{"id":2203,"date":"2015-08-07T12:00:12","date_gmt":"2015-08-07T12:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=2203"},"modified":"2015-09-14T11:53:48","modified_gmt":"2015-09-14T11:53:48","slug":"a-turquia-a-siria-e-os-curdos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/08\/07\/a-turquia-a-siria-e-os-curdos\/","title":{"rendered":"A Turquia, a S\u00edria e os Curdos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Popula\u00e7\u00f5es-curdas-no-M\u00e9dio-Oriente.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2210\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Popula\u00e7\u00f5es-curdas-no-M\u00e9dio-Oriente.jpg\" alt=\"Popula\u00e7\u00f5es curdas no M\u00e9dio Oriente\" width=\"968\" height=\"558\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Popula\u00e7\u00f5es-curdas-no-M\u00e9dio-Oriente.jpg 968w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Popula\u00e7\u00f5es-curdas-no-M\u00e9dio-Oriente-300x173.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Popula\u00e7\u00f5es-curdas-no-M\u00e9dio-Oriente-768x443.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Popula\u00e7\u00f5es-curdas-no-M\u00e9dio-Oriente-370x213.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Popula\u00e7\u00f5es-curdas-no-M\u00e9dio-Oriente-570x329.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Popula\u00e7\u00f5es-curdas-no-M\u00e9dio-Oriente-770x444.jpg 770w\" sizes=\"auto, (max-width: 968px) 100vw, 968px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Pol\u00edtica e estrategicamente o maior problema da Turquia \u00e9 a luta contra os independentistas curdos na conturbada fronteira Sul e n\u00e3o o islamismo-jihadista. A isto acresce a ambi\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica de recuperar a influ\u00eancia perdida nas prov\u00edncias \u00e1rabes do Imp\u00e9rio.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. A entrada do M\u00e9dio Oriente na modernidade pol\u00edtica ainda hoje tem sequelas. No final da I Guerra Mundial, o territ\u00f3rio imperial otomano fragmentou-se ap\u00f3s a derrota militar e o colapso pol\u00edtico. Sob as cinzas do Imp\u00e9rio, emergiu a Rep\u00fablica da Turquia como principal Estado sucessor.\u00a0Ao contr\u00e1rio do que se poderia supor, a sucess\u00e3o n\u00e3o foi algo \u00f3bvio em termos de configura\u00e7\u00e3o territorial. Pelo contr\u00e1rio, o novo Estado ganhou forma num conflito pol\u00edtico-militar contra as pot\u00eancias vencedoras com interesses no Mediterr\u00e2neo oriental: Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a, It\u00e1lia e Gr\u00e9cia \u2013 a R\u00fassia bolchevique fez uma paz separada em 1917. A confronta\u00e7\u00e3o principal ocorreu contra as pretens\u00f5es territoriais da Gr\u00e9cia na costa Mediterr\u00e2nica, especialmente centradas na zona de Esmirna. Terminou com a derrota e a tr\u00e1gica expuls\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es gregas.\u00a0Mas a vit\u00f3ria militar dos nacionalistas turcos de Mustafa Kemal Atat\u00fcrk, em 1922, teve outras consequ\u00eancias nas fronteiras. Para al\u00e9m de anular as pretens\u00f5es territoriais gregas, outros dois grupos nacionais \u2013 arm\u00e9nios e curdos \u2013, viram defraudadas as suas ambi\u00e7\u00f5es de constituir um Estado independente. Ambas colidiam com territ\u00f3rios reclamados pelos nacionalistas turcos. Estes sa\u00edram largamente vitoriosos, excepto em dois casos ocorridos na fronteira Sul. As antigas prov\u00edncias \u00e1rabes do Imp\u00e9rio tinham ficado sob influ\u00eancia anglo-francesa, a coberto de um mandato da Sociedade das Na\u00e7\u00f5es (SdN). O movimento nacionalista turco reclamava Mossul, no actual Iraque, sob dom\u00ednio brit\u00e2nico. A disputa sobre este territ\u00f3rio, ocupado pela Gr\u00e3-Bretanha no final da I Guerra Mundial, foi submetida \u00e0 SdN. Em 1925\/1926 a decis\u00e3o da SdN deu raz\u00e3o aos brit\u00e2nicos. A antiga prov\u00edncia otomana, maioritariamente composta por popula\u00e7\u00f5es curdas, passou a integrar o Iraque.