{"id":1771,"date":"2015-06-05T22:26:13","date_gmt":"2015-06-05T22:26:13","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1771"},"modified":"2015-06-14T12:46:36","modified_gmt":"2015-06-14T12:46:36","slug":"o-fim-do-imperio-otomano-e-a-troca-de-populacoes-entre-a-grecia-e-a-turquia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/o-fim-do-imperio-otomano-e-a-troca-de-populacoes-entre-a-grecia-e-a-turquia\/","title":{"rendered":"O fim do Imp\u00e9rio Otomano e a troca de popula\u00e7\u00f5es entre a Gr\u00e9cia e a Turquia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Twice-A-Stranger.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1820\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Twice-A-Stranger.jpg\" alt=\"Twice A Stranger\" width=\"394\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Twice-A-Stranger.jpg 394w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Twice-A-Stranger-197x300.jpg 197w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Twice-A-Stranger-370x563.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Twice-A-Stranger-381x580.jpg 381w\" sizes=\"auto, (max-width: 394px) 100vw, 394px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>A consequ\u00eancia desta solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica<em> sui generis<\/em> foi que entre 1,2 milh\u00f5es a 1,4 milh\u00f5es de \u00abgregos\u00bb tiveram de abandonar as suas casas e propriedades na rec\u00e9m fundada Rep\u00fablica da Turquia, deslocando-se para o territ\u00f3rio da Gr\u00e9cia, que teve de gerir um incremento de 22% a 25% da sua popula\u00e7\u00e3o. Por seu lado, cerca de 400.000 \u00abturcos\u00bb (sobretudo popula\u00e7\u00f5es dos territ\u00f3rios da parte Norte da Gr\u00e9cia, conquistados nas guerras balc\u00e2nicas de 1912-1913, mas tamb\u00e9m de Creta) tiveram deixar as suas casas e propriedades na Gr\u00e9cia e a deslocar-se para a Turquia [&#8230;].<\/p><\/blockquote>\n<p>1. \u00c9 no longo processo hist\u00f3rico que levou \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Otomano e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dos Estados-Na\u00e7\u00e3o nos Balc\u00e3s e na Anat\u00f3lia, entre os in\u00edcios s\u00e9culo XIX e as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, que se encontram as ra\u00edzes do problema que vamos abordar: a troca de popula\u00e7\u00f5es entre a Gr\u00e9cia e a Turquia, no quadro da Conven\u00e7\u00e3o e Tratado de Lausana, assinados em 30 de Janeiro e 23 Julho de 1923, respectivamente, sendo a Conven\u00e7\u00e3o o texto diplom\u00e1tico fundamental para este assunto<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Ironicamente, esta ferida traum\u00e1tica da mem\u00f3ria colectiva de gregos e turcos pode voltar a adquirir uma inesperada actualidade, com a perspectiva de ades\u00e3o da Turquia \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, pelas raz\u00f5es que veremos mais \u00e0 frente. Para a correcta compreens\u00e3o desta quest\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio efectuar uma retrospectiva hist\u00f3rica, ainda que breve, sobre a forma\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia e da Turquia modernas. Em ambos os casos, estamos a falar de processos hist\u00f3ricos complexos e mal conhecidos pelo europeu m\u00e9dio, o que n\u00e3o deixa de ser curioso, especialmente no caso da Gr\u00e9cia, dada a enorme influ\u00eancia da cultura grega da Antiguidade Cl\u00e1ssica na forma\u00e7\u00e3o da Europa e Ocidente.