{"id":3415,"date":"2017-07-11T16:37:43","date_gmt":"2017-07-11T16:37:43","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=3415"},"modified":"2020-04-23T13:07:02","modified_gmt":"2020-04-23T13:07:02","slug":"inutilidade-do-g20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2017\/07\/11\/inutilidade-do-g20\/","title":{"rendered":"A inutilidade do G20"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-3419\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"536\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-1024x536.jpg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-1568x821.jpg 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-300x157.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-768x402.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-1536x805.jpg 1536w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-2048x1073.jpg 2048w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-370x194.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-570x299.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-770x403.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-1170x613.jpg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Pa\u00edses-do-G20-1107x580.jpg 1107w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>1. <\/strong>Para os globalistas e outros entusiastas da governa\u00e7\u00e3o global as cimeiras do G20 s\u00e3o uma esp\u00e9cie de cl\u00edmax apote\u00f3tico. Um ambiente de excita\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica normalmente acompanha a sua realiza\u00e7\u00e3o. Contribui para criar a ideia de que se v\u00e3o tomar decis\u00f5es importantes para o futuro da humanidade, numa base cooperativa e de esp\u00edrito universalista entre os l\u00edderes mundiais.\u00a0A realidade \u00e9 outra, muito mais trivial, e, em certos aspectos, at\u00e9 bastante perversa face a uma genu\u00edna e democr\u00e1tica governa\u00e7\u00e3o global: o G20 contribui para erodir os poderes e compet\u00eancias das organiza\u00e7\u00f5es verdadeiramente globais como a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), onde todos os Estados do mundo t\u00eam assento. \u00c9 fundamentalmente uma vers\u00e3o p\u00f3s-moderna dos direct\u00f3rios de pot\u00eancias usuais no s\u00e9culo XIX, na \u00e9poca um restrito clube europeu, hoje mais alargado. (Apesar de tudo, os tempos s\u00e3o outros e a Europa \/ Ocidente est\u00e3o em retrocesso.) Na pr\u00e1tica, pretende impor-se aos restantes 173 Estados do mundo que s\u00e3o membros da ONU \u2014 talvez estes devessem formar um G173 (ou um G150, se consideramos que a Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 representada tamb\u00e9m.) Tal como outras associa\u00e7\u00f5es, formais ou informais, de pot\u00eancias do passado, assenta numa l\u00f3gica de poder, seja ele econ\u00f3mico, pol\u00edtico ou militar. O facto de ter mais membros do que o G7 \u2014 ou de ter Estados que, no seu conjunto, ser\u00e3o 2\/3 da popula\u00e7\u00e3o mundial e 80% do com\u00e9rcio mundial \u2014 n\u00e3o altera a sua l\u00f3gica fundamental: continua a ser um direct\u00f3rio de pot\u00eancias que se nomeou a si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p><strong>2. <\/strong>O globalista incauto imagina o G20 como o f\u00f3rum no qual, para al\u00e9m dos problemas econ\u00f3micos e financeiros globais, assuntos de grande import\u00e2ncia para a humanidade e elevado valor moral, v\u00e3o ter, ou deviam ter, uma solu\u00e7\u00e3o: problemas ambientais, crise dos refugiados, com\u00e9rcio livre e justo, etc. Na realidade, pouco ou nada disso acontece, mesmo no terreno econ\u00f3mico e financeiro, que est\u00e1 na sua origem. Em 2008, ap\u00f3s o desencadear da crise financeira nos EUA, a Cimeira de Washington do G20 em finais do ano, era apresentada como um \u201cnovo Bretton Woods\u201d (por refer\u00eancia \u00e0 confer\u00eancia que decorreu em 1944 nos EUA, para arquitectar a ordem econ\u00f3mico-financeira-comercial do p\u00f3s-guerra). Uma declara\u00e7\u00e3o final conjunta de um comprometimento com a estabilidade dos mercados financeiros e economia mundial \u2014 suficientemente gen\u00e9rica para todos sa\u00edrem satisfeitos \u2014, deixou muita gente convencida que se tinha feito hist\u00f3ria: um \u201cnovo Bretton Woods\u201d estaria em marcha. Claro que nada disso aconteceu. (O que tivemos, depois disso, foi at\u00e9 uma grave crise da Zona Euro e uma continuada crise financeira e econ\u00f3mica internacional.) N\u00e3o aconteceu nenhum \u201cBretton Woods\u201d, dada a complexidade do assunto, a diverg\u00eancia de interesses para al\u00e9m dos aspectos de superficialidade, e a morosidade da implementa\u00e7\u00e3o de um novo sistema digno desse nome.