{"id":1525,"date":"2015-06-06T11:53:11","date_gmt":"2015-06-06T11:53:11","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1525"},"modified":"2015-06-13T20:23:41","modified_gmt":"2015-06-13T20:23:41","slug":"a-politica-externa-da-turquia-face-a-israel-o-regresso-da-ambicao-otomana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/a-politica-externa-da-turquia-face-a-israel-o-regresso-da-ambicao-otomana\/","title":{"rendered":"A Pol\u00edtica Externa da Turquia face a Israel: o regresso da ambi\u00e7\u00e3o otomana"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-declara\u00e7\u00e3o-de-guerra-do-Imp\u00e9rio-Otomano-em-1914.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1536\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-declara\u00e7\u00e3o-de-guerra-do-Imp\u00e9rio-Otomano-em-1914-1024x773.jpg\" alt=\"A declara\u00e7\u00e3o de guerra do Imp\u00e9rio Otomano em 1914\" width=\"1024\" height=\"773\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-declara\u00e7\u00e3o-de-guerra-do-Imp\u00e9rio-Otomano-em-1914-1024x773.jpg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-declara\u00e7\u00e3o-de-guerra-do-Imp\u00e9rio-Otomano-em-1914-300x227.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-declara\u00e7\u00e3o-de-guerra-do-Imp\u00e9rio-Otomano-em-1914-768x580.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-declara\u00e7\u00e3o-de-guerra-do-Imp\u00e9rio-Otomano-em-1914-370x279.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-declara\u00e7\u00e3o-de-guerra-do-Imp\u00e9rio-Otomano-em-1914-570x430.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-declara\u00e7\u00e3o-de-guerra-do-Imp\u00e9rio-Otomano-em-1914-770x581.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-declara\u00e7\u00e3o-de-guerra-do-Imp\u00e9rio-Otomano-em-1914-1170x883.jpg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-declara\u00e7\u00e3o-de-guerra-do-Imp\u00e9rio-Otomano-em-1914.jpg 1429w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>A quest\u00e3o da Turquia ser membro de pleno direito da Uni\u00e3o Europeia \u00e9 problem\u00e1tica [&#8230;]. No entanto, \u00e9 prov\u00e1vel que a Turquia permane\u00e7a na NATO, a n\u00e3o ser que o referido partido [o <em>Refah Partisi\/<\/em> Partido da Prosperidade ou Partido do Bem-Estar] registe uma vit\u00f3ria eleitoral esmagadora ou que a Turquia, conscientemente, rejeite a heran\u00e7a de Atat\u00fcrk e se redefina como pa\u00eds chefe de fila do Isl\u00e3o. Um cen\u00e1rio destes \u00e9 conceb\u00edvel e at\u00e9 desej\u00e1vel para a Turquia, mas improv\u00e1vel num futuro pr\u00f3ximo. Qualquer que venha a ser o seu papel na NATO, a Turquia defender\u00e1 cada vez mais os seus interesses no que respeita aos Balc\u00e3s, ao mundo \u00e1rabe e \u00e0 \u00c1sia central.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Samuel P. HUNTINGTON<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Neste artigo propomo-nos analisar de forma esquem\u00e1tica a pol\u00edtica externa da Turquia face a Israel, desde a funda\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo Estado, em 1948, no antigo territ\u00f3rio da Palestina do Imp\u00e9rio Otomano (1516<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>-1918), posteriormente sujeito ao mandato de administra\u00e7\u00e3o atribu\u00eddo \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha (1918-1948) pela Sociedade das Na\u00e7\u00f5es (SdN). O principal objectivo \u00e9 avaliar em que medida a pol\u00edtica externa turca \u2013 at\u00e9 um passado recente baseada no estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es cooperativas e de parceria estrat\u00e9gica com o Estado judaico e surgindo como uma esp\u00e9cie de prolongamento dos interesses ocidentais na regi\u00e3o, sobretudo norte-americanos \u2013, n\u00e3o se alterou ao ponto de por em causa a rela\u00e7\u00e3o cooperativa e estrat\u00e9gica e at\u00e9 o prec\u00e1rio equil\u00edbrio de poderes no M\u00e9dio Oriente. Subsidiariamente, vai-se procurar perspectivar aquilo que poder\u00e3o ser as implica\u00e7\u00f5es da actual pol\u00edtica externa da Turquia face a Israel, para a Uni\u00e3o Europeia. Recorda-se que a Turquia est\u00e1, desde 2005, envolvida num processo de negocia\u00e7\u00f5es de ades\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> e que a Uni\u00e3o est\u00e1 tamb\u00e9m numa fase em que procura ganhar relev\u00e2ncia como actor internacional, atrav\u00e9s da implementa\u00e7\u00e3o dos novos instrumentos institucionais previstos no Tratado de Lisboa (nomeadamente, uma presid\u00eancia permanente do Conselho Europeu, um Alto Representante da Uni\u00e3o para os Neg\u00f3cios Estrangeiros e Pol\u00edtica de Seguran\u00e7a, e um Servi\u00e7o de Ac\u00e7\u00e3o Externa).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong> As rela\u00e7\u00f5es entre a Turquia e Israel no quadro da Guerra-Fria <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>\u00c9 bem conhecido o ambiente de conflito em que foi proclamado o Estado de Israel<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong><strong>[4]<\/strong><\/strong><\/a> por David Ben-Gurion, em Tel-Aviv, a 14 de Maio 1948, marcado pela forte oposi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica e militar que, desde o seu momento fundador, enfrentou da parte dos pa\u00edses \u00e1rabes e isl\u00e2micos, especialmente oriunda dos seus vizinhos pr\u00f3ximos do M\u00e9dio Oriente. O contexto hist\u00f3rico da funda\u00e7\u00e3o de Israel foi o do holocausto (<em>Shoah<\/em>) da popula\u00e7\u00e3o judaica \u00e0s m\u00e3os do regime nazi, ocorrido durante a II Guerra Mundial, com a subsequente emigra\u00e7\u00e3o em massa de popula\u00e7\u00f5es judaicas para o ex-territ\u00f3rio sob administra\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica da Palestina, a exist\u00eancia de um plano de partilha deste territ\u00f3rio entre \u00e1rabes e judeus aprovado pela Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 181 de 29 de Novembro de 1947), a n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o deste plano pelos pa\u00edses \u00e1rabes o que, de alguma maneira, acabou por originar, logo \u00e0 nascen\u00e7a, um primeiro conflito militar<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. A grande excep\u00e7\u00e3o \u00e0 hostilidade generalizada do mundo \u00e1rabe e isl\u00e2mico foi a Rep\u00fablica da Turquia, que \u00e9 um pa\u00eds isl\u00e2mico n\u00e3o \u00e1rabe. Na altura, esta era tamb\u00e9m um Estado recente no mapa pol\u00edtico do Sudeste Europeu e M\u00e9dio Oriente, tendo sido criada um quarto de s\u00e9culo antes por Mustafa Kemal Atat\u00fcrk<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. No plano do Direito Internacional, a Rep\u00fablica da Turquia que surgiu como Estado soberano a 29 de Outubro de 1923, assumiu o estatuto de Estado