<\/p>\n<p>2. A exist\u00eancia de um Estado grego moderno pode parecer uma evid\u00eancia que n\u00e3o necessita de qualquer explica\u00e7\u00e3o, pois falar na Gr\u00e9cia evoca, automaticamente uma liga\u00e7\u00e3o mental \u00e0 Antiguidade Cl\u00e1ssica, \u00e0 Atenas de P\u00e9ricles e da democracia, \u00e0 Esparta guerreira a autocr\u00e1tica, ao or\u00e1culo de Delfos, aos deuses no Monte Olimpo, \u00e0 Maced\u00f3nia de Alexandre o Grande, etc. Todavia, basta pensar um pouco mais para se perceber o enorme hiato hist\u00f3rico entre a Gr\u00e9cia da Antiguidade e a Gr\u00e9cia moderna, uma realidade estadual que s\u00f3 surgiu no s\u00e9culo XIX. N\u00e3o cabe neste pequeno artigo reconstituir todos esses per\u00edodos hist\u00f3ricos, mas apenas analisar brevemente a Gr\u00e9cia \u00e0 qual foi reconhecida a independ\u00eancia face ao Imp\u00e9rio Otomano, que surgiu como Estado soberano pelo Tratado celebrado em Londres, em Maio de 1832. Importa recordar que o Estado grego moderno surgiu com menos de metade do territ\u00f3rio actual (basicamente era constitu\u00edda pelo Peloponeso\/Moreia, a \u00c1tica, a Eubeia e algumas ilhas pr\u00f3ximas como as ilhas Argo-Sar\u00f3nicas e as C\u00edclades). A configura\u00e7\u00e3o territorial<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> actual foi adquirida lentamente, ao longo do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, atrav\u00e9s dos seguintes incrementos territoriais: i) em 1864, as ilhas J\u00f3nicas, incluindo Corfu<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> \u2013 onde nasceu o primeiro Presidente\/Governador, Ioannis Kapodistrias \u2013, por ced\u00eancia da Gr\u00e3-Bretanha (a \u00fanica parte do territ\u00f3rio grego que nunca esteve submetida ao Imp\u00e9rio Otomano); ii) em 1881, o Norte da Gr\u00e9cia continental, passando a Tess\u00e1lia a fazer tamb\u00e9m parte do Estado grego; iii) j\u00e1 no s\u00e9culo XX, nas guerras balc\u00e2nicas de 1912-1913, foi conquista e anexada uma parte da Maced\u00f3nia, incluindo a cidade de Sal\u00f3nica, anexado o Sul do Epiro junto \u00e0 Alb\u00e2nia, e foi ainda efectuada a <em>enosis<\/em> (uni\u00e3o) da ilha de Creta com a Gr\u00e9cia (o que fez praticamente duplicar o territ\u00f3rio inicial de 1832); iv) os \u00faltimos ganhos territoriais foram, respectivamente, a Tess\u00e1lia, em 1923 (conquistado pela Bulg\u00e1ria aos otomanos em 1912), e as ilhas do Dodecaneso, literalmente \u00abdoze ilhas\u00bb (conquistadas pela It\u00e1lia aos otomanos em 1911), as quais passaram a fazer parte do territ\u00f3rio grego ap\u00f3s a derrota das pretens\u00f5es imperiais de Mussolini no Mediterr\u00e2neo oriental e a celebra\u00e7\u00e3o do Tratado de Paz com a It\u00e1lia, assinado em Paris (1947).<\/p>\n<p>Sendo o Estado grego moderno formado na guerra contra o multi\u00e9tnico e multireligioso Imp\u00e9rio Otomano \u2013 o opressor imperial\/colonial, cujo per\u00edodo de domina\u00e7\u00e3o de quatro s\u00e9culos foi a \u00abidade das trevas\u00bb \u2013, que crit\u00e9rio foi utilizado para saber quem era grego? Isto leva-nos, naturalmente, ao processo de forma\u00e7\u00e3o da identidade nacional. Na Europa Ocidental, as institui\u00e7\u00f5es pr\u00e9-modernas que mais contribu\u00edram para a forma\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional foram o Estado, o Ex\u00e9rcito e a Igreja. Todavia, no caso da Gr\u00e9cia, como n\u00e3o existia nem ex\u00e9rcito pr\u00e9-moderno, nem Estado pr\u00e9-moderno, devido o passado imperial otomano (s\u00e9culos XV a XIX), o peso da institui\u00e7\u00e3o Igreja (Ortodoxa) acabou por ser determinante. Desta forma, a identidade grega moderna surgiu, a partir do s\u00e9culo XIX, como um esfor\u00e7o de fus\u00e3o entre o passado Hel\u00e9nico da Antiguidade Cl\u00e1ssica e o Cristianismo Ortodoxo \u2013 originando o heleno-cristianismo \u2013, que forneceu o crit\u00e9rio de demarca\u00e7\u00e3o nacional face ao Imp\u00e9rio Otomano e as popula\u00e7\u00f5es balc\u00e2nicas e eslavas envolventes. Foi desta forma que o nacionalismo grego conseguiu concretizar, com sucesso, duas realiza\u00e7\u00f5es fundamentais: por um lado, ao enfatizar o elemento hel\u00e9nico da identidade grega, efectuou a diferencia\u00e7\u00e3o face a outros povos crist\u00e3os ortodoxos (maced\u00f3nios, s\u00e9rvios, b\u00falgaros, etc.); por outro lado, as concep\u00e7\u00f5es \u00abhelenizadas\u00bb da Na\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram capazes de comunicar com as massas. Estas estavam divididas \u00abem grupos \u00e9tnicos e lingu\u00edsticos fragmentados, muito poucos dos quais conseguiam entender a \u2018linguagem de Plat\u00e3o\u2018, apesar da maior parte usar dialectos hel\u00e9nicos\u00bb<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Por isso, a o Cristianismo Ortodoxo foi utilizado com um recurso cultural que estas podiam facilmente identificar, ou, pelo menos, mais facilmente do que a Gr\u00e9cia da Antiguidade Cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>3. \u00a0A actual Turquia \u00e9 herdeira e sucessora do Imp\u00e9rio Otomano pelo Tratado assinado em Lausana, a 23 de Julho de 1923. Mas que significa exactamente isso? Como surgiu o Estado turco moderno a partir de um Imp\u00e9rio que era multi\u00e9tnico, multirreligioso e multilingu\u00edstico? Qual o seu territ\u00f3rio nacional? Quem podia ser considerado turco? \u00c0 semelhan\u00e7a do que j\u00e1 vimos com a Gr\u00e9cia, a resposta \u00e9 dif\u00edcil e levanta quest\u00f5es bastante mais complexas do que poderia parecer \u00e0 primeira vista. A Rep\u00fablica da Turquia proclamada por Mustafa Kemal (mais tarde Atat\u00fcrk) a 29 de Outubro 1923, foi inspirada no ide\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e no ide\u00e1rio nacionalista t\u00edpico do s\u00e9culo XIX. O objectivo era romper com a tradi\u00e7\u00e3o anacr\u00f3nica do Imp\u00e9rio Otomano, acusada de estar na origem da decad\u00eancia da \u00abna\u00e7\u00e3o\u00bb turca. Apesar do enorme prest\u00edgio pol\u00edtico granjeado por Mustafa Kemal, interna e externamente, pela sua vit\u00f3ria naquilo que a historiografia turca chama a guerra da independ\u00eancia (1919-1922) e pelo seu projecto de Estado-Na\u00e7\u00e3o que, na Europa e Ocidente, foi percebido (algo simplisticamente), como simultaneamente modernizador e ocidentalizador, este deparou-se com um delicado problema de legitima\u00e7\u00e3o da Turquia no solo da Anat\u00f3lia. Porqu\u00ea uma Rep\u00fablica da Turquia na Anat\u00f3lia, quando o territ\u00f3rio tinha importantes popula\u00e7\u00f5es curdas, arm\u00e9nias e gregas, e estas \u00faltimas at\u00e9 viviam a\u00ed desde a Antiguidade? Como facilmente se percebe, esta \u00e9 uma quest\u00e3o revestida de complexidade hist\u00f3rica e de import\u00e2ncia geopol\u00edtica. Note-se ainda que o desmembramento do Imp\u00e9rio, nos anos subsequentes ao final da I Guerra Mundial, originou diversos outros Estados no M\u00e9dio Oriente, como a S\u00edria, o L\u00edbano, o Iraque, a Jord\u00e2nia e Israel\/Palestina. Mas quais eram os limites dos territ\u00f3rios turcos e dos territ\u00f3rios \u00e1rabes? Como \u00e9 frequente em zonas de transi\u00e7\u00e3o, onde as popula\u00e7\u00f5es se encontram misturadas, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 obviamente clara. Sequelas desse problema encontram-se, ainda hoje, no caso do <em>sandjak<\/em> (distrito especial) de Alexandreta, um regi\u00e3o reclamada pela S\u00edria