{"id":1894,"date":"2015-06-06T12:30:03","date_gmt":"2015-06-06T12:30:03","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1894"},"modified":"2015-06-15T14:16:07","modified_gmt":"2015-06-15T14:16:07","slug":"os-desafios-cruciais-do-papa-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/06\/os-desafios-cruciais-do-papa-francisco\/","title":{"rendered":"Os desafios cruciais do Papa Francisco"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Marc-Chagall-Abraham-et-les-trois-anges1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1897\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Marc-Chagall-Abraham-et-les-trois-anges1-1024x655.jpg\" alt=\"DSC00071.JPG\" width=\"1024\" height=\"655\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Marc-Chagall-Abraham-et-les-trois-anges1-1024x655.jpg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Marc-Chagall-Abraham-et-les-trois-anges1-300x192.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Marc-Chagall-Abraham-et-les-trois-anges1-768x491.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Marc-Chagall-Abraham-et-les-trois-anges1-370x236.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Marc-Chagall-Abraham-et-les-trois-anges1-570x364.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Marc-Chagall-Abraham-et-les-trois-anges1-770x492.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Marc-Chagall-Abraham-et-les-trois-anges1-907x580.jpg 907w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Marc-Chagall-Abraham-et-les-trois-anges1.jpg 1067w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>Mas \u00e9 na doutrina social da Igreja, datada de finais do s\u00e9culo XIX \u2013 Enc\u00edclica <em>Rerum Novarum<\/em> \u2013, que me parece existir o maior reservat\u00f3rio de fo\u00e7a moral e de interven\u00e7\u00e3o social, perfeitamente v\u00e1lida para o mundo que vivemos.<\/p><\/blockquote>\n<p>1. A Igreja Cat\u00f3lica, \u00e0 semelhan\u00e7a de outras formas do Cristianismo, est\u00e1 a enfrentar, e vai continuar a enfrentar, dois desafios cruciais. O primeiro \u00e9 o de uma seculariza\u00e7\u00e3o\/descristianiza\u00e7\u00e3o no seu territ\u00f3rio hist\u00f3rico de refer\u00eancia \u2013 a Europa. O segundo \u00e9 o crescimento, em paralelo, de outras religi\u00f5es, impulsionadas pela a\u00e7\u00e3o conjugada da din\u00e2mica demogr\u00e1fica dos seus crentes e da sua resist\u00eancia aos atrativos do secularismo \u00e0 europeia\/ocidental. O Isl\u00e3o, uma religi\u00e3o com similar voca\u00e7\u00e3o universalista ao Cristianismo, \u00e9 o caso mais \u00f3bvio. Quanto ao primeiro aspecto, para podermos perceber bem o que est\u00e1 em jogo, precisamos de olhar para o mundo no seu conjunto. Est\u00e1 o mundo a tornar-se mais secular e\/ou irreligioso, como a Europa, ou est\u00e1, pelo contr\u00e1rio, a (des)secularizar-se, como sugerem Peter Berger e outros (<em>The Desecularization of the World: Resurgent Religion and World Politics<\/em>?) e, mais recentemente, Eric Kaufmann (<em>Shall the Religious Inherit the Earth?: Demography and Politics in the Twenty-First Century<\/em>.)<\/p>\n<p>2. Se as an\u00e1lises prospetivas de Berger e Kaufmann estiverem certas vamos ter, em algumas d\u00e9cadas, uma Europa e um mundo muito diferente do que maioria dos europeus imagina hoje. O europeu tem impregnado, desde o Iluminismo, que a Europa=Civiliza\u00e7\u00e3o=Mundo. Este quadro mental leva a pensar que as outras culturas, mais tarde, ou mais cedo, v\u00e3o ser como n\u00f3s. Hoje parece cada vez mais claro que isso n\u00e3o passa de uma fal\u00e1cia intelectual. Em vez de sociedades com indiv\u00edduos moldados pelo pensamento racional, cient\u00edfico e secular\/ateu (a utopia social e \u201ccient\u00edfica\u201d de Richard Dawkins \u2013 ver <em>The God Delusion<\/em>), o resultado pode muito bem ser outro. O crente no Cristianismo est\u00e1 em retrocesso em solo europeu. As evid\u00eancias emp\u00edricas confirmam-no claramente, quando avaliadas pelo n\u00edvel de pr\u00e1tica religiosa. Mas o que parece ser, numa an\u00e1lise superficial, um rumo face ao triunfo total do indiv\u00edduo secular\/ateu, pode muito bem mostrar-se uma vit\u00f3ria de Pirro. S\u00f3 com a Europa isolada do resto do mundo e revertendo, rapidamente, o seu grave problema demogr\u00e1fico \u00e9 que esse eventual triunfo poderia ser duradouro. N\u00e3o \u00e9 essa a realidade que se antecipa no futuro discern\u00edvel.