{"id":2220,"date":"2015-08-12T10:45:39","date_gmt":"2015-08-12T10:45:39","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=2220"},"modified":"2015-09-14T11:44:58","modified_gmt":"2015-09-14T11:44:58","slug":"maquiavel-na-batalha-pela-grecia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/08\/12\/maquiavel-na-batalha-pela-grecia\/","title":{"rendered":"Maquiavel na batalha pela Gr\u00e9cia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/The-Essential-Writings-of-Machiavelli-cover.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2280\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/The-Essential-Writings-of-Machiavelli-cover.png\" alt=\"The-Essential-Writings-of-Machiavelli (cover)\" width=\"567\" height=\"682\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/The-Essential-Writings-of-Machiavelli-cover.png 567w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/The-Essential-Writings-of-Machiavelli-cover-249x300.png 249w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/The-Essential-Writings-of-Machiavelli-cover-370x445.png 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/The-Essential-Writings-of-Machiavelli-cover-482x580.png 482w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Numa Uni\u00e3o Europeia que deveria estar alicer\u00e7ada em princ\u00edpios pol\u00edticos de igualdade entre os Estados-membros e valores de solidariedade, o regresso de Maquiavel e da <em>realpolitik<\/em> \u00e9 um retrocesso.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. N\u00e3o \u00e9 preciso ser um moralista pol\u00edtico para ficar consternado, se n\u00e3o mesmo chocado, com os conselhos sobre a arte de bem governar de Maquiavel (Niccol\u00f2 Machiavelli) na obra O Pr\u00edncipe do s\u00e9culo XVI. Entre os muitos aspectos focados nesse tratado de governo encontram-se as rela\u00e7\u00f5es entre quem governa e quem \u00e9 governado e o respeito pelas promessas efectuadas. \u00c9 o que na linguagem cl\u00e1ssica se chamava honrar a palavra.\u00a0N\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do Renascimento, nem das sociedades autocr\u00e1ticas. Nas atuais sociedades democr\u00e1ticas da Uni\u00e3o Europeia o cidad\u00e3o comum tem demasiadas vezes a sensa\u00e7\u00e3o das promessas pol\u00edticas n\u00e3o serem cumpridas e de que os governantes faltaram \u00e0 palavra. Pode isso ser considerado uma \u201cboa\u201d forma de governar? Atente-se na reflex\u00e3o de Maquiavel sobre este problema intemporal da pol\u00edtica (O Pr\u00edncipe, cap. XVIII, \u201cDe que modo os pr\u00edncipes devem cumprir a sua palavra): \u201cTodos sabem qu\u00e3o louv\u00e1vel \u00e9 um pr\u00edncipe ser fiel \u00e0 sua palavra e proceder com integridade e n\u00e3o com ast\u00facia; contudo, a experi\u00eancia mostra que s\u00f3 nos nossos tempos fizeram grandes coisas aqueles pr\u00edncipes que tiveram em pouca conta as promessas feitas e que, com ast\u00facia, souberam transtornar as cabe\u00e7as dos homens; e por fim superaram os que se fundaram na sua lealdade.\u201d\u00a0Mas o cinismo pol\u00edtico de Maquiavel e o seu desprezo pelo vulgo \u2013 na linguagem pol\u00edtica de hoje o cidad\u00e3o comum, ou as massas \u2013, n\u00e3o se fica por aqui. Como este faz notar, o governante que engana achar\u00e1 sempre quem se deixe e enganar (idem): \u201cNem nunca faltaram a um pr\u00edncipe raz\u00f5es para colorir a sua falta \u00e0 palavra. Disto se poderiam dar infinitos exemplos modernos e mostrar quantas pazes, quantas promessas ficaram \u00edrritas e nulas pela falta de palavra dos pr\u00edncipes; aquele que melhor soube proceder como a raposa, melhor se houve. Mas \u00e9 necess\u00e1rio saber bem colorir esta natureza e ser grande simulador e dissimulador: os homens s\u00e3o t\u00e3o simples e obedecem tanto \u00e0s necessidades presentes que quem engana achar\u00e1 sempre quem se deixe enganar.\u201d Quer dizer, o fundamental \u00e9 que a ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica seja percebida pelo vulgo, ou seja pelas massas, como um sucesso, estando os meios empregues justificados pelos fins (ibidem): \u201cFa\u00e7a, pois um pr\u00edncipe por vencer e por manter o seu Estado; os meios ser\u00e3o sempre julgados honrosos e de todos louvados. Porque o vulgo deixa-se sempre levar pela apar\u00eancia e o sucesso das coisas; e no mundo n\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o vulgo e os poucos s\u00f3 t\u00eam lugar quando os muitos n\u00e3o t\u00eam em que apoiar-se.