e7ulmanas rejeitam os valores dos direitos humanos universais. Numa escola mu\u00e7ulmana as pessoas n\u00e3o s\u00e3o todas iguais, e as liberdades de express\u00e3o e de consci\u00eancia s\u00e3o banidas. Estas escolas n\u00e3o deixam desenvolver a criatividade \u2014 a arte, o teatro, a m\u00fasica n\u00e3o s\u00e3o ensinados \u2014 e impedem as faculdades cr\u00edticas que poderiam levar as crian\u00e7as a questionar as suas cren\u00e7as. (p. 281)<\/p><\/blockquote>\n<p>Com este tipo de posi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas do Isl\u00e3o mais rigorista e da ideologia islamista, Ayaan Hirsi granjeou rapidamente inimigos. N\u00e3o s\u00f3 passou a receber amea\u00e7as, presumivelmente de islamistas radicais (o que a levou a estar permanentemente sob seguran\u00e7a), como, dentro do seu no seu pr\u00f3prio partido, foi olhada com desconfian\u00e7a por colocar em causa a ideologia multiculturalista oficial. Isto levou-a a mudar-se para o Partido Liberal tendo sido eleita deputada ao parlamento holand\u00eas nas elei\u00e7\u00f5es de 2003. Em 2004, participou num filme de Theo van Gogh (sobrinho-neto do pintor Van Gogh), intitulado Submiss\u00e3o, que pretendia chamar \u00e0 aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico holand\u00eas para a frequente situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o em que viviam as mulheres na cultura isl\u00e2mica. Nessa altura, a Holanda j\u00e1 estava abalada pelo assassinato de Pim Fortuyn \u00e0s m\u00e3os de um militante de extrema esquerda pr\u00f3-direitos dos animais, que ocorrera dois anos antes. Desta vez, a trag\u00e9dia abateu-se sobre Theo van Gogh que, em finais de 2004, foi barbaramente assassinado nas ruas de Amesterd\u00e3o por um mu\u00e7ulmano de nacionalidade holandesa e origem marroquina. (Ironicamente, na altura em que foi assassinado, trabalhava num filme sobre o assass\u00ednio de Pim Fortuyn). Nos anos seguintes, a vida atribulada de Ayaan Hirsi continuou a desenrolar-se. Em 2006, o programa de televis\u00e3o Zembla divulgou, sensacionalistamente, que Ayaan mentira para obter o asilo e nacionalidade \u2014 algo que, segundo Ayaan Hirsi, j\u00e1 era do conhecimento p\u00fablico h\u00e1 v\u00e1rios anos. No entanto, para a zelosa ministra Rita Verdonk, isso foi motivo para lhe retirar a nacionalidade (alguns meses depois, o governo de Peter Balkenende acabou por voltar atr\u00e1s na decis\u00e3o). Esta situa\u00e7\u00e3o delicada levou-a a demitir-se do parlamento e a viajar at\u00e9 aos EUA, a convite do American Enterprise Institute de Washington, um think tank conservador. Entretanto, ter\u00e1 regressado novamente \u00e0 Holanda, sob protec\u00e7\u00e3o e anonimato, numa situa\u00e7\u00e3o que faz lembrar a de Salman Rushdie. Depois de se ler este livro, percebe-se quanto se deve \u00e0 extraordin\u00e1ria ac\u00e7\u00e3o de Ayaan Hirsi e \u00e0 sua luta corajosa pelos direitos das mulheres e pela preserva\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o de liberdade, da Holanda e do Ocidente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes,\u00a0 recens\u00e3o \u00a0originalmente publicada na Cr\u00edtica [revista de filosofia], 16\/04\/2008<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: capa da edi\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica do livro &#8220;Mijn Vrijheid&#8221; de Ayan Hirsi Ali (Pocket Books, 2008)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ayaan Hirsi (o nome original \u00e9 Ayaan Hirsi Magan), nasceu em 1969, em Mogad\u00edscio, no seio de uma fam\u00edlia mu\u00e7ulmana importante da Som\u00e1lia, pertencente ao cl\u00e3 Osman Mahamud, um subcl\u00e3 dos Darod. Este livro \u00e9 um obra autobiogr\u00e1fica e tremendamente humana. 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