sucessor do Imp\u00e9rio Otomano, sucedendo-lhe nas embaixadas e nos tratados internacionais de que o Estado otomano tinha sido signat\u00e1rio. No plano interno, o seu fundador pretendeu romper drasticamente com o passado otomano e o seu modelo de sociedade isl\u00e2mica tradicionalista, vista como retr\u00f3grada e ultrapassada, procurando adoptar uma via de modernidade similar \u00e0 ocidental e criar, de raiz, um conjunto de novas estruturas estaduais de base secularista<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Foi esta Turquia, impregnada da vis\u00e3o de Atat\u00fcrk, que reconheceu <em>de iure<\/em> o Estado de Israel, em in\u00edcios de 1949, adoptando, conforme j\u00e1 referido, uma op\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica singular e notoriamente contrastiva com a atitude hostil dos Estados \u00e1rabes isl\u00e2micos face a Israel<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Para al\u00e9m disso \u2013 e embora as rela\u00e7\u00f5es entre os dois Estados tivessem, naturalmente, altos e baixos<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> \u2013, prosseguiu, ao longo das d\u00e9cadas seguintes, formas de coopera\u00e7\u00e3o, econ\u00f3mica e militar com o Estado israelita, que se intensificaram na fase final da Guerra Fria (e na primeira d\u00e9cada do p\u00f3s-Guerra Fria). Que raz\u00f5es pol\u00edtico-diplom\u00e1ticas justificaram esta op\u00e7\u00e3o arrojada de pol\u00edtica externa da Turquia de, num primeiro momento, reconhecer Israel, e, nas d\u00e9cadas seguintes, desenvolver rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gicas, inclu\u00edndo o dom\u00ednio militar? V\u00e1rias podem ser apontadas. Em primeiro lugar as circunst\u00e2ncias espec\u00edficas da Guerra-Fria, as quais levaram tamb\u00e9m a Turquia a entrar na Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica, em 1952. (Um primeiro passo nessa op\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, foi a participa\u00e7\u00e3o, na guerra da Coreia, iniciada em 1950, ao lado das tropas norte-americanas). Esta viu na superpot\u00eancia sovi\u00e9tica que emergiu vitoriosa da II Guerra Mundial, na sua ideologia comunista, e nas suas ambi\u00e7\u00f5es expansionistas, uma amea\u00e7a \u00e0 sua seguran\u00e7a se n\u00e3o mesmo \u00e0 sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia como Estado independente. Esta percep\u00e7\u00e3o nada tem de surpreendente \u00e0 luz da hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es russo-turcas. Durante o s\u00e9culo XIX, a principal amea\u00e7a \u00e0 sobreviv\u00eancia do Imp\u00e9rio Otomano \u2013 o \u201chomem doente da Europa\u201d na c\u00e9lebre frase atribu\u00edda ao czar Nicolau I \u2013 foi a R\u00fassia imperial. Por sua vez, o seu aliado tradicional, ainda que problem\u00e1tico, para conter a ambi\u00e7\u00e3o russa sobre territ\u00f3rios otomanos, foi a Gr\u00e3-Bretanha. Assim, a entrada na Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica e a substitui\u00e7\u00e3o da garantia brit\u00e2nica pela norte-americana, foi uma natural continuidade de uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica enraizada historicamente face ao tradicional inimigo russo\/sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, as rela\u00e7\u00f5es dif\u00edceis mantidas entre a Turquia e os antigos s\u00fabditos imperiais\/coloniais otomanos, das ex-prov\u00edncias \u00e1rabes do imp\u00e9rio. Na mem\u00f3ria turca ficou gravada a imagem de uma \u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d \u00e1rabe, em 1916-1918, quando o Imp\u00e9rio Otomano estava em guerra com a <em>Entente <\/em>(Fran\u00e7a, Gr\u00e3-Bretanha e R\u00fassia), na frente oriental da I Guerra Mundial, e estes se aliaram \u00e0s tropas brit\u00e2nicas contra o ex\u00e9rcito otomano. O reconhecimento de Israel, que nasceu no ex-terit\u00f3rio otomano da Palestina, foi \u2013 pelo menos numa interpreta\u00e7\u00e3o que \u00e9 bastante comum encontrar nos pa\u00edses \u00e1rabes \u2013, essencialmente um acto de vingan\u00e7a pol\u00edtica turca pelos acontecimentos de 1916-1918.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, o conflito de Chipre, desencadeado nos anos 50 do s\u00e9culo XX \u2013 outro ex-territ\u00f3rio otomano que passou para administra\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica em 1878<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> \u2013 o qual agudizou, ainda mais, as m\u00e1s rela\u00e7\u00f5es da \u00e9poca entre a Turquia e os pa\u00edses \u00e1rabes. Estes, e sobretudo o Egipto de Gamal Abdel Nasser, apoiaram os cipriotas gregos e a Gr\u00e9cia contra as pretens\u00f5es da Turquia e dos cipriotas turcos de parti\u00e7\u00e3o da ilha, numa curiosa solidariedade entre ex-colonizados pelos otomanos. Para a Turquia, este apoio foi sobretudo interpretado como uma forma de retalia\u00e7\u00e3o \u00e1rabe pelo reconhecimento de Israel. Importa sublinhar que a Rep\u00fablica da Turquia deste per\u00edodo estava ainda profundamente marcada pelos acontecimentos traum\u00e1ticos que levaram \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Otomano, bem como pela convic\u00e7\u00e3o de continuar a estar cercada por inimigos externos (Gr\u00e9cia, Bulg\u00e1ria, ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Ir\u00e3o, Iraque e S\u00edria). Esta \u201cfobia de S\u00e8vres\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, influ\u00eanciou, naturalmente, a j\u00e1 referida procura de aliados externos para contrabalan\u00e7ar a ideia de cerco.<\/p>\n<p>Em quarto lugar, e de alguma maneira relacionado com os aspectos anteriormente referidos, o problema curdo<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> da Turquia. Embora n\u00e3o tenha tido um papel relevante na altura do reconhecimento de Israel em 1949, influenciou, a partir dos anos 80, o refor\u00e7o das rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gicas com Israel. De facto, este conflito, que esteve adormecido<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> nas d\u00e9cadas subsequentes ao final da II Guerra Mundial, reacendeu-se em 1984, em larga escala, com o revolta armada do <em>Partiya Karkeran Kurdistan<\/em> (PKK)<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Isto colocou, inevitavelmente, a quest\u00e3o curda no centro das preocupa\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e pol\u00edticas (internas e externas) da Turquia. Do ponto de vista de pol\u00edtica externa, o que mais preocupava a Turquia era, naturalmente, o apoio \u00e0 causa curda no exterior, quer o pol\u00edtico, quer o militar. Preocupa\u00e7\u00e3o bem real e intensificada pelo facto de existirem popula\u00e7\u00f5es curdas significativas nas regi\u00f5es fronteiri\u00e7as cont\u00edguas do Iraque, Ir\u00e3o e S\u00edria. Da\u00ed que, no pico do conflito, ocorrido na segunda metade dos anos 80 e prolongado durante a d\u00e9cada de 90, nos meios diplom\u00e1ticos turcos se falasse de uma \u201ccoliga\u00e7\u00e3o de dois Estados e meio\u201d contra o seu pa\u00eds (os dois Estados eram a S\u00edria e a Gr\u00e9cia e o \u201cmeio Estado\u201d era o PKK liderado por Abdullah \u00d6calan<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>).