{"id":2099,"date":"2015-06-05T16:45:00","date_gmt":"2015-06-05T16:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=2099"},"modified":"2015-06-18T17:02:59","modified_gmt":"2015-06-18T17:02:59","slug":"as-minorias-religiosas-sob-o-totalitarismo-do-estado-islamico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/06\/05\/as-minorias-religiosas-sob-o-totalitarismo-do-estado-islamico\/","title":{"rendered":"As minorias religiosas sob o totalitarismo do Estado Isl\u00e2mico"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-composi\u00e7\u00e3o-\u00e9tnico-religiosa-da-S\u00edria.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2103\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-composi\u00e7\u00e3o-\u00e9tnico-religiosa-da-S\u00edria.jpg\" alt=\"A composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-religiosa da S\u00edria\" width=\"899\" height=\"769\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-composi\u00e7\u00e3o-\u00e9tnico-religiosa-da-S\u00edria.jpg 899w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-composi\u00e7\u00e3o-\u00e9tnico-religiosa-da-S\u00edria-300x257.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-composi\u00e7\u00e3o-\u00e9tnico-religiosa-da-S\u00edria-768x657.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-composi\u00e7\u00e3o-\u00e9tnico-religiosa-da-S\u00edria-370x316.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-composi\u00e7\u00e3o-\u00e9tnico-religiosa-da-S\u00edria-570x488.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-composi\u00e7\u00e3o-\u00e9tnico-religiosa-da-S\u00edria-770x659.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/A-composi\u00e7\u00e3o-\u00e9tnico-religiosa-da-S\u00edria-678x580.jpg 678w\" sizes=\"auto, (max-width: 899px) 100vw, 899px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>A semelhan\u00e7a com as regras que o ISIS pretende impor atualmente aos crist\u00e3os da S\u00edria \u00e9 muito \u00f3bvia. No contexto medieval, estas foram um avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s leis de guerra da Antiguidade [&#8230;] Mas pretender [aplic\u00e1-las] no s\u00e9culo XXI, negando a evolu\u00e7\u00e3o civilizacional da humanidade e os Direitos Humanos universais, n\u00e3o \u00e9 regressar a uma sociedade em harmonia com a vontade divina. \u00c9 criar um totalitarismo disfar\u00e7ado de Isl\u00e3o medieval.<\/p><\/blockquote>\n<p>1. N\u00e3o nos deixemos iludir. A fraseologia religiosa do Estado Isl\u00e2mico do Iraque e da S\u00edria (ISIS na translitera\u00e7\u00e3o de \u00e1rabe para ingl\u00eas, ou Daesh no acr\u00f3nimo em \u00e1rabe), esconde m\u00faltiplas semelhan\u00e7as com as ideologias totalit\u00e1rias seculares ocidentais, como o nazismo, o fascismo, ou o estalinismo.\u00a0Uma dessas semelhan\u00e7as \u00e9 a pretens\u00e3o de criar um homem e uma sociedade perfeita, por diferentes vias. Os totalitarismos seculares s\u00e3o \u201cfuturistas\u201d. S\u00e3o subprodutos do Iluminismo. O totalitarismo Islamista-jihadista \u00e9 \u201cpassadista\u201d. \u00c9 um subproduto do Isl\u00e3o. A utopia da sociedade perfeita est\u00e1 no regresso aos prim\u00f3rdios da era isl\u00e2mica. N\u00e3o est\u00e1 na transforma\u00e7\u00e3o segundo a f\u00e9 iluminista inabal\u00e1vel no progresso e no futuro. Pretende voltar a um passado idealizado, o Isl\u00e3o medieval dos primeiros califas sucessores do Profeta Maom\u00e9. Como nos totalitarismos seculares, imp\u00f5e a sua vis\u00e3o do mundo sem espa\u00e7o para pluralismos ou dissid\u00eancias. Usa a intimida\u00e7\u00e3o verbal e f\u00edsica e a viol\u00eancia para sujei\u00e7\u00e3o, ou elimina\u00e7\u00e3o, dos seus opositores. Todos os