como seu territ\u00f3rio, mas anexada numa manobra h\u00e1bil pela Turquia, em 1938, com a complac\u00eancia da administra\u00e7\u00e3o colonial francesa (numa altura em que a Fran\u00e7a j\u00e1 estava pressionada na Europa, pela amea\u00e7a de expans\u00e3o militar da Alemanha nazi). E nas actuais revindica\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas da Turquia sustentando que, se houver fragmenta\u00e7\u00e3o do Iraque, tem um direito hist\u00f3rico sobre o territ\u00f3rio do Norte desse pa\u00eds at\u00e9 \u00e0 regi\u00e3o de Mosul&#8230; Se o territ\u00f3rio sobre o qual se constituiu o Estado turco levantava estas interroga\u00e7\u00f5es, \u00abser turco\u00bb, conforme j\u00e1 referimos, estava tamb\u00e9m longe de ser uma coisa evidente, no in\u00edcio dos anos 20 do s\u00e9culo XX. Para termos uma ideia dos problemas que se colocavam ao novo Estado para a afirmar a sua identidade nacional, basta reflectirmos um pouco sobre a dificuldade de resposta \u00e0 quest\u00e3o, que acabamos de formular, ou seja, de saber quem podia ser considerado turco. \u00abSeria o cidad\u00e3o nativo do territ\u00f3rio turco? Em nome de qu\u00ea, foram, ent\u00e3o, expulsas as minorias? Seria o turco \u2018\u00e9tnico\u2018 descendente dos \u2018turcos\u2018, ou melhor, dos turcomanos? Mas a maior parte dos turcos s\u00e3o descendentes das popula\u00e7\u00f5es anatolianas (gregos, arm\u00e9nios, \u2018romanos\u2018, etc.) islamizadas, dos restos do Imp\u00e9rio Otomano. E que fazer dos curdos, dos lazes do mar Negro, de todos os mu\u00e7ulmanos n\u00e3o turcos, dos \u00e1rabes? Ser\u00e1 este o mu\u00e7ulmano da Turquia? Mas \u00e9 um crit\u00e9rio que n\u00e3o pode satisfazer uma jovem Rep\u00fablica laica. E depois seria preciso distinguir entre os sunitas e os alevis, e expulsar os curdos ocidentais, menos sunitas que os de Leste? E que fazer da grande massa da popula\u00e7\u00e3o sa\u00edda da mistura destas diversas na\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas e, por vezes, mesmo da mistura com as minorias crist\u00e3s, as quais, durante muito tempo, em Constantinopla\/Istambul e noutras regi\u00f5es foram praticamente maiorit\u00e1rias? E se a l\u00edngua turca \u00e9 o crit\u00e9rio, que fazer de todos aqueles que n\u00e3o a falam, mas, apesar disso, s\u00e3o mu\u00e7ulmanos? E que fazer dos gregos turc\u00f3fonos que l\u00eaem o Evangelho em turco, escrito em caracteres gregos?\u00bb<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Foi a estas m\u00faltiplas d\u00favidas, sobre que \u00e9 turco (e quem \u00e9 grego), que a Conven\u00e7\u00e3o Relativa \u00e0 Troca de Popula\u00e7\u00f5es Gregas e Turcas e Protocolo, assinada em Lausana, na Su\u00ed\u00e7a, a 30 de Janeiro de 1923, teve de responder, definindo um crit\u00e9rio legal para a troca de popula\u00e7\u00f5es \u00abnacionais\u00bb.<\/p>\n<p>4. Conforme j\u00e1 fizemos notar inicialmente, esta quest\u00e3o s\u00f3 pode ser correctamente entendida no contexto hist\u00f3rico de forma\u00e7\u00e3o dos dois Estados-Na\u00e7\u00e3o e das circunst\u00e2ncias pol\u00edtico-militares subsequentes ao final da I Guerra Mundial e ao desmembramento do Imp\u00e9rio Otomano. A forma\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia e da Turquia, tal como aconteceu nos restantes Estados dos Balc\u00e3s, originou sucessivas vagas migra\u00e7\u00f5es, de refugiados e de deportados<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, pelo menos desde os anos 20 do s\u00e9culo XIX at\u00e9 aos anos 20 do s\u00e9culo XX, ou seja, grosso modo durante um s\u00e9culo. Estes movimentos populacionais mais ou menos involunt\u00e1rios intensificaram-se nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, primeiro com as duas guerras balc\u00e2nicas (1912-1913), e depois com a guerra de independ\u00eancia da Turquia (1919-1922) e a consequente troca de popula\u00e7\u00f5es decidida em 1923. Importa recordar que, para o Imp\u00e9rio Otomano, o saldo das guerras balc\u00e2nicas foi bastante duro, tendo resultado na perda de cerca de 80% do territ\u00f3rio no Sudeste europeu (a excep\u00e7\u00e3o foi a reten\u00e7\u00e3o da Tr\u00e1cia oriental, recuperada na segunda guerra balc\u00e2nica e que hoje faz parte da Rep\u00fablica da Turquia, sendo a parcela geograficamente europeia do pa\u00eds) e de mais de 4,2 milh\u00f5es de habitantes (cerca de 16% da popula\u00e7\u00e3o total do Imp\u00e9rio). A perda das prov\u00edncias balc\u00e2nicas teve tamb\u00e9m forte impacto econ\u00f3mico e simb\u00f3lico: n\u00e3o s\u00f3 eram as regi\u00f5es mais ricas e mais desenvolvidas, como boa parte da elite dirigente otomana era origin\u00e1ria dos Balc\u00e3s. A este prop\u00f3sito importa recordar que Mustafa Kemal, o fundador da Rep\u00fablica da Turquia, ironicamente nasceu em Sal\u00f3nica, na antiga Maced\u00f3nia otomana, que se tornou cidade grega em finais de 1912. Mas o principal fluxo de refugiados e\/ou deportados ocorreu quando o projecto de Estado-Na\u00e7\u00e3o grego e o projecto de Estado-Na\u00e7\u00e3o turco entraram em colis\u00e3o frontal na \u00c1sia Menor (Anat\u00f3lia ocidental), ap\u00f3s o fim da I Guerra Mundial, quando os Aliados discutiam a quest\u00e3o da partilha dos territ\u00f3rios do derrotado Imp\u00e9rio Otomano e das esferas de influ\u00eancia na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Importa recordar que longo do s\u00e9culo XIX germinou na Gr\u00e9cia a <em>megali idea<\/em>, ou seja, a ideia de \u00abuma Gr\u00e9cia em dois continentes e quatro mares\u00bb<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> que pretendia formar um Estado grego moderno, correspondendo, grosso modo, aos territ\u00f3rios hel\u00e9nicos da Antiguidade Cl\u00e1ssica. Esta ideia nacionalista acabou por levar \u00e0 \u00abgrande cat\u00e1stofre\u00bb que foi a derrota do ex\u00e9rcito grego pelo movimento nacionalista turco de Mustafa Kemal em 1922. Este, por sua vez, proclamou toda a Anat\u00f3lia como o \u00ablar nacional\u00bb turco, conseguindo, atrav\u00e9s de sucessivas ac\u00e7\u00f5es, mobilizar turcos e curdos, em nome de um misto de sentimentos proto-nacionalistas e solidariedade isl\u00e2mica, contra os <em>g\u00e2vur<\/em> (\u00abinfi\u00e9is\u00bb) gregos e seus aliados ocidentais (sobretudo a Gr\u00e3 Bretanha liderada por Lloyd-George, que apoiava as pretens\u00f5es territoriais da Gr\u00e9cia na \u00c1sia Menor, como compensa\u00e7\u00e3o da entrada da Gr\u00e9cia na I Guerra Mundial ao lado dos Aliados, por decis\u00e3o do governo liberal de Eleftherios Venizelos, em 1917). Um dos epis\u00f3dios mais dram\u00e1ticos do final da guerra na Anat\u00f3lia foi o inc\u00eandio da <em>g\u00e2vur Izmir<\/em><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> (literalmente \u00abEsmirna, a infiel\u00bb, como era conhecida pelos turcos, dado as popula\u00e7\u00f5es serem maioritariamente crist\u00e3s, sobretudo gregas, mas tamb\u00e9m arm\u00e9nias), ap\u00f3s a entrada das tropas turcas na cidade, a 9 de Setembro de 1922, o que provocou uma fuga em massa dos seus habitantes n\u00e3o mu\u00e7ulmanos, sendo a sua \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel por via mar\u00edtima, o que acabou em trag\u00e9dia. Num contexto em que a guerra assolou continuamente os Balc\u00e3s e a Anat\u00f3lia, entre 1912 e 1992 e com projectos