{"id":1750,"date":"2015-06-05T21:25:12","date_gmt":"2015-06-05T21:25:12","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1750"},"modified":"2015-07-05T11:15:48","modified_gmt":"2015-07-05T11:15:48","slug":"a-grecia-entre-a-regiao-intermedia-e-o-ocidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/a-grecia-entre-a-regiao-intermedia-e-o-ocidente\/","title":{"rendered":"A Gr\u00e9cia entre a Regi\u00e3o Interm\u00e9dia e o Ocidente"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1761\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis-1024x738.jpg\" alt=\"A Regi\u00e3o Interm\u00e9dia segundo Dimitri Kitsikis\" width=\"1024\" height=\"738\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis-1024x738.jpg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis-300x216.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis-768x554.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis-370x267.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis-570x411.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis-770x555.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis-1170x843.jpg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis-805x580.jpg 805w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-Regi\u00e3o-Interm\u00e9dia-segundo-Dimitri-Kitsikis.jpg 1429w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">Em todos os meus escritos, e de uma maneira sistem\u00e1tica depois de 1967, esforcei-me por provar que a Gr\u00e9cia fazia parte da grande fam\u00edlia dos pa\u00edses n\u00e3o ocidentais. Com este fim criei os conceitos de \u00abregi\u00e3o interm\u00e9dia\u00bb (regi\u00e3o de civiliza\u00e7\u00e3o, incluindo a Gr\u00e9cia, na Eur\u00e1sia, entre o Ocidente e o Oriente), de \u00abpartido oriental\u00bb, opondo-se desde 1081, na Gr\u00e9cia, ao \u00abpartido ocidental\u00bb e de \u00abhelenoturquismo\u00bb, ideologia do partido oriental desde o s\u00e9culo XV, que exprimia a sua prefer\u00eancia pelo elemento turco, face ao inimigo absoluto que representava o elemento franco, a saber o Ocidente. N\u00e3o obstante, uma caracter\u00edstica comum une hoje os intelectuais dos dois partidos: o helenocentrismo.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Dimitri KITSIKIS<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. Na perspectiva habitualmente difundida na Europa a Gr\u00e9cia moderna \u00e9 um pa\u00eds europeu e ocidental sem margem para grandes hesita\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 sua qualifica\u00e7\u00e3o como tal. Se, nesta mat\u00e9ria, a tradi\u00e7\u00e3o escolar portuguesa for, tal como nos parece, minimamente representativa do que se aprende sobre \u00abhist\u00f3ria universal\u00bb, um pouco por todos os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil compreender as raz\u00f5es que sustentam a referida percep\u00e7\u00e3o generalizada sobre o car\u00e1cter europeu\/ocidental da Gr\u00e9cia. Tomando como modelo o caso portugu\u00eas, o estudo mais ligeiro ou mais profundo da Antiguidade Cl\u00e1ssica grega \u00e9 (ou, pelo menos, era num passado recente), uma componente formativa de base do sistema de ensino, ao n\u00edvel da escolaridade obrigat\u00f3ria. Assim, a heran\u00e7a da Gr\u00e9cia Cl\u00e1ssica nos dom\u00ednio das artes e da est\u00e9tica (arquitectura, escultura, literatura, teatro etc.), do pensamento racional e reflex\u00e3o filos\u00f3fica (S\u00f3crates, Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles, etc.), da mitologia (Zeus, Neptuno, Afrodite, etc.), das realiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas (democracia de Atenas, autocracia de Esparta) e at\u00e9 dos conflitos militares (rivalidade entre as cidades-estado, especialmente Atenas e Esparta, guerras dos gregos com os persas, o \u00abinimigo asi\u00e1tico\u00bb do mundo hel\u00e9nico) faz parte da forma\u00e7\u00e3o escolar do europeu medianamente culto, para os quais esta heran\u00e7a cultural \u00e9 familiar. Em flagrante contraste com este conhecimento que nos parece estar bem difundido um pouco por toda a Europa (e Ocidente) sobre a Antiguidade Cl\u00e1ssica grega, existe, paralelamente, um desconhecimento muito grande sobre a evolu\u00e7\u00e3o posterior da Gr\u00e9cia. Pelo menos no caso portugu\u00eas \u00e9 f\u00e1cil constatar que, se exceptuarmos os historiadores e alguns estudiosos de outras disciplinas pr\u00f3ximas, a evolu\u00e7\u00e3o posterior \u00e9 basicamente um \u00ablivro em branco\u00bb, onde, na melhor das hip\u00f3teses, existem algumas (muito breves) p\u00e1ginas escritas sobre o Imp\u00e9rio Bizantino e o cisma da Cristandade, voltando a Gr\u00e9cia a reaparecer, agora na sua vers\u00e3o moderna, a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, na era das revolu\u00e7\u00f5es liberais<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> e da autodetermina\u00e7\u00e3o nacional, como mais uma na\u00e7\u00e3o emancipada, \u00e0 semelhan\u00e7a, por exemplo, de belgas, italianos, alem\u00e3es ou checos. Por \u00faltimo, j\u00e1 mais conhecido at\u00e9 porque se trata de factos da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, a Gr\u00e9cia volta a reaparecer em 1981, na altura da sua ades\u00e3o \u00e0s Comunidades Europeias, agora despida de todo o seu esplendor da Antiguidade Cl\u00e1ssica. Nesta vers\u00e3o contempor\u00e2nea, a imagem difundida \u00e9 a de um pa\u00eds pobre e desorganizado do Sul da Europa, o qual apesar de ter entrado para as Comunidades\/Uni\u00e3o Europeia um pouco antes de outros pa\u00edses pobres do Sul da Europa (Portugal e Espanha), e de ter beneficiado de apoios estruturais significativos, continua na \u00abcauda da Europa\u00bb. Para al\u00e9m disso, tem em comum com estes o seu atraso econ\u00f3mico \u2013 a Espanha j\u00e1 descolou desta imagem \u2013 e no plano pol\u00edtico uma ditadura algo similar \u00e0 de Salazar e de Franco, que ficou conhecida como a \u00abditadura dos coron\u00e9is\u00bb (1967-1974).<\/p>\n<p>Dotados deste <em>background<\/em> hist\u00f3rico manifestamente lacunar, a generalidade da opini\u00e3o p\u00fablica e os dirigentes pol\u00edticos europeus\/ocidentais mostraram surpresa e incompreens\u00e3o face ao desalinhamento da Gr\u00e9cia relativamente \u00e0s posi\u00e7\u00f5es da generalidade dos pa\u00edses da UE, da NATO e da \u00abcomunidade internacional\u00bb, na altura do desencadear das diversas crises e sucessivas guerras que levaram \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o da Jugosl\u00e1via. N\u00e3o eram, afinal, os s\u00e9rvios os principais agressores? E n\u00e3o eram os croatas e os mu\u00e7ulmanos b\u00f3snios e\/ou albaneses as v\u00edtimas dessa agress\u00e3o perpetrada pelos s\u00e9rvios? Ent\u00e3o porque \u00e9 que a Gr\u00e9cia se recusava a condenar a S\u00e9rvia e o regime de Slodoban Milo\u0161evi\u0107 e a participar na ajuda a croatas e a mu\u00e7ulmanos b\u00f3snios e\/ou albaneses? Estes acontecimentos de um passado recente associados ao final da Guerra Fria e \u00e0 sua consequ\u00eancia mais dolorosa na Europa \u2013 a j\u00e1 referida desintegra\u00e7\u00e3o violenta da Jugosl\u00e1via \u2013 sugerem-nos a exist\u00eancia de um car\u00e1cter singular da percep\u00e7\u00e3o grega sobre os conflitos dos Balc\u00e3s que, naturalmente, a existir, influenciou a sua pol\u00edtica externa. Assim, neste artigo, propomo-nos analisar, ainda que de uma forma sum\u00e1ria, os principais aspectos de identidade nacional e geopol\u00edticos que t\u00eam contribu\u00eddo para influenciar o rumo da pol\u00edtica externa da Gr\u00e9cia em duas quest\u00f5es centrais do p\u00f3s-Guerra Fria: a evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica e o esfor\u00e7o de aproxima\u00e7\u00e3o\/ades\u00e3o da Turquia \u00e0 Uni\u00e3o Europeia. Para efeitos desta an\u00e1lise opt\u00e1mos deliberadamente por seguir uma perspectiva essencialmente hist\u00f3rica, de modo a estabelecermos um necess\u00e1rio contraponto face \u00e0 tend\u00eancia generalizada dos <em>media<\/em>, dos pol\u00edticos e at\u00e9 dos pr\u00f3prios acad\u00e9micos das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, de efectuarem an\u00e1lises a-hist\u00f3ricas. Note-se que com isto n\u00e3o queremos absolutizar a perspectiva hist\u00f3rica na an\u00e1lise das quest\u00f5es de pol\u00edtica internacional, mas antes chamar \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para a sua import\u00e2ncia em qualquer estudo e an\u00e1lise equilibrada destas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>2. Pelas raz\u00f5es j\u00e1 apontadas (o \u00ablivro em branco\u00bb), um europeu m\u00e9dio provavelmente n\u00e3o \u00e9 assaltado pela d\u00favida (certeza?) do historiador greco-canadiano da Universidade de Otava, Dimitri Kitsikis, de que a Gr\u00e9cia n\u00e3o seja um pa\u00eds da Europa (Ocidental), quer dizer, do Ocidente, parecendo-lhe, pelo menos face aos ensinamentos tradicionais da historiografia europeia, no m\u00ednimo estranho que um historiador, ainda por cima de origens gregas, se esforce por provar que a Gr\u00e9cia faz parte da \u00abgrande fam\u00edlia dos pa\u00edses n\u00e3o ocidentais\u00bb. Provavelmente, a sua surpresa ainda aumentar\u00e1 mais se ler o livro bastante singular do mesmo autor <em>L\u00b4 Empire Ottoman\/<\/em>O Imp\u00e9rio Otomano que, curiosamente, dentro da imensa bibliografia nas l\u00edngua inglesa e francesa sobre este assunto, \u00e9 um dos escassos trabalhos traduzidos para portugu\u00eas. Nesse texto, Dimitri Kitsikis afirma que \u00abo continente da Eur\u00e1sia, de que a Europa \u00e9 apenas uma das pen\u00ednsulas, divide-se, devido aos milhares de anos de hist\u00f3ria, em tr\u00eas grandes \u00e1reas de civiliza\u00e7\u00e3o: <em>a) o Ocidente<\/em>, ou Europa Ocidental, que compreende hoje, al\u00e9m do mais, a Am\u00e9rica do Norte e do Sul, a Austr\u00e1lia e a Nova Zel\u00e2ndia; <em>b) o Oriente<\/em>, ou extremo Oriente, que compreende tr\u00eas pen\u00ednsulas: a \u00cdndia, o Sudeste Asi\u00e1tico (que inclui a Indon\u00e9sia) e a China (a que se juntam a Coreia e o Jap\u00e3o); <em>c) a Regi\u00e3o Interm\u00e9dia<\/em>, que abrange simultaneamente parte do Ocidente e do Oriente\u00bb<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> e na qual de inserem a R\u00fassia, as antigas rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas da \u00c1sia Central, os pa\u00edses mu\u00e7ulmanos da Maurit\u00e2nia ao Paquist\u00e3o, os pa\u00edses balc\u00e2nicos, incluindo a Gr\u00e9cia, e a pen\u00ednsula da Anat\u00f3lia na qual se situa a Turquia.