\u201d<\/p>\n<p>2. Ao contr\u00e1rio do que se poderia supor, o realismo pol\u00edtico e a realpolitk, um termo germ\u00e2nico ligado \u00e0 pol\u00edtica europeia do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o t\u00eam s\u00f3 adeptos e praticantes \u2013 frequentemente n\u00e3o assumidos \u2013, na \u00e1rea conservadora, pr\u00f3xima da direita pol\u00edtica. Provavelmente o caso mais conhecido dessa atitude intelectual e pol\u00edtica \u00e9 o do ex-Secret\u00e1rio de Estado dos EUA, Henry Kissinger. No seu livro Diplomacia (1994), Kissinger faz uma quase apologia das virtudes da realpolitik em mat\u00e9ria de diplomacia e pol\u00edtica internacional. No outro extremo do espectro pol\u00edtico, o intelectual marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937) exemplifica o fasc\u00ednio suscitado pelas ideias de Maquiavel \u2013 e de alguma forma da realpolitik \u2013, \u00e0 esquerda.\u00a0Gramsci fez uma (re)leitura de O Pr\u00edncipe n\u00e3o s\u00f3 como um tratado de ci\u00eancia da pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m como texto voltado para a ac\u00e7\u00e3o de car\u00e1cter revolucion\u00e1rio. Nos Cadernos do C\u00e1rcere, escritos na pris\u00e3o durante a It\u00e1lia fascista, entre 1929-1935, procurou adaptar Maquiavel ao ide\u00e1rio socialista-comunista no contexto da \u00e9poca. O Pr\u00edncipe do Renascimento que para conquistar e conservar o poder do Estado recorria \u00e0 ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica amoral, deu lugar \u00e0 vanguarda revolucion\u00e1ria do Partido \u2013 \u201cO Pr\u00edncipe moderno\u201d \u2013, agora com o objetivo de conquistar e manter a hegemonia do proletariado. Tal como Maquiavel, Gramsci validou o recurso estrat\u00e9gias pol\u00edticas amorais para conquistar e preservar o poder: alian\u00e7as de conveni\u00eancia, guerra de posi\u00e7\u00f5es, contra-hegemonia, etc.\u00a0Face a este fasc\u00ednio por Maquiavel, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, v\u00e1rias interroga\u00e7\u00f5es v\u00eam \u00e0 mente. Na Uni\u00e3o Europeia e Estados-membros do s\u00e9culo XXI, o realismo pol\u00edtico amoral \u00e9 uma coisa do passado? A ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como esfera humana separada das quest\u00f5es morais, cruamente retratada por Maquiavel, foi relegada para o caixote do lixo das ideias pol\u00edticas? A realpolitk, assente na hierarquia do poder, na aferi\u00e7\u00e3o crua do interesse nacional e num pragmatismo que n\u00e3o cede a valores e princ\u00edpios morais, foi afastada da pol\u00edtica nacional e europeia? Em sociedades democr\u00e1ticas, onde os governantes submeteram um programa pol\u00edtico aos eleitores com um cat\u00e1logo de medidas a adoptar, h\u00e1 espa\u00e7o para o realismo pol\u00edtico amoral e a realpolitk? \u00c9 politicamente leg\u00edtimo, e moralmente aceit\u00e1vel, pressionar pequenos Estados a aceitar compromissos internacionais que grandes pot\u00eancias provavelmente nunca aceitariam?<\/p>\n<p>3. Analisar a pol\u00edtica interna grega e as negocia\u00e7\u00f5es na Uni\u00e3o Europeia \u00e0 luz dos \u201cconselhos ao Pr\u00edncipe\u201d de Maquiavel pode ajudar a compreender a actual forma de fazer pol\u00edtica. Leva tamb\u00e9m a reflectir sobre as quest\u00f5es de moralidade e valores pol\u00edticos, ou falta deles, que a crise econ\u00f3mica-financeira iniciada em 2007\/\/2008 fez emergir. Come\u00e7ando pela Gr\u00e9cia, o referendo de 5\/7 \u00e9 um caso \u00f3bvio de an\u00e1lise. Um referendo nunca \u00e9 um puro exerc\u00edcio de democracia directa, estranho ao c\u00e1lculo pol\u00edtico. O timing em que \u00e9 efectuado, bem como o teor da pergunta aos eleitores, s\u00e3o aspectos cl\u00e1ssicos desse c\u00e1lculo, com influ\u00eancia no resultado. Estes pesaram na decis\u00e3o de avan\u00e7ar para o referendo de Alexis Tsipras e ajudam a explicar a esmagadora vit\u00f3ria do \u201cn\u00e3o\u201d.