nacionalistas em clara rota de colis\u00e3o, a co-exist\u00eancia entre as popula\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas (turcos e curdos) e as popula\u00e7\u00f5es crist\u00e3s (gregos e arm\u00e9nios mas tamb\u00e9m ass\u00edrio-caldeus) ficou gravemente deteriorada originado uma enorme crise humanit\u00e1ria e sucessivas vagas de refugiados. Tal como acontece na actualidade com a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), as aten\u00e7\u00f5es da opini\u00e3o p\u00fablica internacional viraram-se na \u00e9poca para a rec\u00e9m criada Sociedade das Na\u00e7\u00f5es (SdN), a organiza\u00e7\u00e3o precursora das Na\u00e7\u00f5es Unidas. A solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica encontrada para este delicad\u00edssimo problema foi a troca de popula\u00e7\u00f5es a Gr\u00e9cia e a Turquia. \u00c9 dif\u00edcil saber exactamente de onde proveio esta ideia de uma troca populacional (na realidade uma deporta\u00e7\u00e3o rec\u00edproca e que hoje certamente indignaria e provocaria repulsa na comunidade internacional), se do lado grego, se do lado turco, se das pot\u00eancias Aliadas vencedoras da I Guerra Mundial, se de Fridtjof Nansen, o prestigiado cientista e explorador noruegu\u00eas que, na \u00e9poca, desempenhava o cargo de Alto Comiss\u00e1rio da SdN para os Refugiados. Ao contr\u00e1rio de outras ideias onde os louros s\u00e3o frequentemente disputados, esta \u00e9 uma daquelas onde ningu\u00e9m parece querer assumir claramente a sua \u00abpaternidade\u00bb&#8230;<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> Independentemente da sua autoria, a realidade hist\u00f3rica \u00e9 que acabou por ter a concord\u00e2ncia das partes envolvidas nas negocia\u00e7\u00f5es de paz de Lausana. A consequ\u00eancia desta solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica <em>sui generis<\/em> foi que entre 1,2 milh\u00f5es a 1,4 milh\u00f5es de \u00abgregos\u00bb tiveram de abandonar as suas casas e propriedades na rec\u00e9m fundada Rep\u00fablica da Turquia, deslocando-se para o territ\u00f3rio da Gr\u00e9cia, que teve de gerir um incremento de 22% a 25% da sua popula\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Por seu lado, cerca de 400.000 \u00abturcos\u00bb (sobretudo popula\u00e7\u00f5es dos territ\u00f3rios da parte Norte da Gr\u00e9cia, conquistados nas guerras balc\u00e2nicas de 1912-1913, mas tamb\u00e9m de Creta) tiveram deixar as suas casas e propriedades na Gr\u00e9cia e a deslocar-se para a Turquia, num fluxo que, apesar de tudo, teve um peso relativo bastante inferior, representando cerca de 3% da sua popula\u00e7\u00e3o da \u00e9poca. Quando se olha para o teor do dispositivo da j\u00e1 referida Conven\u00e7\u00e3o Relativa \u00e0 Troca de Popula\u00e7\u00f5es Gregas e Turcas e Protocolo, h\u00e1 v\u00e1rios aspectos que chamam \u00e0 aten\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o deixam de causar alguma surpresa, mesmo tendo em conta as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas em que esta foi feita. \u00abEm primeiro lugar, o crit\u00e9rio foi exclusivamente religioso. N\u00e3o houve refer\u00eancia a categorias lingu\u00edsticas ou \u00e9tnicas. A maioria dos mu\u00e7ulmanos da Maced\u00f3nia falavam grego e uma propor\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel dos gregos ortodoxos da Anat\u00f3lia Central falava turco. N\u00e3o obstante, esses grupos foram marcados para a migra\u00e7\u00e3o com base na sua religi\u00e3o. Em segundo lugar, foi o car\u00e1cter retroactivo da conven\u00e7\u00e3o: n\u00e3o foi apenas limitada \u00e0s migra\u00e7\u00f5es iniciadas em 1922, mas legitimadas todas as \u2013 