{"id":2214,"date":"2015-08-07T11:00:33","date_gmt":"2015-08-07T11:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=2214"},"modified":"2015-09-14T11:44:00","modified_gmt":"2015-09-14T11:44:00","slug":"a-europa-esta-em-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/08\/07\/a-europa-esta-em-guerra\/","title":{"rendered":"A Europa est\u00e1 em guerra?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Hark-Hark-The-Dogs-do-Bark.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2298\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Hark-Hark-The-Dogs-do-Bark.jpg\" alt=\"Hark! Hark! The Dogs do Bark!\" width=\"736\" height=\"557\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Hark-Hark-The-Dogs-do-Bark.jpg 736w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Hark-Hark-The-Dogs-do-Bark-300x227.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Hark-Hark-The-Dogs-do-Bark-370x280.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Hark-Hark-The-Dogs-do-Bark-570x431.jpg 570w\" sizes=\"auto, (max-width: 736px) 100vw, 736px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>A Gr\u00e9cia tornou-se o \u201calter ego\u201d dos europeus. Nela se projectam virtudes e defeitos, nalguns casos reais, noutros casos imagin\u00e1rios, frequentemente exagerados. Tomou o lugar de outros conflitos que movem paix\u00f5es e nos quais ocorrem similares processos de transfer\u00eancia [&#8230;]<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. Ultimato, humilha\u00e7\u00e3o, armist\u00edcio, repara\u00e7\u00f5es de guerra, dissuas\u00e3o do fraco ao forte, Diktat, Tratado de Versalhes, etc., s\u00e3o alguns dos adjectivos e compara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas mais utilizados na actual crise da Gr\u00e9cia. Nem sobre um caso real de guerra, como o que tem decorrido no Leste da Ucr\u00e2nia, se utilizou tanta linguagem militar e analogias hist\u00f3ricas com guerras do passado. Se nos tentarmos imaginar na posi\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m completamente desconhecedor da realidade europeia de Junho \/ Julho de 2015 \u2013 e a procurar inteirar-se do assunto pelos media \u2013, provavelmente ficaria com a sensa\u00e7\u00e3o de que a Europa estava em guerra. Nada de invulgar na hist\u00f3ria europeia at\u00e9 ao final da II Guerra Mundial. Vejam-se algum t\u00edtulos das \u00faltimas semana que sugerem essa imagem mental: \u201cAtenas j\u00e1 est\u00e1 a arder?\u201d (V\u00edtor Malheiros in P\u00daBLICO 22\/06\/2015); \u201cO Regresso de Versalhes\u201d (Manuel Carvalho in P\u00daBLICO, 28\/06\/2015); \u201cAtenas delenda est\u201d (Ricardo Costa in Expresso, 13\/07\/2015); \u201cRetalia\u00e7\u00e3o maci\u00e7a\u201d (Viriato Soromenho Marques in Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 14\/07\/2015).\u00a0A t\u00edtulo exemplificativo, vale a pena olhar um pouco melhor para dois casos. Um primeiro \u00e9 o do j\u00e1 referido artigo de Viriato Soromenho Marques, onde este escreveu o seguinte: \u201cNa Cimeira do Euro, realizada no domingo, a Alemanha apresentou [&#8230;] a sua doutrina: \u2018retalia\u00e7\u00e3o maci\u00e7a\u2018. Sch\u00e4uble foi busc\u00e1-la aos manuais estrat\u00e9gicos norte-americanos dos anos 1950, numa altura em que Washington dispunha de clara supremacia at\u00f3mica sobre a URSS. Qualquer ataque contra os EUA seria respondido com todo o potencial dispon\u00edvel, esmagando o advers\u00e1rio. O \u2018acordo\u2018 da madrugada de ontem consagra a \u2018vingan\u00e7a\u2018 germ\u00e2nica contra o \u2018ataque\u2018 do referendo.