<\/p>\n<p>Por tudo isto, ao longo das v\u00e1rias d\u00e9cadas de Guerra Fria, a Turquia acabou tamb\u00e9m por interiorizar as limita\u00e7\u00f5es da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica para certos interesses do pa\u00eds \u2013 o primeiro marco desse alerta foi a crise de Chipre de 1963\/1964 \u2013, passando, ao mesmo tempo, a sua pol\u00edtica externa a reflectir a preocupa\u00e7\u00e3o de encontrar novos aliados para amea\u00e7as regionais espec\u00edficas. Note-se que, face \u00e0 amea\u00e7a da superpot\u00eancia sovi\u00e9tica, a NATO e os EUA continuavam a ser vistos como o melhor aliado poss\u00edvel. Todavia, j\u00e1 quanto a um eventual conflito no M\u00e9dio Oriente com os seus pa\u00edses vizinhos, desencadeado ou pela quest\u00e3o curda, ou por disputas teritoriais, ou outro qualquer motivo, a situa\u00e7\u00e3o era diferente. Face a estas amea\u00e7as espec\u00edficas, a coopera\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar com Israel acabou por surgir como uma op\u00e7\u00e3o particularmente interessante. N\u00e3o s\u00f3 Israel n\u00e3o tinha qualquer reivindica\u00e7\u00e3o territorial sobre a Turquia, como, em caso de conflito militar, poderia ser um aliado importante para efectuar um contra-cerco \u00e0 S\u00edria de Hafez Al-Assad ou ao Iraque de Saddam Hussein \u2013 os mais ambiciosos e agressivos Estados \u00e1rabes, a partir dos anos 70, sucedendo, nesse papel, ao Egipto de Gamal Abdel Nasser. Foi, ali\u00e1s, esta l\u00f3gica estrat\u00e9gica que acabou por levar, j\u00e1 no p\u00f3s-Guerra-Fria, como veremos mais \u00e0 frente, \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o, em meados da d\u00e9cada de 90, de um acordo formal de coopera\u00e7\u00e3o e treino militar entre os dois Estados<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> A pol\u00edtica externa da Turquia face ao ambiente geopol\u00edtico do p\u00f3s-Guerra Fria<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ligadas ao final da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e ao \u201cvazio\u201d que se gerou em grande parte dos territ\u00f3rios que estiveram sob a sua esfera de influ\u00eancia durante a Guerra Fria, tiveram implica\u00e7\u00f5es significativas na geopol\u00edtica do Sudeste Europeu (Balc\u00e3s) e do C\u00e1ucaso at\u00e9 \u00e0 \u00c1sia Central. A pol\u00edtica de \u201cisolacionismo\u201d face aos ex-territ\u00f3rios otomanos e turc\u00f3fonos \u2013 a excep\u00e7\u00e3o mais not\u00f3ria foi o caso de Chipre \u2013, que caracterizava a rep\u00fablica turca desde a sua funda\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou, j\u00e1 neste per\u00edodo, a sofrer algumas mudan\u00e7as assinal\u00e1veis. Em ambas regi\u00f5es, a Turquia tentou aproveitar a muta\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica em curso para projectar, de alguma forma, a sua influ\u00eancia nas mesmas. Neste contexto, as liga\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e culturais, os la\u00e7os afectivos que persistiam com algumas popula\u00e7\u00f5es e territ\u00f3rios, e a nostalgia do passado otomano, tornaram-se, subitamente, num interessante trunfo diplom\u00e1tico-estrat\u00e9gico. No caso do Balc\u00e3s, essas liga\u00e7\u00f5es derivam da multisecular presen\u00e7a do Imp\u00e9rio Otomano na regi\u00e3o, iniciada nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIV e que s\u00f3 terminou com as duas guerra balc\u00e2nicas 1912\/1913. A conex\u00e3o mais \u00f3bvia s\u00e3o as diversas popula\u00e7\u00f5es islamizadas pelos otomanos, que existem um pouco por toda a regi\u00e3o, especialmente numerosas no caso da B\u00f3snia-Herzegovina (que ascendeu \u00e0 independ\u00eancia com o fim sangrento da ex-Jugosl\u00e1via), do Kosovo e da Alb\u00e2nia. Para al\u00e9m disso, existem, tamb\u00e9m, mem\u00f3rias com forte simbolismo hist\u00f3rico e pol\u00edtico ligadas aos Balc\u00e3s, por outras raz\u00f5es. O pr\u00f3prio fundador da Rep\u00fablica, Mustafa Kemal, nasceu em finais do s\u00e9culo XIX em Sal\u00f3nica, na Maced\u00f3nia, cidade que, at\u00e9 \u00e0 primeira guerra balc\u00e2nica de 1912, fez parte do Imp\u00e9rio Otomano para depois ser integrada na actual Gr\u00e9cia. Quanto \u00e0 outra \u00e1rea onde a Turquia tentou projectar a sua influ\u00eancia foi, como j\u00e1 referimos, a dos territ\u00f3rios ex-sovi\u00e9ticos do C\u00e1ucaso at\u00e9 \u00e0 \u00c1sia Central. A altera\u00e7\u00e3o do mapa pol\u00edtico na regi\u00e3o levou ao aparecimento de novos Estados independentes \u201cturc\u00f3fonos\u201d (Azerbaij\u00e3o, Turquemenist\u00e3o, Uzebequist\u00e3o, Cazaquist\u00e3o e Quirguist\u00e3o \u2013 os quais, juntamente com a Turquia, formaram um grupo informal conhecido por \u201cT5\u201d). Esta altera\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica fez tamb\u00e9m renascer algumas ambi\u00e7\u00f5es de panturquismo. Estas germinavam sobretudo no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, na fase terminal do Imp\u00e9rio Otomano, sendo, na \u00e9poca, o l\u00edder dos jovens turcos, Enver Pax\u00e1<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>, o principal rosto dessa ambi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de reconstituir o imp\u00e9rio otomano\/turco para Oriente. Por tudo isto, \u00e9 ineg\u00e1vel constatar que se encontra nos primeiros tempos do p\u00f3s-Guerra Fria a g\u00e9nese de uma reconfigura\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa turca em moldes neo-otomanos. No entanto, um aspecto importante a reter, \u00e9 que esta foi efectuada de forma cautelosa e pragm\u00e1tica, e com o cuidado de preservar, ao mesmo tempo, a orienta\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tico-estrat\u00e9gica anterior, de tipo pr\u00f3-ocidental. Ou seja, procurando, pelo menos no que dependia da Turquia, manter uma liga\u00e7\u00e3o forte \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a ocidentais (leia-se \u00e0 NATO), e dar continuidade \u00e0s rela\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas privilegiadas com os EUA. Quanto a Israel, e conforme j\u00e1 referimos, a rela\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, durante a primeira d\u00e9cada do p\u00f3s-Guerra Fria, foi at\u00e9 refor\u00e7ada ao n\u00edvel da coopera\u00e7\u00e3o militar (assistindo-se, tamb\u00e9m, ao refor\u00e7o das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e pol\u00edtico-militares). Neste \u00faltimo caso, importa olhar mais de perto para as raz\u00f5es da intensifica\u00e7\u00e3o da parceria estrat\u00e9gica com Israel, as quais s\u00f3 podem ser compreendidas quer tendo em conta as din\u00e2micas internacionais mais gerais, quer olhando mais especificamente para din\u00e2micas do ambiente geopol\u00edtico envolvente da Turquia<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>. \u00c9 isto que explica Mustafa Kibaro\u011flu, ao evidenciar o que mudou no ambiente internacional p\u00f3s-Guerra Fria, as suas implica\u00e7\u00f5es sobre o papel da NATO (e da Turquia nesta organiza\u00e7\u00e3o), e as amea\u00e7as que, entretanto, surgiram no M\u00e9dio Oriente, com implica\u00e7\u00f5es directas sobre a seguran\u00e7a do pa\u00eds:<\/p>\n<blockquote><p>What has changed? The 1990s brought about far-reaching shifts in Turkey&#8217;s geo-strategic position. Since the breakup of the Warsaw Pact and the fall of the Soviet Union, NATO&#8217;s role has lost some of its clarity. NATO found several new missions in the Balkans, but the eastward expansion of the European Union (EU), and the German and French led efforts to establish a \u201cEuropean army\u201d have raised questions about NATO&#8217;s future role. Turkey, positioned at the far edge of the NATO alliance and outside the EU, now asks itself whether it still comes completely under any collective umbrella.<\/p><\/blockquote>\n<p>At the same time, the potential threats from the Middle East have grown exponentially. Countries on Turkey&#8217;s Middle Eastern borders have stockpiles of chemical and biological weapons, and growing arsenals of ballistic missiles. Beyond the potential threats emanating from the neighboring states, the terrorist groups based in the region are menacing and may have chemical and biological agents at their disposal. Their possible deployment of crude weapons of mass destruction looms over Turkey&#8217;s citizens and military forces<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p>Face a estas preocupa\u00e7\u00f5es securit\u00e1rias dirigidas, em especial, aos seus vizinhos belicosos do M\u00e9dio-Oriente, o que poderia um pa\u00eds de pequena dimens\u00e3o geogr\u00e1fica e populacional, como Israel, oferecer de aliciante a um Estado da dimens\u00e3o territorial, com as capacidades militares e as ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da Turquia? Ainda segundo Mustafa Kibaro\u011flu, Israel tinha tecnologia e meios militares defensivos bastante adequados para lidar com as amea\u00e7as que se desenhavam num cen\u00e1rio de eventual conflito com os vizinhos \u00e1rabes de ambos os Estados:<\/p>\n<blockquote><p>Turkish planners have been impressed by Israel&#8217;s Arrow missile system, precisely because it has been designed to meet the capabilities of Turkey&#8217;s immediate neighbors. Sheer national interest may be driving Turkey toward an informal pact, linking it with the United States and Israel in an effort to counter the threat of ballistic missiles.\u00a0Nor can Turkey afford to ignore the scenario of a regional conflagration, in which Turkey might find itself alongside the United States and Israel. No one can estimate the probability of such a scenario, but it is sufficiently probable to justify some joint planning<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para al\u00e9m das vantagens estritamente militares, poder\u00edamos apontar outras nos planos da coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e pol\u00edtica. Em termos pol\u00edticos, a parceria estrat\u00e9gica com Israel tinha tamb\u00e9m o atractivo de poder beneficiar da ajuda do l\u00f3bi judaico, em pa\u00edses onde este era influente, como nos EUA \u2013 pelo menos a expectiva turca era essa. Este atractivo n\u00e3o era uma aspecto menor para quest\u00f5es pol\u00edticas sens\u00edveis, como por exemplo, o reconhecimento do massacre dos arm\u00e9nios durante a I Guerra Mundial como um genoc\u00eddio. A ideia era, naturalmente, que o l\u00f3bi judaico ajudasse a bloquear qualquer resolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica reconhecendo os massacres como genoc\u00eddio<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>, numa altura em que a di\u00e1spora arm\u00e9nia estava politicamente bastante activa, apresentando, anualmente, ao congresso norte-americano, propostas de resolu\u00e7\u00f5es neste sentido. Um outro aspecto interessante da intensifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gico-militar da Turquia com Israel \u00e9 o da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica interna turca, na \u00e9poca em que o acordo formal foi assinado (1996). Este foi realizado quando, pela primeira vez no historial da rep\u00fablica, um partido de base islamista tinha chegado ao governo \u2013 o <em>Refah Partisi<\/em>\/Partido da Prosperidade ou Partido do Bem-Estar de Necmettin Erbakan. Tal facto n\u00e3o deixa de ser surpreendente, sobretudo sendo bem conhecidas as posi\u00e7\u00f5es anti-judaicas dos islamistas <em>Refah Partisi<\/em> e o seu militantismo pol\u00edtico-religioso a favor das causas mu\u00e7ulmanas em geral e do palestinianos em particular. Todavia, este facto deve ser interpretado como uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a do <em>establishment<\/em> secular \u2013 civil, e, sobretudo, militar \u2013, bem como uma prova de que, na altura, as rela\u00e7\u00f5es de poder estavam do seu lado, algo que, ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, se alterou drasticamente e que n\u00e3o deixou de se projectar no rumo da pr\u00f3pria pol\u00edtica externa como veremos em seguida.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> Nacionalismo \u201cgaulista\u201d<em>,<\/em> ideologia islamista e pragmatismo econ\u00f3mico<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Nos \u00faltimos anos, as rela\u00e7\u00f5es entre a Turquia e Israel sofreram uma deteriora\u00e7\u00e3o significativa, a qual, pela mediatiza\u00e7\u00e3o de algumas das controv\u00e9rsias que est\u00e3o na sua origem, n\u00e3o passou sequer despercebida da opini\u00e3o p\u00fablica menos interessada nas quest\u00f5es internacionais e do M\u00e9dio Oriente. Sintetizando essas controv\u00e9rsias, podemos elencar como mais relevantes os seguintes acontecimentos: i) As elei\u00e7\u00f5es legislativas que decorreram em 26 de Janeiro de 2006, nos territ\u00f3rios da Autoridade Palestiniana, deram a vit\u00f3ria<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a> ao <em>\u1e24arakat al-Muq\u0101wamat al-Isl\u0101miyyah<\/em>\/Movimento de Resist\u00eancia Isl\u00e2mica (HAMAS) liderado por Isma\u00efl Haniyeh, o qual concorreu sob o nome de \u201cLista da Mudan\u00e7a e Reforma\u201d. Em in\u00edcios de Fevereiro seguinte, o governo turco foi o primeiro de um Estado n\u00e3o-\u00e1rabe a receber uma