largamente for\u00e7adas \u2013 migra\u00e7\u00f5es causadas pelas guerras, que tiveram lugar desde 1912. Em terceiro lugar, foi a natureza involunt\u00e1ria da migra\u00e7\u00e3o. Foi a primeira vez que uma migra\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria, ou \u2013 para dar um nome mais honesto \u2013 deporta\u00e7\u00e3o, foi legalizada pelo Direito Internacional P\u00fablico\u00bb<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. As excep\u00e7\u00f5es a esta troca foram os crist\u00e3os ortodoxos gregos de Constantinopla\/Istambul (na altura mais de 50.000, hoje cerca de 2.000), por raz\u00f5es ligadas ao simbolismo de Constantinopla e do seu Patriarcado, e os mu\u00e7ulmanos da Tr\u00e1cia ocidental, na Gr\u00e9cia (que se mant\u00eam est\u00e1veis entre 120.000 a 140.000), tendo esta sido a compensa\u00e7\u00e3o exigida pela Turquia para essa excep\u00e7\u00e3o. Como se pode imaginar, esta troca compulsiva de popula\u00e7\u00f5es deixou profundas marcas nas sociedades hel\u00e9nica e turca, que n\u00e3o desaparecem facilmente. Por exemplo, na Turquia podemos encontrar popula\u00e7\u00f5es que foram reinstaladas em Ayvalik, na regi\u00e3o de Esmirna, oriundas de Rethymnon, em Creta. Por sua vez, na Gr\u00e9cia podemos encontrar popula\u00e7\u00f5es oriundas de Sansun, no Mar Negro, que foram reinstaladas em Mavrovatos e Drama, na Maced\u00f3nia grega. No caso da Gr\u00e9cia, provavelmente devido \u00e0 maior dimens\u00e3o do fluxo populacional de 1923 e 1924, esses sinais s\u00e3o, ainda hoje, bem vis\u00edveis, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de novas cidades com o nome nost\u00e1lgico das abandonadas na \u00c1sia Menor (por exemplo, Nova Esmirna nos arredores de Atenas), na funda\u00e7\u00e3o de clubes (por exemplo, o Clube Atl\u00e9tico de Constantinopla, internacionalmente conhecido nas competi\u00e7\u00f5es desportivas como AEK de Atenas). Em termos mais frios, e abstraindo do imenso drama humano, constata-se que surgiu tamb\u00e9m uma nova classe de comerciantes e industriais bem sucedidos, sendo o caso mais c\u00e9lebre e emblem\u00e1tico o do milion\u00e1rio Arist\u00f3teles Onassis, tamb\u00e9m ele nascido em Esmirna (Izmir), ainda como s\u00fabdito otomano. Na l\u00f3gica amoral da <em>realpolitik<\/em>, poder\u00e1 dizer-se que Gr\u00e9cia e a Turquia adquiriram tamb\u00e9m uma estabilidade territorial e populacional que poderiam hoje n\u00e3o ter, se a hist\u00f3ria tivesse seguido outro curso. Por \u00faltimo, face \u00e0s feridas deste passado hist\u00f3rico n\u00e3o assim t\u00e3o distante, hoje, com a perspectiva de ades\u00e3o da Turquia \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, coloca-se uma interroga\u00e7\u00e3o interessante. Ser\u00e1 que esta vai funcionar como o impulso que faltava para reconcilia\u00e7\u00e3o heleno-turca, \u00e0 maneira franco-alem\u00e3 nos anos 50 do s\u00e9culo XX, ou, pelo contr\u00e1rio, ser\u00e1 que esta n\u00e3o ir\u00e1 reavivar mem\u00f3rias dolorosas do passado e a tenta\u00e7\u00e3o de reabrir a \u00abquest\u00e3o do Oriente\u00bb, oficialmente encerrada pelo Tratado de Paz de Lausana, a 24 de Julho de 1923?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ver Ren\u00e9e Hirschon (ed.), <em>Crossing the Aegean. An Appraisal of the 1923 Compulsory Exchange Between Greece and Turkey<\/em>, Nova Iorque, Berghahn Books, 2003.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> C. M. Woodhouse, <em>Modern Greece. A Short History<\/em>, Londres, Faber &amp; Faber, 1968, 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o 1991. Ver em especial o mapa da p\u00e1gina 174, onde s\u00e3o mostrados os incrementos territoriais do territ\u00f3rio da Gr\u00e9cia, desde 1832 at\u00e9 1947.