{"id":1794,"date":"2015-06-06T09:30:19","date_gmt":"2015-06-06T09:30:19","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1794"},"modified":"2021-03-20T21:13:37","modified_gmt":"2021-03-20T21:13:37","slug":"a-geopolitica-classica-revisitada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/a-geopolitica-classica-revisitada\/","title":{"rendered":"A Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica revisitada"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"611\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder-1024x611.png\" alt=\"O Heartland, segundo Mackinder\" class=\"wp-image-1807\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder-1024x611.png 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder-300x179.png 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder-768x458.png 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder-1536x917.png 1536w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder-370x221.png 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder-570x340.png 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder-770x459.png 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder-1170x698.png 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder-972x580.png 972w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/O-Heartland-segundo-Mackinder.png 1567w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Map of the Heartland in  &#8220;The Geographical Pivot of History&#8221;, Halford J. Mackinder, 1904  <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>N\u00e3o existe algo como uma ci\u00eancia geral da geopol\u00edtica, que possa ser subscrita por todas as organiza\u00e7\u00f5es estaduais. H\u00e1 tantas geopol\u00edticas quantos os sistemas estaduais em luta sob condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas, as quais, no caso do poder mar\u00edtimo e do poder terrestre s\u00e3o fundamentalmente diferentes. H\u00e1 uma \u201cGeopolitik\u201d, uma \u201cG\u00e9opolitique\u201d [&#8230;] Cada na\u00e7\u00e3o tem a geopol\u00edtica que pretende [&#8230;] Assim sendo, temos de olhar para a Geopol\u00edtica alem\u00e3 como produto de um povo envolvido numa luta pelo dom\u00ednio mundial (Hans W. Weigert, 1942: 22-23).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>1. A Geopol\u00edtica da primeira metade do s\u00e9culo XX tem m\u00faltiplas hist\u00f3rias relevantes, simultaneamente paralelas e concorrenciais \u2013 a portuguesa, a espanhola, a francesa, a italiana, a russa, a japonesa etc. \u2013, da\u00ed a pertin\u00eancia em falar-se preferencialmente no plural, em geopol\u00edticas, em vez de geopol\u00edtica no singular, como um campo do conhecimento unit\u00e1rio. Neste contexto, de pluralidade de abordagens, \u00e9 necess\u00e1rio tra\u00e7ar com clareza o objecto do nosso artigo, o qual \u00e9 bastante mais restrito, sendo apenas centrado naquelas que podem ser consideradas as duas vers\u00f5es mais importantes da(s) geopol\u00edtica(s) europeia(s) \u2013 a germ\u00e2nica e a brit\u00e2nica \u2013 e nos tra\u00e7os essenciais que as fundamentam e individualizam.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, nesta an\u00e1lise, propomo-nos passar em revista os tra\u00e7os fundamentais desta(s) geopol\u00edtica(s) da primeira metade do s\u00e9culo XX, que designamos por \u00abgeopol\u00edtica cl\u00e1ssica\u00bb, tendo essencialmente em conta os trabalhos de refer\u00eancia dos seus dois maiores expoentes e rivais \u2013 o alem\u00e3o Karl Haushofer e o ingl\u00eas Halford John Mackinder. O principal objectivo \u00e9 o de procurar, na abundante literatura te\u00f3rica que entretanto foi publicada sobre o tema, novas perspectivas sobre a ascens\u00e3o e queda de uma \u00abci\u00eancia\u00bb, a qual, para o bem e para o mal, deixou a sua marca indel\u00e9vel numa \u00e9poca bastante conturbada da hist\u00f3ria europeia e mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Antes de entrarmos propriamente na an\u00e1lise espec\u00edfica das caracter\u00edsticas da <em>Geopolitik<\/em> (<em>i. e.<\/em> da geopol\u00edtica alem\u00e3) h\u00e1 um primeiro aspecto relevante a focar, que \u00e9 o da origem da pr\u00f3pria palavra. \u00c9 consensual, no \u00e2mbito dos estudos da geopol\u00edtica, que o neologismo foi originalmente cunhado, no crep\u00fasculo do s\u00e9culo XX, pelo sueco Rudolf Johan Kjell\u00e9n, professor das Universidades de Gotemburgo e Uppsala, mas, h\u00e1 diverg\u00eancias quanto ao momento exacto em que este foi utilizado pela primeira vez. Segundo Sven Holdar, num artigo intitulado <em>The Ideal State and the Power of Geography: the Life-Work of Rudolf Kjell\u00e9n<\/em>, originalmente publicado na revista norte-americana <em>Political Geography<\/em>, em Maio de 1992 (citado por \u00d3 Tuathail, 1996: 44 e nota 49; e por Heffernan, 2000: 27), o termo teria sido utilizado, pela primeira vez, em 1899, num trabalho sobre as fronteiras da Su\u00e9cia. Por sua vez, Michel Korinman (membro do comit\u00e9 redactorial da revista francesa de geografia e geopol\u00edtica, <em>H\u00e9rodote, <\/em>e da revista italiana de geopol\u00edtica <em>Limes<\/em>), refere que Kjell\u00e9n utilizou, pela primeita vez a palavra numa comunica\u00e7\u00e3o intitulada <em>Inledning till Sveriges geografi<\/em> (Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 geografia da Su\u00e9cia), efectuada no \u00e2mbito das Confer\u00eancias destinadas ao grande p\u00fablico da Universidade de Gotemburgo, que decorreram no Ver\u00e3o de 1900 (Korinman, 1990: 152).<\/p>\n\n\n\n<p>Se quanto \u00e0 data da primeira utiliza\u00e7\u00e3o da palavra h\u00e1 algumas incertezas, j\u00e1 nos parece haver mais certezas na afirma\u00e7\u00e3o de que na gesta\u00e7\u00e3o deste neologismo se podem detectar, facilmente, as influ\u00eancias exercidas pela forma\u00e7\u00e3o ambivalente do seu autor \u2013 Kjell\u00e9n era diplomada em Ci\u00eancia Pol\u00edtica por Uppsala, mas foi tamb\u00e9m professor de Geografia na Universidade de Gotemburgo. Mas, para al\u00e9m das credenciais acad\u00e9micas \u00e9 importante notar, ainda, que Kjell\u00e9n foi, igualmente, um pol\u00edtico activo e influente da Su\u00e9cia no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, membro do Parlamento sueco, senador, e um defensor de ideais nacionalistas de tipo conservador-autorit\u00e1rio, alternativos ao modelo de democracia liberal representado pela Fran\u00e7a e pelo Reino Unido. \u00c0 c\u00e9lebre trilogia revolucion\u00e1ria francesa de 1789, liberdade\/igualdade\/fraternidade contrap\u00f4s, juntamente com o germ\u00e2nico Werner Sombart (conhecido pelas suas teses sobre a origem do capitalismo, como produto privilegiado de uma \u00e9tica judaica), uma nova trilogia \u2013 dever\/ordem\/justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O neologismo foi tamb\u00e9m um produto directo do contexto hist\u00f3rico-pol\u00edtico vivido por Kjell\u00e9n, na transi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX, onde a Su\u00e9cia estava profundamente dividida pelo debate em torno da dissolu\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o de Estados S\u00faecia-Noruega, que datava de 1814 (uma compensa\u00e7\u00e3o territorial adquirida pela Su\u00e9cia, no final das guerras napole\u00f3nicas, devido \u00e0 perda da Finl\u00e2ndia para a R\u00fassia czarista, em 1808), e que acabou por se verificar em 1905. O professor de Uppsala foi um forte opositor da independ\u00eancia da Noruega, tendo, para o efeito, redigindo diversos manuscritos (entre os quais o j\u00e1 referido <em>Inledning till Sveriges geografi<\/em>) e efectuado virulentas interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas contra essa dissolu\u00e7\u00e3o. Note-se que apesar da postura de neutralidade adoptada pela Su\u00e9cia, desde o ano de 1814, o tema do imp\u00e9rio perdido e a nostalgia da grandeza do passado estiveram sempre presentes na sociedade sueca e na agenda dos partidos pol\u00edticos at\u00e9 \u00e0 I Guerra Mundial, facto que \u00e9 compreens\u00edvel se tivermos em conta que, historicamente, at\u00e9 \u00e0 ascens\u00e3o da R\u00fassia e da Pr\u00fassia ao estatuto de grandes pot\u00eancias europeias durante o s\u00e9culo XVIII, a Su\u00e9cia era a principal pot\u00eancia militar no Norte da Europa e da regi\u00e3o do B\u00e1ltico (Lacoste [ed.] 1993 [1995]: 1437).<\/p>\n\n\n\n<p>A receptividade ao discurso imperialista\/conservador\/autorit\u00e1rio e ao neologismo de Kjell\u00e9n foi bastante significativa, n\u00e3o s\u00f3 na Su\u00e9cia, como entre o p\u00fablico de l\u00edngua alem\u00e3 (Alemanha e \u00c1ustria). Por isso, as ideias de Kjell\u00e9n e a palavra <em>Geopolitik<\/em> rapidamente se tornaram populares n\u00e3o s\u00f3 na Su\u00e9cia como na Alemanha (quer nos meios acad\u00e9micos, quer mesmo entre o p\u00fablico em geral), tendo o neologismo sido introduzido, tal como os trabalhos de Kjell\u00e9n, pelo ge\u00f3grafo austr\u00edaco Robert Sieger, nos primeiros anos do s\u00e9culo XX (Korinman, 1990: 349, nota 79). Esta r\u00e1pida germaniza\u00e7\u00e3o da <em>Geopolitik<\/em> deveu-se tamb\u00e9m ao facto do sueco Kjell\u00e9n ter uma profunda simpatia e admira\u00e7\u00e3o pela Alemanha imperial (era casado com uma alem\u00e3), e constituir, juntamente com o brit\u00e2nico Houston Stewart Chamberlain (que se naturalizou alem\u00e3o em plena I Guerra Mundial&#8230;), e o franc\u00eas Joseph-Arthur, conde de Gobineau (autor do <em>Essai sur l\u00b4 Inegalit\u00e9 des Races Humaines<\/em>, publicado entre 1853-1855, onde proclamava a supremacia da ra\u00e7a branca em geral e dos arianos em particular\u2026), um famos\u00edssimo trio n\u00e3o alem\u00e3o super german\u00f3filo (Weigert, 1942: 275).