<\/p>\n<p>Para o polit\u00f3logo franc\u00eas Gilles Bertrand, que estudou recentemente o conflito greco-turco, a ideia de Regi\u00e3o Interm\u00e9dia onde se situam a Gr\u00e9cia e a Turquia \u00e9 uma das \u00aban\u00e1lises geopol\u00edticas mais interessantes relativamente \u00e0s rela\u00e7\u00f5es heleno-turcas\u00bb por contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 conhecida tese do \u00abchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u00bb divulgada pelo norte-americano Samuel P. Huntington, que este denuncia como sendo \u00abn\u00e3o cient\u00edfica\u00bb e qualifica como essencialmente \u00abideol\u00f3gica\u00bb<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Mas o que \u00e9 mais interessante nesta aprecia\u00e7\u00e3o (positiva) do pensamento de Kitsikis e (negativa) de Huntington \u00e9 que Gilles Bertrand sugere, pelo menos aos leitores que n\u00e3o conhe\u00e7am os trabalhos de ambos, que estamos perante dois autores com pensamentos diametralmente opostos, o que n\u00e3o \u00e9 exactamente o caso. Uma an\u00e1lise mais atenta mostra que existem paradoxais pontos de contacto, pelo menos num assunto importante como \u00e9 a ideia que a Gr\u00e9cia n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds ocidental. Atente-se nas raz\u00f5es hist\u00f3ricas e culturais pelas quais Samuel P. Huntington<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> aponta para a ideia que a Gr\u00e9cia deveria ser exclu\u00edda da Uni\u00e3o Europeia e da pr\u00f3pria Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica:<\/p>\n<blockquote><p>A Gr\u00e9cia n\u00e3o \u00e9 parte da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, mas \u00e9 o ber\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, que \u00e9 uma fonte importante da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Na sua oposi\u00e7\u00e3o aos turcos, os gregos t\u00eam-se considerado, historicamente, representantes da cristandade. A sua hist\u00f3ria est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 do Ocidente, contrariamente \u00e0 dos s\u00e9rvios, romenos ou b\u00falgaros. Al\u00e9m disso, a Gr\u00e9cia \u00e9 tamb\u00e9m uma anomalia \u2013 o estranho ortodoxo nas organiza\u00e7\u00f5es ocidentais. Nunca foi um membro f\u00e1cil da Uni\u00e3o Europeia nem da NATO e tem-lhe sido dif\u00edcil adaptar-se aos princ\u00edpios e aos costumes de ambas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Tanto quanto parece, estes pontos de contacto do pensamento de ambos n\u00e3o s\u00e3o meramente fortuitos. Segundo refere o pr\u00f3prio Dimitri Kitsikis, este foi acusado pelos \u00abocidentalistas\u00bb do seu pa\u00eds de origem de ter sido o difusor na Am\u00e9rica do Norte da ideia da n\u00e3o perten\u00e7a da Gr\u00e9cia \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, sendo, por isso, indirectamente respons\u00e1vel pelo que Samuel P. Huntington escreveu sobre esta quest\u00e3o<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. No que Kitsikis e Huntington divergem notoriamente \u00e9 na percep\u00e7\u00e3o sobre o passado otomano da Gr\u00e9cia e as suas rela\u00e7\u00f5es com a actual Turquia. Veremos melhor as raz\u00f5es desta diverg\u00eancia mais \u00e0 frente, \u00e0 medida que formos analisando o pensamento de Kitsikis. Para j\u00e1 \u00e9 interessante analisarmos como o final da Guerra Fria e a queda dos regimes comunistas no Balc\u00e3s e na Europa de Leste foi percebida na Gr\u00e9cia. \u00c9 bem conhecido que na perspectiva ocidental o final da Guerra-Fria foi interpretado como sendo o triunfo das democracias liberais e do capitalismo sobre as \u00abdemocracias populares\u00bb e a economia planificada de direc\u00e7\u00e3o central. \u00c9 tamb\u00e9m bastante consensual o entendimento, normalmente positivo, sobre o papel do Papa de origem polaca, Carol Voitila (Jo\u00e3o Paulo II), que pela sua ac\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia espiritual (e pol\u00edtica) contribui para a derrocada dos regimes comunistas na Europa. Mas ser\u00e1 que na Gr\u00e9cia a interpreta\u00e7\u00e3o que prevaleceu foi a mesma? Veja-se como Dimitri Kitsikis<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> retrata a percep\u00e7\u00e3o popular grega sobre os mesmos acontecimentos:<\/p>\n<blockquote><p>O objectivo do Papa Jo\u00e3o Paulo II foi interpretado na Gr\u00e9cia, n\u00e3o somente como tendo consistido em derrotar o comunismo na Europa de Leste, mas como querendo, na sequ\u00eancia do colapso deste, \u00abreunificar a Europa no plano religioso\u00bb, dito de outra forma, \u00abcatolicizar\u00bb a Europa de Leste Ortodoxa. Com este fim, o Papa procedeu \u2013 segundo os gregos \u2013, de duas maneiras: primeiro encorajando a ac\u00e7\u00e3o dos Uniatas contra os Ortodoxos; depois atrav\u00e9s da pol\u00edtica crist\u00e3-democr\u00e1tica da Alemanha na Jugosl\u00e1via, aumentar a influ\u00eancia Cat\u00f3lica nos Balc\u00e3s, em detrimento da presen\u00e7a Ortodoxa, aliando-se momentaneamente com o advers\u00e1rio de amanh\u00e3, o Mu\u00e7ulmano. O cinismo desta pol\u00edtica presumida do Papa apoiada pelas pot\u00eancias cat\u00f3lico-protestantes do Ocidente indignou o conjunto da popula\u00e7\u00e3o grega e teve um impacto ainda mais profundo do que a interven\u00e7\u00e3o ocidental no Iraque tinha tido sobre a popula\u00e7\u00e3o \u00e1rabe.<\/p><\/blockquote>\n<p>Se a imagem dada por Kitsikis da opini\u00e3o p\u00fablica da Gr\u00e9cia estiver essencialmente correcta, podemos constatar que os gregos interpretaram a actua\u00e7\u00e3o da UE e dos EUA nos Balc\u00e3s como uma alian\u00e7a oportunista entre Cat\u00f3licos\/Protestantes e Mu\u00e7ulmanos, contra a Ortodoxia, cercando e punindo a S\u00e9rvia pela sua resist\u00eancia \u00e0s tentativas ocidentais de \u00abreunificar a Europa no plano religioso\u00bb. Esta interpreta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 bastante estranha e <em>sui generis<\/em> quando vista sob um olhar ocidental, tem impl\u00edcita a percep\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de duas amea\u00e7as para a Ortodoxia: de um lado, a amea\u00e7a das actuais pot\u00eancias ocidentais (UE e EUA), que reincarnam o velho inimigo hist\u00f3rico do Cristianismo Latino, representado (espiritualmente) pelo Papa e (militarmente) pelos conquistadores francos (incluindo neste r\u00f3tulo, genoveses, venezianos, etc.); do outro lado, a amea\u00e7a dos Mu\u00e7ulmanos dos Balc\u00e3s e da Turquia, que s\u00e3o a face moderna dos conquistadores otomanos que sujeitaram a Gr\u00e9cia a uma \u00abidade das trevas\u00bb de quase quatro s\u00e9culos de dura\u00e7\u00e3o. Neste contexto de amea\u00e7as e de \u00abcerco\u00bb \u00e0 Ortodoxia, Kitsikis prefere dar continuidade \u00e0 tradicional op\u00e7\u00e3o religiosa (e pol\u00edtica) do \u00abpartido oriental\u00bb de Georgios Yenn\u00e1dhios (Gen\u00e1dios), o prelado bizantino que no s\u00e9culo XV foi institu\u00eddo pelo sult\u00e3o otomano Mehmed II, poucos meses ap\u00f3s a conquista de Constantinopla em 1453, como Patriarca de Constantinopla e chefe do <em>rum millet<\/em>, ou seja do <em>millet<\/em> \u00abgrego\u00bb<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Ao contr\u00e1rio do que acontece com a grande maioria dos intelectuais gregos, a sujei\u00e7\u00e3o \u00e0 supremacia da <em>umma\/\u00fcmmet<\/em> e da X\u00e1ria e o estatuto de subordina\u00e7\u00e3o\/inferioridade do <em>rum millet<\/em>, n\u00e3o parece perturbar a vis\u00e3o quase rom\u00e2ntica de Kitsikis, sobre a governa\u00e7\u00e3o otomana. Pelo contr\u00e1rio, o que o perturba \u00e9 o que este considera ter sido a ocidentaliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada (n\u00e3o democr\u00e1tica), que as pot\u00eancias europeias impuseram ao povo grego, desde a sua independ\u00eancia no s\u00e9culo XIX. Atente-se nas suas criticas<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> ao liberal e \u00abocidentalista\u00bb Eleftherios (Eleutherios) Venizelos, o mais not\u00e1vel homem de Estado grego da primeira metade do s\u00e9culo XX:<\/p>\n<blockquote><p>A hist\u00f3ria da Gr\u00e9cia mostra que, depois de 1831, a ocidentaliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds foi imposta pela Europa e isto sistematicamente duma forma n\u00e3o democr\u00e1tica. O pr\u00f3prio Venizelos chegou ao poder na sequencia do golpe de Estado militar de 1909. Em Setembro de 1916, com a ajuda dos militares, fez um segundo golpe de Estado e instalou em Sal\u00f3nica, sob a protec\u00e7\u00e3o do general Sarrail, chefe das for\u00e7as da <em>Entente <\/em>na cidade, um governo rival do governo leg\u00edtimo de Atenas [&#8230;] \u00c9 por consequ\u00eancia bastante ir\u00f3nico ver hoje Atenas e a Gr\u00e9cia ornadas de numerosas est\u00e1tuas do \u00abgrande democrata\u00bb Venizelos \u2013 e mesmo, diante do Parlamento, uma est\u00e1tua que lhe foi erigida em 1989 \u2013 enquanto que as est\u00e1tuas do seu advers\u00e1rio do partido oriental, Metaxas, culpado de um \u00fanico golpe de Estado, o de 1936, foram deitadas por terra em todo o territ\u00f3rio.<\/p><\/blockquote>\n<p>Quer dizer, o \u00abinimigo\u00bb absoluto, tal como no passado hist\u00f3rico, continua a ser hoje o Ocidente, seja na sua vers\u00e3o secular-materialista, seja na sua vers\u00e3o religiosa Cat\u00f3lico-Protestante, pelo que, para este adepto do \u00abpartido orientalista\u00bb e \u00abnost\u00e1lgico do Imp\u00e9rio Otomano\u00bb<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, como se este auto-qualifica, \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 desej\u00e1vel como realiz\u00e1vel um entendimento com a Turquia, para um <em>condominium<\/em> heleno-turco sobre os Balc\u00e3s e a Anat\u00f3lia, que afaste a influ\u00eancia negativa ocidental na \u00abRegi\u00e3o Interm\u00e9dia\u00bb:<\/p>\n<blockquote><p>A 3 de Mar\u00e7o de 1924, o califado foi abolido. A Turquia, \u00faltimo Estado sucessor do imp\u00e9rio (ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o dos Estados balc\u00e2nicos no s\u00e9culo XIX, e \u00e1rabes no s\u00e9culo XX), acabava de nascer. Mais tarde, unicamente entre os turcos e os gregos, surgiram alguns nost\u00e1lgicos do Imp\u00e9rio Otomano, isto \u00e9, no seio dos dois povos que dele mais se aproveitaram.<\/p><\/blockquote>\n<p>Como se pode j\u00e1 imaginar, a hist\u00f3ria deliberadamente selectiva do passado otomano feita por Kitsikis, associada \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gico-pol\u00edtica em prol do \u00abheleno-turquismo\u00bb, mesmo para os padr\u00f5es gregos onde a pol\u00e9mica entre \u00abocidentalistas\u00bb e \u00aborientalistas\u00bb sobre a identidade nacional grega e as op\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica externa est\u00e1 bem enraizada, n\u00e3o deixa de ter o seu car\u00e1cter <em>sui generis<\/em> e de gerar amplas reac\u00e7\u00f5es de rejei\u00e7\u00e3o. Onde parece ter mais adeptos \u00e9 nos pa\u00edses ocidentais, onde alguns acad\u00e9micos \u2013 veja-se o j\u00e1 referido caso de Gilles Bertrand \u2013, se sentem atra\u00eddos pelo car\u00e1cter \u00abinovador\u00bb da Regi\u00e3o Interm\u00e9dia e da solu\u00e7\u00e3o multiculturalista do heleno-turquismo, que parece fornecer o ant\u00eddoto perfeito para contrariar o \u00abretr\u00f3grado\u00bb conflito de civilizacional de Huntington.<\/p>\n<p>Um outro aspecto importante nesta an\u00e1lise \u00e9 o da influ\u00eancia da religi\u00e3o (o Cristianismo Ortodoxo), na identidade nacional grega. Num interessante artigo sobre esta tem\u00e1tica, Nikos Chrysolaras da , descreve da seguinte maneira o processo espec\u00edfico de constru\u00e7\u00e3o dessa identidade na Gr\u00e9cia:<\/p>\n<p>3. Um outro aspecto importante nesta an\u00e1lise \u00e9 o da influ\u00eancia da religi\u00e3o (o Cristianismo Ortodoxo), na identidade nacional grega. Num interessante artigo sobre esta tem\u00e1tica, Nikos Chrysolaras<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> da <em>London School of Economics<\/em>, descreve da seguinte maneira o processo espec\u00edfico de constru\u00e7\u00e3o dessa identidade na Gr\u00e9cia:<\/p>\n<blockquote><p>A identidade nacional \u00e9 constitu\u00edda com base em diferentes crit\u00e9rios por diferentes tipos de nacionalismo. No caso da Gr\u00e9cia, a identidade nacional foi constru\u00edda de acordo com a l\u00f3gica do nacionalismo cultural, o qual enfatiza a import\u00e2ncia da unidade org\u00e2nica da Na\u00e7\u00e3o e o car\u00e1cter \u00fanico da sua cultura. Para ser mais espec\u00edfico, a Igreja Ortodoxa na Gr\u00e9cia deu lugar a uma religi\u00e3o nacional, significando uma religi\u00e3o que promove uma identidade nacional e legitima um projecto nacionalista. A Igreja manteve-se como a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o pr\u00e9-moderna que reteve a sua import\u00e2ncia atrav\u00e9s da era moderna na Gr\u00e9cia. Como resultado, isto gerou a \u00abreloca\u00e7\u00e3o\u00bb do material cultural pr\u00e9-moderno, no moderno ambiente do Estado-Na\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando a identidade nacional.