{"id":1506,"date":"2015-06-05T22:50:02","date_gmt":"2015-06-05T22:50:02","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1506"},"modified":"2015-06-18T17:06:10","modified_gmt":"2015-06-18T17:06:10","slug":"a-guerra-civil-na-siria-e-a-minoria-alauita-de-bashar-al-assad","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/a-guerra-civil-na-siria-e-a-minoria-alauita-de-bashar-al-assad\/","title":{"rendered":"A guerra civil na S\u00edria e a minoria alau\u00edta de Bashar al-Assad"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Selo-de-Correio-da-S\u00edria-com-a-inscri\u00e7\u00e3o-alau\u00edtas-1926.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1507\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Selo-de-Correio-da-S\u00edria-com-a-inscri\u00e7\u00e3o-alau\u00edtas-1926.jpg\" alt=\"Selo de Correio da S\u00edria com a inscri\u00e7\u00e3o alau\u00edtas (1926)\" width=\"800\" height=\"494\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Selo-de-Correio-da-S\u00edria-com-a-inscri\u00e7\u00e3o-alau\u00edtas-1926.jpg 800w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Selo-de-Correio-da-S\u00edria-com-a-inscri\u00e7\u00e3o-alau\u00edtas-1926-300x185.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Selo-de-Correio-da-S\u00edria-com-a-inscri\u00e7\u00e3o-alau\u00edtas-1926-768x474.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Selo-de-Correio-da-S\u00edria-com-a-inscri\u00e7\u00e3o-alau\u00edtas-1926-370x228.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Selo-de-Correio-da-S\u00edria-com-a-inscri\u00e7\u00e3o-alau\u00edtas-1926-570x352.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Selo-de-Correio-da-S\u00edria-com-a-inscri\u00e7\u00e3o-alau\u00edtas-1926-770x475.jpg 770w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>Pensar que o derrube do regime inaugurado por Hafez al-Assad e continuado por Bashar al-Assad, inquestionavelmente autorit\u00e1rio e autocr\u00e1tico, trar\u00e1 a paz e a democracia na S\u00edria, \u00e9 simplista e ilus\u00f3rio.<\/p><\/blockquote>\n<p>1. A destrui\u00e7\u00e3o e extrema viol\u00eancia da guerra civil na S\u00edria permanece h\u00e1 tr\u00eas anos. N\u00e3o h\u00e1 sinais de abrandamento, nem de um final negociado entre as partes em confronto, nem se antev\u00ea uma r\u00e1pida e decisiva vit\u00f3ria militar de qualquer dos beligerantes.\u00a0Se todas as guerras s\u00e3o sempre destruidoras e violentas, as guerras civis tendem a fazer sobressair algumas das piores facetas do ser humano. Originam sangrentas e vingativas lutas fratricidas. A viol\u00eancia tende a aumentar, ainda mais, quando h\u00e1 uma propaganda de \u201csacraliza\u00e7\u00e3o\u201d daquilo por que se luta, associada a uma desumaniza\u00e7\u00e3o do(s) opositor(es). Pior ainda, a escalada de viol\u00eancia pode ser levada ao extremo quando, por raz\u00f5es objectivas e\/ou subjectivas, o conflito \u00e9 percebido como uma amea\u00e7a \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia colectiva de um grupo. Tudo isto parece estar a ocorrer na S\u00edria. Os alau\u00edtas, uma minoria religiosa que, desde os anos 1960\/1970, ocupa o poder, primeiro com Hafez al-Assad, agora com Bashar al-Assad, est\u00e3o no centro deste conflito. Este \u00e9 percebido, ou foi deliberadamente configurado, como sendo uma amea\u00e7a existencial \u00e0 sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Na mem\u00f3ria colectiva alau\u00edta est\u00e3o, provavelmente bem vivos, os sentimentos de humilha\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o a que ao longo da sua hist\u00f3ria foram submetidos. Recuemos um s\u00e9culo atr\u00e1s.