<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o do significado do neologismo e do objecto deste novo saber foi feita por Kjell\u00e9n na sua obra mais importante, <em>Staten som Lifsform <\/em>(O Estado como forma de vida, 1916) redigida originalmente em sueco, mas rapidamente traduzida para alem\u00e3o (<em>Der Staat als Lebensform,<\/em> com a 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o em 1917), e tamb\u00e9m publicada na Alemanha (edi\u00e7\u00e3o de 1924), por aquele que seria o futuro editor da <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em> (Revista de Geopol\u00edtica) \u2013 Kurt Vowinkel. Nesta obra, a Geopol\u00edtica foi apresentada como \u201ca ci\u00eancia do Estado enquanto organismo geogr\u00e1fico tal como este se manifesta no espa\u00e7o\u201d sendo o Estado entendido como pa\u00eds, como territ\u00f3rio, ou de uma maneira mais significativa como imp\u00e9rio. Esta nova \u201cci\u00eancia\u201d tinha por objecto constante o Estado unificado e pretendia contribuir para o estudo da sua natureza profunda, enquanto que a Geografia Pol\u00edtica \u201cobservava o planeta como <em>habitat<\/em> das comunidades humanas em geral\u201d. (Korinman, 1990: 152).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, para Kjell\u00e9n, a Geopol\u00edtica n\u00e3o era um neologismo in\u00f3cuo de agrad\u00e1vel resson\u00e2ncia erudita, como afirmavam os seus cr\u00edticos e detractores, nem, certamente, mais uma palavra \u201ccara\u201d (<em>five dollar term<\/em>) com um g<em>lamour <\/em>sinistro como a qualificou a revista norte-americana <em>Life<\/em>, durante a II Guerra Mundial (Hans Weigert citado por \u00d3 Tuathail, 1996: 112 e nota 4). Tratava-se, antes, de um neologismo que designava uma verdadeira ci\u00eancia aut\u00f3noma, com um objecto novo, diferente da <em>Politische Geographie<\/em> (Geografia Pol\u00edtica, 1897), criada pelo mais importante ge\u00f3grafo germ\u00e2nico da segunda metade do s\u00e9culo XIX \u2013 Friedrich Ratzel \u2013 o detentor da c\u00e1tedra de Geografia (1886) na prestigiada Universidade de Leipzig e um dos mais influentes ge\u00f3grafos da Europa novecentista.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 provavelmente exagero afirmar que Ratzel revolucionou a geografia do seu tempo, influenciando Kjell\u00e9n e outros ge\u00f3grafos importantes fora do espa\u00e7o cultural germ\u00e2nico, como o franc\u00eas Paul Vidal de la Blanche. A sua <em>Antropo-Geographie<\/em> (Antropogeografia, 1882), juntamente com a j\u00e1 referida <em>Politische Geographie<\/em>, encontram-se entre as principais obras cl\u00e1ssicas da Geografia novecentista. Mas, o trabalho de Ratzel est\u00e1 tamb\u00e9m mais ou menos associado \u00e0s concep\u00e7\u00f5es evolucionistas e biol\u00f3gicas do Estado e da sociedade que progressivamente se difundiram pelo campo das Ci\u00eancias Sociais, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o por Charles Darwin de <em>On the Origin of Species<\/em> <em>by means of Natural Selection or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life<\/em> (A Origem das Esp\u00e9cies por meio da Selec\u00e7\u00e3o Natural ou a Preserva\u00e7\u00e3o das Esp\u00e9cies mais favorecidas na Luta pela Vida, 1859).<\/p>\n\n\n\n<p>Com a<em> Politische Geographie<\/em> de 1897 e <em>Der Lebensraum <\/em>(O Espa\u00e7o Vital) de 1901 as concep\u00e7\u00f5es evolucionistas e biol\u00f3gicas fizeram tamb\u00e9m sua apari\u00e7\u00e3o na Geografia e, Ratzel, foi acusado de ter o seu trabalho imbu\u00eddo de uma perversa \u201cfilosofia darwinista do espa\u00e7o\u201d. A complexidade da obra de Ratzel, aumentada pelo n\u00famero volumoso de p\u00e1ginas dos seus livros e pela dificuldade inerente \u00e0 compreens\u00e3o linguagem utilizada (quer pelo seu car\u00e1cter eminentemente t\u00e9cnico, quer pela ambiguidade da pr\u00f3pria redac\u00e7\u00e3o) contribuiram, provavelmente, para alicer\u00e7ar a convic\u00e7\u00e3o de que este partilhava das principais teses do darwinismo social europeu, na linha, por exemplo, de Herbert Spencer.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, n\u00e3o \u00e9 isenta de controv\u00e9rsia a qualifica\u00e7\u00e3o de Ratzel com o ep\u00edteto de \u201cdarwinista social\u201d porque em diversas partes dos seus trabalhos este se demarcou das teses racistas de Gobineau e de Chamberlain e das pr\u00f3prias teses do darwinismo social europeu, de Spencer. O que se pode constatar \u00e9 que este recorreu, num certo n\u00famero de casos concretos, a uma esp\u00e9cie \u201cracismo funcional ligado \u00e0 ideologia colonialista do s\u00e9culo XIX europeu, posi\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, frequente na \u00e9poca.\u201d (Korinman, 1990: 41). Quanto ao organicismo ratzeliano, \u00e9 tamb\u00e9m um facto que a met\u00e1fora do \u201cEstado-organismo\u201d atravessa toda a sua <em>Politische Geographie <\/em>e que, tomada no seu sentido literal a ideia do organismo pol\u00edtico remete, inevitavelmente, para as teses do darwinismo social europeu. Com efeito, uma vez admitida a concep\u00e7\u00e3o segundo a qual os Estados vivem e morrem como os indiv\u00edduos do sistema animal e vegetal, a ideia de uma <em>struggle for life<\/em> (luta pela vida), facilmente se imp\u00f5e a n\u00edvel pol\u00edtico. No entanto, e ainda segundo Michel Korinman, o pensamento de Ratzel \u00e9 mais amb\u00edguo e complexo do que esta leitura sugere: o que provavelmente este pretendeu fazer com o recurso \u00e0 met\u00e1fora do \u201cEstado-organismo\u201d foi, atrav\u00e9s de um processo de <em>imitatio scientiae<\/em>, dotar a Geografia Pol\u00edtica de um cariz verdadeiramente cient\u00edfico que lhe permitisse formular leis similares \u00e0s da Ci\u00eancias da Natureza. (<em>idem<\/em>: 42).<\/p>\n\n\n\n<p>O contributo precursor de Ratzel e Kjell\u00e9n para a forma\u00e7\u00e3o de um saber geopol\u00edtico, insere-se numa longa e importante tradi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de estudos geogr\u00e1ficos, iniciada na transic\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVIII para o s\u00e9culo XIX por Alexander von Humboldt e por Carl Ritter, que s\u00e3o considerados, mais ou menos unanimemente, como os fundadores da moderna Geografia europeia. Nessa tradi\u00e7\u00e3o, um significativo papel foi tamb\u00e9m desempenhado pela <em>Gesellschaft f\u00fcr Erdkunde<\/em> (Sociedade de Geografia), de Berlim (1828) \u2013 a segunda mais antiga da Europa, a seguir \u00e0 Sociedade de Geografia de Paris (1821), mas, indiscutivelmente, a primeira em termos de import\u00e2ncia, prest\u00edgio e volume dos trabalhos desenvolvidos durante o s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da referida tradi\u00e7\u00e3o de estudos geogr\u00e1ficos desenvolveu-se na Alemanha novecentista, uma importante corrente de estudos hist\u00f3rico-pol\u00edticos estreitamente associada ao movimento nacionalista alem\u00e3o que impulsionou a unifica\u00e7\u00e3o de 1871, sob a lideran\u00e7a da Pr\u00fassia e do \u201cchanceler de ferro\u201d \u2013 Otto von Bismarck. Dentro desse movimento destacaram-se os trabalhos dos historiadores Leopold von Ranke e Heinrich von Treitschke, que est\u00e3o estreitamente ligados \u00e0 difus\u00e3o de dois neologismos no vocabul\u00e1rio pol\u00edtico novecentista: a <em>Realpolitik<\/em> (pol\u00edtica realista) e a <em>Machtpolitik<\/em> (pol\u00edtica de pot\u00eancia) (Aron, 1962 [1984]: 58).<\/p>\n\n\n\n<p>A crescente difus\u00e3o dos referidos neologismos, em l\u00edngua alem\u00e3, por toda a Europa, ao longo da segunda metade do s\u00e9culo XIX, levou a que a palavra <em>Realpolitik <\/em>suplantasse em popularidade a tradicional express\u00e3o francesa <em>Raison d\u00b4\u00c9tat<\/em> (Raz\u00e3o de Estado), apesar do seu significado ser essencialmente equivalente. Por id\u00eanticas raz\u00f5es, este deveria tamb\u00e9m ter sido o percurso da palavra <em>Geopolitik<\/em>, destinada a ocupar um lugar similar no l\u00e9xico pol\u00edtico europeu (mais \u00e0 frente veremos porque isso n\u00e3o aconteceu). \u00c9 importante notar que esta substitui\u00e7\u00e3o da <em>Raison d\u00b4\u00c9tat<\/em> pela <em>Realpolitik<\/em> n\u00e3o deixou de estar revestida de um importante significado simb\u00f3lico: traduziu, em termos lingu\u00edsticos, a supera\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a pela Alemanha na supremacia sobre a Europa continental a partir da d\u00e9cada de 60 do s\u00e9culo XIX (Kissinger, 1994: 87).