{"id":1886,"date":"2015-06-06T21:30:13","date_gmt":"2015-06-06T21:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1886"},"modified":"2015-08-11T19:05:16","modified_gmt":"2015-08-11T19:05:16","slug":"grecia-uma-esquerda-radical-fora-de-tempo-o-timing-desfavoravel-do-syriza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/grecia-uma-esquerda-radical-fora-de-tempo-o-timing-desfavoravel-do-syriza\/","title":{"rendered":"Gr\u00e9cia: uma esquerda radical fora de tempo? (o \u201ctiming\u201d desfavor\u00e1vel do Syriza)"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Gr\u00e9cia.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1887\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Gr\u00e9cia.png\" alt=\"Gr\u00e9cia\" width=\"833\" height=\"556\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Gr\u00e9cia.png 833w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Gr\u00e9cia-300x200.png 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Gr\u00e9cia-768x513.png 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Gr\u00e9cia-370x247.png 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Gr\u00e9cia-270x180.png 270w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Gr\u00e9cia-570x380.png 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Gr\u00e9cia-770x514.png 770w\" sizes=\"auto, (max-width: 833px) 100vw, 833px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 mais neste<em> timing<\/em> que joga contra o Syriza. Se, na Gr\u00e9cia, o voto de protesto foi sobretudo captado pela esquerda radical, noutros pa\u00edses do Norte da Europa o voto de protesto est\u00e1 a ser essencialmente captado pela direita nacionalista e populista. Estes processos, \u00e0 primeira vista desligados, alimentam-se.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. At\u00e9 \u00e0s elei\u00e7\u00f5es legislativas de 2012, ocorridas em plena crise do Euro, a hist\u00f3ria pol\u00edtica da Gr\u00e9cia democr\u00e1tica, que emergiu ap\u00f3s a queda da ditadura dos coron\u00e9is (1967-1974), era basicamente uma hist\u00f3ria de altern\u00e2ncia entre o PASOK e a Nova Democracia \u2013 sem coliga\u00e7\u00f5es e representando ambos 77,5% a 87,5% dos votos. Nesse ano, mas com ra\u00edzes anteriores, que mergulham na crise iniciada em 2007\/2008, tudo mudou. Assistiu-se a uma implos\u00e3o do PASOK e \u00e0 crescente fragmenta\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico. Uma for\u00e7a pol\u00edtica emergiu em crescendo, obtendo vota\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas dos partidos de poder tradicionais \u2013 o Syriza. A vit\u00f3ria eleitoral nas legislativas do passado dia 25\/01\/2015, no limiar da maioria absoluta de deputados, insere-se nessa tend\u00eancia anterior. Ao contr\u00e1rio do PASOK (e da Nova Democracia), o Syriza de Alexis Tsipras n\u00e3o pretende ser um partido de esquerda do \u201cbusiness as usual\u201d, como a Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 habituada. Rejeita ideologicamente as orienta\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica econ\u00f3mica (de austeridade) da Comiss\u00e3o, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI). Rejeita tamb\u00e9m politicamente a atitude de \u201cbom aluno\u201d similar \u00e0 dos\u00a0 governos portugu\u00eas, irland\u00eas, ou espanhol e um seguidismo do governo alem\u00e3o de Angela Merkel. Por outro lado, tem um ambicioso programa de governo \u2013 o programa de Sal\u00f3nica \u2013, direccionado para a corre\u00e7\u00e3o das m\u00faltiplas injusti\u00e7as sociais econ\u00f3micas geradas pela crise e pol\u00edticas de austeridade. No entanto, para ser exequ\u00edvel, tal programa pressup\u00f5e, de alguma forma, o envolvimento das institui\u00e7\u00f5es da Uni\u00e3o Europeia e da Zona Euro e o uso dos seus recursos, ou, se isso n\u00e3o for poss\u00edvel, encontrar alternativas a n\u00edvel internacional. \u00a0Entre as v\u00e1rias quest\u00f5es que aqui se levantam, h\u00e1 uma que tem sido pouco analisada mas \u00e9 crucial: o <em>timing<\/em> de chegada ao poder do Syriza \u00e9-lhe favor\u00e1vel, ou, pelo contr\u00e1rio, ter\u00e1 chegado &#8220;fora de tempo&#8221; ao poder?