<\/p><\/blockquote>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es pr\u00e9-modernas que um pouco por toda a Europa (Ocidental), mais contribu\u00edram para a forma\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional foram o Estado, o ex\u00e9rcito e a Igreja. No caso da Gr\u00e9cia, o peso da institui\u00e7\u00e3o \u00abIgreja\u00bb (Ortodoxa) foi comparativamente muito mais elevado pelo simples facto de n\u00e3o existir um nem um ex\u00e9rcito pr\u00e9-moderno, nem um Estado pr\u00e9-moderno, que competissem com essa institui\u00e7\u00e3o para gerar a identidade grega moderna. Importa ainda notar que do ponto de vista dominante na Psicologia Social, a identidade nacional, tal como todas as identidades, \u00e9, por natureza, relacional e constru\u00edda socialmente o que leva a que os antagonismos e a fronteira entre \u00abn\u00f3s\u00bb e \u00abeles\u00bb tenham um papel determinante nessa constru\u00e7\u00e3o. Em sintonia com esta explica\u00e7\u00e3o do processo de cria\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional, Nikos Chrysolaras evidencia tamb\u00e9m as raz\u00f5es do sucesso do chamado \u00abheleno-cristianismo\u00bb, na forma\u00e7\u00e3o da identidade grega<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>:<\/p>\n<blockquote>[Uma] das raz\u00f5es porque o \u00abheleno-cristianismo\u00bb tem sido t\u00e3o bem sucedido \u00e9 que este conseguiu estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o antag\u00f3nica entre a identidade grega e os \u00ab<em>outsiders<\/em> constitutivos\u00bb, o Imp\u00e9rio Otomano\/Turquia, as popula\u00e7\u00f5es balc\u00e2nicas e eslavas envolventes e a Europa. O nacionalismo heleno-crist\u00e3o foi capaz de construir fronteiras r\u00edgidas entre <em>insiders<\/em> e <em>outsiders<\/em> gregos e n\u00e3o gregos e desta forma dotar a Na\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-nascida de uma s\u00f3lida identidade colectiva.<\/p><\/blockquote>\n<p>Quer dizer, o nacionalismo heleno-crist\u00e3o conseguiu tra\u00e7ar com sucesso duas distin\u00e7\u00f5es fundamentais para o \u00abser grego\u00bb (<em>greekness<\/em>): por um lado, ao enfatizar o elemento \u00abhel\u00e9nico\u00bb da identidade grega, efectuou a diferencia\u00e7\u00e3o com sucesso dos gregos face a outros povos crist\u00e3os ortodoxos (maced\u00f3nios, s\u00e9rvios, b\u00falgaros, etc.); por outro lado, como refere o mesmo autor, as concep\u00e7\u00f5es \u00abhelenizadas\u00bb da Na\u00e7\u00e3o eram incapazes de comunicar com as massas que formavam a Na\u00e7\u00e3o grega. \u00abEssas massas estavam divididas em grupos \u00e9tnicos e lingu\u00edsticos fragmentados, muito poucos dos quais conseguiam entender a \u2018linguagem de Plat\u00e3o\u2018, apesar do facto de a maior parte usar dialectos hel\u00e9nicos. Por isso, a Ortodoxia foi um recurso cultural que estes podiam facilmente identificar (pelo menos mais facilmente do que podiam identificar a Gr\u00e9cia Cl\u00e1ssica)\u00bb<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. E n\u00e3o se pense que a presen\u00e7a da Ortodoxia na identidade nacional grega foi apenas marcante nos primeiros tempos do p\u00f3s-independ\u00eancia e que, entretanto, ao longo do s\u00e9culo XX e neste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI a sociedade grega evoluiu para um est\u00e1gio de seculariza\u00e7\u00e3o similar ao que se pode encontrar nas sociedades da Europa (Ocidental). Importa notar que a seculariza\u00e7\u00e3o pode assumir v\u00e1rias formas, o que tem por consequ\u00eancia que a palavra pode ser usa em sentidos vari\u00e1veis. Entre estes destacam-se os seguintes: i) seculariza\u00e7\u00e3o como diferencia\u00e7\u00e3o das esferas seculares face \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e normas religiosas; ii) seculariza\u00e7\u00e3o como um decl\u00ednio das convic\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas religiosas; iii) seculariza\u00e7\u00e3o como afastamento da religi\u00e3o para a esfera privada<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Ora, acontece que, como faz notar Chrysolaras, nenhuma destas formas de seculariza\u00e7\u00e3o parece ter tido, nem \u00e9 previs\u00edvel que venha a ter no futuro que se avizinha, grande impacto na Gr\u00e9cia: \u00abDesde a restaura\u00e7\u00e3o da democracia liberal na Gr\u00e9cia (1974), o Estado tentou mudar o estatuto legal da Igreja e a posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da Ortodoxia na sociedade grega. Apesar das previs\u00f5es serem um assunto perigoso nas Ci\u00eancias Sociais, ousaria dizer que a desloca\u00e7\u00e3o da equival\u00eancia Igreja-Estado-Na\u00e7\u00e3o na Gr\u00e9cia n\u00e3o parece prov\u00e1vel num futuro pr\u00f3ximo\u00bb<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p>Este ponto de vista \u00e9 plenamente confirmado pela actual Constitui\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>, que entrou em vigor em 1975 e teve a sua \u00faltima revis\u00e3o em 2001. Antes do dispositivo legal propriamente dito, e logo a ap\u00f3s o t\u00edtulo \u00abA Constitui\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia\u00bb, encontra-se a seguinte frase como subt\u00edtulo: \u00abEm nome da Sagrada, Consubstancial e Indivis\u00edvel Trindade\u00bb. Mais \u00e0 frente, no artigo 3\u00ba, pode encontrar-se o seguinte dispositivo, que regula as rela\u00e7\u00f5es do Estado com a Igreja Ortodoxa:<\/p>\n<ol>\n<li>A religi\u00e3o que prevalece na Gr\u00e9cia \u00e9 a Igreja Ortodoxa Oriental de Cristo. A Igreja Ortodoxa da Gr\u00e9cia, reconhecendo Nosso Senhor Jesus Cristo \u00e0 sua cabe\u00e7a, est\u00e1 inseparavelmente unida em doutrina com a Grande Igreja de Cristo em Constantinopla e com qualquer outra Igreja de Cristo da mesma doutrina, observando resolutamente, tal como estas fazem, os sagrados c\u00e2nones apost\u00f3licos e sinodais e as tradi\u00e7\u00f5es sagradas. \u00c9 autoc\u00e9fala \u00e9 administrada pelo Santo S\u00ednodo dos Bispos que a servem e pelo Permanente Santo S\u00ednodo da\u00ed origin\u00e1rio e reunido especificamente pela Carta Estatut\u00e1ria da Igreja de acordo com as provis\u00f5es do Tomo Patriarcal de 29 de Junho de 1850 e o Acto Sinodal de 4 de Junho de 1928.<\/li>\n<li>O regime eclesi\u00e1stico que existe em certos distritos do Estado n\u00e3o deve ser julgado contr\u00e1rio \u00e0s provis\u00f5es do par\u00e1grafo precedente,<\/li>\n<li>O texto da Sagrada Escritura deve ser mantido inalterado. A tradu\u00e7\u00e3o oficial do texto noutra forma de linguagem, sem a pr\u00e9via autoriza\u00e7\u00e3o da Igreja Autoc\u00e9fala da Gr\u00e9cia e da Grande Igreja de Cristo em Constantinopla \u00e9 proibida.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Para al\u00e9m deste dispositivo bastante invulgar para uma Constitui\u00e7\u00e3o da Europa\/Ocidente, onde normalmente prevalece uma atitude de \u00abneutralidade\u00bb do Estado face \u00e0 religi\u00e3o, no artigo 13\u00ba \u00e9 estabelecida uma liberdade de religi\u00e3o, mas o seu n\u00ba 2 enuncia alguns limites ao exerc\u00edcio dessa liberdade, estipulando, nomeadamente, que \u00abn\u00e3o \u00e9 permitida a pr\u00e1tica de ritos de culto que ofendam a ordem p\u00fablica e os bons costumes\u00bb e que o proselitismo, ou seja, que as actividades de expans\u00e3o da f\u00e9 por convers\u00e3o de outros crentes s\u00e3o proibidas. Neste contexto, importa acrescentar que at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo atr\u00e1s os bilhetes de identidade dos cidad\u00e3os gregos indicavam a religi\u00e3o do seu titular, situa\u00e7\u00e3o que na generalidade dos pa\u00edses da Europa (Ocidental) seria provavelmente considerada discriminat\u00f3ria, sen\u00e3o mesmo inconstitucional. Ainda a este prop\u00f3sito vale a pena notar que este dispositivo constitucional-legal n\u00e3o est\u00e1 propriamente desfasado da realidade sociol\u00f3gica grega. Segundo dados do Eurobar\u00f3metro de 2002, a juventude grega \u00e9, logo a seguir \u00e0 irlandesa, a mais religiosa da Uni\u00e3o Europeia<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>; e segundo o<em> World Factbook de 2005<\/em> da <em>Central Intelligence Agency<\/em> (CIA), a sua popula\u00e7\u00e3o auto-identifica-se esmagadoramente com o Cristianismo Ortodoxo (98%)<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>. Por tudo isto n\u00e3o \u00e9 grande surpresa verificar-se que Christodoulos Paraskevaides, o carism\u00e1tico Arcebispo de Atenas e de toda a Gr\u00e9cia, nascido em Xanthi \u2013 uma cidade da Tr\u00e1cia grega com uma minoria Mu\u00e7ulmana significativa, onde as rela\u00e7\u00f5es desta com o Estado grego e os Ortodoxos n\u00e3o invulgarmente conflituam \u2013 e que chefia a Igreja Autoc\u00e9fala grega desde 1998, tenha sido n\u00e3o s\u00f3 um dos cr\u00edticos mais c\u00e1usticos da interven\u00e7\u00e3o da NATO no Kosovo (1999), como seja tamb\u00e9m uma das personalidades mais respeitadas e influentes de todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>4. Para se compreender as actuais rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o\/competi\u00e7\u00e3o\/conflito da Gr\u00e9cia com os pa\u00edses balc\u00e2nicos vizinhos e a Turquia \u00e9 fundamental ter em conta o processo hist\u00f3rico que levou \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Otomano e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dos \u00abEstados-Na\u00e7\u00e3o\u00bb (ou se quisermos, Estados vestefalianos \u00e0 ocidental), nos Balc\u00e3s p\u00f3s-otomanos. Neste contexto, a Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica apresenta uma similitude not\u00f3ria com a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, que resulta do facto de ambos os territ\u00f3rios do Sul da Europa terem estado integrados na <em>dar-al Islam<\/em> durante per\u00edodos hist\u00f3ricos bastante prolongados: entre o s\u00e9culo VII e o final do s\u00e9culo XV, no caso da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica; e entre o s\u00e9culo XIV e o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, no caso da Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica. Embora esta compara\u00e7\u00e3o esteja praticamente esquecida na Europa Ocidental \u2013 e at\u00e9 possa parecer bastante estranha dada a vis\u00e3o e linguagem secular, que prevalece na Hist\u00f3ria e Ci\u00eancia Politica ocidentais \u2013, ela \u00e9 bastante familiar nos Balc\u00e3s e mais ainda na Turquia. Veja-se como \u00c9tienne Copeaux<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>, investigador franc\u00eas associado ao <em>Centre National de Recherche Scientifique<\/em>, descreve a representa\u00e7\u00e3o cartogr\u00e1fica habitualmente feita nos manuais escolares desse pa\u00eds:<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o \u00e9 por uma acaso que a Pen\u00ednsula dos Balc\u00e3s e a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica se encontram aqui para colocar o mesmo problema de classifica\u00e7\u00e3o: o lugar das duas regi\u00f5es \u00e9 particular na percep\u00e7\u00e3o turca da Europa, da\u00ed que se tenha sentido necessidade, nos manuais, de lhe atribuir uma representa\u00e7\u00e3o cartogr\u00e1fica privilegiada, embora em graus diferentes. Na origem est\u00e1 a perten\u00e7a das duas regi\u00f5es ao Isl\u00e3o, durante um longo per\u00edodo hist\u00f3rico. O tratamento cartogr\u00e1fico sublinha o que \u00e9 um ponto comum entre as duas pen\u00ednsulas e uma singularidade em rela\u00e7\u00e3o ao resto da Europa.<\/p><\/blockquote>\n<p>No caso da Gr\u00e9cia, outro aspecto importante a ter em conta \u00e9 o da evolu\u00e7\u00e3o territorial do Estado grego moderno. Importa notar que a Gr\u00e9cia \u00e0 qual foi reconhecida a independ\u00eancia como Estado soberano, sob a garantia das pot\u00eancias europeias (Gr\u00e3-Bretanha, R\u00fassia e Fran\u00e7a), pelo Tratado celebrado em Londres, em Maio de 1832, tinha menos de metade do territ\u00f3rio actual (basicamente era constitu\u00edda pelo Peloponeso\/Moreia, a \u00c1tica, a Eubeia e algumas ilhas pr\u00f3ximas como, por exemplo, as ilhas Argo-Sar\u00f3nicas e as C\u00edclades), s\u00f3 tendo adquirido a configura\u00e7\u00e3o territorial<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a> actual no decurso da primeira metade do s\u00e9culo XX: as ilhas J\u00f3nicas, incluindo Corfu<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a> \u2013 onde nasceu o primeiro Presidente\/Governador da Gr\u00e9cia moderna, Ioannis Kapodistrias \u2013, s\u00f3 em 1864 passaram a integrar a Gr\u00e9cia, por ced\u00eancia da Gr\u00e3-Bretanha, sendo a \u00fanica parte do territ\u00f3rio grego que nunca esteve submetida ao Imp\u00e9rio Otomano; em 1881 ocorreu um novo alargamento territorial, a Norte da Gr\u00e9cia continental, passando a Tess\u00e1lia a fazer tamb\u00e9m parte do Estado grego; j\u00e1 no s\u00e9culo XX, nas guerras balc\u00e2nicas de 1912-1913, foi conquista e anexada uma parte da Maced\u00f3nia, incluindo a cidade de Sal\u00f3nica, anexado o Sul do Epiro junto \u00e0 Alb\u00e2nia, e foi ainda efectuada a <em>enosis<\/em> (uni\u00e3o) da ilha de Creta com a Gr\u00e9cia, tendo o Estado grego tido o maior incremento territorial do p\u00f3s-independ\u00eancia, o qual fez praticamente duplicar o seu territ\u00f3rio inicial. Por \u00faltimo, os restantes ganhos territoriais foram a Tess\u00e1lia em 1923 (que tinha sido conquistado pela Bulg\u00e1ria aos otomanos, em 1912); e as ilhas do Dodecaneso, literalmente \u00abdoze ilhas\u00bb (que, por sua vez, tinham sido conquistadas pela It\u00e1lia aos otomanos, em 1911), as quais passaram a fazer parte do territ\u00f3rio grego ap\u00f3s a derrota das pretens\u00f5es imperiais de Mussolini no Mediterr\u00e2neo oriental e a celebra\u00e7\u00e3o do Tratado de Paz com a It\u00e1lia, assinado em Paris (1947).