<\/p>\n\n\n\n<p>Com liga\u00e7\u00e3o mais ou menos directa (Ratzel e Ritter) ou indirecta (Humboldt) \u00e0 prestigiada tradi\u00e7\u00e3o novecentista alem\u00e3 de estudos geogr\u00e1ficos e \u00e0 referida tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica-nacionalista da <em>Realpolitik<\/em> (Ranke) e da <em>Machtpolitik<\/em> (Treitschke), surgiu na Alemanha segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XX, aquilo que ficou conhecido como a \u201cEscola alem\u00e3 da Geopol\u00edtica\u201d ou \u201cEscola de Munique\u201d. A sua principal publica\u00e7\u00e3o divulgadora foi a <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em>, fundada em 1924 e destinada preferencialmente a ge\u00f3grafos profissionais, mas visando tamb\u00e9m a divulga\u00e7\u00e3o dos seus conte\u00fados junto de n\u00e3o especialistas, diplomatas, homens pol\u00edticos, jornalistas e industriais. A cria\u00e7\u00e3o da <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em> resultou de um esfor\u00e7o conjunto do editor, Kurt Vowinckel, e de uma equipa redactorial de ge\u00f3grafos, com compet\u00eancias repartida por \u00e1reas ge\u00f3gr\u00e1ficas espec\u00edficas, composta por Karl Haushofer (\u00c1sia), Erich Obst (Europa e \u00c1frica), Otto Maull (Am\u00e9ricas) e Hermann Lautensach (mundo na sua globalidade). Nela colaboraram tamb\u00e9m alguns dos mais importantes ge\u00f3grafos, polit\u00f3logos e especialistas de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da \u00e9poca (n\u00e3o s\u00f3 alem\u00e3es como austr\u00edacos, hungaros, polacos, romenos, sul americanos e at\u00e9 sovi\u00e9ticos\u2026).<\/p>\n\n\n\n<p>A personalidade central da <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em> foi, indiscutivelmente, o major-general\/professor doutor Karl Haushofer, cuja vida e obra foi j\u00e1 objecto de numerosos trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o (embora na sua quase totalidade em l\u00edngua alem\u00e3), tendo o trabalho de pesquisa mais exaustivo e completo sido efectuado no final dos anos 70, pelo historiador alem\u00e3o Hans-Adolf Jacobsen em <em>Karl Haushofer Leben und Werk I-II<\/em>, 1979 (Korinman, 1990: 153 e nota 84; Steuckers, 1992: 7).<\/p>\n\n\n\n<p>Em Haushofer reuniam-se as caracter\u00edsticas do militar e do acad\u00e9mico: para al\u00e9m dos conhecimentos de estrat\u00e9gia militar inerentes \u00e0 sua sua forma\u00e7\u00e3o de alta patente e ao exerc\u00edcio de doc\u00eancia na academia militar, era detentor de significativas credenciais acad\u00e9micas. Em 1913, na Universidade de Munique, sob a orienta\u00e7\u00e3o do professor August von Drygalski, fez um doutoramento subordinado ao tema <em>Der deutsche Anteil an geographischen Erschli\u00dfung Japans und desubjapanischen Erdraums und deren F\u00f6rderung durch den Einflu\u00df vom Krieg Wehrpolitik <\/em>(A parte dos alem\u00e3es na explora\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do Jap\u00e3o e do seu espa\u00e7o; influ\u00eancia da guerra e da pol\u00edtica militar sobre este empreendimento). Entretanto, os seus trabalhos acad\u00e9micos foram interrompidos pelo desencadear da I Guerra Mundial (1914), para a qual foi mobilizado, tendo combatido integrado nas fileiras do ex\u00e9rcito alem\u00e3o sobretudo nas batalhas da frente ocidental, ocorridas nas regi\u00f5es francesas da Picardia, Als\u00e1cia e Lorena.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o armist\u00edcio (Novembro de 1918), e o fim do conflito, regressou \u00e0 vida civil e reinscreveu-se na universidade, onde apresentou um novo trabalho de tese subordinado ao tema: <em>Grundrichtungen in der Geographischen Entwicklung des Japanischen Kaiserreiches, 1854-1919<\/em> (Linhas Directrizes da Evolu\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica do Imp\u00e9rio Japon\u00eas, 1854-1919) tendo sido, ainda no decurso desse mesmo ano, nomeado professor do Instituto Geogr\u00e1fico da Universidade de Munique. Os seus escritos tornaram-se rapidamente populares na Alemanha e tiveram mesmo um certo reconhecimento internacional, inclusive fora do mundo germ\u00e2nico, como comprova o facto de ter sido admitido como membro da <em>American Geographical Society<\/em> (1930). Note-se, ainda, que para o seu sucesso contribuiu, tamb\u00e9m, a sua experi\u00eancia no exerc\u00edcio de cargos militares e o vasto conhecimento pr\u00e1tico das imensas regi\u00f5es da \u00c1sia e do Pac\u00edfico, especialmento do Jap\u00e3o, onde desempenhou fun\u00e7\u00f5es como adido militar (1908-1910).<\/p>\n\n\n\n<p>Para a compreens\u00e3o dos trabalhos de Haushofer e da <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em> \u00e9 importante notar que estes se desenvolveram num per\u00edodo pol\u00edtico, econ\u00f3mico e social extremente conturbado da hist\u00f3ria da Alemanha da primeira metade do s\u00e9culo XX, em que era grande a difus\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o de um sentimento de decad\u00eancia, que estimulava a necessidade de promover o ressurgimento do Ocidente (liderado pela Alemanha), ideia amplamente sugerida por obras de intelectuais famosos como Oswald Spengler em <em>Der Untergang des Abendlandes <\/em>(A Decad\u00eancia do Ocidente I-II, 1918-1922). A isto temos de juntar, ainda, a humilha\u00e7\u00e3o sofrida pela derrota militar na I Guerra Mundial e a incapacidade do regime democr\u00e1tico institu\u00eddo pela Rep\u00fablica de Weimar (1918-1933) \u2013 que sucedeu \u00e0 ren\u00fancia do Kaiser Wilhelm II e ao fim da Alemanha imperial do II <em>Reich<\/em> (1871-1918) \u2013 em resolver os problemas sociais e territoriais. E temos de adicionar tamb\u00e9m a subvers\u00e3o do regime democr\u00e1tico de Weimar e a sua deposi\u00e7\u00e3o pelo partido nazi de Adolf Hitler, com a funda\u00e7\u00e3o do III <em>Reich<\/em> (1933-1945), estreitamente associada ao desencadear dos tr\u00e1gicos acontecimentos da II Guerra Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m importante notar que os trabalhos de Haushofer surgiram no contexto de um grande debate que, nos anos 1924-1925, estalou entre a comunidade de ge\u00f3grafos alem\u00e3es e que op\u00f4s os defensores da Geografia Pol\u00edtica cl\u00e1ssica, na linha de Ratzel, aos defensores de uma nova Geopol\u00edtica. Este debate desencadeou-se essencialmente por duas grandes raz\u00f5es: a primeira, de contornos marcadamente acad\u00e9micos e de tipo epistemol\u00f3gico, resultava do facto de Kjell\u00e9n ter sustentado a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de um neologismo, como tamb\u00e9m de uma ci\u00eancia original, s\u00f3 que a sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o era propriamente consensual entre a comunidade dos ge\u00f3grafos alem\u00e3es (os detractores de Kjell\u00e9n afirmavam que este n\u00e3o tinha criado nenhuma disciplina nova, pois apenas tinha deslocado a Geografia Pol\u00edtica para o espa\u00e7o da Antropogeografia de Ratzel, e colocado a Geopol\u00edtica no lugar da Geografia Pol\u00edtica ratzeliana\u2026 ); a segunda raz\u00e3o tinha contornos menos acad\u00e9micos e bastante mais pol\u00edticos, e era consequ\u00eancia directa do j\u00e1 referido ambiente conturbado que se vivia na Alemanha ap\u00f3s a derrota na I Guerra Mundial, existindo, dentro da comunidade de ge\u00f3grafos, diversas vozes que sustentavam que esta tinha tido tamb\u00e9m grandes responsabilidades nessa derrota, por n\u00e3o ter sabido contribu\u00edr para uma forma\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica adequada da classe dirigente e da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que acontecera nas rivais Gr\u00e3-Bretanha e Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Karl Haushofer foi um dos principais protagonistas desse debate. Num artigo que ficou famoso nos anais desta pol\u00e9mica, precisamente intitulado <em>Politische Erdkunde und Geopolitik<\/em> (Geografia Pol\u00edtica e Geopol\u00edtica, 1925), come\u00e7ou por sustentar a necessidade de difundir o conhecimento geopol\u00edtico, como saber estrat\u00e9gico, entre a elite dirigente alem\u00e3 (pol\u00edticos, diplomatas e militares) e a popula\u00e7\u00e3o em geral. E, para isso, era necess\u00e1rio romper com a tradi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica anterior pois a disciplina, a Geografia, tinha-se constitu\u00eddo de uma maneira errada, sobre o dualismo Geografia F\u00edsica\/Geografia Humana, sendo o trabalho de Ratzel, embora indiscut\u00edvelmente importante, j\u00e1 ultrapassado. Ent\u00e3o, tra\u00e7ou uma distin\u00e7\u00e3o entre a Geografia Pol\u00edtica, que estuda a distribui\u00e7\u00e3o do poder estatal \u00e0 superf\u00edcie dos continentes e as condi\u00e7\u00f5es (solo, configura\u00e7\u00e3o, clima e recursos) nas quais este se exerce, e a Geopol\u00edtica que tem por objecto a actividade pol\u00edtica num espa\u00e7o natural (Korinman, 1990: 155).<\/p>\n\n\n\n<p>Se esta distin\u00e7\u00e3o se apresentava ainda flu\u00edda, posteriormente, outro elemento da equipa redatorial da <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em>, Hermann Lautensach, num artigo intitulado a <em>Geopolitik und Schule <\/em>(\u201cA Geopol\u00edtica na Escola\u201d, 1928), tra\u00e7ou os seus contornos de uma maneira mais evidente: enquanto a Geografia Pol\u00edtica tem por objecto as formas do ser estaduais e adopta uma perspectiva \u201cest\u00e1tica\u201d, a Geopol\u00edtica interessa-se pelos processos pol\u00edticos do passado e do presente, e est\u00e1 imbu\u00edda de uma perspectiva \u201cdin\u00e2mica\u201d (<em>idem<\/em>: 155).