{"id":1969,"date":"2015-06-05T15:00:34","date_gmt":"2015-06-05T15:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=1969"},"modified":"2015-06-15T21:05:54","modified_gmt":"2015-06-15T21:05:54","slug":"o-al-andalus-no-imaginario-romantico-de-chateaubriand","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/o-al-andalus-no-imaginario-romantico-de-chateaubriand\/","title":{"rendered":"O Al-Andalus no imagin\u00e1rio rom\u00e2ntico de Chateaubriand"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Les-aventures-du-dernier-Abenc\u00e9rage.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1970\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Les-aventures-du-dernier-Abenc\u00e9rage.jpg\" alt=\"Les aventures du dernier Abenc\u00e9rage\" width=\"421\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Les-aventures-du-dernier-Abenc\u00e9rage.jpg 421w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Les-aventures-du-dernier-Abenc\u00e9rage-211x300.jpg 211w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Les-aventures-du-dernier-Abenc\u00e9rage-370x527.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Les-aventures-du-dernier-Abenc\u00e9rage-407x580.jpg 407w\" sizes=\"auto, (max-width: 421px) 100vw, 421px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. Na transi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVIII para o s\u00e9culo XIX, v\u00e1rias almas sens\u00edveis atormentadas com os avan\u00e7os do cosmopolitismo das Luzes, da Raz\u00e3o, dos Direitos Humanos universais, e, sobretudo, alarmadas com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e o crescente igualitarismo liberal, refugiaram-se num passado, real ou imaginado (a maior parte das vezes imaginado). Uma destas almas sens\u00edveis, que empreendeu uma \u201cfuga para tr\u00e1s\u201d \u2013 e, por isso, \u00e9 justamente considerada como fundadora do romantismo franc\u00eas \u2013, foi a de Fran\u00e7ois-Ren\u00e9, mais tarde visconde de Chateaubriand (1768-1848).<br \/>\nEm in\u00edcios do s\u00e9culo XIX, ap\u00f3s uma viagem a Espanha, Chateaubriand descobriu o para\u00edso perdido do Al-Andalus, sentindo uma enorme nostalgia da &#8220;brilhante civiliza\u00e7\u00e3o \u00e1rabe&#8221;, ao fazer o grand tour na ex\u00f3tica Andaluzia. Por essa \u00e9poca, outros rom\u00e2nticos descobriam tamb\u00e9m para\u00edsos perdidos no ex\u00f3tico Pr\u00f3ximo Oriente, dominado pelos turcos otomanos, quando faziam o grand tour mais em moda pelo Mediterr\u00e2neo oriental. Rapidamente a imagina\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica de Chateaubriand engendrou um drama que sabe um pouco a um d\u00e9j\u00e0 vu Shakesperiano. Em Les aventures du dernier Abenc\u00e9rage, o cen\u00e1rio n\u00e3o foi a cidade italiana de Verona no Renascimento, e os amores imposs\u00edveis entre as fam\u00edlias rivais dos Mont\u00e9quios e dos Capuletos. O cen\u00e1rio foi a Granada do ex-Al-Andalus (a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica mu\u00e7ulmana), ap\u00f3s a reconquista crist\u00e3 dos reis cat\u00f3licos Fernando de Arag\u00e3o e Isabel de Castela, e a queda do \u00faltimo sult\u00e3o mu\u00e7ulmano da dinastia Nasrida, Abu Abd Allah (mais conhecido por Boabdil), em 1492. No imagin\u00e1rio rom\u00e2ntico de Chateaubriand, este deve ter sido um epis\u00f3dio doloroso que lhe partiu a alma quando deambulou por Granada. Pela pena do escritor-poeta surgiu ent\u00e3o uma princesa crist\u00e3 (Blanca) apaixonada por um nobre \u00e1rabe, designado no conto por mouro, Aben-Hamet. Este era o \u00faltimo representante da fam\u00edlia dos Abencerrages &#8211; nome que vem de &#8220;Beni Seraj&#8221;, uma tribo \u00e1rabe que ter\u00e1 habitado C\u00f3rdoba e depois Granada, desde os tempos da conquista do s\u00e9culo VII, e rivalizava com a tribo dos Zegris. Os Abencerrages teriam sido dizimada por Boabdil, numa lend\u00e1ria vers\u00e3o mourisca que lembra a vendetta entre Mont\u00e9quios e Capuletos. (Os confrontos \u00e9tnico-religioso entre mu\u00e7ulmanos n\u00e3o s\u00e3o propriamente uma novidade da Palestina, do Iraque ou do Afeganist\u00e3o de hoje.) Como \u00e9 habitual, para dar intensidade dram\u00e1tica a este tipo de narrativas rom\u00e2nticas de amores imposs\u00edveis, na fam\u00edlia de Blanca corria nas veias o sangue crist\u00e3o e cat\u00f3lico de El Cid e na fam\u00edlia de Aben-Hamet o sangue \u00e1rabe e mu\u00e7ulmano, sup\u00f5e-se sunita, dos nobres Abencerrages.