\u00a0Quanto ao sandjak de Alexandreta, o actual Hatay turco, ficou sob dom\u00ednio franc\u00eas, embora, como ser\u00e1 explicado mais \u00e0 frente, a situa\u00e7\u00e3o acabasse por ser revertida em v\u00e9speras da II Guerra Mundial. Em ambos os casos, as pretens\u00f5es turcas colidiam directamente com os interesses das pot\u00eancias europeias no M\u00e9dio Oriente. Face \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as existente na \u00e9poca, a Turquia cedeu a contragosto.<\/p>\n<p>2. O actual Estado da S\u00edria resulta do territ\u00f3rio que chegou \u00e0 independ\u00eancia em 1945\/1946, face \u00e0 Fran\u00e7a. O per\u00edodo do mandato da SdN foi determinante na sua configura\u00e7\u00e3o. A divis\u00e3o administrativa do territ\u00f3rio feita pelos franceses est\u00e1 na origem da separa\u00e7\u00e3o e posterior autonomiza\u00e7\u00e3o \/ independ\u00eancia do L\u00edbano. Este foi desenhado como um Estado para uma maioria de crist\u00e3os maronitas, hoje cada vez mais minorit\u00e1rios. Em termos mais gerais, a l\u00f3gica da administra\u00e7\u00e3o colonial francesa foi repartir o territ\u00f3rio de acordo com as minorias religiosas mais substanciais que a\u00ed se encontravam. Assim, foi criado um Estado n\u00e3o independente, dos alau\u00edtas \u2013 o grupo minorit\u00e1rio de Bashar al-Assad \u2013 junto ao litoral, a Norte do L\u00edbano, a sua principal regi\u00e3o. Para os drusos, a Sul, foi criado um pequeno Estado n\u00e3o independente, num territ\u00f3rio pr\u00f3ximo da actual fronteira com Israel e a Jord\u00e2nia. O j\u00e1 referido sandjak de Alexandreta foi um outro territ\u00f3rio aut\u00f3nomo que integrou a S\u00edria at\u00e9 1938. Sendo uma zona de transi\u00e7\u00e3o entre as popula\u00e7\u00f5es turcas e \u00e1rabes, na \u00e9poca do mandato tinha uma maioria de popula\u00e7\u00e3o \u00e1rabe.\u00a0A componente demogr\u00e1fica foi-se alterando por infiltra\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o a partir da Turquia. Face \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o turca do territ\u00f3rio \u2013 e num contexto onde a Fran\u00e7a enfrentava uma crescente amea\u00e7a militar da Alemanha nazi na Europa \u2013, o governo franc\u00eas, em desrespeito do mandato da SdN, aceitou a anexa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio pela Turquia, sob o nome de Hatay. Esta anexa\u00e7\u00e3o nunca foi reconhecida pela S\u00edria, sendo um ponto de atrito entre os dois Estados. Provavelmente, uma das motiva\u00e7\u00f5es do governo da Turquia para derrubar Bashar al-Assad foi a de ter um novo poder na S\u00edria que, em troca de apoio, aceitasse de iure a actual fronteira.\u00a0Aspecto interessante do per\u00edodo do mandato franc\u00eas da SdN \u2013 e relevante para a compreens\u00e3o dos acontecimentos da actualidade \u2013 \u00e9 o do papel das minorias. A popula\u00e7\u00e3o da S\u00edria est\u00e1 maioritariamente ligada ao Isl\u00e3o sunita. No entanto, existem tradicionalmente substanciais minorias religiosas (alau\u00edtas, crist\u00e3os e drusos), que constituiriam cerca de 25% a 30% antes da guerra civil. H\u00e1, ainda, uma minoria \u00e9tnica significativa: os curdos, estimada entre 8% a 10% da popula\u00e7\u00e3o \u2013 os restantes 90% s\u00e3o \u00e1rabes. Sob a administra\u00e7\u00e3o francesa, as minorias tinham um peso desproporcional nas for\u00e7as militares e de seguran\u00e7a, em corpos como as Troupes sp\u00e9ciales du Levant, sendo vistas como mais confi\u00e1veis. Tratou-se de uma estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o t\u00edpica: o governante estrangeiro apoiava-se em grupos minorit\u00e1rios, concedendo-lhe privil\u00e9gios e\/ou prote\u00e7\u00e3o, para contrabalan\u00e7ar a maioria. Com o tempo, os principais benefici\u00e1rios acabaram por ser os alau\u00edtas, vistos como seita her\u00e9tica pelo Isl\u00e3o sunita dominante. Com Hafez el-Assad chegaram ao poder em 1970, tendo governado a S\u00edria at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>3. A actual guerra civil na S\u00edria fez reemergir a quest\u00e3o curda dos v\u00e1rios lados da(s) fronteira(s): S\u00edria, Turquia e Iraque. A excep\u00e7\u00e3o relativa \u00e9 o Ir\u00e3o, mas mesmo a\u00ed existe um conflito armado latente, por vezes aberto. Sendo o maior grupo \u00e9tnico sem um Estado, com mais de 30 milh\u00f5es de pessoas \u2013 as estimativas naturalmente variam \u2013, a quest\u00e3o curda \u00e9 eminentemente transnacional. Os sucessos de autonomia \/ independ\u00eancia de facto de um lado da fronteira t\u00eam repercuss\u00f5es imediatas para al\u00e9m desta, nos Estados vizinhos, onde tamb\u00e9m habitam popula\u00e7\u00f5es curdas. Os conflitos militares, ataques e\/ou massacres de que frequentemente s\u00e3o v\u00edtimas tamb\u00e9m.