<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m desta tomada de posi\u00e7\u00e3o no debate que op\u00f4s ge\u00f3grafos a geopol\u00edticos podem-se encontrar, no \u00e2mbito dos vast\u00edssimos trabalhos de Haushofer na <em>Zeitschrift f\u00fcr Geopolitik<\/em> (uma listagem dos principais artigos publicados por Haushofer pode encontrar-se em Steuckers, 1992 5-6), v\u00e1rias ideias e teses geopol\u00edticas importantes, algumas das quais vamos analisar mais de perto, pela sua relev\u00e2ncia, quer para a compreens\u00e3o do seu pensamento, quer pelas suas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na Alemanha do per\u00edodo entre as duas guerras mundiais.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira foi formulada em <em>Grenzen in iher Geographischen und Politischen Bedeutung<\/em> (As Fronteiras e o seu Significado Geogr\u00e1fico e Pol\u00edtico, 1927), onde exortou os seus compatriotas a aprofundarem o conhecimento sobre as fronteiras nacionais, defendendo que estas s\u00e3o factos biogeogr\u00e1ficos, e que por isso n\u00e3o se podem compreender, nem justificar, apenas por crit\u00e9rios jur\u00eddicos. Assim, as fronteiras biologicamente justas s\u00e3o as que s\u00e3o pensadas, concebidas e tra\u00e7adas segundo uma perspectiva muldisciplinar (hist\u00f3rica, geogr\u00e1fica, biol\u00f3gica, etc.) e n\u00e3o estritamente jur\u00eddica. Em defesa desta concep\u00e7\u00e3o biogeogr\u00e1fica das fronteiras, argumentou ainda que certos povos, especialmente os que n\u00e3o dispunham de reservas coloniais (<em>i. e.<\/em> territoriais), poderiam ser constrangidos, a ter de efectuar uma dr\u00e1stica limita\u00e7\u00e3o de nascimentos, para manterem a sua popula\u00e7\u00e3o em valores comport\u00e1veis com a dimens\u00e3o do territ\u00f3rio. E denunciou o ego\u00edsmo das na\u00e7\u00f5es colonialistas, que condenavam \u00e0 regress\u00e3o ou at\u00e9 mesmo ao desaparecimento, as na\u00e7\u00f5es europeias que n\u00e3o tinham deixado a sua \u00e1rea de fixa\u00e7\u00e3o original (Steuckers, 1992: 2).<\/p>\n\n\n\n<p>Num segundo importante trabalho, intitulado <em>Geopolitik der Pan-Ideen <\/em>(Geopol\u00edtica das Ideias Continentalistas, 1931), foi desenvolvido aquilo que ficou conhecido como tese das \u201cPan-regi\u00f5es\u201d, sendo, ironicamente, a sua concep\u00e7\u00e3o influenciada pela ideia da \u201cPan-Europa\u201d, promovida na \u00e9poca pelo conde austr\u00edaco Richard Coudenhove-Kalergi (curiosamente tamb\u00e9m com grandes liga\u00e7\u00f5es ao Jap\u00e3o, pelo facto de ter nascido em T\u00f3quio, onde o seu pai foi diplomata no tempo do imp\u00e9rio \u00c1ustro-Hungaro, e de a sua m\u00e3e ser de origem nip\u00f3nica), uma personalidade que figura, com um merecido lugar de destaque, nos anais dos movimentos europe\u00edstas que defendiam a unifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica europeia, por via pac\u00edfica, no per\u00edodo entre as duas guerras mundiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre outras propostas inovadoras, foi Coudenhove-Kalergi quem primeiro formulou a ideia da gest\u00e3o comum do carv\u00e3o e do a\u00e7o franco-alem\u00e3o, como m\u00e9todo de reconcilia\u00e7\u00e3o, no ano de 1923, ideia que no p\u00f3s-II Guerra Mundial foi retomada por Jean Monnet (a quem normalmente \u00e9 a atribu\u00edda a sua autoria) e pelos fundadores das Comunidades Europeias. Todavia, \u00e9 fundamental notar que n\u00e3o era exctamente essa a ideia das \u201cPan-regi\u00f5es\u201d nem de unidade europeia que Haushofer propounha. O recurso a uma hegemonia eventualmente violenta da pot\u00eancia dominante (a Alemanha), era admitido, se necess\u00e1rio, para o controlo da regi\u00e3o que lhe estava adstrita, o que nada tinha a ver com pan-europe\u00edsmo pac\u00edfico e de ades\u00e3o volunt\u00e1ria dos Estados defendido por Coudenhove-Kalergi.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta tese geopol\u00edtica foram identificadas quatro grandes regi\u00f5es mundiais: a \u201cEuro-\u00c1frica\u201d (abrangendo toda a Europa, o M\u00e9dio-Oriente e todo o continente africano); a \u201cPan-R\u00fassia\u201d (abrangendo a generalidade da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o sub-continente indiano e o leste do Ir\u00e3o); a \u201c\u00c1rea de Co-prosperidade da grande \u00c1sia\u201d (abrangendo toda a \u00e1rea bordejante da \u00cdnda e sudeste asi\u00e1tico, o Jap\u00e3o, as Filipinas, a Indon\u00e9sia, a Austr\u00e1lia e generalidade das ilhas do Pac\u00edfico); e a \u201cPan-Am\u00e9rica\u201d (onde se inseria todo o territ\u00f3rio desde o Alaska \u00e0 Patag\u00f3nia e algumas ilhas pr\u00f3ximas do Atl\u00e2ntico e do Pac\u00edfico).<\/p>\n\n\n\n<p>Estreitamente ligada com a tese das \u201cPan-regi\u00f5es\u201d encontra-se a ideia dos Estados-directores\u201d (<em>i. e. <\/em> de um direct\u00f3rio de pot\u00eancias), que consistia na lideran\u00e7a de cada uma dessas \u00e1reas por um Estado forte, din\u00e2mico, com grande popula\u00e7\u00e3o e recursos, dotado de altos padr\u00f5es econ\u00f3micos e industriais, bem como de uma posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica que lhe permitisse exercer um efectivo dom\u00ednio sobre os restantes. Os Estados melhor posicionados para exercer essa lideran\u00e7a seriam, segundo Haushofer, a Alemanha (Euro-\u00c1frica), a R\u00fassia (Pan-R\u00fassia), o Jap\u00e3o (\u00c1rea de Co-prosperidade da grande \u00c1sia) e os EUA (Pan-Am\u00e9rica).<\/p>\n\n\n\n<p>A <em>Geopolitik der Pan-Ideen <\/em>e outros trabalhos de Haushofer tiveram significativas repercuss\u00f5es no exterior, especialmente no Jap\u00e3o imperial dos anos 30 e 40 (que, juntamente com a It\u00e1lia de Mussolini, constitu\u00edu um elo fundamental das chamadas pot\u00eancias do \u201cEixo\u201d). Nesse pa\u00eds, o conceito de geopol\u00edtica de Kjell\u00e9n tinha j\u00e1 sido introduzido, em 1925, pela m\u00e3o do ge\u00f3grafo Chikao Fujisawa, numa recens\u00e3o cr\u00edtica do j\u00e1 referido trabalho de Kjell\u00e9n, <em>Staten som Lifsform,<\/em> publicada num jornal nip\u00f3nico de Direito Internacional e Diplomacia, onde Fujisawa apontava as potencialidades abertas pelo mesmo, para um estudo das quest\u00f5es geogr\u00e1ficas e pol\u00edticas ligadas ao Estado fora da perspectiva formal e abstracta tradicional (Takeuchi, 2000: 72). Estando o caminho intelectual j\u00e1 aberto pela receptividade de Fujisawa e outros ge\u00f3grafos ao neologismo de Kjell\u00e9n, a r\u00e1pida aceita\u00e7\u00e3o e popularidade dos trabalhos Haushofer no Jap\u00e3o, deveu-se, tamb\u00e9m, ao seu profundo conhecimento do car\u00e1cter do povo japon\u00eas e das suas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, militares e sociais, relatado elogiosamente em <em>Dai Nihon. Betrachtungen \u00fcber Gross-Japans Wehrkraft Gross-Japans Weherkraft, Weltstellung und Zukunft<\/em> (O Grande Jap\u00e3o. Oberva\u00e7\u00f5es sobre a defesa a posi\u00e7\u00e3o mundial e o futuro do Jap\u00e3o, 1913).<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, \u00e9 importante notar que a geopol\u00edtica japonesa n\u00e3o foi meramente um produto importado da Alemanha, sendo os seguidores de Haushofer apenas umas das suas correntes importantes. Antes da sua influ\u00eancia chegar ao Jap\u00e3o, j\u00e1 existia a influente escola geogr\u00e1fica da Universidade Imperial de Kyoto, dirigida por Saneshige Komaki, onde se desenvolveu uma escola de geopol\u00edtica com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias: a Escola de Kyoto; e existia tamb\u00e9m uma importante organiza\u00e7\u00e3o de estudos geogr\u00e1ficos, econ\u00f3micos e pol\u00edticos: a Associa\u00e7\u00e3o Japonesa de Geopol\u00edtica, liderada por Nihon Chiseigaku Kyokai (<em>ibidem<\/em>: 75).<\/p>\n\n\n\n<p>3. Se \u00e9 associado \u00e0 hist\u00f3ria da geopol\u00edtica alem\u00e3 que encontramos a origem conceito e os mais significativos esfor\u00e7os de teoriza\u00e7\u00e3o (e justifica\u00e7\u00e3o) de uma disciplina nova \u00e9, por sua vez, no \u00e2mbito da <em>Geopolitics <\/em>(<em>i. e.<\/em> da geopol\u00edtica brit\u00e2nica) que encontramos o que habitualmente \u00e9 considerado principal texto fundador da disciplina: <em>The Geographical Pivot of History<\/em>, tema da confer\u00eancia proferida pelo<em> Honourable<\/em> <em>Sir<\/em> Halford John Mackinder, em Londres, na Sociedade Real de Geografia, a 21 de Janeiro de 1904. O seu autor foi um not\u00e1vel ge\u00f3grafo e acad\u00e9mico na sua \u00e9poca, professor de Geografia em Oxford (1987-1905) \u2013 o primeiro desde que no s\u00e9culo XVI Richard Hakluyt ensinara Geografia nessa universidade \u2013, director do Col\u00e9gio Universit\u00e1rio de Reading (1892-1903), director da <em>London School of Economics and Political Sciences<\/em> (1903-1908) e um explorador famoso do continente africano, sendo o primeiro europeu a escalar o monte Qu\u00e9nia at\u00e9 ao seu cume (1899).