{"id":1491,"date":"2015-06-05T18:40:55","date_gmt":"2015-06-05T18:40:55","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1491"},"modified":"2015-06-13T20:25:30","modified_gmt":"2015-06-13T20:25:30","slug":"iraque-uma-linha-na-areia-a-desfazer-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/iraque-uma-linha-na-areia-a-desfazer-se\/","title":{"rendered":"Iraque: &#8220;uma linha na areia&#8221; a desfazer-se?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1492\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-671x1024.jpg\" alt=\"A Line in the Sand\" width=\"671\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-671x1024.jpg 671w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-1568x2392.jpg 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-197x300.jpg 197w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-768x1171.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-1007x1536.jpg 1007w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-1343x2048.jpg 1343w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-370x564.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-570x869.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-770x1174.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-1170x1785.jpg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand-380x580.jpg 380w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Line-in-the-Sand.jpg 1639w\" sizes=\"auto, (max-width: 671px) 100vw, 671px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. Os actuais acontecimentos no Iraque fazem-nos questionar se, com a violenta luta fratricida desencadeada nas \u00faltimas semanas, o Estado n\u00e3o estar\u00e1 \u00e0 beira da desagrega\u00e7\u00e3o e colapso.\u00a0\u00c9 tamb\u00e9m inevit\u00e1vel recordarmos o passado conturbado da regi\u00e3o, seja o mais recente \u2013 a invas\u00e3o norte-americana de 2003 que dep\u00f4s Saddam Hussein \u2013, seja o mais long\u00ednquo historicamente. H\u00e1, claro, a mort\u00edfera rivalidade entre sunitas e xiitas que envenena o Isl\u00e3o desde o seu nascimento no remoto s\u00e9culo VII. Esta tem, no Iraque, um terreno de batalha privilegiado, sobretudo pelas mem\u00f3rias e simbolismo hist\u00f3rico-religioso-identit\u00e1rio do xiismo. Ironias da hist\u00f3ria, a rivalidade parece hoje t\u00e3o viva como h\u00e1 catorze s\u00e9culos atr\u00e1s quando se iniciou a luta pela sucess\u00e3o do Profeta Maom\u00e9. O problema interliga-se, no mundo atual, com as lutas de poder pela primazia no mundo \u00e1rabe-isl\u00e2mico. Os rivais mais encarni\u00e7ados dessa disputa, feita abertamente e\/ou por \u201cprocura\u00e7\u00e3o\u201d, s\u00e3o iranianos e sauditas. O Hezbollah do L\u00edbano \u00e9 um instrumento conhecido do Ir\u00e3o; diversos grupos jihadistas que atuam na guerra da S\u00edria s\u00e3o, provavelmente, financiados e instrumentalizados pela Ar\u00e1bia Saudita. Interliga-se, tamb\u00e9m, com os interesses frequentemente contradit\u00f3rios, devido \u00e0s suas m\u00faltiplas \u201cclientelas\u201d, das grandes pot\u00eancias globais, sendo o caso dos EUA o mais \u00f3bvio, mas tamb\u00e9m, em graus vari\u00e1veis, da R\u00fassia e da China.