<br \/>\n2. A est\u00f3ria, situada algures durante o s\u00e9culo XVI, durante o reinado do Imperador Carlos V de Espanha, da casa real dos Habsburgos, inicia-se com Aben-Hamet em Tunis, perto de Cartago, para dar mais grandiosidade hist\u00f3rica ao romance. Este, apesar da sua juventude, j\u00e1 tinha a alma despeda\u00e7ada por est\u00f3rias das gl\u00f3rias da fam\u00edlia em Granada e sobre a beleza do local. Assim, meteu-se ao mar resolvendo ver como era a terra dos seus antepassados na outra margem do Mediterr\u00e2neo. Mal chega a Granada cruzou-se na rua com Blanca, e \u00e9 amor \u00e0 primeira vista entre os dois. Amor imposs\u00edvel, obviamente, dado ela ser crist\u00e3 e ele mu\u00e7ulmano, ela ser descendente do Cid e ele dos Abencerrages (na altura ainda n\u00e3o existia a Alian\u00e7a de Civiliza\u00e7\u00f5es de Zapatero-Erdo\u011fan, pelo que estes dramas eram bem reais). O enredo decorre com os habituais epis\u00f3dios de passeios pelos amantes em pal\u00e1cios encantados (o inevit\u00e1vel Alhambra), excurs\u00f5es por jardins, fontes e recantos com ciprestes e buganv\u00edlias, visitas a cemit\u00e9rios com inscri\u00e7\u00f5es em alfabetos ex\u00f3ticos e meio apagadas nas tumbas. No final, o leitor mais sujeito a como\u00e7\u00f5es \u00e9 poupado a um remake da trag\u00e9dia de Romeu e Julieta: aqui os amantes apenas se separam, num doloroso e comovido adeus, seguindo cada um o seu caminho nas duas margens do Mediterr\u00e2neo.<br \/>\n3. A Literatura, incluindo a rom\u00e2ntica, faz inquestionavelmente parte de um rico patrim\u00f3nio cultural da humanidade e integra, de pleno direito, uma verdadeira cultura human\u00edstica. Sem esta, o ser humano seria bem mais pobre de imagina\u00e7\u00e3o e de pensamento criativo. O \u00fanico problema \u00e9 quando uma imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e rom\u00e2ntica &#8211; emotiva e comovente, ou pat\u00e9tica e lamechas, consoante os gostos est\u00e9ticos e liter\u00e1rios -, se come\u00e7a a transformar, subtilmente, numa fonte de \u201cfactos hist\u00f3ricos\u201d e a influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica como tal. \u00c9 essa a sensa\u00e7\u00e3o que fica quando lemos coment\u00e1rios pol\u00edticos que apelam ao conhecimento hist\u00f3rico, como o de Miguel Sousa Tavares sobre \u201cA Morte do Isl\u00e3o\u201d (Expresso, 26\/0172008) e percebemos o imagin\u00e1rio rom\u00e2ntico que lhe est\u00e1 subjacente. Este transforma, sob a forma de uma escrita elegante, est\u00f3rias (contos, narrativas) em Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, 31\/01\/2008. \u00faltima revis\u00e3o 15\/06\/2015<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: capa do Livro de\u00a0de Fran\u00e7ois-Ren\u00e9 de Chateaubriand, &#8220;Les aventures du dernier Abenc\u00e9rage&#8221; (Gallimard, 2006)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; 1. Na transi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVIII para o s\u00e9culo XIX, v\u00e1rias almas sens\u00edveis atormentadas com os avan\u00e7os do cosmopolitismo das Luzes, da Raz\u00e3o, dos Direitos Humanos universais, e, sobretudo, alarmadas com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e o crescente igualitarismo liberal, refugiaram-se num passado, real ou imaginado (a maior parte das vezes imaginado). 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