<\/p>\n<p>2. Ap\u00f3s o colapso do Imp\u00e9rio Otomano no final da I Guerra Mundial, a maioria das suas prov\u00edncias \u00e1rabes ficaram sob administra\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica (atuais territ\u00f3rios de Israel\/Palestina, Jord\u00e2nia e Iraque) e francesa (S\u00edria e L\u00edbano), no \u00e2mbito de um mandato atribu\u00eddo pela Sociedade das Na\u00e7\u00f5es (SdN). Encontram-se aqui as ra\u00edzes do moderno M\u00e9dio Oriente, das atuais fronteiras pol\u00edticas na regi\u00e3o, bem como dos conflitos mais intrincados. A S\u00edria insere-se neste contexto. Nos anos 1920 e 1930, ao afirmarem o seu poder colonial, os franceses enfrentaram frequentemente resist\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o local. Essa resist\u00eancia vinha sobretudo de not\u00e1veis e cl\u00e3s \u00e1rabes sunitas, maiorit\u00e1rios na regi\u00e3o, a tradicional classe governante dessas ex-prov\u00edncias do Imp\u00e9rio Otomano. Todavia, o L\u00edbano e a S\u00edria, esta \u00faltima nas partes adjacentes ao territ\u00f3rio liban\u00eas, eram, no per\u00edodo otomano, s\u00edtios tradicionais de ref\u00fagio de substanciais minorias n\u00e3o isl\u00e2micas \u2014 sobretudo de crist\u00e3os ortodoxos, arm\u00e9nios e maronitas \u2014 e de grupos heterodoxos (especialmente drusos e alau\u00edtas). Em comum tinham o facto de serem vistos como seitas her\u00e9ticas pelo Isl\u00e3o sunita dominante. O caso dos alau\u00edtas merece especial aten\u00e7\u00e3o. O nome tem origem no termo franc\u00eas alaouites, utilizado durante o mandato da SdN. Sob o Imp\u00e9rio Otomano, eram conhecidos depreciativamente como \u201cnusairitas\u201d, a partir do nome do seu fundador, Muhammad Ibn Nusayr. A sua cren\u00e7a \u00e9 sincr\u00e9tica e tradicionalmente fechada, por raz\u00f5es de persegui\u00e7\u00e3o religiosa. Os seus detractores denunciam-na como tendo pr\u00e1ticas secretas her\u00e9ticas. Sintom\u00e1tico da sua especificidade \u00e9 o facto de tradicionalmente n\u00e3o usarem mesquitas. O credo cont\u00e9m elementos da tradi\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica, numa vers\u00e3o mais ou menos pr\u00f3xima do xiismo. A venera\u00e7\u00e3o de Ali \u00e9 o mais \u00f3bvio, embora com uma diferen\u00e7a importante: a deifica\u00e7\u00e3o de Ali. Todavia, integra tamb\u00e9m aspectos provavelmente absorvidos de outras religi\u00f5es pr\u00e9-isl\u00e2micas, incluindo do Cristianismo. Aquilo que visto sob o prisma secular e cient\u00edfico ocidental seria tendencialmente objecto de curiosidade, de estudo, ou at\u00e9 de esfor\u00e7os de preserva\u00e7\u00e3o, pelo seu \u201cexotismo\u201d e diferen\u00e7a cultural, constitui, em sociedades tradicionais do M\u00e9dio Oriente, uma linha de fractura identit\u00e1ria e religiosa e um problema pol\u00edtico. Em \u00e9pocas de instabilidade, esta diferen\u00e7a cultural-religiosa-pol\u00edtica face ao Isl\u00e3o sunita dominante, tende a tornar-se numa linha de conflito aberto.