<\/p>\n\n\n\n<p>O principal objectivo de Mackinder, como ge\u00f3grafo e professor, foi reabilitar a imagem da Geografia aos olhos do mundo acad\u00e9mico, na esteira dos prestigiados trabalhos de Carl Ritter e Friedrich Ratzel na Alemanha. E, tal como Ritter, que ensinava na universidade e na Escola de Guerra, Mackinder deu tamb\u00e9m cursos aos oficiais do Estado-maior brit\u00e2nico (a partir de 1906). Mas, para al\u00e9m dos seus objectivos estritamente acad\u00e9micos como ge\u00f3grafo-professor, desenvolveu uma carreira pol\u00edtica activa e esteve ligado aos c\u00edrculos dirigentes brit\u00e2nicos. A sua participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica iniciou-se nas fileiras dos chamados \u201cliberais imperialistas\u201d, mas ap\u00f3s a decis\u00e3o do secret\u00e1rio do governo brit\u00e2nico para as col\u00f3nias, Joseph Chamberlain, em 15 de Maio de 1903, de renunciar oficialmente a uma pol\u00edtica de livre com\u00e9rcio em detrimento de uma pol\u00edtica comercial tarif\u00e1ria proteccionista do com\u00e9rcio no interior do imp\u00e9rio (pretendendo fech\u00e1-lo \u00e0 crescente concorr\u00eancia alem\u00e3 e norte-americana), deu-se uma cis\u00e3o nas fileiras dos \u201cliberais imperialistas\u201d: de um lado ficaram os partid\u00e1rios do livre com\u00e9rcio sem restri\u00e7\u00f5es ao exterior; do outro os que, invocando raz\u00f5es estrat\u00e9gicas e geopol\u00edticas defendiam a pol\u00edtica tarif\u00e1ria proteccionista de Joseph Chamberlain. Mackinder juntou-se a estes \u00faltimos e, posteriormente, acabou por associar-se aos conservadores tendo ocupado o cargo de deputado na C\u00e2mara dos Comuns (1910-1922); desenvolveu, ainda, miss\u00f5es diplom\u00e1ticas no Sul da R\u00fassia (1919-1920), para onde foi nomeado pelo <em>Foreign Office<\/em>, dirigido na \u00e9poca por Lord Curzon, como Alto Comiss\u00e1rio brit\u00e2nico, tendo, ap\u00f3s o seu regresso, trabalhado activamente na funda\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a anti-bolchevique.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deixa de ser curioso verificar tamb\u00e9m a exist\u00eancia significativas similitudes entre Halford Mackinder e o seu mais c\u00e9lebre contempor\u00e2neo \u2013 Winston Churchill \u2013, quer nos percursos pessoais, quer nas ideias (a principal diverg\u00eancia de ideias que se pode detectar entre estas duas personalidades \u00e9 sobre a quest\u00e3o do livre com\u00e9rcio no interior do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico: enquanto Mackinder foi um ac\u00e9rrimo defensor do proteccionismo comercial, Churchill cerrou fileiras em torno de um pol\u00edtica de livre com\u00e9rcio). Ambos nasceram durante o longo reinado da Rainha Vit\u00f3ria (1837-1901), o per\u00edodo \u00e1ureo do imp\u00e9rio no s\u00e9culo XIX (Mackinder em 1861; Churchill em 1874); ambos podem ser descritos atrav\u00e9s das palavras que Fan\u00e7ois B\u00e9darida (1999: 369), magistralmente utilizou para caracterizar o percurso de Churchill: \u201cn\u00e3o se pode compreender a [sua] vida nem a [sua] obra sem perceber at\u00e9 que ponto ele permaneceu um vitoriano imerso \u2013 outros dir\u00e3o \u2013 perdido na modernidade do s\u00e9culo XX\u201d; ambos foram ardentes defensores do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico e empreenderam viagens explorat\u00f3rias e\/ou combateram ao servi\u00e7o do imp\u00e9rio (subida ao monte Qu\u00e9nia, de Mackinder, em 1899; combate na guerra dos <em>Boers<\/em>, na \u00c1frica do Sul, de Churchill, em 1899-1900, etc.); ambos transitaram do Partido Liberal para o Partido Conservador (Mackinder em 1910; Churchill em 1924); ambos mostravam uma desconfian\u00e7a end\u00e9mica face \u00e0 Russia (especialmente ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique de 1917), como principal inimigo do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, do Estado de direito, da liberdade e da democracia; ambos acabaram por projectar o seu nome na hist\u00f3ria, sobretudo devido aos acontecimentos da II Guerra Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Se <em>The Geographical Pivot of History<\/em>, de Mackinder, \u00e9 generalizadamente considerado o texto fundador do discurso geopol\u00edtico moderno, n\u00e3o deixa tamb\u00e9m de ser curioso notar, no mesmo, a aus\u00eancia total da palavra Geopol\u00edtica. Essa aus\u00eancia pode-se tamb\u00e9m constatar em todos os outros trabalhos importantes do ge\u00f3grafo brit\u00e2nico. Tudo indica que essa aus\u00eancia foi deliberada, e que n\u00e3o se deve propriamente a um desconhecimento dos trabalhos de Kjell\u00e9n e dos seus seguidores alem\u00e3es, mas a uma premeditada atitude patri\u00f3tica (compreens\u00edvel se atendermos \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas anteriormente expostas), de rejeic\u00e7\u00e3o do neologismo devido \u00e0 sua conota\u00e7\u00e3o germ\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 an\u00e1lise do texto fundador de Mackinder, verifica-se que este passou em revista, de uma maneira sint\u00e9tica e abrangente, a hist\u00f3ria universal, atrav\u00e9s de uma grelha de leitura geogr\u00e1fica, sustentando que foi nas imensas plan\u00edcies asi\u00e1ticas que ocorreram os acontecimentos decisivos da hist\u00f3ria universal, e que esta zona do mundo tem teve, milenarmente, uma influ\u00eancia decisiva no rumo dos acontecimentos mundiais. Face a esta constata\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-geogr\u00e1fica prop\u00f4s um conceito anal\u00edtico original \u2013 a \u00e1rea <em>pivot<\/em> (1904) \u2013 cuja designa\u00e7\u00e3o (e contornos), foram posteriormente alterados para <em>Heartland<\/em> (1919), como resultado da sua reflex\u00e3o sobre os acontecimentos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> da I Guerra Mundial (Blouet, 1987: 167), e, provavelmente tamb\u00e9m, da influ\u00eancia exercida pelo seu contempor\u00e2neo, o ge\u00f3grafo da Universidade de Londres, James Fairgrieve, em trabalhos como <em>Geography &amp; World Power<\/em> (1915).<\/p>\n\n\n\n<p>A este prop\u00f3sito, n\u00e3o deixa de ser curioso notar que, ao contr\u00e1rio do que acontece com a <em>Geopolitik<\/em> de Karl Haushofer (normalmente abundamente ligada a outros contributos, \u00e0s vezes at\u00e9 sem grande fundamenta\u00e7\u00e3o&#8230;), a geopol\u00edtica brit\u00e2nica da primeira metade do s\u00e9culo XX \u00e9, normalmente, apresentada como tendo em Mackinder a sua figura central e mais ou menos \u00fanica, e as suas ideias s\u00e3o tamb\u00e9m apresentadas como revestindo uma quase total originalidade, face \u00e0 aus\u00eancia de conex\u00f5es estabelecidas com trabalhos precursores, ou de ge\u00f3grafos seus contempor\u00e2neos. Mas esta imagem naturalmente que n\u00e3o resiste a uma an\u00e1lise mais profunda dos trabalhos de Mackinder. <em>The Geographical Pivot of History<\/em> (1904) foi, em grande parte, uma reac\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica \u00e0 influ\u00eancia (que Mackinder julgava perniciosa para o poder brit\u00e2nico), dos trabalhos do almirante norte-americano Alfred Thayer Mahan sobre a apologia do poder mar\u00edtimo, o mais famoso dos quais intitulado <em>The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783<\/em> (1890). O grande impacto dos trabalhos de Mahan sobre os seus contempor\u00e2neos pode-se facilmente constatar-se na rival Alemanha onde, por exemplo, o Kaiser Wilhelm II determinou que os livros Mahan fossem leitura obrigat\u00f3ria pelos oficiais da sua marinha imperial.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, o compatriota de Mackinder, James Fairgrieve, no j\u00e1 referido <em>Geography &amp; World Power<\/em> (1915), analisou as conex\u00f5es entre os factores geogr\u00e1ficos e o poder estadual ao longo da hist\u00f3ria, numa linha de pensamento semelhante \u00e0 que Mackinder desenvolveu inicialmente no escrito de 1904 e, posteriormente, num outro importante trabalho publicado no imediato p\u00f3s I Guerra Mundial, intitulado <em>Democratic Ideals and Reality <\/em>(1919). Quer dizer, Makinder foi simultaneamente influenciador e influenciado por Fairgrieve. Isso \u00e9 vis\u00edvel no seu trabalho de 1919, onde o <em>Heartland<\/em> surge como uma vasta regi\u00e3o que corresponde, na sua ess\u00eancia, \u00e0s imensas plan\u00edcies do continente asi\u00e1tico, que geograficamente t\u00eam o seu in\u00edcio na Europa Leste e que pela sua imensid\u00e3o e protec\u00e7\u00f5es naturais (gelos \u00e1rticos no norte e cadeias montanhosas no sul) s\u00e3o praticamente inacess\u00edveis \u00e0s talassocracias (<em>i. e. <\/em>ao poder mar\u00edtimo).<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>Democratic Ideals and Reality<\/em>, Mackinder come\u00e7ou por lembrar que o pensamento dos \u201cgrandes organizadores\u201d que mais influenciaram o destino pol\u00edtico da Europa do s\u00e9culo XIX (Napole\u00e3o I e Bismarck), foi sempre de tipo essencialmente estrat\u00e9gico. E que esta forma de pensamento se contrap\u00f5e, naturalmente, ao pensamento dos democratas puros (Mackinder estava, provavelmente, a pensar no \u201cidealismo\u201d do presidente norte-americano Woodrow Wilson&#8230;), que tendem a raciocinar quase esclusivamente em termos de grandes princ\u00edpios \u00e9ticos (e jur\u00eddicos). Por isso, Mackinder fez notar que, apesar da import\u00e2ncia dos ideais democr\u00e1ticos, n\u00e3o se podia subestimar o impacto que o pensamento estrat\u00e9gico dos grandes organizadores tinha na pol\u00edtica internacional. E isto podia facilmente verificar-se pela an\u00e1lise da hist\u00f3ria europeia: para responder \u00e0 Fran\u00e7a e ao agressivo militarismo napole\u00f3nico ap\u00f3s a derrota de Jena (1806), a Alemanha (ou melhor a multiplicidade de entidades pol\u00edticas aut\u00f3nomas que partilhavam o espa\u00e7o germ\u00e2nico), sob o galvanizador impulso intelectual de Johan Gottlieb Fichte, atrav\u00e9s dos empolgantes <em>Reden an die Deutsche Nation<\/em> (Discursos \u00e0 Na\u00e7\u00e3o alem\u00e3), proferidos na Universidade de Berlim (1807-1808) lan\u00e7ou, sob a lideran\u00e7a da Pr\u00fassia, as bases do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio, da educa\u00e7\u00e3o universal obrigat\u00f3ria, e estabeleceu, ainda, uma forte liga\u00e7\u00e3o entre a institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria e a academia militar, onde se formava grande parte da elite dirigente alem\u00e3. Foi a superioridade daquilo que parafraseando o estratega militar brit\u00e2nco Liddell Hart se pode qualificar como a \u201cgrande estrat\u00e9gia\u201d nacional alem\u00e3 (<em>i. e.