<\/p>\n<p>2. Em termos democr\u00e1ticos, a vit\u00f3ria eleitoral do Syriza tem um m\u00e9rito inquestion\u00e1vel. Mostra como \u00e9 poss\u00edvel uma escolha que vai al\u00e9m dos partidos do tradicional consenso europe\u00edsta, os quais t\u00eam governado a Gr\u00e9cia e a generalidade da Uni\u00e3o Europeia, desde h\u00e1 longos anos. Estes t\u00eam, por isso mesmo, inevit\u00e1veis responsabilidades pol\u00edticas pela atual crise. Mostra tamb\u00e9m como os eleitores, pelo menos os gregos, est\u00e3o fartos de escolher partidos e governos que se v\u00eam mais executores \u2013 frequentemente at\u00e9 entusiastas, de ordens dos tecnocratas da Uni\u00e3o Europeia e FMI. N\u00e3o \u00e9 pouco. Agora vem, contudo, a parte mais dif\u00edcil. Como passar de um partido de protesto a um partido de poder? Como impor um rumo substancialmente diferente \u00e0 Gr\u00e9cia, quando a sua economia est\u00e1 profundamente integrada na Uni\u00e3o Europeia e na Zona Euro, ambas moldadas por l\u00f3gicas econ\u00f3micas e financeira de tipo neoliberal? Que efeitos t\u00eam eventuais concess\u00f5es \u00e0 Gr\u00e9cia, em termos de redu\u00e7\u00e3o dos prazos dos empr\u00e9stimos, baixa das taxas de juro ou at\u00e9 perd\u00e3o parcial da d\u00edvida, nos restantes Estados-membros da Uni\u00e3o? Que interrela\u00e7\u00f5es se podem estabelecer entre os partidos de protesto \u00e0 esquerda (como o Syriza na Gr\u00e9cia e o Podemos, em Espanha), e os partidos de protesto \u00e0 direita (com a Frente nacional em Fran\u00e7a, ou Partido dos Verdadeiros Finlandeses, na Finl\u00e2ndia)?\u00a0 Em que medida o calend\u00e1rio de elei\u00e7\u00f5es legislativas em diferentes Estados-membros da Uni\u00e3o Europeia, em 2015, facilita ou dificulta a tarefa negocial do Syriza?<\/p>\n<p>3. Olhando para o calend\u00e1rio \u2013 as datas s\u00e3o aproximativas \u2013 das elei\u00e7\u00f5es parlamentares em v\u00e1rios Estados-Membros em 2015, vemos um problema que se pode facilmente antecipar. Finl\u00e2ndia (abril); Reino Unido (maio); Dinamarca (setembro); Portugal (outubro); Pol\u00f3nia (outubro); Espanha (dezembro). Nos Estados onde h\u00e1 governos de direita ou centro-direita no poder que v\u00e3o a elei\u00e7\u00f5es, as pretens\u00f5es negociais do Syriza v\u00e3o enfrentar forte resist\u00eancia dos seus governos na Uni\u00e3o Europeia. A Espanha \u00e9 o caso mais \u00f3bvio, onde o governo de direita do Partido Popular enfrenta j\u00e1 internamente um fen\u00f3meno pol\u00edtico parecido com o do Syriza (o Podemos). Assim, \u00e9 previs\u00edvel que o governo espanhol, tal como o portugu\u00eas, o irland\u00eas, ou o finland\u00eas, entre outros, alinhem \u2013 se n\u00e3o mesmo promovam \u2013 posi\u00e7\u00f5es de pouca flexibilidade, ou at\u00e9 intransig\u00eancia negocial face \u00e0 Gr\u00e9cia, pr\u00f3ximas Alemanha e de outros Estados do n\u00facleo duro da Zona Euro. A alternativa seria conceder a todos os pa\u00edses endividados concess\u00f5es similares \u00e0s da Gr\u00e9cia\u2026. Em ano eleitoral, o sucesso ou fracasso do governo do Syriza vai potenciar ou descredibilizar partidos de oposi\u00e7\u00e3o e\/ou de protesto noutros Estados-membros. A quest\u00e3o vai assumir, por isso, contornos de luta pol\u00edtico-ideol\u00f3gica. Aqui o <em>timing <\/em>parece pouco favor\u00e1vel para o Syriza. At\u00e9 final de fevereiro ter\u00e1 de obter uma extens\u00e3o do apoio \u00e0 compra de d\u00edvida do BCE. Em julho e agosto ter\u00e1 de pagar tranches importantes dos empr\u00e9stimos aos credores. A partir de meados de mar\u00e7o vai come\u00e7ar um per\u00edodo cr\u00edtico. Para obter o financiamento que urgentemente necessita tem, necessariamente, de negociar a n\u00edvel europeu e obter o acordo dos governos dos Estados que v\u00e3o a elei\u00e7\u00f5es\u2026. Algu\u00e9m imagina que os governos de centro-direita v\u00e3o querer que o Syriza mostre resultados positivos de melhoria da economia e do bem-estar da popula\u00e7\u00e3o, pela sua atitude contestat\u00e1ria? Como explicariam depois estes governos aos seus eleitores que ser \u201cbom aluno\u201d\u00a0 e\u00a0 \u201cfazer sacrif\u00edcios\u201d \u00e9 que dava resultados?