<\/p>\n<p>Estabelecendo, mais uma vez, uma compara\u00e7\u00e3o com a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, verificamos que a expans\u00e3o\/estabiliza\u00e7\u00e3o territorial de Portugal ocorreu entre os s\u00e9culos XII-XIII e a de Castela\/Espanha prolongou-se at\u00e9 ao final s\u00e9culo XV. Isto significa que em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 actualidade qualquer um dos Estados ib\u00e9ricos tem, pelo menos, mais de meio mil\u00e9nio de consolida\u00e7\u00e3o territorial (no caso de Portugal at\u00e9 mais alguns s\u00e9culos), face ao seu passado isl\u00e2mico o que o torna um mem\u00f3ria hist\u00f3rica long\u00ednqua. J\u00e1 no caso da Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 substancialmente diferente, pois a retirada final da <em>dar-al Islam <\/em>apenas ocorreu no in\u00edcio do s\u00e9culo XX (1912-1913), ou seja, h\u00e1 menos de um s\u00e9culo (isto para n\u00e3o falarmos das substanciais comunidades Mu\u00e7ulmanas que permaneceram, e permanecem, na Alb\u00e2nia, na B\u00f3snia, no Kosovo, na Maced\u00f3nia e na Bulg\u00e1ria). Este car\u00e1cter de perten\u00e7a\/perda hist\u00f3rica \u00abrecente\u00bb da<em> dar-al Islam<\/em> \u00e9 em si mesmo um facto muito importante na perpetua\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria colectiva, pela transmiss\u00e3o oral entre vivos: basta pensarmos que, ainda hoje, nos Balc\u00e3s, existem, ou existiam num passado muito recente, pessoas vivas que nasceram s\u00fabditos otomanos (por exemplo, Konstantinos Karamanlis, que foi Presidente da Gr\u00e9cia entre 1980-1985 e 1990-1995, nasceu em 1907 nessa situa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Neste contexto, e vista a quest\u00e3o na perspectiva dos Mu\u00e7ulmanos do Imp\u00e9rio Otomano, a revolu\u00e7\u00e3o grega iniciada em Mar\u00e7o de 1821 \u2013 que teve o seu m\u00edtico in\u00edcio no hastear da bandeira da revolta, pelo Arcebispo Germanos de Patras, pr\u00f3ximo de Kalavryta, no Peloponeso\/Moreia \u2013 e as sucessivas revoltas dos <em>rayas <\/em>(Crist\u00e3os), s\u00e9rvios, montenegrinos, b\u00falgaros, valacos, moldavos, etc., durante todo o s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, foram uma esp\u00e9cie de \u00abconflito civilizacional\u00bb <em>avant la lettre<\/em>. Isto porque estas revoltas levaram \u00e0 subvers\u00e3o da <em>pax otomana<\/em> (isl\u00e2mica) nos Balc\u00e3s, em nome de um ide\u00e1rio pol\u00edtico nacionalista e secular, de raiz ocidental, percebido durante muito tempo como \u00abirreligioso\u00bb, \u00abb\u00e1rbaro\u00bb e \u00abincivilizacional\u00bb, por ser completamente estranho \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-religiosa do Mundo Mu\u00e7ulmano.<\/p>\n<p>Um outro aspecto importante \u00e9 o papel dos refugiados e deportados<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a> na Gr\u00e9cia e na Turquia (as duas quest\u00f5es est\u00e3o estreitamente ligadas), desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX at\u00e9 ao Tratado de Paz de Lausana de 1923, que regulou o fim do Imp\u00e9rio Otomano e o reconhecimento da Turquia como Estado sucessor. Foi nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, primeiro com as duas guerras balc\u00e2nicas (1912-1913), e depois com a guerra de independ\u00eancia da Turquia (1919-1922) e a consequente troca de popula\u00e7\u00f5es acordada em anexo ao j\u00e1 referido Tratado de Lausana, que estes movimentos populacionais atingiram a sua maior dimens\u00e3o (o ano de 1924 foi o culminar desse processo). Para o Imp\u00e9rio Otomano, o saldo das guerras balc\u00e2nicas foi a perda de 80% do territ\u00f3rio europeu (a excep\u00e7\u00e3o foi a reten\u00e7\u00e3o da Tr\u00e1cia oriental, recuperada na segunda guerra balc\u00e2nica) e de mais de 4,2 milh\u00f5es de habitantes (cerca de 16% da popula\u00e7\u00e3o total do imp\u00e9rio). A perda das prov\u00edncias balc\u00e2nicas teve tamb\u00e9m forte impacto econ\u00f3mico e simb\u00f3lico: n\u00e3o s\u00f3 eram as regi\u00f5es mais ricas e mais desenvolvidas, como grande parte da elite dirigente otomana era origin\u00e1ria dos Balc\u00e3s \u2013 era esse, por exemplo, o caso de Tal\u00e2t Pax\u00e1, de Evranoszade Rahmi, o governador de Esmirna (Izmir) e de Mustafa Kemal (Atat\u00fcrk), nascido em Sal\u00f3nica, na antiga Maced\u00f3nia otomana<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>. Mas o principal fluxo de refugiados e\/ou deportados ocorreu ap\u00f3s a <em>megali idea<\/em> de \u00abuma Gr\u00e9cia em dois continentes e quatro mares\u00bb<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a> ter levado \u00e0 \u00abgrande cat\u00e1strofe\u00bb que foi a derrota do ex\u00e9rcito grego pelos otomanos\/turcos liderados por Mustafa Kemal (1919-1922). Um dos epis\u00f3dios mais dram\u00e1ticos do final desse conflito foi o inc\u00eandio da <em>g\u00e2vur Izmir<\/em><a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a> (literalmente \u00abEsmirna, a infiel\u00bb, como era conhecida pelos turcos, dado as popula\u00e7\u00f5es serem maioritariamente Crist\u00e3s, sobretudo gregas, mas tamb\u00e9m arm\u00e9nias), ap\u00f3s a entrada das tropas turcas na cidade, a 9 de Setembro de 1922, o qual provocou uma fuga em massa dos seus habitantes n\u00e3o Mu\u00e7ulmanos. Facilmente se compreende que neste contexto b\u00e9lico a conviv\u00eancia entre as popula\u00e7\u00f5es Mu\u00e7ulmanas (turcos e curdos) e as popula\u00e7\u00f5es Crist\u00e3s (gregos, arm\u00e9nios e ass\u00edrio-caldeus) tinha ficado gravemente deteriorada. A solu\u00e7\u00e3o encontrada para este delicado problema entre a Gr\u00e9cia e a Turquia foi a troca de popula\u00e7\u00f5es. Esta solu\u00e7\u00e3o levou entre 1,2 milh\u00f5es a 1,4 milh\u00f5es de \u00abgregos\u00bb a abandonarem as suas casas e propriedades na Turquia, deslocando-se para a Gr\u00e9cia (que na altura tinha 5, 5 milh\u00f5es de habitantes pelo que teve de gerir um incremento de 22% a 25% da sua popula\u00e7\u00e3o); e cerca de 400.000 \u00abturcos\u00bb a terem de deixar as suas casas e propriedades na Gr\u00e9cia e a deslocar-se para a Turquia (que na altura tinha cerca de 13,5 milh\u00f5es de habitantes, o que representou um peso relativo muito menor de 3%). Veja-se como Erik-Jan Z\u00fcrcher<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a> comenta este acordo bilateral:<\/p>\n<blockquote><p>Tr\u00eas coisas s\u00e3o dignas de nota acerca desta conven\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, o crit\u00e9rio foi exclusivamente religioso. N\u00e3o houve refer\u00eancia a categorias lingu\u00edsticas ou \u00e9tnicas. A maioria dos Mu\u00e7ulmanos da Maced\u00f3nia falavam grego e uma propor\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel dos gregos Ortodoxos da Anat\u00f3lia Central falava turco. N\u00e3o obstante, esses grupos foram marcados para a migra\u00e7\u00e3o com base na sua religi\u00e3o. Em segundo lugar, foi o car\u00e1cter retroactivo da conven\u00e7\u00e3o: n\u00e3o foi apenas limitada \u00e0s migra\u00e7\u00f5es iniciadas em 1922, mas legitimadas todas as \u2013 largamente for\u00e7adas \u2013 migra\u00e7\u00f5es causadas pelas guerras, que tiveram lugar desde 1912. Em terceiro lugar, foi a natureza involunt\u00e1ria da migra\u00e7\u00e3o. Foi a primeira vez que uma migra\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria \u2013 ou, para dar um nome mais honesto, deporta\u00e7\u00e3o \u2013 foi legalizada pelo Direito Internacional.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por mais estranho que aos olhos de hoje isto possa parecer, a ideia impulsionadora deste acordo para a troca compulsiva de popula\u00e7\u00f5es (<em>de facto<\/em> uma deporta\u00e7\u00e3o rec\u00edproca) veio do Pr\u00e9mio Nobel da Paz de 1922 e Alto Comiss\u00e1rio da Sociedade das Na\u00e7\u00f5es (SdN) para os Refugiados na \u00e9poca: o cientista e explorador noruegu\u00eas Fridtjof Nansen. As excep\u00e7\u00f5es a esta troca foram os Crist\u00e3os Ortodoxos gregos de Constantinopla\/Istambul e os Mu\u00e7ulmanos da Tr\u00e1cia ocidental, na Gr\u00e9cia. Como se pode imaginar, esta troca de popula\u00e7\u00f5es deixou profundas marcas na sociedade hel\u00e9nica \u2013 as quais s\u00e3o vis\u00edveis na cria\u00e7\u00e3o de novas cidades com o nome nost\u00e1lgico das abandonada (por exemplo, Nova Esmirna nos arredores de Atenas), na funda\u00e7\u00e3o de clubes (por exemplo, o Clube Atl\u00e9tico de Constantinopla, internacionalmente conhecido como AEK de Atenas), e numa nova classe de comerciantes e industriais bem sucedidos, de que o caso mais conhecido \u00e9 o do milion\u00e1rio Arist\u00f3teles Onassis, tamb\u00e9m ele nascido em Esmirna \u2013 sendo, ainda hoje, um factor importante na configura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es greco-turcas.<\/p>\n<p>5. Ap\u00f3s esta breve resenha hist\u00f3rica sobre a forma\u00e7\u00e3o territorial e populacional da Gr\u00e9cia moderna, estamos agora em condi\u00e7\u00f5es de passar em revista as principais diverg\u00eancias e conflitos geopol\u00edticos que esta mant\u00e9m com os pa\u00edses vizinhos. Como se pode verificar rapidamente pela an\u00e1lise do quadro que a seguir se apresenta (quadro 1), a Gr\u00e9cia tem disputas geopol\u00edticas, abertas ou latentes, como todos os Estados vizinhos. \u00c0 primeira vista poder\u00edamos ser tentados a pensar que isto se deve ao facto de estarmos perante um Estado particularmente belicoso nas suas rela\u00e7\u00f5es externas. Todavia, esta interpreta\u00e7\u00e3o deve ser afastada por ser demasiado simplista. Importa aqui lembrar, mais uma vez, que a pol\u00edtica externa da Gr\u00e9cia \u2013 tal como a pol\u00edtica externa de qualquer outro Estado \u2013, s\u00f3 pode ser correctamente apreendida se, entre outros factores relevantes, for tido em conta o seu passado hist\u00f3rico, seja ele real ou imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Neste contexto, \u00e9 fundamental ter-mos em conta que os factos pol\u00edticos do presente s\u00e3o frequentemente objecto de interpreta\u00e7\u00f5es d\u00edspares, ou at\u00e9 mesmo antag\u00f3nicas, porque s\u00e3o vistos \u00e0 luz de diferentes experi\u00eancias individuais e colectivas, sendo a perten\u00e7a a uma determinada comunidade\/cultura o factor mais importante que orienta, ou, pelo menos, condiciona o sentido dessas percep\u00e7\u00f5es. No caso grego, os marcos fundamentais do seu passado, que tendem a orientar e\/ou condicionar a leitura do presente s\u00e3o: i) o esplendor civilizacional hel\u00e9nico da Antiguidade Cl\u00e1ssica; ii) os territ\u00f3rios historicamente habitados por povos hel\u00e9nicos na Antiguidade, durante o Imp\u00e9rio Bizantino e mais tarde no Imp\u00e9rio Otomano; iii) o Cristianismo Ortodoxo grego como o verdadeiro Cristianismo, por oposi\u00e7\u00e3o ao Cristianismo Latino considerado her\u00e9tico, ou, pelo menos, \u00abdesviacionista\u00bb; iv) a conquista e domina\u00e7\u00e3o pelo Imp\u00e9rio Otomano como \u00abIdade das Trevas\u00bb; v) os nacionalismos