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ioannis Kapodistrias (Capo d\u00b4Istria), nasceu em 1776, na ilha j\u00f3nica de Corfu, que na altura era uma possess\u00e3o da Rep\u00fablica de Veneza. Foi o primeiro Presidente da Gr\u00e9cia moderna (1827-1831), tendo assumido essas fun\u00e7\u00f5es ap\u00f3s a derrota da frota otomana em Navarino, imposta pela ac\u00e7\u00e3o conjunta da marinha brit\u00e2nica, francesa e russa, que deixaram a Gr\u00e9cia numa situa\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia <em>de facto<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Nikos Chrysolaras, <em>Orthodoxy and Greek National Identity. An analysis of Greek Nationalism in light of A. D. Smith\u00b4s Theoretical Framework<\/em>, texto do artigo dispon\u00edvel <em>on-line<\/em> em http:\/\/www.ksg.harvard.edu\/kokkalis\/GSW7\/GSW%206\/Nikos%20Chrysoloras%20Paper.pdf, pp. 13- 14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Olivier Abel, \u00abLa m\u00e9moire bless\u00e9e\u00bb in <em>St\u00e9phane Yerasimos [dir.]<\/em> <em>Les Turcs. Orient et Occident, Islam et La\u00efcit\u00e9<\/em>, S\u00e9rie Monde HS (76), Paris: \u00c9ditions Autrement, 1994, pp. 183-184.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Sobre os sofrimentos do mu\u00e7ulmanos otomanos com o retrocesso do Imp\u00e9rio nos Balc\u00e3s ver o livro de Justin McCarthy <em>Death and Exile. The Ethnic Cleansing of Ottoman Muslims, 1821-1922<\/em>, Princeton-Nova Jersey, The Darwin Press, 1995.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ver Michael Llewellyn Smith, <em>Ionian Vision. Greeece in Asia Minor 1919-1922<\/em>, Londres, Hurst &amp; Company, 1973, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Sobre o inc\u00eandio de Esmirna (Izmir) ver o trabalho de Marjorie Housepian Dobkin, <em>Smyrna 1922. The Destruction of a City<\/em>, Nova Iorque, Newmark Press, 1971, 3\u00aa ed. 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ver o livro de Bruce Clark, <em>Twice a Stranger. How Mass Expulsion Forged Modern Greece and Turkey<\/em>, Londres, Granta Books, 2006.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Em rela\u00e7\u00e3o ao impacto da troca de popula\u00e7\u00f5es na Gr\u00e9cia ver o livro de Dimitri Pentzopoulos, <em>The Balkan Exchange of Minorities ans its Impcat on Greece<\/em>, Londres, Hurst &amp; Company, 1962, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o 2002.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Erik-Jan Z\u00fcrcher, <em>Greek and Turkish refugees and deportees 1912-1924<\/em>, www.let.leidenuniv.nl\/tcimo\/tulp\/Research\/ejz18.htm<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, &#8220;O Fim do Imp\u00e9rio Otomano e a Troca de Popula\u00e7\u00f5es entre a Gr\u00e9cia e a Turquia&#8221; artigo originalmente publicado in Hist\u00f3ria n\u00ba 97, maio (2007): 36-41. \u00daltima revis\u00e3o 14\/06\/2015<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: capa do Livro de Bruce Clark, &#8220;Twice a Stranger. Greece, Turkey and the Minorities they Expelled&#8221; (Granta Books, 2006)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A consequ\u00eancia desta solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica sui generis foi que entre 1,2 milh\u00f5es a 1,4 milh\u00f5es de \u00abgregos\u00bb tiveram de abandonar as suas casas e propriedades na rec\u00e9m fundada Rep\u00fablica da Turquia, deslocando-se para o territ\u00f3rio da Gr\u00e9cia, que teve de gerir um incremento de 22% a 25% da sua popula\u00e7\u00e3o. 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