<\/em>, uma estrat\u00e9gia que n\u00e3o se restringiu aos aspectos militares, antes foi formulada em termos globais, ou seja militares, econ\u00f3micos, culturais, etc), baseada na <em>Kultur<\/em> que, na segunda metade do s\u00e9culo XIX permitiu \u00e0 Alemanha de Otto von Bismarck superar a Fran\u00e7a de Napole\u00e3o III, ascendendo a pot\u00eancia dominante da Europa continental.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Mackinder recorrendo a uma met\u00e1fora cheia de simbolismo e originalidade, lembrou aos dirigentes dos Estados vencedores da I Guerra Mundial que, conforme um general romano instru\u00edra um escravo para segredar-lhe ao ouvido que era mortal (de modo a que nos momentos de triunfo militar n\u00e3o perdesse a no\u00e7\u00e3o da realidade), tamb\u00e9m estes deveriam ter algu\u00e9m a lembrar-lhes repetidamente: <em>who rules East Europe commands the Heartland; who rules the Heartland commands the World-Island; who rules the World-island commands the World<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> (quem controlar a Europa de Leste domina o <em>Heartland<\/em>; quem controlar o <em>Heartland<\/em> dominar\u00e1 a Ilha-Mundial; quem controlar a Ilha-Mundial dominar\u00e1 o mundo) (Mackinder, 1919 [1942]: 150].<\/p>\n\n\n\n<p>De facto, Mackinder, com a publica\u00e7\u00e3o da obra <em>Democratic Ideals and Reality<\/em>, pretendeu intervir nesse debate, chamando \u00e0 aten\u00e7\u00e3o dos principais dirigentes pol\u00edticos da alian\u00e7a militar vencedora \u2013 Lloyd George (Reino Unido), Woodrow Wilson (EUA) e Georges Clemenceau (Fran\u00e7a) \u2013 para a necessidade premente de organizar a Europa de Leste, mantendo-a fora do controlo duma \u00fanica pot\u00eancia terrestre, por for\u00e7a das espec\u00edficas caracter\u00edsticas pen\u00ednsulares da Europa Ocidental. Assim, aquilo que designou como um cord\u00e3o de <em>buffer-states<\/em> (Estados-tamp\u00e3o), deveria separar a Alemanha da R\u00fassia, evitando que uma s\u00f3 pot\u00eancia dominasse o <em>Heartland <\/em>(Mackinder, 1919 [1942]: 158). Assinal\u00e1vel \u00e9 o facto deste trabalho do geogr\u00e1fo brit\u00e2nico ser n\u00e3o s\u00f3 um marco importante do pensamento realista-pol\u00edtico, em defesa da tradicional <em>balance of powers<\/em> (balan\u00e7a dos poderes), como constituir uma interessante antecipa\u00e7\u00e3o de muitos dos argumentos usados nos virulentos ataques a que foi sujeito o idealismo consubstanciado na Sociedade das Na\u00e7\u00f5es (institu\u00edda precisamente em 1919), ao longo da segunda metade dos anos 30, nomeadamente pelo seu compatriota \u2013 o historiador Edward H. Carr \u2013 em <em>The Twenty Years Crisis<\/em> (1939).<\/p>\n\n\n\n<p>4. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender as imagens profundamente negativas e diabolizadas (criadas sobretudo no mundo anglo-sax\u00f3nico e especialmente nos EUA), em torno da <em>Geopolitik<\/em> e de Karl Haushofer, se n\u00e3o se tiver em conta o enorme impacto (e apreens\u00e3o) gerado junto do p\u00fablico norte-americano, pelos sucessos da <em>wermacht<\/em> (o ex\u00e9rcito da Alemanha nazi) na II Guerra Mundial, durante a sua <em>blitzkrieg<\/em> (guerra rel\u00e2mpago) que levou \u00e0 conquista de quase toda a Europa, nos anos 1939-1941; nem \u00e9 poss\u00edvel compreender tamb\u00e9m essas imagens, sen\u00e3o tivermos em considera\u00e7\u00e3o o envolvimento directo dos EUA nesse conflito, a partir do ataque do Jap\u00e3o \u00e0 base naval de Pearl Harbour, nas ilhas do Hawai, no Oceano Pac\u00edfico, a 8 de Dezembro de 1941.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel constatar-se que os <em>media<\/em> norte-americanos mostravam j\u00e1 bastante intereresse e curiosidade, quer pela <em>Geopolitik<\/em>, quer pela personalidade de Haushofer, mesmo antes da entrada dos EUA na II Guerra Mundial. Diversos artigos com t\u00edtulo sugestivos apareceram um pouco por toda a imprensa, sendo os mais c\u00e9lebres (e sensacionalistas) da autoria do jornalista Frederick Sondern. <em>Hitler\u00b4s Scientists<\/em> (Os Cientistas de Hitler) e em <em>The Thousand Scientists behind Hitler<\/em> (Mil Cientistas por detr\u00e1s de Hitler) figuram nos anais dos principais relatos medi\u00e1ticos sobre a \u201cnova ci\u00eancia alem\u00e3\u201d (\u00d3 Tuathail, 1996: 111-121). Estes artigos foram publicados no ano de 1941, respectivamente, na <em>Reader\u00b4s Digest<\/em> e na <em>Collier\u00b4s<\/em> (duas publica\u00e7\u00f5es de massa), tendo um enorme impacto no p\u00fablico norte-americano. Em <em>The Thousand Scientists behind Hitler<\/em>, era descrita a exist\u00eancia de um \u201cm\u00edtico\u201d Instituto de Geopol\u00edtica, em Munique, (algo que de facto se verificou nunca ter existido e cuja inven\u00e7\u00e3o, tem, provavelmente, origem na deturpa\u00e7\u00e3o do papel de outra institui\u00e7\u00e3o, a<em> Deutschen Akademie <\/em>(Academia Alem\u00e3), que Haushofer efectivamente presidiu entre 1934 e 1937&#8230;), chefiado por Haushofer, e sugerido que Hitler tinha uma esp\u00e9cie de \u201cpacto sat\u00e2nico com for\u00e7as obscuras, uma das quais seria uma nova ci\u00eancia de conduzir a pol\u00edtica e a guerra. Essa nova arma, a geopol\u00edtica, sa\u00edda dos laborat\u00f3rios de Munique, seria servida por um grupo de cientistas enfeudados \u00e0 pol\u00edtica agressiva alem\u00e3.\u201d (Frederick Sondern citado por Valente de Almeida, 1988 [1990]: 138).<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 depois da entrada dos EUA na guerra, a revista <em>Life <\/em>de 21 de Dezembro de 1942, anunciava como t\u00edtulo do artigo principal, da autoria de J. Thorndike: <em>Geopolitics: The lurid career of a scientific system which a Briton invented, the Germans used and the Americans need to study <\/em>(Geopol\u00edtica: O atraente percurso de um um sistema cient\u00edfico que um Brit\u00e2nico inventou, os Alem\u00e3es usam e os Americanos precisam de estudar) (\u00d3 Tuathail, 1996: 111). Neste contexto, \u00e9 poss\u00edvel verificar-se que o ano de 1942 foi particularmente importante, tendo sido, durante o mesmo, publicados diversos trabalhos influentes, agora sobre a forma de livro, todos, curiosamente da autoria de emigrantes europeus da <em>Mittel Europa<\/em> (Europa Central), que se radicaram nos EUA, e consubstanciando um conjunto de estudos, os quais, parafraseando \u00d3 Tuathail (1996: 121), se podem qualificar como do tipo <em>middle-brow policy narrative<\/em> (<em>i. e<\/em>. como trabalhos interessantes, mas sem muita profundidade e grande rigor acad\u00e9mico). Entre esses trabalhos destacam-se os da autoria de Hans Weigert intitulado <em>Generals and Geographers: The Twilight of Geopolitics<\/em> (Generais e Ge\u00f3grafos: O Crep\u00fasculo da Geopol\u00edtica) e o de Robert Strausz-Hup\u00e9, Geopolitics: <em>The struggle for Space and Power<\/em> (Geopol\u00edtica: A luta pelo Espa\u00e7o e pelo Poder), que vamos analisar sinteticamente e apenas nos seus tra\u00e7os essenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Hans Weigert (1942: 28-29), a ess\u00eancia pensamento cultural e pol\u00edtico germ\u00e2nico do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, e as ra\u00edzes da <em>Geopolitik<\/em>, podiam encontrar-se j\u00e1 na leitura do <em>best-seller<\/em> de Oswald Spengler, <em>Der Untergang des Abendlandes I-II<\/em> (1918-22), obra que os norte-americanos trataram com superficialidade<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> e cuja recep\u00e7\u00e3o nos meio cutural e pol\u00edtico dos EUA foi feita com manifesta falta de esp\u00edrito cr\u00edtico. Quanto \u00e0 influ\u00eancia de Haushofer sobre Adolf Hitler, Weigert demarcou-se, pelo menos em parte, daqueles que, especulativamente, pretendiam ver o dedo de Haushofer em toda a ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Hitler e na redac\u00e7\u00e3o do <em>Mein Kampf <\/em>(A Minha Luta). A este prop\u00f3sito referiu, em tom ir\u00f3nico, que Haushofer certamente \u201cteve o azar de perder o autocarro para visitar Hitler na pris\u00e3o de Landsberg\u201d quando este estava a escrever o famoso cap\u00edtulo XIV do <em>Mein Kampf<\/em>, o qual cont\u00e9m as principais directrizes da pol\u00edtica externa do <em>III Reich <\/em>(Weigert, 1942: 151). Isto porque o seu conte\u00fado diverge das principais teses geopol\u00edticas de Haushofer, que sempre foi contr\u00e1rio \u00e0 \u201copera\u00e7\u00e3o Barbarossa\u201d, ordenada por Hitler, em 1941, e que levou, \u00e0 invas\u00e3o da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, com resultados catastr\u00f3ficos para os ex\u00e9rcitos nazis e para a sobreviv\u00eancia do regime hitleriano.