{"id":1621,"date":"2015-06-05T11:50:12","date_gmt":"2015-06-05T11:50:12","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1621"},"modified":"2017-03-12T20:43:15","modified_gmt":"2017-03-12T20:43:15","slug":"o-factor-turquia-no-nao-ao-tratado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/o-factor-turquia-no-nao-ao-tratado\/","title":{"rendered":"O factor Turquia no &#8220;n\u00e3o&#8221; ao tratado"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Cartoon-Mayk.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1640\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Cartoon-Mayk-1024x577.jpg\" alt=\"Cartoon Mayk\" width=\"1024\" height=\"577\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Os l\u00edderes europeus optaram pelo caminho que parecia mais f\u00e1cil. Preferiram esquecer a opini\u00e3o p\u00fablica, aparentemente domestic\u00e1vel, ou, pelo menos, contorn\u00e1vel, como dir\u00e3o os mais c\u00ednicos, a enfrentar a f\u00faria da Turquia e explicar-lhe que n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es para a ades\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>1. Divergentes interpreta\u00e7\u00f5es t\u00eam sido feitas sobre as raz\u00f5es dos resultado negativos dos referendos de 29 de Maio (Fran\u00e7a) e 1 de Junho (Holanda). Naturalmente que \u00e9 dif\u00edcil explicar, com isen\u00e7\u00e3o e rigor, as raz\u00f5es destas duas coliga\u00e7\u00f5es negativas que recusaram ao Tratado Constitucional Europeu. Tornou-se evidente, pelas sondagens e inqu\u00e9ritos de opini\u00e3o, que as raz\u00f5es dos eleitores franceses n\u00e3o foram exactamente as mesmas dos eleitores holandeses. Houve tamb\u00e9m grande heterogeneidade das motiva\u00e7\u00f5es que alimentaram a din\u00e2mica vitoriosa do &#8220;n\u00e3o&#8221;, em ambos os pa\u00edses, e que at\u00e9 originaram ins\u00f3litas coliga\u00e7\u00f5es \u00e0 esquerda e \u00e0 direita do espectro pol\u00edtico, quando normalmente se op\u00f5em em (quase) tudo. O que parece ter-se tornado bastante evidente \u00e9 que uma parte das motiva\u00e7\u00f5es que basearam a recusa do tratado pelos eleitores vai para al\u00e9m do texto em si mesmo. Teve a ver com raz\u00f5es de pol\u00edtica interna, como o descontentamento face aos governos nacionais. Teve ainda a ver com quest\u00f5es europeias que n\u00e3o est\u00e3o directamente relacionadas com o texto do tratado, como, por exemplo, a apreens\u00e3o face \u00e0s consequ\u00eancias dos alargamentos anteriores e futuros da UE, sendo o caso mais evidente o da ades\u00e3o da Turquia.<\/p>\n<p>2. Para compreendermos a import\u00e2ncia do factor Turquia no &#8220;n\u00e3o&#8221; franc\u00eas e holand\u00eas, vale a pena voltar a finais de 2004, na altura da Conselho Europeu de 16 e 17 de Dezembro que tomou a decis\u00e3o de abrir as negocia\u00e7\u00f5es de ades\u00e3o com esse pa\u00eds, que se dever\u00e3o iniciar a 3 de Outubro. J\u00e1 na altura, o entusiasmo, pelo menos na apar\u00eancia, das elites pol\u00edticas europeias e da generalidade dos opinion makers dos media contrastava, flagrantemente, com o cepticismo das opini\u00f5es p\u00fablicas, especialmente nos pa\u00edses onde a Turquia n\u00e3o \u00e9 uma simples abstrac\u00e7\u00e3o long\u00ednqua, ex\u00f3tica e mal conhecida, como em Portugal, mas uma realidade palp\u00e1vel e conhecida sobretudo pelos contactos hist\u00f3ricos (\u00c1ustria, Pol\u00f3nia, Fran\u00e7a) e pela emigra\u00e7\u00e3o (Alemanha, Fran\u00e7a, Holanda). Conforme foi evidenciado por diversas sondagens que foram publicadas em jornais franceses (Le Monde, Figaro), existia uma clara rejei\u00e7\u00e3o da ades\u00e3o da Turquia \u00e0 UE em pa\u00edses como a Fran\u00e7a, a Alemanha, a Holanda, a \u00c1ustria e a Pol\u00f3nia, entre outros. Este era j\u00e1 um dado politicamente significativo e que deveria ter sido objecto de uma reflex\u00e3o s\u00e9ria e profunda, ponderando todas as consequ\u00eancias dessa decis\u00e3o. Mas n\u00e3o foi.<\/p>\n<p>3. Os l\u00edderes europeus optaram pelo caminho que parecia mais f\u00e1cil. Preferiram esquecer a opini\u00e3o p\u00fablica europeia, aparentemente domestic\u00e1vel, ou, pelo menos, contorn\u00e1vel, como dir\u00e3o os mais c\u00ednicos, a enfrentar a f\u00faria da Turquia e explicar-lhe abertamente que n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es para ades\u00e3o. O arqu\u00e9tipo dessa &#8220;fuga para a frente&#8221; foi Chirac, que, contra a opini\u00e3o p\u00fablica do seu pa\u00eds, e at\u00e9 do seu pr\u00f3prio partido, votou favoravelmente essa decis\u00e3o (quando, nos anos 80, tinha defendido a n\u00e3o ades\u00e3o de Portugal e Espanha, por considerar que n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de entrar nas Comunidades&#8230;). Animados por este consenso ilus\u00f3rio, e iludidos pela &#8220;claque de apoio&#8221; da opini\u00e3o publicada, os l\u00edderes europeus acharam por bem fazer ainda o auto-elogio da sua decis\u00e3o, afirmando que esta &#8220;ficaria na Hist\u00f3ria&#8221; e que at\u00e9 era a melhor prova como n\u00e3o existia &#8220;conflito de civiliza\u00e7\u00f5es&#8221; entre o Ocidente e o isl\u00e3o (ingenuidade ou cinismo?). Que esta decis\u00e3o vai ficar na Hist\u00f3ria n\u00e3o parece haver muitas d\u00favidas, mas talvez n\u00e3o tanto pelas raz\u00f5es que estes pensavam e gostariam. Tudo indica que as gera\u00e7\u00f5es futuras v\u00e3o olhar para ela como uma decis\u00e3o pol\u00edtica pouco sensata, e que, entre outras consequ\u00eancias que ainda falta discernir, ajudou a tra\u00e7ar o fim do Tratado Constitucional Europeu.<\/p>\n<p>4. Por \u00faltimo, h\u00e1 mais uma nota curiosa em tudo isto, que vale a pena assinalar. O antigo Presidente da Rep\u00fablica francesa Val\u00e9ry Giscard d&#8221;Estaing, que presidiu aos trabalhos do Tratado Constitucional Europeu, afirmou, numa conhecida pol\u00e9mica entrevista, que a ades\u00e3o da Turquia podia levar a UE \u00e0 sua destrui\u00e7\u00e3o. A ironia \u00e9 que o feeling de Giscard d&#8221;Estaing est\u00e1 a confirmar-se, embora n\u00e3o exactamente da forma que este previa: de facto, a perspectiva de ades\u00e3o da Turquia est\u00e1 a ajudar a &#8220;destruir&#8221;, n\u00e3o a UE (pelo menos para j\u00e1&#8230;), mas a sua &#8220;cria\u00e7\u00e3o&#8221;, que foi o Tratado Constitucional Europeu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes. Artigo originalmente publicado no P\u00fablico, \u00a017\/06\/2005. \u00daltima revis\u00e3o 11\/06\/2015<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: cartoon de Mayk, &#8220;Turquia: a imposs\u00edvel ades\u00e3o&#8221; (originalmente publicado no Cumhuriyet \u00a0e reproduzido no Vox Europe, 2013)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Os l\u00edderes europeus optaram pelo caminho que parecia mais f\u00e1cil. 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