<\/p>\n<p>3. Num not\u00e1vel discurso proferido em finais de 2010, V\u00e1clav Havel, sintetizou bem, o drama existencial da atual \u201csociedade ate\u00edsta\u201d. A perda de conex\u00e3o com o infinito e transcendental, leva a um natural ego\u00edsmo de indiv\u00edduos e gera\u00e7\u00f5es. Este reflete-se, por exemplo, na deteriora\u00e7\u00e3o do ambiente e na redu\u00e7\u00e3o da natalidade, vista como um entrave \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o hedonista de necessidades do presente. Por outro lado, a sobranceria da \u201csociedade ate\u00edsta\u201d associada \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio da natureza e da economia pode transformar-se num caminho para o \u201cinferno\u201d. V\u00e1clav Havel referia-se, explicitamente, \u00e0 crise financeira desencadeada em 2007\/2008. Explica-a, em grande parte, pela arrog\u00e2ncia do capitalismo financeiro. Este convenceu-se que, por mobilizar jovens matem\u00e1ticos brilhantes e p\u00f4-los a conceber produtos financeiros sofisticados, usando programas inform\u00e1ticos e computadores de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, tinha resolvido o problema do risco que atormentara os banqueiros das gera\u00e7\u00f5es anteriores (ver o livro de Gillian Tett <em>Fool&#8217;s Gold: How Unrestrained Greed Corrupted a Dream, Shattered Global Markets and Unleashed a Catastrophe<\/em>). Esta arrog\u00e2ncia revelou-se autodestrutiva e est\u00e1 a pagar-se bem caro. Destruiu milh\u00f5es de empregos em todo o mundo e lan\u00e7ou milh\u00f5es de fam\u00edlias na pobreza, ou pr\u00f3ximo dela.<\/p>\n<p>4. Neste contexto, quais dever\u00e3o ser as prioridades do Papa Francisco I? Numa vis\u00e3o pessoal diria que, para al\u00e9m de resolver os problemas internos \u2013 o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil pelas situa\u00e7\u00f5es que t\u00eam vindo a p\u00fablico \u2013, ter\u00e1 a \u00e1rdua tarefa de conduzir a Igreja Cat\u00f3lica a enfrentar os desafios da sociedade contempor\u00e2nea. Uma das prioridades dever\u00e1 ser o di\u00e1logo com outras religi\u00f5es e os n\u00e3o crentes, para defesa de valores humanistas transversais. Mas este \u00e9 tamb\u00e9m um assunto delicado. Implica abertura sem abdicar dos princ\u00edpios estruturantes singularizam e d\u00e3o sentido ao Cristianismo. Parece-me fundamental uma abertura em reciprocidade e n\u00e3o l\u00f3gicas simplistas de concess\u00e3o, supostamente tolerantes, como sugere a sensibilidade relativista extremada. Esta, sob uma apar\u00eancia de toler\u00e2ncia \u2013 a qual, por vezes, disfar\u00e7a um conhecimento superficial de outras culturas e dos seus aspectos mais problem\u00e1ticos \u2013, abre a porta \u00e0 intoler\u00e2ncia. Ainda que involuntariamente, s\u00e3o corro\u00eddas as bases universalistas de princ\u00edpios de dignidade humana, que deveriam ser transversais, como os Direitos Humanos. Mas \u00e9 na doutrina social da Igreja, datada de finais do s\u00e9culo XIX \u2013 Enc\u00edclica Rerum Novarum \u2013, que me parece existir o maior reservat\u00f3rio de fo\u00e7a moral e de interven\u00e7\u00e3o social, perfeitamente v\u00e1lida para o mundo que vivemos. A Igreja Cat\u00f3lica pode, e deve, ser um contrapeso \u00e0 sobranceria destrutiva da \u201csociedade ate\u00edsta\u201d denunciada por V\u00e1clav Havel. Pode e deve ser uma for\u00e7a inspiradora e mobilizadora para todos aqueles que n\u00e3o pretendem perder a conex\u00e3o com o infinito e o transcendental. Pode e deve ser uma for\u00e7a para todos aqueles que n\u00e3o se rev\u00eam num neoliberalismo extremado, reduzindo o ser humano \u00e0 sua faceta de homo oeconomicus. A sua mensagem de justi\u00e7a social tem de transmitir esperan\u00e7a e ser um incentivo ao n\u00e3o conformismo com o poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico estabelecido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, 15\/03\/2015<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, foto do quadro de Marc Chagall, &#8220;Abraham et les trois anges&#8221;, \u00a0Mus\u00e9e National Message Biblique Marc-Chagall, Nice, 2006<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas \u00e9 na doutrina social da Igreja, datada de finais do s\u00e9culo XIX \u2013 Enc\u00edclica Rerum Novarum \u2013, que me parece existir o maior reservat\u00f3rio de fo\u00e7a moral e de interven\u00e7\u00e3o social, perfeitamente v\u00e1lida para o mundo que vivemos. 1. 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