eslavos e albaneses como \u00abusurpadores\u00bb de territ\u00f3rios hel\u00e9nicos nos Balc\u00e3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Note-se que com isto n\u00e3o estamos a querer dizer que existe uma vis\u00e3o monol\u00edtica do mundo partilhada por todos os gregos, que eliminaria formas diferenciadas de pensamento, nomeadamente ao n\u00edvel da pol\u00edtica externa. Naturalmente que existe um diversidade de mundivid\u00eancias, at\u00e9 porque a Gr\u00e9cia \u00e9 uma sociedade democr\u00e1tica e pluralista. O que queremos fazer notar \u00e9 que, tal como noutros povos que se v\u00eam a si pr\u00f3prios como uma na\u00e7\u00e3o, existe um conjunto de refer\u00eancias hist\u00f3ricas e culturais partilhadas que ligam os gregos enquanto \u00abcomunidade imaginada\u00bb, as quais influenciam e condicionam a(s) sua(s) vis\u00e3o(\u00f5es) do mundo. E quem est\u00e1 fora a dessa cultura, e n\u00e3o se esfor\u00e7ar por conhece-la nos seus tra\u00e7os essenciais a partir do exterior, n\u00e3o consegue entender essas interpreta\u00e7\u00f5es de factos pol\u00edticos do presente, apressando-se frequentemente a julg\u00e1-las destitu\u00eddas de fundamento e a rejeita-las como disparatadas. Um bom exemplo desse problema \u00e9 o medo do \u00abcerco mu\u00e7ulmano\u00bb \u00e0 Gr\u00e9cia (e \u00e0 Ortodoxia). Esta tese, quando vista sob o olhar a-hist\u00f3rico que domina nos <em>media<\/em> ocidentais, parece um caso claro de islamofobia e de histeria nacionalista. Todavia, vale a pena dedicarmos algum tempo a tentar perceber porque \u00e9 que na Gr\u00e9cia esta ideia tem, em graus vari\u00e1veis, uma certa aceita\u00e7\u00e3o e credibilidade n\u00e3o s\u00f3 entre o cidad\u00e3o comum como tamb\u00e9m junto de personalidades dos meios intelectuais da direita e da esquerda do espectro pol\u00edtico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quadro 1 \u2013 As principais disputas geopol\u00edticas da Gr\u00e9cia<\/strong><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"61\">\n<h4>Estados<\/h4>\n<\/td>\n<td width=\"395\">\n<h5><\/h5>\n<h5>Aspectos em lit\u00edgio e\/ou ambi\u00e7\u00f5es \u00abirredentistas\u00bb<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"61\">\n<h4>Alb\u00e2nia<\/h4>\n<\/td>\n<td width=\"395\">\n<ul>\n<li>Ambi\u00e7\u00f5es \u00abirredentistas\u00bb da Gr\u00e9cia sobre o Epiro do Norte onde existem popula\u00e7\u00f5es gregas que se calcula andarem na ordem dos 3% do n\u00famero de habitantes total da Alb\u00e2nia (todavia, os n\u00fameros s\u00e3o muito d\u00edspares consoante as fontes s\u00e3o albanesas os gregas; no limite variam entre os 1% de algumas estat\u00edsticas oficiais albanesas e os 12% de ONG&#8217;s gregas);<\/li>\n<li>Migra\u00e7\u00e3o legal e\/ou ilegal de albaneses para a Gr\u00e9cia, gerando alguma hostilidade na sociedade grega e alimentando estere\u00f3tipos com conota\u00e7\u00f5es negativas associados \u00e0 sua alegada participa\u00e7\u00e3o em roubos e tr\u00e1fico de droga.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"61\">\n<h4>Maced\u00f3nia<\/h4>\n<\/td>\n<td width=\"395\">\n<ul>\n<li>Na altura da secess\u00e3o da Rep\u00fablica Socialista da Maced\u00f3nia da ex-Jugosl\u00e1via Federal, em 1991, a Gr\u00e9cia op\u00f4s-se vivamente ao seu reconhecimento internacional, considerando que esta lhe pretendia usurpar n\u00e3o s\u00f3 o nome (a Gr\u00e9cia tem tamb\u00e9m uma prov\u00edncia com o nome de Maced\u00f3nia) como s\u00edmbolos hist\u00f3ricos hel\u00e9nicos. Desde essa altura, a Gr\u00e9cia manteve um bloqueio econ\u00f3mico ao novo Estado que procurava o seu reconhecimento pela comunidade internacional. A partir de 1995 a situa\u00e7\u00e3o evoluiu para alguma normaliza\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es entre ambas as partes, tendo a Gr\u00e9cia posto fim ao bloqueio econ\u00f3mico, embora persista o lit\u00edgio quanto ao nome oficial. A Gr\u00e9cia n\u00e3o o reconhece na forma como este se auto-designa \u2013 a \u00abRep\u00fablica da Maced\u00f3nia\u00bb \u2013 mas apenas como \u00abAntiga Rep\u00fablica Jugoslava da Maced\u00f3nia\u00bb (ou FYRM, na sigla difundida em l\u00edngua inglesa).<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"61\">\n<h4>Bulg\u00e1ria<\/h4>\n<\/td>\n<td width=\"395\">\n<ul>\n<li>A Gr\u00e9cia tem denunciado regularmente aquilo que considera serem as ambi\u00e7\u00f5es \u00abirredentistas\u00bb da Bulg\u00e1ria sobre a Maced\u00f3nia e a Tr\u00e1cia grega (a porta de acesso ao mar Egeu pela Bulg\u00e1ria). Na mem\u00f3ria colectiva de ambos os pa\u00edses est\u00e1 a disputa pela posse da cidade de Sal\u00f3nica e dessas duas regi\u00f5es, a qual culminou na segunda guerra balc\u00e2nica de 1913, e na participa\u00e7\u00e3o da Bulg\u00e1ria e da Gr\u00e9cia sempre em coliga\u00e7\u00f5es opostas na I e na II Guerra Mundiais. O final da Guerra-Fria e o colapso da Jugosl\u00e1via reacenderam em ambos os pa\u00edses um receio de \u00abregresso ao passado\u00bb de disputas territoriais.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"61\">\n<h4>Turquia<\/h4>\n<\/td>\n<td width=\"395\">\n<ul>\n<li>Lit\u00edgio sobre as \u00e1guas territoriais mar\u00edtimas e os corredores a\u00e9reos no mar Egeu;<\/li>\n<li>Lit\u00edgio sobre os direitos da minoria Mu\u00e7ulmanas turca na Gr\u00e9cia (Tr\u00e1cia oriental);<\/li>\n<li>Lit\u00edgio sobre os direitos do Patriarcado da Igreja Ortodoxa grega de Constantinopla (Istambul);<\/li>\n<li>Lit\u00edgio sobre a ilha de Chipre, ocupando a Turquia militarmente a parte Norte da mesma, onde mant\u00e9m mais de 30.000 efectivos que garantem a exist\u00eancia <em>de facto<\/em> da Rep\u00fablica Turca do Norte de Chipre, a qual s\u00f3 \u00e9 reconhecida <em>de jure,<\/em> a n\u00edvel internacional, pela pr\u00f3pria Turquia;<\/li>\n<li>Acusa\u00e7\u00f5es da Turquia \u00e0 Gr\u00e9cia de apoiar o Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o (PKK)\/Kongra-Gel de Abdullah \u00d6calan e de lhe permitir a abertura de campos de treino de guerrilheiros em territ\u00f3rio grego (o caso mais conhecido das acusa\u00e7\u00f5es da Turquia \u00e9 o do campo de Lavrio, situado entre Atenas e o cabo Sunion, que oficialmente \u00e9 um campo de acolhimento de refugiados curdos).<\/li>\n<\/ul>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quadro 2 \u2013 As popula\u00e7\u00f5es Mu\u00e7ulmanas nos Estados lim\u00edtrofes da Gr\u00e9cia<\/strong><\/p>\n<table width=\"437\">\n<thead>\n<tr>\n<td width=\"108\"><strong>Estado <\/strong><\/td>\n<td width=\"126\"><strong>Popula\u00e7\u00e3o total <\/strong><\/td>\n<td width=\"90\"><strong>Mu\u00e7ulmanos <\/strong><\/td>\n<td width=\"113\"><strong>% de Mu\u00e7ulmanos <\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/thead>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"108\">Alb\u00e2nia<\/td>\n<td width=\"126\">3,563,112<\/td>\n<td width=\"90\">2,294,178<\/td>\n<td width=\"113\">70%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"108\">Maced\u00f3nia<\/td>\n<td width=\"126\">1,935,034 (estimativa 1)*2,045,262 (estimativa 2)<\/td>\n<td width=\"90\">581,203*345,650<\/td>\n<td width=\"113\">30%*16.9%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"108\">Bulg\u00e1ria<\/td>\n<td width=\"126\">7,450,349<\/td>\n<td width=\"90\">908.943<\/td>\n<td width=\"113\">12,2%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"108\">Chipre<\/td>\n<td width=\"126\">780,133**<\/td>\n<td width=\"90\">140,424**<\/td>\n<td width=\"113\">18%**<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"108\">Total \/m\u00e9dia percentual s\/ Turquia<\/td>\n<td width=\"126\">Entre 13,728, 628a 13,838,856&nbsp;<\/td>\n<td width=\"90\">Entre 3, 689,195A 3,924,748<\/td>\n<td width=\"113\">28.2% a 28.4%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"108\">Turquia<\/td>\n<td width=\"126\">69,660,550<\/td>\n<td width=\"90\">69,521,223<\/td>\n<td width=\"113\">99,8%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"108\">Gr\u00e9cia<\/td>\n<td width=\"126\">10,668, 354<\/td>\n<td width=\"90\">138.689<\/td>\n<td width=\"113\">1,3%<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: CIA, <em>The World Factbook<\/em> (2005), http:\/\/www.cia.gov\/cia\/publications\/factbook\/ e<\/p>\n<p>*Maria Koinova\/Center for Documentation and Information on Minorities in Europe-Southeast Europe (CEDIME-SE), <em>Minorities in Southeast Europe<\/em>, <a href=\"http:\/\/www.greekhelsinki.gr\/pdf\/cedime-se-macedonia-muslims.PDF\">http:\/\/www.greekhelsinki.gr\/pdf\/cedime-se-macedonia-muslims.PDF<\/a><\/p>\n<p>** Estimativas para o conjunto da popula\u00e7\u00e3o da ilha de Chipre, incluindo a da Rep\u00fablica Turca do Norte de Chipre, s\u00f3 reconhecida internacionalmente como Estado soberano pela Turquia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo sem qualquer an\u00e1lise aprofundada, uma r\u00e1pida vista de olhos no quadro supra d\u00e1-nos j\u00e1 uma ideia como a proximidade geogr\u00e1fica de importantes comunidades Mu\u00e7ulmanas \u00e9 um dado geopol\u00edtico importante em toda a fronteira Norte grega, as quais oscilam entre os 12,2% e os 70% da popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses lim\u00edtrofes (Bulg\u00e1ria, Maced\u00f3nia e Alb\u00e2nia) e os 99,8 % no pa\u00eds da fronteira Leste (a Turquia), que por acaso \u00e9 o Estado sucessor do antigo poder imperial\/\u00abcolonial\u00bb otomano. Para al\u00e9m disso, a expans\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia Isl\u00e2mica<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a> nos Balc\u00e3s, ocorrida na primeira metade da d\u00e9cada de 90 do s\u00e9culo XX \u2013 com ades\u00e3o da Alb\u00e2nia como membro de pleno direito e da B\u00f3snia-Herzegovina como observador \u2013 contribu\u00edram para aumentar a sensa\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a Mu\u00e7ulmana \u00e0 volta da Gr\u00e9cia. Estes factos, associados a mem\u00f3rias hist\u00f3ricas dolorosas, deram alguma credibilidade \u00e0 ideia que os \u00abrestos\u00bb da <em>dar-al Islam<\/em> otomana (albaneses, b\u00f3snios, kosovares, <em>pomaks<\/em>, turcos, etc.) estavam em recomposi\u00e7\u00e3o desde o fim da Guerra-Fria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quadro 3 \u2013 A Organiza\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia Isl\u00e2mica no Sudeste europeu e na Anat\u00f3lia<\/strong><\/p>\n<table style=\"height: 206px;\" width=\"710\">\n<thead>\n<tr>\n<td width=\"216\"><strong>Estado <\/strong><\/td>\n<td width=\"108\"><strong>Estatuto<\/strong><\/td>\n<td width=\"108\"><strong>Data de admiss\u00e3o<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/thead>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"216\">Turquia<\/td>\n<td width=\"108\">Membro<\/td>\n<td width=\"108\">1969<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"216\">Alb\u00e2nia<\/td>\n<td width=\"108\">Membro<\/td>\n<td width=\"108\">1992<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"216\">Comunidade Turco-Mu\u00e7ulmana de Chipre<\/td>\n<td width=\"108\">Observador<\/td>\n<td width=\"108\">1979<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"216\">B\u00f3snia-Herzegovina<\/td>\n<td width=\"108\">Observador<\/td>\n<td width=\"108\">1994<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Fonte: <\/strong>The Organization of Islamic Conference, http:\/\/www.oic-oci.org\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da percep\u00e7\u00e3o grega (ou, pelo menos, dos seus sectores mais nacionalistas), sobre o \u00abcerco isl\u00e2mico\u00bb, h\u00e1 uma estranha e curiosa converg\u00eancia entre esta percep\u00e7\u00e3o e o \u00abconselho\u00bb dado \u00e0 Europa pelo l\u00edder \u00e1rabe, Muammar (Gadafi) Kadafi<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a>, sobre a ades\u00e3o da Turquia \u00e0 UE. Este considera este pa\u00eds como sendo indubitavelmente uma \u00abna\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica\u00bb cuja ades\u00e3o vai funcionar como um \u00abcavalo de Tr\u00f3ia\u00bb dos movimentos islamistas de todo o Mundo Mu\u00e7ulmano, os quais t\u00eam, nomeadamente, por objectivo, fazer reviver a Alb\u00e2nia e a B\u00f3snia como Estados isl\u00e2micos:<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 no interesse econ\u00f3mico da Turquia ser parte da Europa. \u00c9 tamb\u00e9m no interesse do Mundo Isl\u00e2mico que uma na\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica como a Turquia esteja dentro da Uni\u00e3o Europeia, como um cavalo de Tr\u00f3ia [&#8230;] A Turquia \u00e9 uma \u00e1rvore cujas ra\u00edzes est\u00e3o na \u00c1sia e s\u00f3 o seu ramo toca na Europa. \u00c9 um Estado isl\u00e2mico com uma denomina\u00e7\u00e3o sunita e com tradi\u00e7\u00f5es, costumes, cultura atitudes e gosto orientalista [&#8230;] Quando a Turquia se tornar um membro europeu, n\u00e3o vai aceitar que os partidos com designa\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas sejam banidos, enquanto que n\u00e3o s\u00e3o banidas as designa\u00e7\u00f5es Crist\u00e3s na Europa [&#8230;] Os planos dos islamistas turcos na Europa e, obviamente, por detr\u00e1s destes, dos que t\u00eam ra\u00edzes isl\u00e2micas, \u00e9 fazer reviver a Alb\u00e2nia como um Estado isl\u00e2mico, tal como a B\u00f3snia.