delega\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel do movimento islamista radical palestiniano, causando grande irrita\u00e7\u00e3o no governo do ex-Primeiro-Ministro Shimon Peres<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>. Note-se que, mesmo entre os palestinianos, a ascens\u00e3o ao poder do HAMAS esteve longe de ser um processo pac\u00edfico. Logo ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, assistiu-se a um clima de confronta\u00e7\u00e3o entre a <em>Fatah <\/em>(o movimento do Presidente Mahmoud Abbas) e o HAMAS, que se intensificou em Junho de 2007, com graves confrontos entre as duas fac\u00e7\u00f5es. Na sequ\u00eancia desta confronta\u00e7\u00e3o violenta, o Presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, Mahmoud Abbas, sediado na Cisjord\u00e2nia, em Ramallah, afastou Isma\u00efl Haniyeh do cargo de Primeiro-Ministro. Todavia, este manteve o poder <em>de facto<\/em> na Faixa de Gaza (local de onde a <em>Fatah<\/em> foi expulsa pelo Hamas), n\u00e3o reconhecendo o novo governo palestiniano nomeado por Mamoud Abbas. ii) A troca azeda de palavras, no F\u00f3rum Econ\u00f3mico Mundial de Davos, a 29 de Janeiro 2009, entre o Primeiro-Ministro turco, Recep Tayyip Erdo\u011fan e o Presidente israelita, Shimon Peres, a prop\u00f3sito das incurs\u00f5es israelitas na Faixa de Gaza, onde este acusou Israel de \u201csaber muito bem como matar\u201d, abandonando, em seguida, o palco de Davos. Esta medi\u00e1tica confronta\u00e7\u00e3o verbal valeu-lhe, no regresso \u00e0 Turquia, uma entusi\u00e1stica recep\u00e7\u00e3o com milhares de pessoas nas ruas a celebrar o \u201cher\u00f3i de Davos\u201d e um significativo aumento da popularidade junto do mundo \u00e1rabe-isl\u00e2mico<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>. Quanto ao HAMAS, o seu l\u00edder Isma\u00efl Haniyeh, agradeceu calorosamente \u00e0 Turquia a interven\u00e7\u00e3o do seu Primeiro-Ministro, dizendo mesmo que \u201cErdo\u011fan tornou-se a nossa voz\u201d e chamando \u00e0 Turquia \u201co novo otomano\u201d<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a>. iii) Em in\u00edcios de Outubro de 2009 a Turquia cancelou o convite tradicionalmente feito a Israel para participar num exerc\u00edcio militar a\u00e9reo conjunto, realizado anualmente desde meados da d\u00e9cada de 90, no qual participavam tamb\u00e9m os EUA e outros membros da NATO. Quase em simult\u00e2neo com o cancelamento desse convite \u00e0 for\u00e7a a\u00e9rea israelita, a Turquia convidou a S\u00edria \u2013 um dos inimigos tradicionais de Israel \u2013, para exerc\u00edcios militares conjuntos, ainda que limitados, e anunciou a cria\u00e7\u00e3o de um conselho de coopera\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica com esse pa\u00eds<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a>. iv) O acordo patrocinado pela Turquia, juntamente com o Brasil, negociado em 16 e 17 de Maio de 2010 que, segundo Recep Tayyip Erdo\u011fan e o seu Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, Ahmet Davuto\u011flu, permitiria resolver a quest\u00e3o do programa nuclear iraniano<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a> sem necessidade de mais san\u00e7\u00f5es pelo Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Contudo, a 9 de Junho de 2010, o Conselho de Seguran\u00e7a aprovou uma quarta ronda de san\u00e7\u00f5es contra o Ir\u00e3o, tendo a Turquia (e o Brasil) que, actualmente, s\u00e3o membros n\u00e3o permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a, votado contra essas novas san\u00e7\u00f5es<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a>. Neste assunto \u2013 que \u00e9 provavelmente o mais delicado do actual panorama pol\u00edtico do M\u00e9dio Oriente \u2013, a Turquia tem mantido uma atitude diplom\u00e1tico-estrat\u00e9gica favor\u00e1vel<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a> ao que considera ser o direito do Ir\u00e3o em ter energia nuclear (aparentemente, dando toda a credibilidade ao discurso oficial do Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, de que o seu programa nuclear \u00e9 meramente para fins pac\u00edficos e respeita integralmente o dispositivo do Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear \u2013 TNP). Isto em clara dessintonia n\u00e3o s\u00f3 com Israel (que v\u00ea no prosseguimento do programa iraniano um esfor\u00e7o para se tornar numa pot\u00eancia militar nuclear e uma amea\u00e7a \u00e0 sua pr\u00f3pria exist\u00eancia como Estado), como das pr\u00f3prias pot\u00eancias ocidentais que t\u00eam estado envolvidas nas negocia\u00e7\u00f5es \u2013 EUA, Fran\u00e7a, Reino Unido e Alemanha \u2013, das quais \u00e9 aliada na NATO. v) Por \u00faltimo, o recente caso da expedi\u00e7\u00e3o mar\u00edtima composta por seis barcos e cerca de 700 pessoas oriundas de mais de tr\u00eas dezenas pa\u00edses, oficialmente qualificada como sendo uma opera\u00e7\u00e3o de ajuda humanit\u00e1ria. Esta flotilha foi organizada pela <em>\u0130nsan Hak ve H\u00fcrriyetleri ve \u0130nsani Yard\u0131m Vakf\u0131<\/em>\/Funda\u00e7\u00e3o para os Direitos do Homem, da Liberdade e a Ajuda Humanit\u00e1ria (tamb\u00e9m conhecida sob a sigla IHH), uma ONG sediada em Istambul, pr\u00f3xima dois meios islamistas e, ao que tudo indica tamb\u00e9m, dos pr\u00f3prios c\u00edrculos dirigentes<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[30]<\/a> do actual governo turco do <em>Adalet ve Kalkinma Partisi<\/em>\/Partido da Justi\u00e7a e do Desenvolvimento (AKP). A 31 de Maio de 2010, quando a flotilha navegava no Mediterr\u00e2neo oriental j\u00e1 pr\u00f3ximo de Gaza, ocorreram graves incidentes entre esta e a marinha israelita. Os acontecimentos ter\u00e3o ocorrido mais ou menos da seguinte maneira: na altura dessa aproxima\u00e7\u00e3o da flotilha, Israel intimou aos comandantes dos navios para entregarem a ajuda humanit\u00e1ria no porto de Ashod, de forma a esta ser previamente inspeccionada e depois entregue por terra em Gaza, pedido que foi recusado. Face \u00e0 atitude de recusa em acatar essas indica\u00e7\u00f5es, comandos navais israelitas assaltaram a flotilha de forma a tentar obrig\u00e1-la a acat\u00e1-las pela for\u00e7a<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[31]<\/a>. Nessa tomada de assalto, os incidentes mais graves ocorreram com o maior navio, o <em>Mavi Marmara<\/em>, cujos passageiros entraram em confronto com os comandos israelitas das for\u00e7as especiais <em>Shayetet 13<\/em>. Dos confrontos resultou a morte de cerca de uma dezena de activistas, a grande maioria de nacionalidade turca, ferimentos em algumas dezenas e tamb\u00e9m entre os comandos das for\u00e7as navais israelitas.