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente ao processo de especula\u00e7\u00e3o (e de \u201csataniza\u00e7\u00e3o\u201d) que se desenvolvia nos <em>media<\/em> norte-americanos e, em menor grau, na j\u00e1 referida literatura do tipo <em>middle-brow<\/em>, a <em>Geopolitik<\/em> foi simultaneamente objecto de um processo de descredibiliza\u00e7\u00e3o, agora a um n\u00edvel mais profundo e especificamente acad\u00e9mico-cient\u00edfico. Nesse processo, destacou-se o mais c\u00e9lebre e influente ge\u00f3grafo norte-americano da primeira metade do s\u00e9culo XX \u2013 Isaiah Bowman \u2013 director da <em>American Geographical Society <\/em>(1915-1935), conselheiro-chefe para as quest\u00f5es territoriais do presidente Woodrow Wilson, na Confer\u00eancia de paz de Versalhes (1919), membro fundador e presidente (1931-1934) do <em>Council on Foreign Relations<\/em> que esteve na origem da funda\u00e7\u00e3o da revista norte-americana, <em>Foreign Affairs<\/em>, em 1922, (criada com o objectivo de combater as tend\u00eancias isolacionistas dos EUA e forjar uma nova consci\u00eancia geogr\u00e1fica nos EUA, despertando o p\u00fablico e os dirigentes norte-americanos para o seu papel nos assuntos internacionais), presidente da Universidade Johns Hopkins (1935-1948) e conselheiro do departamento de Estado para as quest\u00f5es territoriais durante a II Guerra Mundial. Bowman come\u00e7ou por ser conhecido do grande p\u00fablico, pela organiza\u00e7\u00e3o de expedi\u00e7\u00f5es patrocinadas pela <em>American Geographical Society<\/em> e posterior publica\u00e7\u00e3o dos seus relatos, sendo a mais importante aos Andes situados a Sul do Per\u00fa, em 1915 (uma semelhan\u00e7a not\u00f3ria com o percurso de Mackinder). Mas, foi sobretudo o trabalho intitulado <em>The New World: Problems in Political Geography<\/em> (O Novo Mundo: Problemas de Geografia Pol\u00edtica, 1921), onde descreveu e analisou os imp\u00e9rios, os Estados e as col\u00f3nias do mundo, na sequ\u00eancia dos arranjos territoriais sa\u00eddos da I Guerra Mundial, que lhe deu maior notoriedade: o departamento de Estado distribuiu 400 c\u00f3pias pelas suas representa\u00e7\u00f5es consulares em todo o mundo e, durante a II Guerra Mundial, foram distribu\u00eddas 200 c\u00f3pias pelas livrarias de campo do ex\u00e9rcito norte-americano (\u00d3 Tuathail, 1996: 151-152). Por sua vez, com os desenvolvimentos da II Guerra Mundial e a crescente aten\u00e7\u00e3o prestada pelos <em>media<\/em> \u00e0 Geopol\u00edtica aumentou a notoriedade de Bowman. No discurso p\u00fablico norte-americano era referido correntemente como \u201co nosso\u201d geopol\u00edtico; e, simultaneamente, gerou-se nos <em>media<\/em> uma tend\u00eancia espont\u00e2nea de o qualificar como o \u201cHaushofer americano\u201d o que, por raz\u00f5es patri\u00f3ticas e acad\u00e9micas compreens\u00edveis, irritou o c\u00e9lebre ge\u00f3grafo. E, por reac\u00e7\u00e3o a esta \u201cliga\u00e7\u00e3o perigosa\u201d, Isaiah Bowman publicou um influente artigo na <em>Geograghical Revue<\/em>, em Outubro de 1942, intitulado<em> Geography versus Geopolitics<\/em>, onde afirmava que \u201ca Geopol\u00edtica representa uma vis\u00e3o distorcida das rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, pol\u00edticas e geogr\u00e1ficas do mundo e das suas partes&#8230; os seus argumentos tal como s\u00e3o desenvolvidos na Alemanha servem apenas para sustentar o caso da agress\u00e3o alem\u00e3\u201d (Isaiah Bowman citado por \u00d3 Tuathail, 1996: 154).<\/p>\n\n\n\n<p>Este esfor\u00e7o de demarca\u00e7\u00e3o de Isaiah Bowman face \u00e0 \u201cci\u00eancia Geopol\u00edtica\u201d (<em>i.e<\/em>. \u00e0 <em>Geopolitik<\/em>) foi secundado em publica\u00e7\u00f5es sobre Pol\u00edtica Internacional dirigidas a p\u00fablicos selectivos, como a <em>Foreign Affairs,<\/em> atrav\u00e9s da contraposi\u00e7\u00e3o de teses geopol\u00edticas \u201cboas\u201d, onde se evitava o uso da palavra proscrita. Ainda no ano de 1942, e na consequ\u00eancia do interesse do p\u00fablico norte-americano por <em>Democratic Ideals and Reality<\/em> de Mackinder, surgiram duas reedi\u00e7\u00f5es desse trabalho (respectivamente em Maio e Outubro) e Hamilton Fish Armstrong, o editor na \u00e9poca da <em>Foreign Affairs<\/em>, solicitou a Mackinder uma revis\u00e3o da teoria do <em>Heartlland<\/em> face aos acontecimentos da II Guerra Mundial. Dessa solicita\u00e7\u00e3o resultou um famoso artigo intitulado <em>The Round World and the Winning of the Peace<\/em>, publicado em Julho de 1943, onde Mackinder formulou a tese do <em>Midland Ocean<\/em>, numa antecipa\u00e7\u00e3o daquilo que ficou conhecido por pol\u00edtica de <em>containment <\/em>do expansionismo sovi\u00e9tico, na \u00e9poca de Harry Truman, e que esteve na g\u00e9nese da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, nesse mesmo ano de 1942, surgiram tamb\u00e9m dois importantes trabalho da autoria de um norte-americano de origem holandesa, Nicholas John Spykman, ex-jornalista (1913-1920) e professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na Universidade de Yale desde 1928, (onde foi tamb\u00e9m director do Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. O primeiro, intitulado <em>The America\u00b4s Strategy in World Politics. The United States and the Balance of Power <\/em>(1942), para al\u00e9m de ter recebido coment\u00e1rios elogiosos de Isaiah Bowman, foi qualificado pelo seu editor, a <em>Harcourt, Brace and Company<\/em>, como \u201ca primeira an\u00e1lise geopol\u00edtica abrangente da posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos no mundo\u201d feita pela \u201cmaior autoridade norte-americana em geopol\u00edtica\u201d (apresenta\u00e7\u00e3o de Spykman na capa da edi\u00e7\u00e3o de 1942). Quanto ao segundo, <em>The Geography of the Peace<\/em> (1944), redigido em 1943 mas publicado postumamente, marcou decisivamente a pol\u00edtica externa do p\u00f3s-II Guerra Mundial com o conceito de <em>Rimland <\/em>(uma zona entre os poderes mar\u00edtimo e terrestre, que abrangia parte da Europa Ocidental, o M\u00e9dio Oriente, a Turquia, o Ir\u00e3o, a \u00cdndia, o Paquist\u00e3o, a China, a Coreia, o Jap\u00e3o, o Sudoeste Asi\u00e1tico e a costa do pac\u00edfico da R\u00fassia) uma \u00e1rea geoestrat\u00e9gica determinante para a seguran\u00e7a dos EUA no mundo (e que influ\u00eanciou toda a sua pol\u00edtica de alian\u00e7as militares).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste contexto politicamente tumultuoso e de separa\u00e7\u00e3o de \u00e1guas entre uma geopol\u00edtica \u201cboa\u201d e uma geopol\u00edtica \u201cm\u00e1\u201d que tem de ser entendida a conhecida (mas frequentemernte mal interpretada) afirma\u00e7\u00e3o do professor da Universidade de Chicago, Hans J. Morgenthau (um dos principais impulsionadores do estudo acad\u00e9mico aut\u00f3nomo das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais nos EUA) de que \u201ca geopol\u00edtica \u00e9 uma pseudoci\u00eancia\u201d (1948 [1997]: 178). O que Morgenthau (tal como Bowman) quis de facto qualificar como uma pseudoci\u00eancia n\u00e3o foi, como pode parecer \u00e0 primeira vista, a Geopol\u00edtica (<em>i.e.<\/em>, o saber geopol\u00edtico em geral), mas, apenas, uma determinada vis\u00e3o geopol\u00edtica particular, a da <em>Geopolitik<\/em> (<em>i.e.<\/em>, a geopol\u00edtica alem\u00e3-nazi). Certamente que nem Bowman, nem Morgenthau, pretendiam incluir nas suas cr\u00edticas os trabalhos geopol\u00edticos do brit\u00e2nico Mackinder (que sempre evitou usar a palavra Geopol\u00edtica&#8230;) nem os do seu compatriota Spkykman que, ali\u00e1s, se inserem perfeitamente na sua vis\u00e3o realista e anglo-sax\u00f3nica das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Mas, o esfor\u00e7o empreendido pelos meios acad\u00e9mico-cient\u00edficos norte-americanos de \u201csepara\u00e7\u00e3o de \u00e1guas\u201d, entre uma \u201cGeopol\u00edtica boa\u201d (n\u00e3o designada por Geopol\u00edtica&#8230;) e uma \u201cGeopol\u00edtica \u201cm\u00e1\u201d n\u00e3o foi em v\u00e3o: o uso palavra Geopol\u00edtica foi praticamente banido do vocabul\u00e1rio da Pol\u00edtica Internacional durante tr\u00eas d\u00e9cadas (at\u00e9 aos anos 70 do s\u00e9culo XX). A principal ironia deste processo \u00e9 que, paralelamente, o pensamento geopol\u00edtico floresceu nos EUA do p\u00f3s II Guerra Mundial mais do que em qualquer outro Estado do mundo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aron, Raymond (1962 [1984]), <em>Paix et Guerre entre les Nations<\/em>, 8\u00e8me \u00e9dition, Paris: Calmann-L\u00e9vy.<\/p>\n\n\n\n<p>B\u00e9darida, Fran\u00e7ois (1999), <em>Churchill<\/em> (trad. port., Churchill, 2001), Lisboa: Editorial Verbo.<\/p>\n\n\n\n<p>Blouet, Brian W. (1975), <em>Sir Halford Mackinder (1864-1947): some new perspectives<\/em>, research paper n\u00ba 13, Oxford: School of Geography\/University of Oxford.<\/p>\n\n\n\n<p>Blouet, Brian W. (1987), <em>Halford Mackinder. A Biography, <\/em>Texas: Texas A&amp;M University Press.