\u00a0As subsequentes negocia\u00e7\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia e FMI levantam, no entanto, s\u00e9rias quest\u00f5es pol\u00edticas e morais. A campanha do \u201cn\u00e3o\u201d assentou na ideia de melhoria da posi\u00e7\u00e3o negocial grega e da recusa de mais austeridade. Na realidade, nem uma, nem outra, parecem estar a ocorrer. A proposta do governo grego submetida ao Eurogrupo retomou, no essencial, aquilo que tinha sido rejeitado pelo \u201cn\u00e3o\u201d. Abriu brechas no Syriza e na coliga\u00e7\u00e3o governamental. Panagiotis Lafazanis, o Ministro da Reconstru\u00e7\u00e3o Produtiva do Syriza, e Panos Kammenos, o Ministro da Defesa do ANEL\/Gregos Independentes, refutaram-na. No Parlamento, as fracturas foram tamb\u00e9m vis\u00edveis. Dezassete deputados da Syriza insurgiram-se, incluindo a Presidente do Parlamento. Foi a oposi\u00e7\u00e3o ao governo do establishment europe\u00edsta \u2013 PASOK e Nova Democracia, mais o centrista To Potami\/O Rio \u2013, que permitiu obter uma ampla maioria parlamentar. Mas esses eram os partidos da campanha pelo \u201csim\u201d&#8230; Entre muitos que votaram \u201cn\u00e3o\u201d, o sentimento \u00e9 o de terem sido defraudados pela viragem pol\u00edtica nas negocia\u00e7\u00f5es.\u00a0A reviravolta de Alexis Tsipras ecoa demasiado os conselhos de Maquiavel: \u201c[&#8230;] nunca faltaram a um pr\u00edncipe raz\u00f5es para colorir a sua falta \u00e0 palavra\u201d, pois os homens \u201cobedecem tanto \u00e0s necessidades presentes que quem engana achar\u00e1 sempre quem se deixe enganar.\u201d Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na pol\u00edtica interna grega que as ideias de Maquiavel parecem ser a chave de leitura dos processos pol\u00edticos. Na Uni\u00e3o Europeia tamb\u00e9m. Ap\u00f3s ter falhado a estrat\u00e9gia de aliciar o atual governo grego \u2013 protagonizada, entre outros, pelo Presidente da Comiss\u00e3o Europeia \u2013, o \u201cn\u00e3o\u201d no referendo de 5\/7 deu lugar a uma abordagem punitiva, numa l\u00f3gica crua de poder. Esta forma de actuar parece tamb\u00e9m extra\u00edda de Maquiavel (cap. XIX, \u201cDa Crueldade e da clem\u00eancia e se mais vale ser amado que temido, ou temido que amado\u201d). A\u00ed pode ler-se o seguinte: \u201cResponde-se que ambas as coisas seriam de desejar; mas porque \u00e9 dif\u00edcil junt\u00e1-las, \u00e9 muito mais seguro ser temido que amado, quando haja de faltar uma das duas.\u201d\u00a0Numa Uni\u00e3o Europeia que deveria estar alicer\u00e7ada em princ\u00edpios pol\u00edticos de igualdade entre os Estados-membros e valores de solidariedade, o regresso de Maquiavel e da realpolitik \u00e9 um retrocesso. Alimenta uma l\u00f3gica pol\u00edtica perversa e um c\u00edrculo vicioso de desconfian\u00e7a, injusti\u00e7a e nacionalismo fracturante. N\u00e3o augura nada de bom para o futuro. A Uni\u00e3o Europeia \u00e9 o maior legado de paz e prosperidade que as gera\u00e7\u00f5es anteriores de europeus nos deixaram. Cabe-nos a responsabilidade de o continuar e n\u00e3o de destru\u00ed-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 13\/07\/2015<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: capa do Livro de Peter Constantine (trad. e editor), &#8220;The Essential Writings of Machiavelli&#8221;\u00a0(Modern Library, 2007)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Numa Uni\u00e3o Europeia que deveria estar alicer\u00e7ada em princ\u00edpios pol\u00edticos de igualdade entre os Estados-membros e valores de solidariedade, o regresso de Maquiavel e da realpolitik \u00e9 um retrocesso. &nbsp; 1. N\u00e3o \u00e9 preciso ser um moralista pol\u00edtico para ficar consternado, se n\u00e3o mesmo chocado, com os conselhos sobre a arte de bem governar &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2015\/08\/12\/maquiavel-na-batalha-pela-grecia\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;Maquiavel na batalha pela Gr\u00e9cia&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,6],"tags":[90,43],"class_list":["post-2220","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-imprensa","tag-realismo-politico","tag-uniao-europeia","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2220"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2220\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}