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das controv\u00e9rsias factuais que os envolvem, de que um exemplo \u00f3bvio \u00e9 o caso da flotilha, como interpretar estes acontecimentos e encaix\u00e1-los na actual linha de pol\u00edtica externa da Turquia e nas suas rela\u00e7\u00f5es com Israel? Ser\u00e3o actos mais ou menos fortuitos e isolados, sem nenhum significado pol\u00edtico-estrat\u00e9gico especial, ou podemos inferir deles um padr\u00e3o consistente e deliberado de actua\u00e7\u00e3o? Na resposta a estas quest\u00f5es, verificamos que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 entre os analistas e especialistas europeus e ocidentais que existem leituras bastante divergentes sobre o alcance dos acontecimentos. Curiosamente, ou talvez n\u00e3o se tivermos em contas as fracturas profundas que atravessam a sociedade turca, entre os pr\u00f3prios especialistas turcos radicados no Ocidente (EUA) existem diverg\u00eancias tanto ou mais significativas que nos europeus e ocidentais. Por exemplo, \u00d6mer Ta\u015fp\u0131nar rejeita que a Turquia esteja a introduzir uma vis\u00e3o ideol\u00f3gica islamista na sua pol\u00edtica externa. Segundo este, trata-se, antes, de uma nova vis\u00e3o diplom\u00e1tico-estrat\u00e9gica de um Estado mais confiante em si pr\u00f3prio, que adoptou uma atitude mais assertiva e independente no plano internacional. Estar\u00e1 ent\u00e3o a emergir aquilo que qualifica como um \u201cgaulismo turco\u201d \u2013 ou seja, uma esp\u00e9cie de nacionalismo <em>a la turca<\/em> \u2013, o qual configura uma vis\u00e3o de pol\u00edtica externa que transcende a divis\u00e3o entre islamistas e secularistas:<\/p>\n<blockquote><p>The flotilla incident and Turkey\u2019s \u201cno\u201d vote to new sanctions against Iran at the United Nations Security Council once again triggered a familiar debate about Turkey\u2019s alleged \u201cIslamic\u201d turn in foreign policy. [\u2026] Long before the recent turn of events, I argued that if current trends continue, what we will see emerging in Turkey is not an Islamist foreign policy but a much more nationalist, defiant, independent, self-confident and self-centered strategic orientation in Ankara. Because of similarities between the French and Turkish political tradition, I think it helps to think of this new Turkish sense of self-confidence, nationalism, grandeur and frustration with traditional partners such as America, Europe and Israel as \u201cTurkish Gaullism.\u201d One should not underestimate the emergence of such a new Turkey that transcends the Islamic-secular divide because both the Kemalist neo-nationalist (<em>ulusalc\u0131<\/em>) foreign policy and the Justice and Development Party\u2019s (AK Party) neo-Ottomanism \u2013 the ideal of regional influence \u2013 share the traits of Turkish Gaullism<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[32]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por sua vez, Soner \u00c7a\u011faptay tem uma interpreta\u00e7\u00e3o substancialmente diferente. Embora n\u00e3o rejeite a exist\u00eancia de componente nacionalista de tipo \u201cgaulista\u201d, faz notar que est\u00e1 em curso uma transforma\u00e7\u00e3o significativa na identidade da Turquia sob o governo do AKP, iniciada com a sua chegada ao poder em finais de 2002, a qual est\u00e1 imbu\u00edda de uma vis\u00e3o do mundo islamista e acabou por trazer tamb\u00e9m implica\u00e7\u00f5es de relevo na pol\u00edtica externa do pa\u00eds:<\/p>\n<blockquote><p>After seven years of the AKP&#8217;s Islamist rhetoric, public opinion has shifted to embrace the idea of a politically united \u201cMuslim world.\u201d According to independent polling in Turkey, the number of people identifying themselves as Muslim increased by ten percent between 2002 and 2007; in addition, almost half of those surveyed describe themselves as Islamist. [\u2026] The transformation of Turkish identity under the AKP has potentially massive ramifications. Guided by an Islamist worldview, it will become more and more impossible for Turkey to support Western foreign policy, even when doing so is in its national interest. Turkish-Israeli ties \u2013 long a model for how a Muslim country can pursue a rational, cooperative relationship with the Jewish state \u2013 will continue to unravel. Such a development will be greeted only with approval by the Turkish public, further bolstering the AKP&#8217;s popularity. Thus, the party will be able to kill two birds with one stone: distancing the country from its former ally and shoring up its own power base<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">[33]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Sendo este um assunto naturalmente pol\u00e9mico, parece-nos que, pelo menos no caso que directamente nos ocupa, que \u00e9 o da an\u00e1lise da pol\u00edtica externa da Turquia face a Israel, tem subst\u00e2ncia o coment\u00e1rio de Soner \u00c7a\u011faptay, quando chama \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para a emerg\u00eancia, sob o governo do AKP, de uma adicional dimens\u00e3o ideol\u00f3gica islamista na pol\u00edtica externa do pa\u00eds, a qual n\u00e3o existia no in\u00edcio desta d\u00e9cada. Esta \u00e9 verific\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 na ret\u00f3rica pol\u00edtico-diplom\u00e1tica como nas suas actua\u00e7\u00f5es internas e externas, nomeadamente nos acontecimentos atr\u00e1s mencionados, os quais, sob este prisma, n\u00e3o s\u00e3o meros factos isolados ou fortuitos. Na realidade, a pol\u00edtica externa da Turquia apesar de, pelo menos desde o final da Guerra Fria, ser ter tornado mais multifacetada e complexa, adquiriu, nos \u00faltimos anos, tonalidades n\u00e3o usuais. Assim, o dado novo \u00e9 de facto ter passado a incorporar uma componente ideol\u00f3gica islamista, a par de uma componente nacionalista de tipo \u201cgaulista\u201d \u2013 n\u00e3o sendo esta \u00faltima propriamente uma faceta nova, pois, de alguma maneira, est\u00e1 inscrita na matriz kemalista do Estado turco \u2013, e de uma componente mais pragm\u00e1tica, ligada sobretudo aos crescentes interesses econ\u00f3mico-empresariais do pa\u00eds, que \u00e9 a d\u00e9cima s\u00e9tima economia mundial<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\">[34]<\/a>.