<\/p><\/blockquote>\n<p>Naturalmente que Kadafi n\u00e3o \u00e9 propriamente o l\u00edder pol\u00edtico internacional com mais credibilidade para dar estes \u00abconselhos\u00bb \u00e0 Europa e que o seu discurso tem uma apar\u00eancia bizarra, que o torna pouco prop\u00edcio a ser levado a s\u00e9rio. Todavia, a converg\u00eancia do seu teor com os receios gregos tem provavelmente um lado mais s\u00e9rio do que pode parecer \u00e0 primeira vista, o qual resulta provavelmente de duas raz\u00f5es: i) ambos os pa\u00edses foram parte do Imp\u00e9rio Otomano e olham para o seu per\u00edodo de domina\u00e7\u00e3o como a \u00abIdade das Trevas\u00bb e da \u00abopress\u00e3o colonial\u00bb, o que os aproxima na sua desconfian\u00e7a face \u00e0s inten\u00e7\u00f5es da Turquia; ii) Kadafi conhece o Isl\u00e3o por dentro e sabe bem das ambi\u00e7\u00f5es do Isl\u00e3o pol\u00edtico (islamismo) relativamente \u00e0 Europa (as quais parecem irrealistas quando vistas da Europa\/Ocidente). Para al\u00e9m destes factores, a din\u00e2mica demogr\u00e1fica das popula\u00e7\u00f5es Mu\u00e7ulmanas envolventes (por exemplo, uma parte do problema do Kosovo e das reivindica\u00e7\u00f5es dos kosovares de autodetermina\u00e7\u00e3o\/independ\u00eancia, resulta do facto de ao longo da segunda metade do s\u00e9culo XX a sua taxa de crescimento demogr\u00e1fico, bastante superior \u00e0 dos s\u00e9rvios, os ter tornado esmagadoramente maiorit\u00e1rios na regi\u00e3o), especialmente a da Turquia, refor\u00e7a as apreens\u00f5es de inseguran\u00e7a gregas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quadro 4 \u2013 A evolu\u00e7\u00e3o comparativa da popula\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia e da Turquia (1950-2050)<\/strong><\/p>\n<table>\n<thead>\n<tr>\n<td width=\"86\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Estado<\/strong><\/td>\n<td width=\"74\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>1950<\/strong><strong>Milh\u00f5es\/hab.<\/strong><\/td>\n<td width=\"71\"><strong>\u00a0<\/strong><strong> 2005<\/strong><strong>Milh\u00f5es\/hab.<\/strong><\/td>\n<td width=\"78\"><strong>\u00a0<\/strong><strong> 2015*<\/strong><strong>Milh\u00f5es\/hab.<\/strong><\/td>\n<td width=\"83\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>2025*<\/strong><strong>Milh\u00f5es\/hab.<\/strong><\/td>\n<td width=\"74\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>2050*<\/strong><strong>Milh\u00f5es\/hab.<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/thead>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"86\">Gr\u00e9cia<\/td>\n<td width=\"74\">7 556<\/td>\n<td width=\"71\">11 120<\/td>\n<td width=\"78\">11 233<\/td>\n<td width=\"83\">11 173<\/td>\n<td width=\"74\">10 742<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"86\">Turquia<\/td>\n<td width=\"74\">21 484<\/td>\n<td width=\"71\">73 193<\/td>\n<td width=\"78\">82 640<\/td>\n<td width=\"83\">90 565<\/td>\n<td width=\"74\">101 208<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Fonte: UN Population Division, <em>World Population Prospects: The 2004 Revision<\/em> (2005)<\/p>\n<p>*Projec\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o para os anos 2015, 2025 e 2050, respectivamente<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isto leva-nos agora \u00e0s rela\u00e7\u00f5es externas da Gr\u00e9cia com os seus Estados vizinhos: Alb\u00e2nia, Maced\u00f3nia, Bulg\u00e1ria e Turquia. Come\u00e7ando pela Alb\u00e2nia. As rela\u00e7\u00f5es entre ambos os pa\u00edses s\u00e3o actualmente marcadas por v\u00e1rios factores conflituais herdados do passado. O mais conhecido \u00e9 a disputa pela parte da regi\u00e3o do Epiro situada em territ\u00f3rio alban\u00eas, que a Gr\u00e9cia considera ser um territ\u00f3rio hist\u00f3rico hel\u00e9nico que ainda hoje \u00e9 habitado por substanciais popula\u00e7\u00f5es gregas; por sua vez a Alb\u00e2nia nega as pretens\u00f5es territoriais da Gr\u00e9cia sobre esse territ\u00f3rio, que considera infundadas historicamente, apresentando tamb\u00e9m valores oficiais para a minoria grega muitos inferiores aos normalmente avan\u00e7ados por fontes gregas (ver quadro 1).<\/p>\n<p>Outro factor conflitual est\u00e1 relacionado com as recentes migra\u00e7\u00f5es albanesas para a Gr\u00e9cia, sobretudo ap\u00f3s o final da Guerra-Fria, onde representam a maioria dos cerca de 500.000 emigrantes Mu\u00e7ulmanos que se calcula residirem actualmente no pa\u00eds (fixados sobretudo em Atenas e Sal\u00f3nica). O colapso da Jugosl\u00e1via fez recuperar mem\u00f3rias dum passado n\u00e3o assim t\u00e3o distante, onde os albaneses pela sua religi\u00e3o maioritariamente Mu\u00e7ulmana e pelo valor militar como guerreiros, estavam bem integrados na elite dirigente otomana \u2013 os casos mais c\u00e9lebres s\u00e3o o de Ali Pax\u00e1 de Tapelen\u00eb, que teve o centro do seu poder em Ioannina (Joanina), e o de Mehmet (Muhammad) Ali Pax\u00e1, um alban\u00eas de Kavaj\u00eb (Kavaja) que foi <em>wali <\/em>(governador) do Egipto no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX e cujo filho Ibrahim Pax\u00e1 comandou a principal for\u00e7a militar otomana que tentou esmagar a revolta grego no Peloponeso (Moreia), que levaria \u00e0 independ\u00eancia da Gr\u00e9cia. Isto mistura-se com mem\u00f3rias hist\u00f3ricas mais recentes, da II Guerra Mundial, onde os Mu\u00e7ulmanos dos Balc\u00e3s foram, n\u00e3o invulgarmente, aliados da Alemanha nazi contra s\u00e9rvios e gregos e com o regime comunista de autarcia quase paran\u00f3ica do l\u00edder alban\u00eas, Enver Hoxha.<\/p>\n<p>Passando agora \u00e0s rela\u00e7\u00f5es com a Maced\u00f3nia. Quando a Rep\u00fablica Socialista da Maced\u00f3nia abandonou a Jugosl\u00e1via federal em 1991, a generalidade dos europeus\/ocidentais ficou surpreendida pela tenacidade da oposi\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia ao reconhecimento do novo Estado como \u00abRep\u00fablica da Maced\u00f3nia\u00bb. Aquilo que visto sob o olhar ocidental deveria ser uma querela menor, de contornos quase acad\u00e9micos, na Gr\u00e9cia atingiu propor\u00e7\u00f5es enormes, ao ponto de ter dado origem \u00e0s maiores manifesta\u00e7\u00f5es de massas do pa\u00eds, ap\u00f3s a reintrodu\u00e7\u00e3o da democracia liberal em 1974, que sucedeu \u00e0 deposi\u00e7\u00e3o do governo da junta militar. Mas porqu\u00ea este \u00abhisterismo nacionalista\u00bb dos gregos em torno de um nome? As raz\u00f5es mais uma vez s\u00e3o profundas e algo estranhas para quem esta fora do espa\u00e7o cultural hel\u00e9nico. Desde logo vale a pena aqui lembrar que os desentendimentos na partilha da Maced\u00f3nia, conquistada por s\u00e9rvios, gregos e b\u00falgaros aos otomanos na primeira guerra balc\u00e2nica de 1912-1913, foram o principal motivo da segunda guerra balc\u00e2nica, desencadeada alguns meses depois do fim da primeira, e onde a Bulg\u00e1ria se viu isolada e derrotada nas suas ambi\u00e7\u00f5es sobre a Maced\u00f3nia (todavia, os atritos estiveram longe de se restringir a gregos e a b\u00falgaros, existindo outras pretens\u00f5es, como a dos eslavos Ortodoxos da regi\u00e3o, de criarem j\u00e1 na altura uma Maced\u00f3nia independente). Por outro lado, importa ter em conta que, em regi\u00f5es como os Balc\u00e3s, a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um mero conhecimento relegada para o foro da academia, como \u00e9 normalmente o caso da Europa (Ocidental), mas tamb\u00e9m uma poderosa arma pol\u00edtica que sustenta discursos de teor nacionalista e ambi\u00e7\u00f5es irredentistas. Assim sendo, a utiliza\u00e7\u00e3o da palavra \u00abMaced\u00f3nia\u00bb foi vista n\u00e3o s\u00f3 como uma tentativa de usurpa\u00e7\u00e3o de um legado cultural hel\u00e9nico, como, pior do que isso, um primeiro passo para prov\u00e1veis reivindica\u00e7\u00f5es territoriais sobre a Maced\u00f3nia grega. O facto de o facto de o novo Estado independente adoptar como s\u00edmbolo nacional, na sua bandeira, o chamado \u00absol de Vergina\u00bb, ainda agravou mais esta percep\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a. Isto porque este tem um poder simb\u00f3lico grande: trata-se de um desenho encontrado em 1977 naquele que se julga ser o t\u00famulo de Filipe II da Maced\u00f3nia \u2013 o pai do m\u00edtico Alexandre Magno \u2013 na cidade de Vergina, na Maced\u00f3nia grega.<\/p>\n<p>Vamos agora analisar as rela\u00e7\u00f5es com a Bulg\u00e1ria. Importa aqui dizer que, neste momento, n\u00e3o h\u00e1 propriamente lit\u00edgios geopol\u00edticos em aberto entre os dois pa\u00edses (pelo menos da maneira como existem com os outros Estados vizinhos). Todavia, h\u00e1 um certo receio latente na Gr\u00e9cia sobre o \u00abinimigo b\u00falgaro\u00bb, associado quer \u00e0s j\u00e1 referidas mem\u00f3rias hist\u00f3ricas das disputas sobre a partilha da Maced\u00f3nia otomana, quer ao facto de a Tr\u00e1cia ocidental ter sido b\u00falgara entre 1912-1923, antes de ser entregue \u00e0 Gr\u00e9cia pelo Tratado de Lausana. A isto junta-se naturalmente a mem\u00f3ria mais recente do \u00abperigo comunista\u00bb b\u00falgaro durante a Guerra-Fria (dos Estados lim\u00edtrofes da Gr\u00e9cia, a Bulg\u00e1ria era o \u00fanico pa\u00eds membro do antigo Pacto de Vars\u00f3via). Actualmente, a perspectiva de ades\u00e3o da Bulg\u00e1ria \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, que dever\u00e1 concretizar-se em 2007, tende, por sua vez, a melhorar esta rela\u00e7\u00e3o de desconfian\u00e7a cr\u00f3nica.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, vamos analisar as rela\u00e7\u00f5es com a Turquia, as quais s\u00e3o as mais complexas e as mais problem\u00e1ticas e que tendem a ser mais exasperantes para os restantes membros da UE e da NATO. Aqui, os pontos de conflito geopol\u00edtico s\u00e3o in\u00fameros e de natureza diversificada. Desde logo h\u00e1 as quest\u00f5es territoriais associadas \u00e0 delimita\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio mar\u00edtimo e do espa\u00e7o a\u00e9reo no Mar Egeu. A Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas Sobre o Direito do Mar \u2013 realizada em Montego Bay, a 10 de Dezembro de 1982 \u2013 permitiu, por princ\u00edpio, aos Estados ribeirinhos o alargamento das \u00e1guas territoriais at\u00e9 \u00e0s 12 milhas mar\u00edtimas. A Gr\u00e9cia invocando essa conven\u00e7\u00e3o internacional sustenta a aplicabilidade desse direito em todo o seu territ\u00f3rio ribeirinho, incluindo as ilhas do Mar Egeu. Por sua vez, a Turquia contesta essa pretens\u00e3o considerando estar-se perante uma das excep\u00e7\u00f5es a essa conven\u00e7\u00e3o. Para alem disso, contrap\u00f5e que a Conven\u00e7\u00e3o de Montreux (1936), anteriormente assinada pelos dois pa\u00edses acordava um limite de 6 milhas mar\u00edtimas para o caso das ilhas do Mar Egeu, o qual continua a ter validade entre ambas as partes. Mais ou menos associada a esta quest\u00e3o est\u00e1 o problema da remilitariza\u00e7\u00e3o das ilhas do Mar Egeu oriental, as quais se encontram j\u00e1 bastante pr\u00f3ximas da costa da Turquia. A j\u00e1 referida Conven\u00e7\u00e3o de Montreux \u2013 no contexto hist\u00f3rico dos anos 30 do s\u00e9culo XX, em que a amea\u00e7a percebida por ambos os pa\u00edses eram as ambi\u00e7\u00f5es expansionistas da It\u00e1lia de Mussolini \u2013, autorizou a remilitariza\u00e7\u00e3o dos Estreitos o que foi feito pela Turquia na Pen\u00ednsula de Galipoli (Gelibolu), nos Dardanelos e no B\u00f3sforo, bem como nas ilhas de Imbros (Imroz\/G\u00f6k\u00e7eada) e de Tenedos (Bozcaada), que se encontram \u00e0 entrada\/sa\u00edda desses mesmos Estreitos; por sua vez, a Gr\u00e9cia remilitarizou tamb\u00e9m as ilhas de Lemnos e de Samotr\u00e1cia, pr\u00f3ximas dos mesmos.