{"id":3297,"date":"2017-05-31T21:48:22","date_gmt":"2017-05-31T21:48:22","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=3297"},"modified":"2019-04-07T20:59:58","modified_gmt":"2019-04-07T20:59:58","slug":"metamorfose-da-banalidade-do-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2017\/05\/31\/metamorfose-da-banalidade-do-mal\/","title":{"rendered":"A metamorfose da banalidade do mal"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Hannah-Arendt-Aichman-in-Jerusalem.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3299\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Hannah-Arendt-Aichman-in-Jerusalem.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"1044\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Hannah-Arendt-Aichman-in-Jerusalem.jpg 800w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Hannah-Arendt-Aichman-in-Jerusalem-230x300.jpg 230w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Hannah-Arendt-Aichman-in-Jerusalem-768x1002.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Hannah-Arendt-Aichman-in-Jerusalem-785x1024.jpg 785w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Hannah-Arendt-Aichman-in-Jerusalem-370x483.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Hannah-Arendt-Aichman-in-Jerusalem-570x744.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Hannah-Arendt-Aichman-in-Jerusalem-770x1005.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Hannah-Arendt-Aichman-in-Jerusalem-444x580.jpg 444w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>Todo o sistema jur\u00eddico, pol\u00edtico e intelectual que os europeus e ocidentais montaram para prevenir o regresso da banalidade do mal n\u00e3o estava preparado para esta nova realidade.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. <\/strong>Nos \u00faltimos anos, m\u00faltiplos atentados terroristas perpetrados por islamistas-jihadistas provocaram centenas de v\u00edtimas na Europa, a maioria das quais em Fran\u00e7a. A Alemanha, que at\u00e9 um passado recente tinha escapado, teve tamb\u00e9m v\u00e1rios atentados no seu territ\u00f3rio, de maior ou menor dimens\u00e3o. Em 2017, o Reino Unido parece ser o teatro preferencial do terror em solo europeu. Em 22\/3 ocorreu um atentado terrorista em Westminster, no centro hist\u00f3rico e pol\u00edtico de Londres. No passado 22\/5 foi perpretado um novo atentado, ainda mais mort\u00edfero, na Arena de Manchester, durante um espect\u00e1culo musical. A trag\u00e9dia ecoa os atentados de 7\/7 de 2005, na rede de transportes p\u00fablicos de Londres, que provocaram mais de 50 mortos e algumas centenas de feridos. Nos seus tra\u00e7os gerais h\u00e1 um perfil comum a todos eles. Os seus autores t\u00eam normalmente a nacionalidade de um Estado europeu, mas a sua origem est\u00e1 em popula\u00e7\u00f5es oriundas de pa\u00edses isl\u00e2micos e\/ou com liga\u00e7\u00f5es a esse ambiente cultural e religioso. Os alvos s\u00e3o popula\u00e7\u00f5es civis em locais de grandes concentra\u00e7\u00f5es humanas. Estamos a assistir a uma nova forma de banalidade do mal?<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong> O nome de Hannah Arendt est\u00e1 estreitamente ligado \u00e0 ideia de \u201cbanalidade do mal\u201d, enquanto conceito filos\u00f3fico e anal\u00edtico. A ideia resultou das suas reflex\u00f5es durante o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusal\u00e9m, o criminoso de guerra nazi, que a fil\u00f3sofa acompanhou no in\u00edcio dos anos 1960 para a revista norte-americana <em>The New Yorker<\/em>. O assunto foi desenvolvido no seu livro <em>Eichmann em Jerusal\u00e9m<\/em> (<em>Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil<\/em>, 1963), onde reflectiu sobre ele de forma mais abrangente. A banaliza\u00e7\u00e3o do mal foi vista como um dos