<\/p>\n<p>Analisando a introdu\u00e7\u00e3o, ocorrida nos \u00faltimos anos, de uma componente ideol\u00f3gica islamista na pol\u00edtica externa, pode-se dizer que n\u00e3o se trata de algo surpreendente para um observador atento do pa\u00eds e conhecedor do seu passado hist\u00f3rico-pol\u00edtico. De facto, se olharmos as ambi\u00e7\u00f5es do actual governo do AKP \u2013 que, oficialmente, afirma prosseguir apenas uma ben\u00e9vola pol\u00edtica de \u201czero conflitos\u201d na sua vizinhan\u00e7a \u2013, \u00e0 luz da sua ideologia conservadora-nacionalista-islamista e do passado hist\u00f3rico de \u201cgrandiosidade\u201d otomana que a parece inspirar, essa componente adquire um sentido hist\u00f3rico e pol\u00edtico. Basta lembrar aqui que, no caso da pol\u00edtica externa face a Israel e ao conflito israelo-palestiniano, ao contr\u00e1rio da Europa onde a mem\u00f3ria hist\u00f3rica da quest\u00e3o n\u00e3o costuma ir mais al\u00e9m do que a I Guerra Mundial \u2013 acordo Sykes-Picot<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\">[35]<\/a> (1916) e declara\u00e7\u00e3o do <em>Foreign Office <\/em>brit\u00e2nico (Declara\u00e7\u00e3o Balfour, 1917) prometendo um territ\u00f3rio aos judeus na Palestina \u2013, na Turquia a percep\u00e7\u00e3o da cadeia de acontecimentos que explicam o actual mapa pol\u00edtico \u00e9 outra e bem mais longa. Os trinta anos de dom\u00ednio administrativo-colonial brit\u00e2nico nos actuais territ\u00f3rios de Israel\/Palestina (1918-1948), diluem-se perante uma bem conhecida presen\u00e7a imperial e colonial otomana, num longo per\u00edodo hist\u00f3rico de quatro s\u00e9culos. Esse passado confere \u00e0 Turquia uma liga\u00e7\u00e3o \u00f3bvia \u00e0 quest\u00e3o palestiniana e refor\u00e7a a convic\u00e7\u00e3o e ambi\u00e7\u00e3o, no seu governo e opini\u00e3o p\u00fablica, de poder ter um papel significativo no rumo dos acontecimentos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 compreens\u00e3o, se n\u00e3o mesmo simpatia, mostrada pelo HAMAS na Palestina que contrasta com o pouco entusiasmo mostrado pela <em>Fatah<\/em>, tamb\u00e9m se podem explicar pela conex\u00e3o hist\u00f3rica, cultural, e, sobretudo, ideol\u00f3gica. O AKP de Recep Tayyip Erdo\u011fan e Abdullah G\u00fcl<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\">[36]<\/a>, \u00e9 herdeiro dum conjunto heterog\u00e9neo de influ\u00eancias da direita conservadora, religiosa e nacionalista da Turquia. Este absorveu, em parte, o ide\u00e1rio de sucessivos partidos islamistas anteriores formados pelo seu emblem\u00e1tico l\u00edder, o j\u00e1 referido Necmettin Erbakan. Neste contexto, a abertura aos \u201cirm\u00e3os mu\u00e7ulmanos\u201d do HAMAS surgiu com uma certa naturalidade face \u00e0s ra\u00edzes ideol\u00f3gicas e simpatias do eleitorado do AKP. Todavia, importa aqui lembrar que o HAMAS prev\u00ea, no seu programa pol\u00edtico<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\">[37]<\/a>, a n\u00edvel interno, a instaura\u00e7\u00e3o da <em>Sharia<\/em>, a lei isl\u00e2mica, e, a n\u00edvel externo, a erradica\u00e7\u00e3o do Estado de Israel cuja exist\u00eancia at\u00e9 agora se tem recusado a reconhecer, objectivos que n\u00e3o parecem preocupar particularmente o actual governo turco. No passado, mesmo na altura em que o islamista Necmettin Erbakan do <em>Refah Partisi<\/em> (1996-1997) foi Primeiro-Ministro, as circunst\u00e2ncias internas (sobretudo) e externas, teriam, muito provavelmente, refreado<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\">[38]<\/a> o governo de uma movimenta\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica similar. O facto de este actualmente n\u00e3o sentir tais constrangimentos \u00e9 bem revelador da mudan\u00e7a do <em>statu quo<\/em>, interno e internacional.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> A pol\u00edtica externa da Turquia face a Israel num cen\u00e1rio de ades\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Um dos aspecto mais complexos de uma eventual ades\u00e3o da Turquia \u00e9, sem d\u00favida, o das implica\u00e7\u00f5es que acarretar\u00e1 para a pol\u00edtica externa da Uni\u00e3o. Como vimos, actualmente h\u00e1 diverg\u00eancias muito sens\u00edveis nos dois assuntos fundamentais do actual M\u00e9dio Oriente \u2013 o programa nuclear do Ir\u00e3o e o conflito israelo-palestiniano, nomeadamente quanto ao papel do movimento islamista radical HAMAS neste. O governo do AKP tem seguido um linha de pol\u00edtica externa muito pr\u00f3pria e independente, de relacionamento com o mundo isl\u00e2mico em geral e com os antigos territ\u00f3rios do Imp\u00e9rio Otomano em particular, Israel inclu\u00eddo, procurando projectar a Turquia como pot\u00eancia regional dominante. Mas, mais problem\u00e1tico do que esse \u201cnacionalismo gaulista\u201d \u00e9 o facto de a pol\u00edtica externa do pa\u00eds ter adquirido, recentemente, uma adicional dimens\u00e3o ideol\u00f3gica de que as rela\u00e7\u00f5es com Israel, s\u00e3o, provavelmente, o caso mais vis\u00edvel para a opini\u00e3o publica europeia e ocidental. Apesar do discurso diplom\u00e1tico oficial n\u00e3o o admitir, esta transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ter consequ\u00eancias potencialmente preocupantes para os seus aliados tradicionais. Para os EUA, tende a implicar um aliado mais imprevis\u00edvel e at\u00e9 mesmo a trazer um novo competidor<a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\">[39]<\/a> para os seus interesses na regi\u00e3o. Para Israel, no pior cen\u00e1rio, arrisca-se a desequilibrar a delicada balan\u00e7a de poderes no M\u00e9dio Oriente em seu desfavor, aumentando a probabilidade de confronto militar com o Ir\u00e3o, a S\u00edria e o <em>Hezbollah<\/em> liban\u00eas. Para a Uni\u00e3o, pouco consistente politicamente, num cen\u00e1rio de futura integra\u00e7\u00e3o da Turquia, esta pol\u00edtica \u00e9 uma potencial fonte de atritos e de bloqueios para os seu j\u00e1 bastante delicados equil\u00edbrios institucionais.<\/p>\n<p>Na realidade, muito se tem discutido se a Turquia tem, ou n\u00e3o, condi\u00e7\u00f5es para integrar a Uni\u00e3o. Mas a quest\u00e3o aqui \u00e9 tamb\u00e9m a de saber se a Uni\u00e3o est\u00e1 preparada para integrar a Turquia. Esta, para al\u00e9m do aspectos jur\u00eddico-formais vertidos nos seus Tratados \u201cconstitucionais\u201d, assenta num conjunto de equil\u00edbrios e compensa\u00e7\u00f5es internos complexos, que consubstanciam verdadeiras regras estruturantes n\u00e3o escritas. Em termos de equil\u00edbrios pol\u00edticos \u2013 e com reflexos naturais na configura\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa da Uni\u00e3o \u2013, um equil\u00edbrio fundamental, desde a sua funda\u00e7\u00e3o, \u00e9 aquele que se estabelece entre os pa\u00edses grandes (os caso mais \u00f3bvios s\u00e3o a Alemanha e a Fran\u00e7a, mas tamb\u00e9m o Reino Unido), os quais t\u00eam um peso fundamental na decis\u00e3o pol\u00edtica<a href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref40\">[40]<\/a>, e nas ac\u00e7\u00f5es internas e externas. Em contrapartida, uma parte significativa dos pa\u00edses pequenos e m\u00e9dios (como por exemplo, Gr\u00e9cia e Portugal, aos quais acresce agora a generalidade dos doze novos Estados-membros), v\u00ea o seu reduzido peso na decis\u00e3o pol\u00edtica da Uni\u00e3o compensado noutras \u00e1reas, nomedamente em mat\u00e9ria de ajudas estruturais. Na linguagem crua da <em>realpolitik<\/em>, dir-se-\u00e0 que quem paga o benef\u00edcio econ\u00f3mico