<\/p>\n<p>3. A mentalidade secular ocidental \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 compreens\u00e3o do funcionamento social e pol\u00edtico do M\u00e9dio Oriente e dos seus intrincados conflitos, incluindo o caso aqui analisado da S\u00edria. A esse obst\u00e1culo acresce o superficial conhecimento da regi\u00e3o, do seu passado hist\u00f3rico, do seu tecido social e valores. Leva a que os acontecimentos sejam frequentemente lidos e interpretados atrav\u00e9s de analogias e extrapola\u00e7\u00f5es com o passado ocidental. Os exemplos abundam. A qualifica\u00e7\u00e3o das revoltas no mundo \u00e1rabe em 2011 como uma \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d foi uma extrapola\u00e7\u00e3o, simultaneamente ing\u00e9nua \u00e9 abusiva, do termo usado para qualificar as revolu\u00e7\u00f5es nacionais de 1848 na Europa. Outro exemplo \u00e9 a configura\u00e7\u00e3o do derrube de ditadores como uma esp\u00e9cie de r\u00e9plicas da hist\u00f3ria europeia e ocidental. O imagin\u00e1rio impl\u00edcito \u00e9 que a deposi\u00e7\u00e3o de regimes autorit\u00e1rios e ditatoriais dar\u00e1 lugar, mais tarde ou mais cedo, a formas de democracia liberal \u2014 ainda que com tonalidades isl\u00e2micas \u2014, \u00e0 semelhan\u00e7a do que ocorreu na Europa da segunda metade do s\u00e9culo XX. H\u00e1, todavia, um problema de fundo com este imagin\u00e1rio. A democracia s\u00f3 pode emergir e ganhar ra\u00edzes a par de uma seculariza\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico aceite pela popula\u00e7\u00e3o. Implica, ainda, uma cultura pol\u00edtica pluralista e de negocia\u00e7\u00e3o, onde as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o sejam vistas como mera forma de legitimar o autoritarismo de uma maioria. Por outras palavras, pressup\u00f5e que as ideias pol\u00edticas, de esquerda ou direita, se sobreponham a l\u00f3gicas \u00e9tnicas e\/ou religiosas. Pressup\u00f5e uma integra\u00e7\u00e3o das minorias na vida pol\u00edtica. Pressup\u00f5e ainda que a legitimidade \u00faltima do poder \u00e9 a vontade popular\/nacional e n\u00e3o religiosa\/divina. Fora disso, o melhor que podemos ter \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cdemocracia\u201d \u00e9tnico-religiosa (com corpos eleitorais separados para diferentes grupos religiosos, como, por exemplo, no L\u00edbano); ou uma \u201cdemocracia\u201d que se restringe a um mero jogo eleitoral, mais ou menos condicionado, como no Egipto ap\u00f3s o afastamento de Hosni Mubarak em 2011. Nenhum dos casos cabe em qualquer defini\u00e7\u00e3o rigorosa de democracia.<\/p>\n<p>4. A sociedade s\u00edria enferma dos problemas anteriormente apontados. Os alau\u00edtas, o grupo religioso de origem do regime autorit\u00e1rio de Bashar al-Assad, ser\u00e3o 12% ou 13% da popula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o a principal proveni\u00eancia dos elementos do ex\u00e9rcito e do poder governamental. Historicamente situam-se entre o litoral e as montanhas, na regi\u00e3o a norte do L\u00edbano e a sul da Turquia. Hoje vivem tamb\u00e9m nas grandes cidades s\u00edrias. Sob a administra\u00e7\u00e3o colonial francesa, nos anos 1920 e 1930, tiveram o seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio estadual (o Estado de Latakia), tal como outras minorias, drusos e crist\u00e3os maronitas (a separa\u00e7\u00e3o do L\u00edbano da S\u00edria tem origem nesse per\u00edodo). Na \u00e9poca, a administra\u00e7\u00e3o colonial francesa procurava alicer\u00e7ar o seu poder atrav\u00e9s de alian\u00e7as com as minorias, numa sociedade dominada pelos not\u00e1veis e burguesia sunitas. N\u00e3o foi por acaso que, em meados do s\u00e9culo XX e no p\u00f3s-independ\u00eancia (ocorrida em 1946), as ideologias pol\u00edticas seculares, de tipo ocidental, ganharam sobretudo aceita\u00e7\u00e3o entre as minorias. Estas permitiam uma ascens\u00e3o social e pol\u00edtica, combatendo a cidadania de segunda classe a que eram relegados os n\u00e3o mu\u00e7ulmanos sunitas. Michel Aflaq, origin\u00e1rio de uma fam\u00edlia crist\u00e3 ortodoxa de