<\/p>\n\n\n\n<p>Carr, Edward H. (1939 [1964]), <em>The Twenty Years\u00b4Crisis, 1919-1939<\/em>, (2<sup>nd<\/sup> edition, 1946, reprinted by arrangement, 1964) New York: Harper &amp; Row, Publishers.<\/p>\n\n\n\n<p>Dodds, Klaus e Atkinson, David (2000), \u201cIntroduction to geopolitical traditions: a century of geopolitical thought\u201d in <em>K. Dodds e D. Atkinson [eds] Geopolitical traditions: a century of geopolitical thought<\/em>, London-New York: Routledge. [pp. 1-24].<\/p>\n\n\n\n<p>Dorpalen, Andreas (1942), <em>The World of General Haushofer: Geopolitics in Action<\/em>, New York: Farrar &amp; Reinhart.<\/p>\n\n\n\n<p>Fairgrieve, James (1915), <em>Geography and World Power<\/em>, London: University of London Press.<\/p>\n\n\n\n<p>Fettweis, Christopher J. (2000), \u201cSir Halford Mackinder, Geopolitics and Policymaking in the 21th Century\u201d in <em>Parameters, US Army War College Quarterly<\/em>, Summer [pp. 58-71].<\/p>\n\n\n\n<p>Haushofer, Karl (1923), <em>Japan und die Japaner. Eine Landeskunde. <\/em> (trad. fr., Le Japon et les Japonais, 1937), Paris-Gen\u00e8ve: \u00c9ditions Payot.<\/p>\n\n\n\n<p>Heffernan, Michael (2000), \u201cFin de si\u00e8cle, fin du monde? On the origins of european geopolitics, 1890-1920\u201d in <em>K. Dodds e D. Atkinson [eds.] Geopolitical traditions: a century of geopolitical thought<\/em>, London-New York: Routledge. [pp. 27-51].<\/p>\n\n\n\n<p>Kissinger, Henry (1994), <em>Diplomacy<\/em> (trad. port., 1996, Diplomacia), Lisboa: Gradiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Kjell\u00e9n, Rudolf (1916 [1924]), <em>Staten som Lifsform <\/em>(trad. al., 1924, Der Saat als Lebensform), Berlin: Kurt Wowinckel Vlg.<\/p>\n\n\n\n<p>Kjell\u00e9n, Rudolf e Haushofer, Karl [ed.] (1930), <em>Die Grossm\u00e4chte vor und nach dem Weltkriege<\/em>, Leipzig: Teubner.<\/p>\n\n\n\n<p>Korinman, Michel (1990), <em>Quand l\u00b4Allemagne pensait le monde<\/em>. <em>Grandeur et d\u00e9cadence d\u00b4une g\u00e9opolitique<\/em>, Paris: Fayard.<\/p>\n\n\n\n<p>Korinman, Michel (1991), <em>Continents Perdus<\/em>. <em>Les Precurseurs de la G\u00e9opolitique Allemande<\/em>. Paris: Economica.<\/p>\n\n\n\n<p>Lacoste, Yves [ed] (1993 [1995]), <em>Dictionnaire de Geopolitique, <\/em>2\u00e8me \u00e9dition, Paris: Flammarion.<\/p>\n\n\n\n<p>Mackinder, Halford J. (1904 [1998-1999]), <em>The Geographical Pivot of History<\/em> (artigo originalmente publicado no Geographical Journal, vol. 23, 1904, pp. 421-444, trad. fr. de Herv\u00e9 Coutau-B\u00e9garie, Le Pivot G\u00e9ographique de l\u00b4Histoire), www.stratisc.org\/strat_055_MACKINDERP.html\/<\/p>\n\n\n\n<p>Mackinder, Halford J. (1919 [1942]), <em>Democratic Ideals and Reality, A Study in the Politics of Reconstruction<\/em> (3<sup>th<\/sup> edition, October, 1942), New York: Henry Holt and Company.<\/p>\n\n\n\n<p>Mattern Jhoannes (1942), <em>Geopolitik: Doctrine of National Self-Sufficiency and Empire<\/em>, Baltimore: John Hopkins University Press.<\/p>\n\n\n\n<p>Morgenthau, Hans J. (1948 [1997]), <em>Politics Among Nations. The Struggle for Power and Peace <\/em>(6<sup>th<\/sup> edition revised by Kenneth W. Thompson, 1997), New York-Singapore: McGraw-Hill International Editions.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3 Tuathail, Gear\u00f3id [Gerard Toal] (1996), <em>Critical Geopolitics<\/em>, Minneapolis: University of Minnesota Press.<\/p>\n\n\n\n<p>Parker, Geoffrey (1998), <em>Geopolitics, Past, Present and Future<\/em>, London-Washington: Francis Pinter\/Frank Cassel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ratzel, Friedrich (1897), <em>Politische Geographie <\/em>(trad. fr. G\u00e9ographie Politique, 1988), Paris: \u00c9ditions Economica.<\/p>\n\n\n\n<p>Spengler, Oswald (1918-1922 [1998]), <em>Der Untergang des Abendlandes, vol. I-II<\/em> (trad. esp., 1998, La Decadencia de Occidente. Bosquejo de una morfologia de la hist\u00f3ria universal, vol. I-II), Madrid: Editorial Espasa Calpe.<\/p>\n\n\n\n<p>Spykman, Nicholas John (1942), <em>America\u00b4s Strategy in World Politics. The United States and the balance of power <\/em>(2<sup>nd<\/sup> printing, April, 1942), New York: Harcourt, Brace and Company.<\/p>\n\n\n\n<p>Steuckers, Robert (1992), <em>Karl Haushofer (1869-1946),<\/em> <a href=\"http:\/\/www.nationalbolshevik.com\/synergon\/Ofr1990s.html\">http:\/\/www.nationalbolshevik.com\/synergon\/Ofr1990s.html<\/a>. [Internet, 7 pp.]\n\n\n\n<p>Steuckers, Robert (1997a), \u201cRudolf Kjell\u00e9n (1864-1922)\u201d in <em>Vouloir<\/em>, n\u00ba 9, Printemps. [Internet, 7 pp.]\n\n\n\n<p>Steuckers, Robert (1997b), \u201cFriedrich Ratzel (1844-1904). Anthropog\u00e9ographie et Geographie Politique\u201d in <em>Vouloir<\/em>, n\u00ba 9, Printemps. [Internet, 8 pp.]\n\n\n\n<p>Strausz-Hup\u00e9, Robert (1942), <em>Geopolitics: The Struggle for Space and Power<\/em>, New York: G. P. Putnam\u00b4s Sons.<\/p>\n\n\n\n<p>Takeuchi, Keiichi (2000), \u201cJapanese Geopolitics in the 1930s and the 1940s\u201d in <em>K. Dodds e D. Atkinson [eds.] Geopolitical traditions: a century of geopolitical thought<\/em>, London-New York: Routledge. [pp. 72-92].<\/p>\n\n\n\n<p>Teggart, Frederick J. (1919), \u201cAn Appreciation of Mackinder\u00b4s Democratic Ideals and Reality\u201d in <em>The Geographical Review<\/em>, vol. VIII, n\u00ba 4-5, New York: American Geographical Society. [pp. 227-242].<\/p>\n\n\n\n<p>Valente de Almeida, Pol\u00edbio F. (1988 [1990]), <em>Do poder do pequeno Estado. Enquadramento geopol\u00edtico da hierarquia das pot\u00eancias<\/em> (edi\u00e7\u00e3o baseada na tese de doutoramento apresentada ao Instituto Superior de Ci\u00eancias Sociais e Pol\u00edticas da Universidade T\u00e9cnica de Lisboa, 1988), Lisboa: IRI-Instituto Superior de Ci\u00eancias Sociais e Pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Weigert, Hans W. (1942), <em>Generals and Geographers. The Twilight of Geopolitics<\/em>, New York: Oxford University Press.<\/p>\n\n\n\n<p>NOTAS<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> \u201cThe inclusion of East Europe in the Heartland concept was of importance. Mackinder, after an examination of the events leading up to World War I, had come to the opinion that the struggle for command of the Heartland would be between Germany and Russia [&#8230;] The Heartland concept was not a statement of the Pivot idea; it was a prediction made in the light of practical politics and the First World War, and it proved to be remarkably accurate [&#8230;] The 1919 statement brought in a tradition that saw Central Europe as the fulcrum from which the lever of power could be exercised\u00bb (Blouet, 1987: 167).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cWho rules Bohemia rules Europe was how Bismarck had expressed the theme. The Masaryk [Thomas G. ], articles on Pan-Germanism in <em>The New Europe<\/em> had made Mackinder fully aware of this line of thought in German consciuosness [&#8230;] In <em>Democratic Ideals and Reality<\/em> Mackinder encapsulated this theme in his widely quoted jingle\u201d (Blouet, 1987: 167).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> A come\u00e7ar pelo t\u00edtulo que, na opini\u00e3o de Weigert, foi mal traduzido pelo editor norte-americano, para <em>The Decline of The West<\/em>, <em>i. e<\/em>. \u201cA Decad\u00eancia do Ocidente\u201d, quando deveria ter sido traduzido para <em>The Downfall of the West<\/em>, <em>i. e.<\/em> \u201cA Queda do Ocidente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, &#8220;A Geopol\u00edtica Cl\u00e1ssica Revisitada&#8221;, artigo &nbsp;publicado &nbsp;in Na\u00e7\u00e3o &amp; Defesa 105, Ver\u00e3o (2003): 222-244. N\u00e3o s\u00e3o publicados aqui os mapas da vers\u00e3o original do artigo. \u00daltima revis\u00e3o 14\/10\/2015<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1197\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\" alt=\"dom\u00ednio p\u00fablico\" width=\"14\" height=\"14\"><\/a>&nbsp;Imagem: mapa do Heartland (dom\u00ednio p\u00fablico \/ Wikipedia), &nbsp;segundo Halford J. &nbsp;Mackinder, publicado originalmente no artigo &#8220;The Geographical Pivot of History&#8221; (The Geographical Journal, vol. 23, 1904, p. 435)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o existe algo como uma ci\u00eancia geral da geopol\u00edtica, que possa ser subscrita por todas as organiza\u00e7\u00f5es estaduais. H\u00e1 tantas geopol\u00edticas quantos os sistemas estaduais em luta sob condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas, as quais, no caso do poder mar\u00edtimo e do poder terrestre s\u00e3o fundamentalmente diferentes. H\u00e1 uma \u201cGeopolitik\u201d, uma \u201cG\u00e9opolitique\u201d [&#8230;] Cada na\u00e7\u00e3o tem a geopol\u00edtica &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/a-geopolitica-classica-revisitada\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;A Geopol\u00edtica cl\u00e1ssica revisitada&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,52],"tags":[32],"class_list":["post-1794","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-cientificos","tag-geopolitica","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1794","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1794"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1794\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}