\u201d Um segundo caso, \u00e9 o do coment\u00e1rio e an\u00e1lise feita por Jos\u00e9 Pacheco Pereira sobre o mesmo assunto (Quadratura do C\u00edrculo, SIC Not\u00edcias, 16\/07\/2015). Na sua \u00f3ptica \u2013 julgo estar a reproduzir correctamente o que este pretendeu transmitir \u2013, o que o Eurogrupo fez com a Gr\u00e9cia foi uma deliberada revers\u00e3o do programa do Syriza, ponto por ponto. Esta seria compar\u00e1vel ao que os nazis fizeram no armist\u00edcio de 22\/06\/1940, para se vingaram da Fran\u00e7a na II Guerra Mundial. Humilhando-a, foram buscar ao museu, a Paris, a carruagem de comboio onde tinha sido assinado o armist\u00edcio de 11\/11\/1918. Este marcou o fim da I Guerra Mundial e a derrota germ\u00e2nica. A Alemanha nazi efectuou no mesmo local \u2013 em Compi\u00e8gne, na floresta da Picardia \u2013, uma r\u00e9plica com a coreografia invertida.<\/p>\n<p>2. A compara\u00e7\u00e3o de acontecimentos deve ter por base a escolha de situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas adequadas, nomeadamente por ocorrerem em similar contexto da vida humana. Existindo caracter\u00edsticas comuns \u00e0s situa\u00e7\u00f5es comparadas, ser\u00e1 ent\u00e3o apropriado projectar uma faceta do passado na nova situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 frequente a compara\u00e7\u00e3o de acontecimentos hist\u00f3ricos do passado com situa\u00e7\u00f5es do presente, procurando beneficiar desses ensinamentos. O objectivo \u00e9 tamb\u00e9m dar sentido a um acontecimento novo. Fundamental \u00e9 que exista uma intr\u00ednseca semelhan\u00e7a entre ambos, para se aceitar uma determinada conclus\u00e3o, ou, pelo menos, uma certa interpreta\u00e7\u00e3o dos factos.\u00a0Frequentemente as compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o usadas com a finalidade de despertar na mente do receptor imagens fortes e sugestivas. Nestes casos, estamos perante um uso ret\u00f3rico mais pr\u00f3ximo da met\u00e1fora, n\u00e3o existindo uma genu\u00edna analogia das situa\u00e7\u00f5es. Isso ocorre, por exemplo, quando usamos express\u00f5es como combate \u00e0 pobreza, ou guerra \u00e0 exclus\u00e3o social. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o contexto aqui em an\u00e1lise. A utiliza\u00e7\u00e3o da linguagem b\u00e9lica e o recurso a epis\u00f3dios de guerra para explicar a situa\u00e7\u00e3o presente da Gr\u00e9cia e Zona Euro, levanta, por isso, quest\u00f5es s\u00e9rias e profundas. \u00c9 clarificador o seu uso e o recurso a exemplos de conflitos pol\u00edtico-militares do passado, para explicar a actual crise? Mas n\u00e3o tem esta, no seu cerne, um problema de d\u00edvida p\u00fablica? Para al\u00e9m da erudi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica mostrada por quem recorre a essas t\u00e9cnicas argumentativas, s\u00e3o adequadas as analogias que cit\u00e1mos anteriormente? Os paralelismos com epis\u00f3dios de conflito e guerra da conturbada hist\u00f3ria europeia ajudam a perceber a quest\u00e3o? Ou ser\u00e1 que o seu uso, se torna, ele pr\u00f3prio, parte do problema que pretende analisar, alimentando a engrenagem do conflito? E se a explica\u00e7\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rica e de recurso a figuras de estilo, n\u00e3o ser\u00e1 uma forma de argumenta\u00e7\u00e3o dispens\u00e1vel num debate sereno e esclarecedor?\u00a0Importa notar: a escolha das palavras n\u00e3o \u00e9 in\u00f3cua. (Logos, em grego, significa quer palavra, quer raz\u00e3o.) Permite representar bem a realidade, mas permite tamb\u00e9m manipul\u00e1-la. Permite criar uma consci\u00eancia para agir, mas permite tamb\u00e9m bloquear a ac\u00e7\u00e3o humana. T\u00ednhamos j\u00e1 o l\u00e9xico anestesiante da tecnocracia europeia, com o intuito de despolitizar e esconder o car\u00e1cter conflitual da realidade. Agora temos tamb\u00e9m um l\u00e9xico bem mais excitante, como ant\u00eddoto. Joga com as emo\u00e7\u00f5es da linguagem b\u00e9lica fazendo compara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, pertinentes ou arbitr\u00e1rias, com o passado guerreiro e tr\u00e1gico da Europa.