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos 60, com o desencadear da disputa sobre Chipre, a Gr\u00e9cia procedeu tamb\u00e9m \u00e0 remilitariza\u00e7\u00e3o progressiva das ilhas do Dodecaneso (Egeu oriental), que a Turquia considerou ser uma viola\u00e7\u00e3o do Tratado de Lausana e da Conven\u00e7\u00e3o de Montreux. Mais recentemente, em 1996, o conflito evoluiu para uma disputa sobre a soberania de algumas pequenas ilhas e ilhotes do Mar Egeu. O caso mais conhecido, at\u00e9 porque colocou os dois pa\u00edses \u00e0 beira do conflito militar, foi o da disputa sobre Imia (Kardak), onde uma mediatiza\u00e7\u00e3o sensacionalista-nacionalista \u2013 o canal de televis\u00e3o grego <em>Antenna 1<\/em> e o jornal turco <em>H\u00fcrriyet<\/em> tiveram responsabilidades importantes na escalada do conflito \u2013 de um banal incidente com um barco da marinha mercante turca que precisou de ser rebocado, provocou uma grave crise diplom\u00e1tica nas rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses, a qual suscitou mesmo a interven\u00e7\u00e3o directa do Presidente dos EUA, William (Bill) Clinton.<\/p>\n<p>Outro problema que desde meados dos anos 50 do s\u00e9culo XX agita cronicamente as rela\u00e7\u00f5es entre a Gr\u00e9cia e a Turquia \u00e9 a quest\u00e3o de Chipre, a qual j\u00e1 colocou por mais de uma vez os dois pa\u00edses pr\u00f3ximos da confronta\u00e7\u00e3o militar. A crise mais grave ocorreu no Ver\u00e3o de 1974 e est\u00e1 directamente na origem da actual divis\u00e3o <em>de facto<\/em> da ilha, quando a Turquia, ap\u00f3s uma tentativa de <em>enosis <\/em>da ilha com a Gr\u00e9cia desencadeada por Nikos Sampson, decidiu invadir o Norte da ilha de Chipre \u2013 uma \u00abopera\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria\u00bb, na linguagem diplom\u00e1tica do governo turco \u2013, onde actualmente se mant\u00e9m com mais de 30.000 efectivos no terreno. Daqui resultou a cria\u00e7\u00e3o <em>de facto<\/em> da Rep\u00fablica Turca do Norte de Chipre, em 1983, Estado que <em>de iure<\/em> s\u00f3 \u00e9 reconhecido pela pr\u00f3pria Turquia. Entre os muitos factores que dificultam a resolu\u00e7\u00e3o do conflito entre as comunidades cipriota-grega e cipriota-turca, percebidas, reciprocamente, como \u00abguardas avan\u00e7adas\u00bb de uma confronta\u00e7\u00e3o mais vasta, vale a pena chamar a aten\u00e7\u00e3o para um aspecto que normalmente passa quase despercebido: a \u00abgenerosa\u00bb pol\u00edtica de concess\u00e3o da cidadania cipriota-turca aos turcos da Turquia, bem conhecida no resto da ilha de Chipre e na Gr\u00e9cia, onde \u00e9 vista como uma tentativa de coloniza\u00e7\u00e3o, para criar novas realidade demogr\u00e1ficas e pol\u00edticas no terreno (calcula-se que dos mais de 200.000 habitantes que ter\u00e1 actualmente o Norte da ilha, metade dos mesmos sejam colonos turcos vindos da Anat\u00f3lia ou seus descendentes).<\/p>\n<p>Um outro aspecto que tamb\u00e9m se cruza negativamente nas rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses \u00e9 a quest\u00e3o curda e aquilo a que um diplomata turco chamou a \u00abcoliga\u00e7\u00e3o de dois Estados e meio\u00bb contra o seu pa\u00eds (os dois Estados s\u00e3o a S\u00edria e a Gr\u00e9cia e o \u00abmeio Estado\u00bb \u00e9 o Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o\/PKK de Abdullah \u00d6calan). Na \u00f3ptica turca, os gregos voltaram nos anos 80\/90 a por em pr\u00e1tica uma velha estrat\u00e9gia pol\u00edtico-militar dos tempos da guerra da independ\u00eancia da Turquia (1919-1922), quando as suas tropas invadiram a \u00c1sia Menor e ocuparam a regi\u00e3o de Esmirna. Nessa altura, os gregos em conluio com as pot\u00eancias ocidentais ter\u00e3o tentado sublevar os curdos contra os seus \u00abirm\u00e3os\u00bb Mu\u00e7ulmanos (turcos), sem grande sucesso. A tese do apoio do Estado grego, ou, pelo menos, de alguns \u00f3rg\u00e3os deste ao PKK acabou por adquirir credibilidade quando, em in\u00edcios de 1999, o l\u00edder curdo Abdullah \u00d6calan foi capturado pelos servi\u00e7os secretos turcos, em colabora\u00e7\u00e3o com os servi\u00e7os de informa\u00e7\u00f5es dos EUA, \u00e0 sa\u00edda da embaixada grega, em Nairobi, no Qu\u00e9nia. Este facto gerou uma nova crise diplom\u00e1tica nas rela\u00e7\u00f5es entre a Gr\u00e9cia e a Turquia, tendo levado mesmo \u00e0 demiss\u00e3o do Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros do governo formado pelo Movimento Socialista Pan-Hel\u00e9nico\/PASOK, Theodoros Pangalos, sendo substitu\u00eddo por Georgios Papandreou, o qual passou a adoptar uma linha de pol\u00edtica externa mais conciliadora.<\/p>\n<p>H\u00e1 um aspecto importante da conflitualidade greco-turca, n\u00e3o invulgarmente subestimado nas an\u00e1lises ocidentais, que \u00e9 o dos direitos do Patriarca Ecum\u00e9nico da Igreja Ortodoxa grega, residente em Constantinopla\/Istambul. Se os seus direitos ficaram (teoricamente) salvaguardados pelo Tratado de Lausana, a verdade \u00e9 que o estado turco n\u00e3o se coibiu de implementar medidas que, aberta ou dissimuladamente, n\u00e3o s\u00f3 limitam na pr\u00e1tica as suas actividades, como provavelmente ter\u00e3o o intuito de provocar a \u00abmorte lenta\u00bb dessa institui\u00e7\u00e3o. Assim, um aspecto curioso desta quest\u00e3o \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que o Estado turco faz do Patriarcado Ecum\u00e9nico da Igreja Ortodoxa grega. Por um lado, conforme j\u00e1 vimos, o seu desaparecimento a prazo de Constantinopla\/Istambul parece ser o grande objectivo, obviamente n\u00e3o assumido. Por outro lado, a sua presen\u00e7a serve os interesses actuais da pol\u00edtica externa do pa\u00eds, pois permite dar credibilidade \u00e0 imagem externa de um Estado que se apresenta como tolerante, moderado e \u00abmulticulturalista\u00bb (n\u00e3o \u00e9 por acaso que nas cerim\u00f3nias de recep\u00e7\u00e3o a dignit\u00e1rios europeus\/ocidentais o Patriarca grego e grande Rabi judaico s\u00e3o presen\u00e7as ass\u00edduas). O que j\u00e1 poucos diplomatas e estadistas europeus parecem saber \u00e9 que os Crist\u00e3os em solo da Turquia, tal como os Judeus \u2013 os outros \u00abPovos do Livro\u00bb na express\u00e3o agora em moda na Europa, emprestada pela teologia mu\u00e7ulmana \u2013, s\u00e3o uma esp\u00e9cie cada vez mais rara, n\u00e3o existindo mais do que umas escassas dezenas de milhar, dos cerca de 1, 5 milh\u00f5es que existiam no in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Aqui verifica-se uma coisa interessante. A j\u00e1 referida ret\u00f3rica do actual governo turco, formado pelos quadros do partido de ra\u00edzes conservadoras-islamistas do Partido da Justi\u00e7a e do Desenvolvimento\/AKP, de Recep Tayyip Erdo\u011fan e Abdullah Gul, que se esfor\u00e7am por apresentar a Turquia como \u00abponte entre o Ocidente e o Oriente\u00bb, como pe\u00e7a fundamental para evitar o \u00abconflito de civiliza\u00e7\u00f5es\u00bb e como \u00abelemento estabilizador dos Balc\u00e3s e do M\u00e9dio Oriente\u00bb, parece impressionar favoravelmente l\u00edderes europeus\/ocidentais como o ex-chanceler alem\u00e3o Gerard Schr\u00f6der e Anthony (Tony) Blair. Todavia, enfrenta, em graus vari\u00e1veis, cepticismo e desconfian\u00e7a nos pa\u00edses Ortodoxos (\u00e9 esse o caso da Gr\u00e9cia, apesar da sua recente abertura \u00e0 ades\u00e3o turca) e nos pa\u00edses \u00c1rabes (pelo menos no caso da L\u00edbia de Muammar Kadafi). As raz\u00f5es s\u00e3o mais ou menos \u00f3bvias se tentarmos olhar para as ambi\u00e7\u00f5es \u00abeuropeias\u00bb da Turquia, a partir de um olhar grego (ou at\u00e9 \u00e1rabe). A (re)entrada da Turquia na Europa surge como uma esp\u00e9cie de \u00abregresso ao passado\u00bb: o antigo \u00abcolonizador\u00bb tem ambi\u00e7\u00f5es neo-imperiais de (re)conquistar a \u00abTurquia da Europa\u00bb (nome dado no s\u00e9culo XIX, aos territ\u00f3rios otomanos nos Balc\u00e3s), ao n\u00edvel da influ\u00eancia cultural, religiosa e pol\u00edtica. Indo at\u00e9 mais longe nesta ambi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da Turquia, esta procurar\u00e1, atrav\u00e9s da sua integra\u00e7\u00e3o na Europa, tornar-se <em>de iure<\/em> ou <em>de facto<\/em> numa esp\u00e9cie de \u00abEstado protector\u00bb dos 12 a 15 milh\u00f5es de Mu\u00e7ulmanos da Europa Ocidental, dos quais mais de 3,5 milh\u00f5es s\u00e3o de origem turca. Por absurda que esta ideia possa parecer aos olhares ocidentais, a verdade \u00e9 que esta ganha alguma credibilidade quando vista sob o prisma da experi\u00eancia hist\u00f3rica da Gr\u00e9cia e dos restantes povos Ortodoxos que estiverem submetidos ao Imp\u00e9rio Otomano (ali\u00e1s, n\u00e3o tiveram j\u00e1 eles tamb\u00e9m um \u00abEstado protector\u00bb da Ortodoxia, numa altura em que eram s\u00fabditos otomanos, quando a R\u00fassia czarista imp\u00f4s esse direito pelo Tratado de K\u00fc\u00e7\u00fck-Kaijnardja, em 1774?).<\/p>\n<p>Esta percep\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m alimentada pela atitude da Turquia face \u00e0 minoria Mu\u00e7ulmana grega, de 120.000 a 140.000 pessoas \u2013 que esta considera como sendo \u00abturca\u00bb \u2013, a qual se assemelha \u00e0 de um \u00abprotector\u00bb que evoca \u00e0s memorias hist\u00f3ricas referidas. De facto, tem existido da parte dos sucessivos governos turcos um esfor\u00e7o de revivalismo cultural do passado otomano, vis\u00edvel ao n\u00edvel do terreno pelos esfor\u00e7os diplomatas do consulado de Komotini. Por outro lado, quando um dos l\u00edderes dos Mu\u00e7ulmanos gregos, Ahmet Sadik, decidiu criar um partido comunit\u00e1rio Mu\u00e7ulmano\/\u00abturco\u00bb, na transi\u00e7\u00e3o dos anos 80 para aos anos 90, teve o apoio entusi\u00e1stico de alguns partidos na Turquia, bem como da generalidade da imprensa turca. A resposta do governo da Gr\u00e9cia, na altura chefiado por Konstantinos Mitsotakis da Nova Democracia, foi dr\u00e1stica: o seu governo fez aprovar no Parlamento uma altera\u00e7\u00e3o \u00e0 Lei Eleitoral, criando um patamar m\u00ednimo de 3% dos sufr\u00e1gios a n\u00edvel nacional, para um partido poder ter representa\u00e7\u00e3o parlamentar. O resultado nas elei\u00e7\u00f5es seguintes foi que dos tr\u00eas habituais deputados Mu\u00e7ulmanos que normalmente eram eleitos nas listas do PASOK e da Nova Democracia nenhum foi eleito&#8230; (este \u00e9 uma medida tamb\u00e9m bem conhecida da Turquia, onde a respectiva Lei Eleitoral imp\u00f5e a obten\u00e7\u00e3o de pelo menos 10% dos sufr\u00e1gios a n\u00edvel nacional, para um partido poder obter representa\u00e7\u00e3o parlamentar \u2013 o alvo neste caso \u00e9 a minoria curda).