dos outros \u00e9 tamb\u00e9m quem mais decide politicamente. Todavia, o dado novo relevante \u00e9 que num cen\u00e1rio de futura ades\u00e3o da Turquia, n\u00e3o s\u00f3 a configura\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica externa europeia, minimamente coerente e articulada, aumenta significativamente de dificuldade \u2013 a actual pol\u00edtica externa turca face a Israel (e ao M\u00e9dio Oriente em geral) deixa bem claro o problema \u2013, como os equil\u00edbrios \u201cgen\u00e9ticos\u201d da Uni\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m afectados<a href=\"#_ftn41\" name=\"_ftnref41\">[41]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> Reflex\u00f5es finais<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Pela an\u00e1lise efectuada, parece-nos poder-se inferir que estamos perante uma progressiva, por vezes subtil, outras vezes expl\u00edcita reconfigura\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa da Turquia face a Israel, a qual surgiu nos anos mais recentes imbu\u00edda de uma vis\u00e3o ideol\u00f3gica de tipo islamista, que n\u00e3o existia no in\u00edcio desta d\u00e9cada. Esta componente ideol\u00f3gica veio complexificar a pol\u00edtica externa do pa\u00eds e adicionar-se \u00e0s mais tradicionais vertentes de tipo \u201cnacionalismo gaulista\u201d e pragm\u00e1tica, ligada sobretudo \u00e0s quest\u00f5es de diplomacia econ\u00f3mica. De um ponto de vista hist\u00f3rico-pol\u00edtico, a actual orienta\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica do governo do AKP face a Israel e ao M\u00e9dio Oriente denota tamb\u00e9m aquilo que pode ser visto como o regresso de uma ambi\u00e7\u00e3o otomana, ou seja uma vontade de restaurar a influ\u00eancia pol\u00edtica que o Imp\u00e9rio Otomano outrora teve no Sudeste Europeu e M\u00e9dio Oriente. Apesar da diplomacia europeia e norte-americana terem bastante relut\u00e2ncia em o admitir, pelo menos a n\u00edvel oficial, esta reconfigura\u00e7\u00e3o, de que as rela\u00e7\u00f5es com Israel s\u00e3o um exemplo claro, n\u00e3o deixa de ter consequ\u00eancias potencialmente preocupantes para os seus aliados tradicionais na Europa e Ocidente. Pensando a quest\u00e3o em termos prospectivos, o caso mais problem\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 para os EUA, como vulgarmente \u00e9 sugerido nas an\u00e1lises dos media, mas para a Uni\u00e3o, pelo seu envolvimento no processo de ades\u00e3o da Turquia, pela sua natureza \u201cconstitucional\u201d e pelas complexas implica\u00e7\u00f5es sobre a sua pol\u00edtica externa e delicados equil\u00edbrios institucionais.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s explica\u00e7\u00f5es, importa notar que esta transforma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa turca ocorrida na \u00faltima d\u00e9cada resulta certamente de factores geopol\u00edticos externos \u2013 alguns dos quais com origem nas grandes transforma\u00e7\u00f5es trazidas pelo final da Guerra Fria \u2013, mas tamb\u00e9m das mudan\u00e7as sociais e identit\u00e1rias ocorridas no \u00e2mbito da esfera da pol\u00edtica interna, muitas vezes subestimadas na Europa e nos EUA. Uma poss\u00edvel interpreta\u00e7\u00e3o dessas transforma\u00e7\u00f5es sugere que, na sua raiz mais long\u00ednqua, se encontra a maneira como a pr\u00f3pria Rep\u00fablica da Turquia se constituiu em 1923. Na altura, o abandono da legitimidade isl\u00e2mica tradicional que caracterizava o Estado teocr\u00e1tico otomano n\u00e3o foi a express\u00e3o de uma vontade popular e democr\u00e1tica esmagadora, mas o projecto de uma elite modernizadora e secularista liderada por Atat\u00fcrk. Este projecto foi posto em pr\u00e1tica segundo um esquema em grande parte autorit\u00e1rio. Assim, para al\u00e9m da sua g\u00e9nese autorit\u00e1ria, o drama actual da Turquia secular resulta do facto do modelo se ter enraizado apenas nas institui\u00e7\u00f5es ligadas ao aparelho estadual: o ex\u00e9rcito, o aparelho judicial, a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e as escolas p\u00fablicas. Nas massas e nas organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, a cultura secularista e modernizadora de Atat\u00fcrk e dos seus seguidores foi assimilada, na maior parte dos casos, de forma superficial. Actaulmente, est\u00e1 numa fase de revers\u00e3o em favor de valores isl\u00e2micos e de uma eventual modernidade alternativa. A pol\u00edtica externa e as rela\u00e7\u00f5es com Israel s\u00e3o hoje, de alguma maneira, um reflexo dessa transforma\u00e7\u00e3o, a qual vem detr\u00e1s mas teve um impulso pol\u00edtico decisivo sob os governos do AKP desde 2002.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, &#8220;A Pol\u00edtica Externa da Turquia Face a Israel: o Regresso da Ambi\u00e7\u00e3o Otomana&#8221; in Na\u00e7\u00e3o &amp; Defesa n\u00ba 127 (2010): 159-180. Vers\u00e3o sem notas<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1197\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\" alt=\"dom\u00ednio p\u00fablico\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a>\u00a0Imagem: foto (dom\u00ednio p\u00fablico \/ Wikipedia), declara\u00e7\u00e3o de\u00a0jihad contra a Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a e R\u00fassia, ap\u00f3s a entrada do Imp\u00e9rio Otomano na I Guerra Mundial (Istambul, 14\/11\/1914)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><\/a><\/p>\n<h1><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\"><\/a><\/h1>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A quest\u00e3o da Turquia ser membro de pleno direito da Uni\u00e3o Europeia \u00e9 problem\u00e1tica [&#8230;]. No entanto, \u00e9 prov\u00e1vel que a Turquia permane\u00e7a na NATO, a n\u00e3o ser que o referido partido [o Refah Partisi\/ Partido da Prosperidade ou Partido do Bem-Estar] registe uma vit\u00f3ria eleitoral esmagadora ou que a Turquia, conscientemente, rejeite a heran\u00e7a &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/a-politica-externa-da-turquia-face-a-israel-o-regresso-da-ambicao-otomana\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;A Pol\u00edtica Externa da Turquia face a Israel: o regresso da ambi\u00e7\u00e3o otomana&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,52],"tags":[51,79,49,43],"class_list":["post-1525","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-cientificos","tag-imperio-otomano","tag-israel","tag-turquia","tag-uniao-europeia","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1525","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1525"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1525\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1525"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1525"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1525"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}