<\/p>\n<p>2. Todavia, no \u00faltimo s\u00e9culo, provavelmente o acontecimento mais marcante do rumo dos acontecimentos foi o acordo Sykes-Picot, de 9 de maio de 1916, feito em plena I Guerra Mundial. O acordo deve o seu nome aos seus principais negociadores nos bastidores: os diplomatas e administradores coloniais, Mark Sykes da Gr\u00e3-Bretanha e Fran\u00e7ois Georges-Picot da Fran\u00e7a. Foi inicialmente concebido como um tratado informal e secreto, entre Gr\u00e3-Bretanha e a Fran\u00e7a, feito com a concord\u00e2ncia da R\u00fassia. Visava a partilha das prov\u00edncias \u00e1rabes do Imp\u00e9rio Otomano no actual M\u00e9dio Oriente. (Acabou por ser tornado p\u00fablico ap\u00f3s a vit\u00f3ria dos bolcheviques na revolu\u00e7\u00e3o russa de Outubro de 1917, que o publicaram por vingan\u00e7a contra os ex-aliados da R\u00fassia czarista). Nos termos do acordo, a Fran\u00e7a ficou com a sua zona de influ\u00eancia e\/ou controlo directo essencialmente concentrada nos territ\u00f3rios dos atuais L\u00edbano e S\u00edria. Quanto \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha, a sua zona influ\u00eancia e\/ou controlo directo seria o sul da Mesopot\u00e2mia, incluindo Bagdade, a Transjord\u00e2nia e os portos mediterr\u00e2nicos de Haifa e Acre, ou seja, grosso modo os atuais territ\u00f3rios de Israel\/Palestina, Jord\u00e2nia e Iraque. A integra\u00e7\u00e3o da parte norte do territ\u00f3rio, a regi\u00e3o de Mosul, foi objeto de um duplo contencioso vencido pelos brit\u00e2nicos. Primeiro aos franceses, aquando da ocupa\u00e7\u00e3o de facto do territ\u00f3rio no final da I Guerra Mundial, pois a regi\u00e3o estava inicialmente prevista como zona de influ\u00eancia da Fran\u00e7a, no acordo Sykes-Picot de 1916. Depois, \u00e0 rec\u00e9m formada Rep\u00fablica da Turquia em 1923, por ac\u00e7\u00e3o de Mustafa Kemal Atat\u00fcrk, que reclamava esse territ\u00f3rio ex-otomano tamb\u00e9m para si. A situa\u00e7\u00e3o acabou por ser submetida \u00e0 arbitragem da Sociedade das Na\u00e7\u00f5es (SdN), a organiza\u00e7\u00e3o precursora da actual ONU. A comiss\u00e3o que se ocupou do assunto decidiu, em 1926, a favor dos brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>3. Foi assim que uma \u201clinha na areia\u201d tra\u00e7ada inicialmente num mapa, por dois diplomatas e administradores coloniais, Sykes e Picot, se acabou por transformar em fronteira pol\u00edtica de v\u00e1rios povos \u2013 quer do actual Iraque, quer de outros Estados do M\u00e9dio Oriente (ver o recente livro de James Barr \u201cA Line in the Sand: Britain, France and the Struggle That Shaped the Middle East\u201c; ver tamb\u00e9m o j\u00e1 cl\u00e1ssico livro de David Fromkin \u201cA Peace to End All Peace: The Fall of the Ottoman Empire and the Creation of the Modern Middle East\u201c). Aparentemente, os jihadistas do Estado Isl\u00e2mico do Iraque e do Levante ou Estado Isl\u00e2mico do Iraque e da S\u00edria (ISIS, na sigla em ingl\u00eas), est\u00e3o empenhados em \u201capagar\u201d essa fronteira do mapa. O objectivo \u00e9 tentar reconstruir um mitificado califado isl\u00e2mico que devolva a \u201cidade de ouro\u201d aos mu\u00e7ulmanos. A ideia parece ser tamb\u00e9m desencadear a engrenagem duma luta, teoricamente religiosa, na realidade bem pol\u00edtica e de poder, ao longo da linha de fractura entre sunitas versus xiitas. Independentemente do rumo dos acontecimentos, uma coisa \u00e9 certa: v\u00e3o deixar mais linhas tra\u00e7adas a sangue na areia e prolongar (o j\u00e1 grande) sofrimento da popula\u00e7\u00e3o iraquiana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes. Artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 24\/06\/2014<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: capa do Livro de James Barr, &#8220;A Line in the Sand: Britain, France and the Struggle That Shaped the Middle East&#8221;\u00a0\u00a0(Simon &amp; Schuster, 2012)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; 1. 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