<\/p>\n<p>4. H\u00e1 mais neste <em>timing<\/em> que joga contra o Syriza. Se, na Gr\u00e9cia, o voto de protesto foi sobretudo captado pela esquerda radical, noutros pa\u00edses do Norte da Europa o voto de protesto est\u00e1 a ser essencialmente captado pela direita nacionalista e populista. Estes processos, \u00e0 primeira vista desligados, alimentam-se. As raz\u00f5es s\u00e3o v\u00e1rias, mas a mais \u00f3bvia \u00e9 que tipicamente esses partidos s\u00e3o anti-Uni\u00e3o Europeia, ou muito cr\u00edticos desta. Entre outros males, atribuem-lhe um desbaratar de recursos financeiros feito \u00e0 custa do trabalho dos seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os contribuintes. Com mais ou menos fundamento, invocam uso indevido e\/ou fraudes com os fundos estruturais, resgates dos pa\u00edses do \u201cClub Med\/PIGS\u201d que podem por em causa o seu bem-estar etc.. Este argumento tem particular resson\u00e2ncia nos Estados que s\u00e3o contribuintes l\u00edquidos para o or\u00e7amento da Uni\u00e3o Europeia, como a Alemanha, Holanda ou a Finl\u00e2ndia. Mais concess\u00f5es \u00e0 Gr\u00e9cia, v\u00e3o, por isso, provavelmente alimentar o voto de protesto \u00e0 direita. Para al\u00e9m desse problema pol\u00edtico, j\u00e1 nem o poder negocial e de press\u00e3o que resulta de uma amea\u00e7a de provocar \u201cdanos colaterais\u201d pela sa\u00edda do Euro, tem hoje o mesmo impacto. O efeito negativo de cont\u00e1gio a outras economias parece hoje bem menor do que em 2012, no pico da crise. Por \u00faltimo, poder\u00edamos pensar nas alternativas de financiamento gregas e apoios pol\u00edticos fora da Uni\u00e3o Europeia. Mas nem a\u00ed o <em>timing<\/em> \u00e9 muito favor\u00e1vel. A R\u00fassia poderia ser um parceiro e aliado natural. Embora por diferentes raz\u00f5es, tem simpatias na Gr\u00e9cia \u00e0 esquerda (mais ideol\u00f3gicas e nost\u00e1lgicas do passado sovi\u00e9tico) e \u00e0 direita (mais religiosas e nacionalistas). O governo do Syriza j\u00e1 jogou a cartada russa na entrada na cena pol\u00edtica europeia, ao opor-se a mais san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas. Resta saber se isso lhe vai aumentar a margem de manobra pol\u00edtica, ou ter efeito \u201cboomerang&#8221;, incrementando a hostilidade dentro da Uni\u00e3o Europeia a concess\u00f5es substanciais sobre a d\u00edvida grega. Se tivesse chegado ao poder nas elei\u00e7\u00f5es de 2012, at\u00e9 seria plaus\u00edvel a op\u00e7\u00e3o russa. Hoje, a R\u00fassia come\u00e7a tamb\u00e9m a estar sufocada pela quebra do pre\u00e7o do petr\u00f3leo e g\u00e1s natural. Os t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica russos est\u00e3o, como os da Gr\u00e9cia, ao n\u00edvel \u201cjunk&#8221; (lixo). Tal como na mitologia grega da Antiguidade, adivinha-se uma luta tit\u00e2nica do Syriza para por em pr\u00e1tica um programa \u201cfora de tempo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, 30\/01\/2015. \u00daltima revis\u00e3o 15\/06\/2015<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: bandeira da Rep\u00fablica Hel\u00e9nica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; H\u00e1 mais neste timing que joga contra o Syriza. Se, na Gr\u00e9cia, o voto de protesto foi sobretudo captado pela esquerda radical, noutros pa\u00edses do Norte da Europa o voto de protesto est\u00e1 a ser essencialmente captado pela direita nacionalista e populista. Estes processos, \u00e0 primeira vista desligados, alimentam-se. &nbsp; 1. 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