n\u00e3o mu\u00e7ulmanos \u2013 incluindo os mu\u00e7ulmanos que n\u00e3o se rev\u00eam na sua interpreta\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3o \u2013, s\u00e3o potenciais v\u00edtimas do fanatismo Islamista-jihadista. (Ver \u201cO Islamismo-jihadista como ideologia pol\u00edtica totalit\u00e1ria\u201d P\u00fablico, 27\/09\/2014). Nos \u00faltimos tempos, uma minoria visada de forma brutal s\u00e3o os crist\u00e3os do M\u00e9dio Oriente, a forma mais antiga e pr\u00f3xima dos relatos b\u00edblicos de Cristianismo. A par destes, outras minorias como os curdos e yazidis sofrem atrocidades. O caso dos crist\u00e3os \u00e9 clarificador sobre o tratamento dado \u00e0s minorias religiosas em geral. No seu zelo purista, o ISIS est\u00e1 a usar as regras medievais do Tratado ou Pacto (dhimma em \u00e1rabe) de Umar. Esse Tratado \u2013 analisado mais \u00e0 frente \u2013, ter\u00e1 sido feito pelo califa Umar b. al-Hattab, ou Umar I, no ano de 78 (687 da era crist\u00e3) com os crist\u00e3os da S\u00edria. O ISIS v\u00ea-se hoje no lugar dos conquistadores \u00e1rabes da S\u00edria e outros territ\u00f3rios do Levante aos Imp\u00e9rios Bizantino e Persa Sass\u00e2nida no s\u00e9culo VII. Pretende submeter os crist\u00e3os e restantes &#8220;Povos do Livro&#8221; \u00e0 dhimmitude (neologismo cunhado a partir de dhimma), sujeitando-os \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es da sharia abandonadas durante as Tanzimat, as reformas modernizadoras do Imp\u00e9rio Otomano efetuadas no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>2. Ao longo da semana anterior os media ocidentais divulgaram o sequestro, feito por mil\u00edcias do ISIS no nordeste da S\u00edria, de mais de duas centenas de crist\u00e3os ass\u00edrios. Anteriormente, foram brutalmente sequestrados e decapitados na L\u00edbia vinte e um crist\u00e3os coptas eg\u00edpcios. Uma outra informa\u00e7\u00e3o da BBC, datada de h\u00e1 cerca um ano atr\u00e1s (27\/02\/2014), descrevia-nos o tratamento dado aos crist\u00e3os capturados em Raqqa (Syria crisis: ISIS imposes rules on Christians in Raqqa\/Crise na S\u00edria: ISIS imp\u00f5e regras aos crist\u00e3os de Raqqa). Vale a pena ler um excerto que aqui transcrevo. \u201cUm grupo jihadista na S\u00edria exigiu que os crist\u00e3os no norte da cidade de Raqqa pagassem um imposto em ouro e aceitassem limita\u00e7\u00f5es \u00e0 sua f\u00e9, ou teriam de encarar a morte [&#8230;] A diretiva do ISIS, citando o conceito isl\u00e2mico de dhimma, exige que os crist\u00e3os na cidade paguem um imposto de cerca de metade de uma on\u00e7a (14 g) de ouro puro, em troca da sua seguran\u00e7a. A diretiva diz que os crist\u00e3os n\u00e3o devem fazer obras nas suas igrejas, exibir cruzes ou outros s\u00edmbolos religiosos fora destas, tocar os sinos da igreja, ou rezar em p\u00fablico. Os crist\u00e3os n\u00e3o devem trazer armas e devem seguir outras regras impostas [&#8230;]. Segundo o comunicado, o grupo reuniu-se com representantes crist\u00e3os e ofereceu-lhes tr\u00eas op\u00e7\u00f5es \u2013 poderiam converter-se ao Isl\u00e3o, aceitar as condi\u00e7\u00f5es [anteriores], ou rejeit\u00e1-las correndo risco de serem mortos. \u2018Se as rejeitam, est\u00e3o sujeitos a ser alvos leg\u00edtimos\u2018 [&#8230;] Um grupo de vinte l\u00edderes crist\u00e3os escolheu aceitar o novo conjunto de regras, disse o ISIS.