efeitos secund\u00e1rios da massifica\u00e7\u00e3o da vida em sociedade e das formas de trabalho modernas em organiza\u00e7\u00f5es impessoais, num ambiente ideol\u00f3gico secular e totalit\u00e1rio. Criaram-se indiv\u00edduos amorais, que aceitam e cumprem ordens com conformismo ou indiferen\u00e7a. Adolf Eichmann, um dos executantes do exterm\u00ednio de popula\u00e7\u00e3o judaica sob o regime nazi, seria um exemplo disso. Um funcion\u00e1rio vulgar, zeloso, que acolhia de forma ac\u00e9fala as ordens, mais do que um ser antissocial ou um fan\u00e1tico ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong> Foi na civiliza\u00e7\u00e3o europeia e ocidental, na sua fase industrial da primeira metade do s\u00e9culo XX, que o ocorreu a banaliza\u00e7\u00e3o do mal tal como foi observada e descrita por Hannah Arendt. Essencialmente tratou-se de um subproduto desta. Ocorreu devido \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, \u00e0 impessoalidade da sociedade de massas e das grandes organiza\u00e7\u00f5es, \u00e0 quebra de uma vis\u00e3o do mundo ancorada em valores transcendentais e humanistas. Essas circunst\u00e2ncias, conjugadas com a ascens\u00e3o de ideologias pol\u00edticas totalit\u00e1rias, em particular do nazismo, levaram a um resultado particularmente tr\u00e1gico para os judeus e a Europa. No p\u00f3s-II Guerra Mundial, a Europa e o Ocidente criaram uma teia de mecanismos para evitar que a hist\u00f3ria se voltasse a repetir. Baniram as ideologias pol\u00edticas totalit\u00e1rias seculares; criaram conven\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos humanos; implementaram mecanismos de Estado de direito democr\u00e1tico; implementaram, ainda, formas de promover o pluralismo da sociedade e proteger as minorias.<\/p>\n<p><strong>4. <\/strong>No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI estamos a assistir a novas formas de banaliza\u00e7\u00e3o do mal. N\u00e3o s\u00e3o as que foram retratadas por Hannah Arendt. N\u00e3o s\u00e3o um subproduto de uma civiliza\u00e7\u00e3o industrial e tecnol\u00f3gica, impregnada de ideologias seculares e onde surgiram os totalitarismos. Tamb\u00e9m n\u00e3o ocorre agora sob a forma de &#8220;racionais&#8221; execu\u00e7\u00f5es em massa em c\u00e2maras de g\u00e1s, ou em campos de concentra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o recorre a tecnologia sofisticada, nem a desenvolvimentos cient\u00edficos avan\u00e7ados para exterminar milh\u00f5es de pessoas. Em termos tecnol\u00f3gicos \u00e9 at\u00e9 rudimentar: facas, machados, bombas artesanais; ou ent\u00e3o autom\u00f3veis e cami\u00f5es comuns, ou avi\u00f5es civis desviados das suas rotas s\u00e3o os seus meios mais usuais. \u00c9, simultaneamente, pr\u00e9-moderna e p\u00f3s-moderna. A Europa e Ocidente n\u00e3o estavam preparadas para esta metamorfose da banaliza\u00e7\u00e3o do mal. Desta vez, n\u00e3o \u00e9 um subproduto da sua civiliza\u00e7\u00e3o, hoje profundamente materialista e secular. N\u00e3o entendem esta forma de banalidade do mal, que, \u00e0 luz da ideia de evolu\u00e7\u00e3o e progresso, seria um passadismo imposs\u00edvel. A dificuldade \u00e9 acentuada pelo sentimento de culpa p\u00f3s-colonial.<\/p>\n<p><strong>5. <\/strong>O Daesh, a Al-Qaeda e outros grupos islamistas-jihadistas, com a sua ideologia totalit\u00e1ria, s\u00e3o um subproduto do Isl\u00e3o nas suas facetas religioso-pol\u00edtico-culturais mais problem\u00e1ticas. S\u00e3o tamb\u00e9m o resultado de uma conjuga\u00e7\u00e3o particular de circunst\u00e2ncias do mundo isl\u00e2mico de hoje, dos seus problemas, conflitos e frustra\u00e7\u00f5es. Em termos ideol\u00f3gicos, t\u00eam caracter\u00edsticas similares aos totalitarismos nazis ou estalinista, apesar da sua fraseologia religiosa. Tornaram-se a principal