\u00a0Nos anos 1980, o conflito teve o seu ponto mais cr\u00edtico na Turquia, com o desencadear da rebeli\u00e3o armada do Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o (PKK). A partir dos anos 1990, foi progressivamente o Iraque que emergiu como o cerne da conflitualidade curda. Mais recentemente, com o desencadear na guerra civil na S\u00edria em 2011, \u00e9 no seu territ\u00f3rio que t\u00eam ocorrido os conflitos mais sangrentos. Classicamente, o problema \u00e9 configur\u00e1vel como oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e\/ou militar entre os grupos ou partidos curdos e o Estado onde residem. No entanto, face \u00e0 fraqueza do poder estadual no Iraque e na S\u00edria, que n\u00e3o controlam partes significativas do seu territ\u00f3rio, especialmente na S\u00edria, surgiram actores no conflito com poder de facto. O Daesh (Estado Isl\u00e2mico), \u00e9 o caso mais \u00f3bvio. Na S\u00edria e Iraque, as suas \u00e1reas implanta\u00e7\u00e3o colidem com as zonas curdas. Sendo um grupo islamista-jihadista oriundo do Isl\u00e3o sunita, o seu zelo fan\u00e1tico coloca-os em rota de colis\u00e3o com os curdos, apesar destes serem tamb\u00e9m sunitas na sua grande maioria. A explica\u00e7\u00e3o \u201coficial\u201d \u00e9 dada na revista Dabiq, n\u00ba 2, p. 13, 2013 (ver The Clarion Project, http:\/\/www.clarionproject.org\/news\/islamic-state-isis-isil-propaganda-magazine-dabiq). Os curdos \u2013 especialmente o PKK, na Turquia e montanhas fronteiri\u00e7as do Iraque, e as Unidades de Protec\u00e7\u00e3o Popular (YPG), na S\u00edria, s\u00e3o ateus marxistas, e, por isso, um alvo a abater. At\u00e9 agora, para o governo da Turquia, o Daesh era apenas um grupo islamista-jihadista que fazia o trabalho sujo no terreno contra os curdos.\u00a0Com os \u00faltimos desenvolvimentos no seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio \u2013 recente ataque terrorista na cidade fronteiri\u00e7a de Suru\u00e7 \u2013, o actual governo conservador-islamista tem m\u00faltiplos motivos de preocupa\u00e7\u00e3o e de irrita\u00e7\u00e3o. A Turquia disp\u00f5e da parte mais substancial da popula\u00e7\u00e3o curda o que aumenta o risco de internaliza\u00e7\u00e3o do conflito. A crescente independ\u00eancia de facto dos curdos do Iraque e S\u00edria \u2013 e agora tamb\u00e9m a simpatia internacional ganha na her\u00f3ica resist\u00eancia em Kobani contra o Daesh \u2013, \u00e9 vista como um mau exemplo para os seus pr\u00f3prios curdos. Tem, ainda, o \u201camargo de boca\u201d de ter perdido a maioria absoluta nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de 7\/06\/2015 devido ao sucesso eleitoral de um partido curdo, o Partido Democr\u00e1tico dos Povos (HDP). Este ultrapassou a nada democr\u00e1tica barreira dos 10% de votos para eleger deputados. Neste contexto, a permiss\u00e3o dada aos EUA para usarem a base de Incirlik, os ataques a\u00e9reos ao Daesh e a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201czona de seguran\u00e7a\u201d em territ\u00f3rio s\u00edrio, s\u00e3o uma cobertura de legitimidade internacional (leia-se da NATO). Pol\u00edtica e estrategicamente o maior problema da Turquia \u00e9 a luta contra os independentistas curdos na conturbada fronteira Sul e n\u00e3o o islamismo-jihadista. A isto acresce a ambi\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica de recuperar a influ\u00eancia perdida nas prov\u00edncias \u00e1rabes do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 29\/07\/2015<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: mapa dos territ\u00f3rios habitados por popula\u00e7\u00f5es curdas no M\u00e9dio Oriente (ISN\u00a0ETH Zurich \/\u00a0University of Texas Libraries, 1986). Vers\u00e3o a preto e branco do autor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Pol\u00edtica e estrategicamente o maior problema da Turquia \u00e9 a luta contra os independentistas curdos na conturbada fronteira Sul e n\u00e3o o islamismo-jihadista. 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