\u201c Para os Islamista-jihadistas, trata-se, apenas, de voltar a aplicar \u201cescrupulosamente\u201d a sharia com base no j\u00e1 referido Tratado ou Pacto de Umar. Aos seus olhos, tem a legitimidade inatac\u00e1vel de ter sido celebrado pelos primeiros califas com os crist\u00e3os da S\u00edria, aquando da sua rendi\u00e7\u00e3o aos ex\u00e9rcitos mu\u00e7ulmanos, no s\u00e9culo VII. V\u00eam-no como a forma intemporal de lidar com crist\u00e3os, judeus e zoroastrianos (dhimmi)<\/p>\n<p>3. O jurista liban\u00eas Antoine Fattal no livro Le statut legal des non-musulmans em pays d\u2019Islam\/O Estatuto Legal dos N\u00e3o-Mu\u00e7ulmanos nos Pa\u00edses Isl\u00e2micos (2.\u00aa ed., Beyrouth, Dar El-Machreq \u00c9diteurs, 1995), explica esse estatuto. Antoine Fattal faz notar a exist\u00eancia de v\u00e1rias vers\u00f5es do Tratado de Umar, bem como a exist\u00eancia de d\u00favidas quanto \u00e0 sua autenticidade. A t\u00edtulo de exemplo, reproduzo aqui uma das vers\u00f5es que descreve no seu livro (pp. 64-65). Nesta vers\u00e3o, o texto \u00e9 atribu\u00eddo a uma negocia\u00e7\u00e3o de Umar e Abu Ubaida com Constantino, patriarca crist\u00e3o s\u00edrio de Antioquia. Atente-se neste excerto: \u201c(i) os ricos entre os habitantes de d\u2019as-Sam (poss\u00edvel nome de Damasco) pagar\u00e3o uma jizya de 48 dirhems; aqueles que vivem com desafogo uma jizya de 24 dirhems; os pobres, uma jizya de 12 dirhems; (ii) os habitantes de d\u2019as-Sam n\u00e3o criar\u00e3o igrejas novas; (iii) n\u00e3o usar\u00e3o a cruz nos bairros mu\u00e7ulmanos; (iv) n\u00e3o bater\u00e3o os naqus (sinos) fora das suas igrejas; (v) partilhar\u00e3o as suas casas com os mu\u00e7ulmanos; (vi) ceder\u00e3o aos mu\u00e7ulmanos, para que a\u00ed construam mesquitas, os terrenos dirigidos para o Sul, cont\u00edguos \u00e0s suas igrejas; (vii) n\u00e3o passear\u00e3o os porcos nos bairros mu\u00e7ulmanos; (viii) albergar\u00e3o os mu\u00e7ulmanos de passagem, tr\u00eas dias e tr\u00eas noites; (ix) guiar\u00e3o os viajantes de cidade em cidade e ir\u00e3o coloc\u00e1-los na boa dire\u00e7\u00e3o; (x) fornecer\u00e3o ajuda aos mu\u00e7ulmanos e n\u00e3o os trair\u00e3o; (xi) n\u00e3o concluir\u00e3o alian\u00e7as com os inimigos dos mu\u00e7ulmanos; (xii) aqueles que violarem este acordo s\u00e3o pass\u00edveis da pena de morte e a sua mulher e filhos podem ser reduzidos \u00e0 escravid\u00e3o.\u201d A semelhan\u00e7a com as regras que o ISIS pretende impor atualmente aos crist\u00e3os da S\u00edria \u00e9 muito \u00f3bvia. No contexto medieval, estas foram um avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s leis de guerra da Antiguidade: morte ou escravid\u00e3o dos capturados. Permitiram, regra geral, ser mais tolerante com os vencidos do que no Ocidente crist\u00e3o, ou noutras partes do mundo. Isto, numa \u00e9poca em que o moderno conceito de toler\u00e2ncia era inexistente. Mas pretender aplic\u00e1-lo no s\u00e9culo XXI, negando a evolu\u00e7\u00e3o civilizacional da humanidade e os Direitos Humanos universais, n\u00e3o \u00e9 regressar a uma sociedade em harmonia com a vontade divina. \u00c9 criar um totalitarismo disfar\u00e7ado de Isl\u00e3o medieval.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, \u00a0artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 13\/03\/2015. \u00daltima revis\u00e3o 18\/06\/2015<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1197\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\" alt=\"dom\u00ednio p\u00fablico\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a>\u00a0Imagem: mapa (Wikipedia \/ dom\u00ednio p\u00fablico) da\u00a0composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-religiosa da S\u00edria (vers\u00e3o a preto e branco do autor)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A semelhan\u00e7a com as regras que o ISIS pretende impor atualmente aos crist\u00e3os da S\u00edria \u00e9 muito \u00f3bvia. 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