forma de banaliza\u00e7\u00e3o do mal no mundo contempor\u00e2neo. O atentado de Manchester perpetrado por Salman Abedi, de nacionalidade brit\u00e2nica e ascend\u00eancia l\u00edbia, evidencia bem a vis\u00e3o do mundo que lhe est\u00e1 subjacente. Aos seus olhos, as crian\u00e7as e jovens que assistiam a um concerto eram filhos de uma sociedade brit\u00e2nica\/europeia\/ocidental corrupta nos seus valores hedonistas-materialistas. Acusam-na de negar o transcendental, a lei de Al\u00e1, e de agredir os mu\u00e7ulmanos. Eram \u201ccruzados\u201d, algo que nas reivindica\u00e7\u00f5es dos atentados feitas pelo Daesh ressoa aos sub-humanos dos nazis. N\u00e3o mereciam viver. A linguagem justificativa pode ser de tonalidades religiosas e apelar ao transcendental. Mas a viol\u00eancia e o terror alicer\u00e7am-se em processos similares de desumaniza\u00e7\u00e3o do outro.<\/p>\n<p><strong>6.<\/strong> O problema \u00e9 grave e tamb\u00e9m muito delicado. Todo o sistema jur\u00eddico, pol\u00edtico e intelectual que os europeus e ocidentais montaram para prevenir o regresso da banalidade do mal n\u00e3o estava preparado para esta realidade. Foi tra\u00e7ado para conter o regresso dos totalitarismos seculares, subproduto da cultura europeia e ocidental. Foi tamb\u00e9m concebido para travar o mal oriundo do grupo maiorit\u00e1rio, contra minorias desprotegidas. N\u00e3o foi pensado para lidar com formas de banaliza\u00e7\u00e3o do mal n\u00e3o ocidentais, nem impregnadas de uma linguagem religiosa n\u00e3o crist\u00e3. Nem para lidar com formas de viol\u00eancia e terror com particular apelo em pessoas de grupos minorit\u00e1rios oriundos do Isl\u00e3o, que hoje se encontram, cada vez mais, na Europa. Por isso, os governos e as sociedades n\u00e3o est\u00e3o preparados. Encontrar formas de travar esta metamorfose da banalidade do mal, sem p\u00f4r em causa os direitos humanos e a conviv\u00eancia com as pessoas das minorias que a rejeitam, \u00e9 um desafio maior que os europeus v\u00e3o enfrentar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. N\u00e3o \u00e9 certo se ir\u00e1 ser bem-sucedido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes.\u00a0Artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 25\/05\/2017<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom%C3%ADnio-p%C3%BAblico.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1197\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/dom%C3%ADnio-p%C3%BAblico.png\" alt=\"dom\u00ednio p\u00fablico\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a>\u00a0Imagem: capa da vers\u00e3o em audiobook do Livro de Hannah Arendt, &#8220;Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil&#8221;, narrado por Wanda McCaddon (Tantor Media, 2011)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Todo o sistema jur\u00eddico, pol\u00edtico e intelectual que os europeus e ocidentais montaram para prevenir o regresso da banalidade do mal n\u00e3o estava preparado para esta nova realidade. &nbsp; 1. Nos \u00faltimos anos, m\u00faltiplos atentados terroristas perpetrados por islamistas-jihadistas provocaram centenas de v\u00edtimas na Europa, a maioria das quais em Fran\u00e7a. A Alemanha, que &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2017\/05\/31\/metamorfose-da-banalidade-do-mal\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;A metamorfose da banalidade do mal&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,6,54],"tags":[],"class_list":["post-3297","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-imprensa","category-opiniao","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3297","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3297"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3297\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}