<\/p>\n<p>6. Nos Balc\u00e3s e na Turquia as minorias \u00e9tnicas e religiosas acabam por ter um papel importante nas estrat\u00e9gias de pol\u00edtica interna e externa dos Estados, das quais muitas vezes s\u00e3o as primeiras v\u00edtimas. A Gr\u00e9cia e a Turquia entregaram-se ao longo do s\u00e9culo XX a um jogo competitivo perverso, com o objectivo de se livrarem das respectivas minorias e de apagarem os restos de um passado religioso inc\u00f3modo para a sua identidade nacional. O abandono e as dificuldades que recupera\u00e7\u00e3o a que est\u00e3o votadas as Igrejas Ortodoxas gregas e arm\u00e9nias que ficaram em territ\u00f3rio turco, bem como as mesquitas que os otomanos deixaram em territ\u00f3rio grego, s\u00e3o o melhor prova factual dessas pol\u00edticas. Nesse jogo com contornos maquiav\u00e9licos, se exceptuarmos o caso dos curdos, a Turquia foi melhor sucedida pois a minoria Ortodoxa grega actualmente \u00e9 residual. A isto n\u00e3o \u00e9 certamente estranho o car\u00e1cter autorit\u00e1rio e militarista da Rep\u00fablica fundada por Mustafa Kemal (Atat\u00fcrk), nem a \u00abreislamiza\u00e7\u00e3o\u00bb lentamente efectuada a partir dos anos 50 do s\u00e9culo XX, com o acesso ao poder do Partido Democr\u00e1tico de Adnan Menderes. No caso da Gr\u00e9cia, ultrapassada a instabilidade pol\u00edtica que sucedeu \u00e0 guerra civil (1946-1949) nas d\u00e9cadas de 50 e 60, cujo culminar acabou por ser o per\u00edodo ditatorial de 1967-1974, a democracia liberal parece bem consolidada, o que certamente foi um entrave \u00e0 prossecu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas repressivas sobre a inc\u00f3moda minoria Mu\u00e7ulmana da Tr\u00e1cia ocidental (o que n\u00e3o impede que os sectores mais nacionalistas gregos a vejam como o \u00abinimigo interno\u00bb).<\/p>\n<p>Face a todo este historial de atritos, simultaneamente recente e antigo, a d\u00favida que fica \u00e9 se as rela\u00e7\u00f5es greco-turcas entraram definitivamente numa nova fase, a partir de finais de 1999, quando a Gr\u00e9cia deixou de fazer obstru\u00e7\u00e3o \u00e0 candidatura da Turquia \u00e0 UE, ap\u00f3s uma curiosa aproxima\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica entre Georgios Papandreou e Ismail Cem \u2013 a chamada \u00abdiplomacia dos sismos\u00bb, por refer\u00eancia aos dram\u00e1ticos tremores de terra que afectaram sucessivamente os dois pa\u00edses, no Ver\u00e3o desse mesmo ano. A d\u00favida que fica tamb\u00e9m \u00e9 se esta linha diplom\u00e1tica cooperativa \u2013 a qual retomou a aproxima\u00e7\u00e3o iniciada na d\u00e9cada anterior por Turgut \u00d6zal e Andreas Papandreou, em Davos, na Su\u00ed\u00e7a, na altura do F\u00f3rum Econ\u00f3mico Mundial de 1988 \u2013, e que entretanto foi interrompida por diversos incidentes conflituais, aponta para uma solu\u00e7\u00e3o duradoura dos conflitos geopol\u00edticos, ou, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o ser\u00e1 mais do que um transit\u00f3rio bom relacionamento, similar ao que ocorreu na d\u00e9cada de 30 do s\u00e9culo XX, entre Eleftherios Venizelos e Mustafa Kemal (Atat\u00fcrk).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Dimitri Kitsikis, \u00abLes Anciens Calendaristes depuis 1923 et la mont\u00e9e de l\u00b4 integrisme en Gr\u00e8ce\u00bb in <em>Cahiers d\u00b4 \u00e9tudes sur la Mediterran\u00e9e orientale et le monde turco-iranien<\/em>, n\u00ba 17, Janvier-Juin 1994, pag. 1 (texto dispon\u00edvel <em>on-line<\/em> em http:\/\/www.ceri-sciencespo.com\/publica\/cemoti\/textes17\/kitsikis.pdf).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ver, entre outros, Jean-Baptiste Duroselle, <em>Hist\u00f3ria da Europa<\/em> (trad. port. de Histoire de l&#8217; Europe), Lisboa, C\u00edrculo de Leitores\/Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote, 1990.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Essa linha anal\u00edtica predominantemente a-hist\u00f3rica pode-se encontrar, por exemplo, no livro de Ian Lesser <em>et al<\/em>.<em>, Greece\u00b4s New Geopolitics<\/em>, Santa Monica CA, Rand, 2001.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Dimitri Kitsikis, <em>O Imp\u00e9rio Otomano<\/em> (trad. port. de <em>L &#8216;Empire Ottoman<\/em>, 1994), Porto, R\u00e9s-Editora, 2000.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Gilles Bertrand, <em>Le conflit hell\u00e9no-turc<\/em>, Paris, Maisonneuve &amp; Larose\/IFEA, 2003, pp. 10-11.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Samuel P. Huntington, <em>O Choque das Civiliza\u00e7\u00f5es e a Mudan\u00e7a na Ordem Mundial<\/em> (trad. port de The Clash of Civilizations. Remaking of World Order, 1996), Gradiva, 1999, pag. 190.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Dimitri Kitsikis, \u00abLes Anciens Calendaristes depuis 1923 et la mont\u00e9e de l&#8217; integrisme en Gr\u00e8ce\u00bb, pag. 29.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Dimitri Kitsikis, <em>op. cit. ant<\/em>., pp. 20-21.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Numa escolha que denotava um h\u00e1bil intuito pol\u00edtico-estrat\u00e9gico de perpetuar o cisma entre a Cristandade Oriental e a Ocidental, como faz notar o historiador David Brewer em <em>The Greek War of Independence. The Struggle for Freedom from Ottoman Oppression and the Birth of Modern Greek Nation<\/em>, Woodstock-New York, The Overlook Press, 2003, pag. 4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Dimitri Kitsikis, <em>op. cit. ant<\/em>., pag. 3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Dimitri Kitsikis, <em>O Imp\u00e9rio Otomano<\/em>, pag. 149.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Nikos Chrysolaras, <em>Orthodoxy and Greek National Identity. An analysis of Greek Nationalism in light of A. D. Smith\u00b4s Theoretical Framework<\/em>, texto do artigo dispon\u00edvel <em>on-line<\/em> em http:\/\/www.ksg.harvard.edu\/kokkalis\/GSW7\/GSW%206\/Nikos%20Chrysoloras%20Paper.pdf, pag. 13.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Nikos Chrysolaras, <em>op. cit. ant.<\/em>, pag. 14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Nikos Chrysolaras, <em>ibidem.<\/em>, pag. 14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Jos\u00e9 Casanova, <em>Public Religions in the Modern World<\/em>, citado por Nikos Chrysolaras, <em>ibidem.<\/em>, pag. 14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Nikos Chrysolaras, <em>ibidem.<\/em>, pag. 15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Ver texto oficial em l\u00edngua inglesa da actual Constitui\u00e7\u00e3o de 1975, com as revis\u00f5es de 1986 e 2001, que \u00e9 disponibilizado pelo Parlamento grego em http:\/\/www.parliament.gr\/english\/politeuma\/syntagma.pdf<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Nikos Chrysolaras, <em>ibidem.<\/em>, pag. 17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Ver CIA 2005<em> World Factbook<\/em> em http:\/\/www.cia.gov\/cia\/publications\/factbook\/geos\/gr.html<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> \u00c9tienne Copeaux<em>, Une vision turque du monde \u00e0 travers les cartes de 1931 \u00e0 nos jours<\/em>, Paris, CNRS \u00c9ditions, 2000, pp. 133-134. Sobre a identidade nacional turca e a sua evolu\u00e7\u00e3o ver tamb\u00e9m Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, <em>Turquia. Metamorfoses de Identidade<\/em>, Lisboa, ICS-Imprensa de Ci\u00eancias Sociais, 2005.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> C. M. Woodhouse, <em>Modern Greece. A Short History<\/em>, Londres, Faber &amp; Faber, 1968, 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o 1991. Ver em especial o mapa da p\u00e1gina 174, onde s\u00e3o mostrados os incrementos territoriais do territ\u00f3rio da Gr\u00e9cia, desde 1832 at\u00e9 1947.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Ioannis Kapodistrias (ou Giovanni Capo d\u00b4Istria na vers\u00e3o em italiano), nasceu em 1776, na ilha j\u00f3nica de Corfu, que na altura era uma possess\u00e3o da Rep\u00fablica de Veneza. Foi o primeiro Presidente\/Governador da Gr\u00e9cia moderna (1827-1831), tendo assumido essas fun\u00e7\u00f5es ap\u00f3s a derrota da frota otomana em Navarino, imposta pela ac\u00e7\u00e3o conjunta da marinha brit\u00e2nica, francesa e russa, que deixaram a Gr\u00e9cia numa situa\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia <em>de facto<\/em> face ao poder otomano. Entre 1809 e 1822 esteve ao servi\u00e7o do czar Alexandre I da R\u00fassia, tendo desempenhado um papel importante nas negocia\u00e7\u00f5es do Congresso de Viena (1815) e ocupado posteriormente o cargo de Ministro de Neg\u00f3cios Estrangeiros da R\u00fassia, do qual abdicou para se envolver activamente na causa da funda\u00e7\u00e3o de um Estado nacional grego, libertado da tutela otomana. Foi assassinado em 1831 em Nafplio (Nauplio), a primeira capital da Gr\u00e9cia moderna.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Sobre os sofrimentos do Mu\u00e7ulmanos otomanos com o retrocesso da <em>dar-al Islam<\/em> nos Balc\u00e3s ver o livro do historiador norte-americano da Universidade de Louisville, Justin McCarthy <em>Death and Exile. The Ethnic Cleansing of Ottoman Muslims, 1821-1922<\/em>, Princeton-Nova Jersey, The Darwin Press, 1995. Este autor \u00e9 sobretudo conhecido pelas suas teses pro-turcas de nega\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio dos arm\u00e9nios otomanos durante a I Guerra Mundial.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Erik-Jan Z\u00fcrcher, <em>Greek and Turkish refugees and deportees 1912-1924<\/em>, www.let.leidenuniv.nl\/tcimo\/tulp\/Research\/ejz18.htm<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> Ver a tese de doutoramento apresentada \u00e0 Universidade de Oxford pelo diplomata brit\u00e2nico Michael Llewellyn Smith, <em>Ionian Vision. Greeece in Asia Minor 1919-1922<\/em>, Londres, Hurst &amp; Company, 1973, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 controv\u00e9rsia hist\u00f3rica sobre a autoria turca ou grega do inc\u00eandio de Esmirna (Izmir) ver o livro de Marjorie Housepian Dobkin, <em>Smyrna 1922. The Destruction of a City<\/em>, Nova Iorque, Newmark Press, 1971, 3\u00aa ed. 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> Erik-Jan Z\u00fcrcher, <em>op. cit. ant<\/em>., pag. 3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> A Organiza\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia Isl\u00e2mica tem 57 membros (entre os quais se encontra um antiga col\u00f3nia portuguesa, a Guin\u00e9-Bissau) e actualmente \u00e9 presidida pelo professor de hist\u00f3ria e cultura isl\u00e2mica turco, Ekmeleddin Ihsanoglu, ap\u00f3s uma aposta diplom\u00e1tica bem sucedida do governo conservador-islamita de Recep Tayyip Erdo\u011fan.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> Ver <em>Turkey, Europe &amp; Bin Ladens<\/em>, texto dispon\u00edvel no <em>site <\/em>oficial de Muammar (Gadafi) Kadafi na Internet em http:\/\/www.algathafi.org\/turky\/turki-en.htm<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo publicado originalmente sob o t\u00edtulo &#8220;A Gr\u00e9cia Moderna e o Ocidente&#8221; in Hist\u00f3ria n\u00ba 87 junho (2006): 24-41. \u00daltima revis\u00e3o 12\/06\/2015<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1197\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\" alt=\"dom\u00ednio p\u00fablico\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a>\u00a0Imagem: mapa (dom\u00ednio p\u00fablico \/ Wikipedia) representando a regi\u00e3o interm\u00e9dia, segundo Dimitri Kitsikis<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em todos os meus escritos, e de uma maneira sistem\u00e1tica depois de 1967, esforcei-me por provar que a Gr\u00e9cia fazia parte da grande fam\u00edlia dos pa\u00edses n\u00e3o ocidentais. Com este fim criei os conceitos de \u00abregi\u00e3o interm\u00e9dia\u00bb (regi\u00e3o de civiliza\u00e7\u00e3o, incluindo a Gr\u00e9cia, na Eur\u00e1sia, entre o Ocidente e o Oriente), de \u00abpartido oriental\u00bb, opondo-se &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/a-grecia-entre-a-regiao-intermedia-e-o-ocidente\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;A Gr\u00e9cia entre a Regi\u00e3o Interm\u00e9dia e o Ocidente&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,52],"tags":[48,51,72,49],"class_list":["post-1750","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-cientificos","tag-grecia","tag-imperio-otomano","tag-ocidente","tag-turquia","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1750","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1750"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1750\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1750"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1750"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1750"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}