Damasco, foi o principal fundador do Partido Baath. Quando chegou ao poder em 1970\/1971, Hafez al-Assad, um alau\u00edta de Qardaha, na regi\u00e3o de Latakia, tamb\u00e9m era membro do Partido Baath. Originalmente o partido assentava num ide\u00e1rio de tipo secular e inspirado em valores socialistas. Promovia um nacionalismo pan-\u00e1rabe. Acabou por ser distorcido pelo autoritarismo de tipo autocr\u00e1tico do regime de Hafez al-Assad. Sintom\u00e1tico \u00e9 que as grandes revoltas contra Hafez al-Assad, no poder entre 1970\/1971 e 2000, n\u00e3o ocorreram em nome da liberdade, ou de qualquer ideologia democr\u00e1tica e secular, mas em nome do Isl\u00e3o (sunita), sendo lideradas pelos islamistas da Irmandade Mu\u00e7ulmana. Os acontecimentos de 1982, em Hama, pela sua grande viol\u00eancia e repress\u00e3o, fazem lembrar os epis\u00f3dios mais tr\u00e1gicos da actual guerra civil.<\/p>\n<p>5. Pensar que o derrube do regime inaugurado por Hafez al-Assad e continuado por Bashar al-Assad, inquestionavelmente autorit\u00e1rio e autocr\u00e1tico, trar\u00e1 a paz e a democracia na S\u00edria, \u00e9 simplista e ilus\u00f3rio. As tens\u00f5es religioso-\u00e9tnico-pol\u00edticas agravadas pela guerra, tornam muito improv\u00e1vel esse resultado. Entre os grupos que se op\u00f5em ao regime de Bashar Al-Assad, os que lutam por uma alternativa democr\u00e1tica e liberal s\u00e3o poucos, mal organizados e sem capacidade militar relevante. A agudiza\u00e7\u00e3o do conflito levou a que os alau\u00edtas, simpatizantes ou n\u00e3o do regime, passassem, cada vez mais, a recear pela sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e a cerrar fileiras, num reflexo autodefensivo. Os m\u00faltiplos grupos islamistas-jihadistas que combatem na guerra civil da S\u00edria, tipicamente oriundos do Isl\u00e3o sunita \u2014 dos quais o Estado Isl\u00e2mico do Iraque e do Levante \u00e9 apenas o mais conhecido pela sua barb\u00e1rie \u2014, acentuaram esse medo existencial. Se vencer a guerra, a alternativa do radicalismo islamista que domina a aposi\u00e7\u00e3o armada a Bashar al-Assad, significar\u00e1 passar de uma opress\u00e3o de tipo secular para uma opress\u00e3o teocr\u00e1tica. A trag\u00e9dia da S\u00edria continuar\u00e1 de uma outra forma e n\u00e3o apenas para os alau\u00edtas, que passar\u00e3o a ser objecto de vingan\u00e7a. Para a maioria dos mu\u00e7ulmanos sunitas, excepto para islamistas convictos ou oportunistas, n\u00e3o \u00e9 discern\u00edvel um futuro melhor. Quanto \u00e0s minorias religiosas (crist\u00e3os e drusos), ou \u00e9tnicas (curdos), poder\u00e3o ter de enfrentar tamb\u00e9m a sua pr\u00f3pria amea\u00e7a existencial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes. Artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 17\/11\/2014<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1197\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\" alt=\"dom\u00ednio p\u00fablico\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a>\u00a0Imagem: selo de correio da S\u00edria (dom\u00ednio p\u00fablico \/ Wikipedia) com a inscri\u00e7\u00e3o alau\u00edtas (1926)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensar que o derrube do regime inaugurado por Hafez al-Assad e continuado por Bashar al-Assad, inquestionavelmente autorit\u00e1rio e autocr\u00e1tico, trar\u00e1 a paz e a democracia na S\u00edria, \u00e9 simplista e ilus\u00f3rio. 1. A destrui\u00e7\u00e3o e extrema viol\u00eancia da guerra civil na S\u00edria permanece h\u00e1 tr\u00eas anos. 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