<\/p>\n<p>3. A Gr\u00e9cia tornou-se o \u201calter ego\u201d dos europeus. Nela se projectam virtudes e defeitos, nalguns casos reais, noutros casos imagin\u00e1rios, frequentemente exagerados. Tomou o lugar de outros conflitos que movem paix\u00f5es e nos quais ocorrem similares processos de transfer\u00eancia \u2013 o caso cl\u00e1ssico \u00e9 o conflito israelo-\u00e1rabe, onde David desafia Golias, mas quem \u00e9 um e outro varia com o observador.\u00a0Frequentemente, as an\u00e1lises e coment\u00e1rios dizem mais sobre a vis\u00e3o do mundo de quem os emite do que explicam os conflitos em si mesmos. Consciente ou inconscientemente, omitem as suas causas complexas e as motiva\u00e7\u00f5es n\u00e3o invulgarmente contradit\u00f3rias dos intervenientes. Assim, para uns, a Gr\u00e9cia \u00e9 a plenitude das virtudes: democracia \/ resist\u00eancia \u00e0 tecnocracia \/ alternativa ao capitalismo global \/ patriotismo \/ orgulho nacional; para outros \u00e9 uma mera s\u00famula de defeitos: populismo \/ corrup\u00e7\u00e3o \/ clientelismo \/ laxismo or\u00e7amental \/ viver \u00e0 custa dos outros. Nesta constru\u00e7\u00e3o mental bin\u00e1ria, a Alemanha ocupa o lugar de uma N\u00e9mesis da mitologia cl\u00e1ssica, a deusa poderosa e vingativa que exige retalia\u00e7\u00e3o; ou ent\u00e3o surge como uma esp\u00e9cie de Afrodite protectora da \u201cbeleza\u201d e equil\u00edbrio da Zona Euro e das suas regras actuais.\u00a0Esta constru\u00e7\u00e3o mental bin\u00e1ria prolonga-se no \u201cGrexit\u201d \/ \u201cGermanexit\u201d. Este \u00faltimo emerge como a resposta sim\u00e9trica dos cr\u00edticos da Alemanha aos que pretendem ver a Gr\u00e9cia fora da Zona Euro. Ou seja, \u00e9 a mesma imagem, mas agora invertida no espelho. Ironicamente, faz lembrar a atitude mental do eurocentrismo herdada do s\u00e9culo XIX \u2013 a vis\u00e3o de mundo colocava Europa como protagonista \u00fanico da hist\u00f3ria. Em seu lugar, surgiu um novo enviesamento da realidade: o germanocentrismo. Na Uni\u00e3o Europeia, tudo parece gravitar \u00e0 volta da Alemanha, para o bem ou para o mal. Os restantes Estados-membros s\u00e3o entes amorfos. Os ep\u00edtetos variam conforme a perspectiva adoptada. Virtuosos, respons\u00e1veis e cumpridores, ou moralmente indignos, colaboracionistas e vassalos. N\u00e3o se deixar arrastar para este terreno envenenado \u00e9 optar por uma hip\u00f3crita atitude salom\u00f3nica? Pode ser mero bom senso. Ambas as partes pretendem recrutar partid\u00e1rios e soldados num combate configurado como uma luta entre o bem e o mal absolutos. Em comum, o mesmo objectivo: sob a cortina de fumo das palavras desadequadas \u00e0 realidade, impedir o pensamento cr\u00edtico equilibrado.\u00a0N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 da Gr\u00e9cia que estamos fartos, mas deste debate redutor e manique\u00edsta e da sua linguagem excessiva que est\u00e1 a criar feridas profundas entre os europeus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 21\/07\/2015<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1197\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom\u00ednio-p\u00fablico.png\" alt=\"dom\u00ednio p\u00fablico\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a>\u00a0Imagem: mapa sat\u00edrico brit\u00e2nico da Europa em 1914 (Guardian \/ dom\u00ednio p\u00fablico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Gr\u00e9cia tornou-se o \u201calter ego\u201d dos europeus. 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