<\/p>\n<p><strong>3. <\/strong>Nesta cimeira de Hamburgo, ocorreu algo similar. Na realidade, o acordo mais palp\u00e1vel e importante foi bilateral e paralelo \u00e0 reuni\u00e3o do G20 (podia ter ocorrido noutro local qualquer onde Donald Trump e Vladimir Putin se encontrassem): o entendimento entre os EUA e a R\u00fassia num cessar-fogo em partes da S\u00edria. No que diz respeito \u00e0s quest\u00f5es ambientais \u2014 um assunto inquestionavelmente importante e uma esp\u00e9cie de tema &#8220;cartaz&#8221; deste G20 \u2014, a declara\u00e7\u00e3o final refere que foi &#8220;tomada nota da decis\u00e3o dos EUA se retirarem do Acordo de Paris&#8221; (algo que j\u00e1 se sabia oficialmente muito antes desta cimeira). Ao mesmo tempo, \u00e9 tamb\u00e9m referido que &#8220;os l\u00edderes dos outros membros do G20 afirmam que o Acordo de Paris \u00e9 irrevers\u00edvel&#8221;. Acrescenta-se ainda nessa declara\u00e7\u00e3o existir um &#8220;forte compromisso&#8221; com este acordo, &#8220;avan\u00e7ando rapidamente para a sua plena implementa\u00e7\u00e3o, segundo o princ\u00edpio de responsabilidades comuns e diferenciadas e respectivas capacidades.&#8221; Soa bem, mas \u00e9 vago. Veremos em que se vai traduzir na pr\u00e1tica o compromisso. H\u00e1 in\u00fameros aspectos operacionais em aberto do qual depende a sua concretiza\u00e7\u00e3o efectiva, desde os encargos financeiros at\u00e9 verifica\u00e7\u00e3o do cumprimento das metas com que muitos dizem se comprometer. Para j\u00e1, s\u00e3o declara\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00f5es abstractas, subscritas num aparente consenso do qual apenas Donald Trump se auto-excluiu. Mas n\u00e3o nos iludamos: para muitos \u00e9 ideia \u00e9 ser um compromisso a custo zero, ou us\u00e1-lo para obter ganhos noutros assuntos que tocam o seu interesse nacional.<\/p>\n<p><strong>4. <\/strong>Aqueles que depositam grandes esperan\u00e7as no G20 conv\u00e9m que olhem melhor para a composi\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes mundiais que habitualmente participam nestas cimeiras, para n\u00e3o se auto-iludirem. N\u00e3o precisamos de grande imagina\u00e7\u00e3o para ter uma ideia do que Vladimir Putin (R\u00fassia), Recep Tayyip Erdogan (Turquia), Xi Jinping (China), Mohammed Al-Jadaan (Ar\u00e1bia Saudita, em representa\u00e7\u00e3o do rei Salman bin Abdulaziz, que n\u00e3o se deslocou a esta cimeira de Hamburgo), entre outros, pensam mesmo dos ideais de uma governa\u00e7\u00e3o global democr\u00e1tica, dos direitos humanos, dos refugiados e dos problemas ambientais. Que os globalistas ocidentais t\u00e3o ansiosamente esperem solu\u00e7\u00f5es de um G20 com esta composi\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que diz muito da superficialidade, ou ingenuidade, com que olham para a pol\u00edtica internacional. Claro que com Donald Trump na presid\u00eancia dos EUA, mesmo as inconsequentes declara\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00f5es, habituais das cimeiras do G20, s\u00e3o hoje mais dif\u00edceis em assuntos como o ambiente, os refugiados, ou at\u00e9 o com\u00e9rcio internacional. Quando s\u00e3o poss\u00edveis, s\u00e3o deliberadamente feitas sem compromissos control\u00e1veis, como no caso das quest\u00f5es ambientais \u2014 podemos ver aqui uma h\u00e1bil diplomacia, ou cinismo pol\u00edtico. N\u00e3o \u00e9 surpreendente: \u00e9 um heterog\u00e9neo direct\u00f3rio de <em>realpolitik, <\/em>entendida como sempre foi no passado. H\u00e1 uma primazia pragm\u00e1tica dos interesses sobre os ideais e os valores morais. A diferen\u00e7a fundamental \u00e9 que no mundo actual raramente algu\u00e9m assume isso abertamente, como acontecia no s\u00e9culo XIX. O cinismo pol\u00edtico \u00e9 hoje bem mais sofisticado e sabe adaptar-se \u00e0 sociedade da imagem.<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong> As cimeiras do G20 permitem \u00e0 sensibilidade globalista actual ter o seu f\u00f3rum e discutir problemas comuns da humanidade. \u00c9 algo que soa sempre bem apesar de ser fundamentalmente inconsequente, pelas j\u00e1 apontadas contradi\u00e7\u00f5es do G20: um direct\u00f3rio de pot\u00eancias com interesses d\u00edspares. Mas h\u00e1 um aspecto onde n\u00e3o s\u00e3o in\u00fateis: permitem alimentar o mundo medi\u00e1tico que vivemos. A\u00ed atingem a plenitude do que se pode ambicionar de um bom espect\u00e1culo. Angela Merkel, que vai disputar elei\u00e7\u00f5es legislativas na Alemanha, queria um palco internacional (e interno) para si, talvez convencida que podia ocupar o lugar deixado vago por Donald Trump na lideran\u00e7a do mundo ocidental. Mas a ideia de convocar uma cimeira para a cidade de Hamburgo \u2014 n\u00e3o numa est\u00e2ncia isolada nas montanhas, ou numa afastada ilha, como habitualmente fazem estes clubes exclusivistas das elites \u2014, deu o palco aos manifestantes anticapitalismo e antiglobaliza\u00e7\u00e3o. O mundo j\u00e1 quase se tinha esquecido que eles existiam. Provavelmente, desde a falhada ronda do mil\u00e9nio da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), em Seattle, nos EUA, em 1999, que n\u00e3o se assistia a uma t\u00e3o empenhada batalha campal, entre estes e a pol\u00edcia nas ruas. \u00c9 sempre bom ver gente disposta a defender as suas convic\u00e7\u00f5es com ardor. Para al\u00e9m do palco para os manifestantes antiglobaliza\u00e7\u00e3o, estas cimeiras preenchem o ego de muitos pol\u00edticos, e n\u00e3o \u00e9 apenas o caso de Donald Trump. Afinal, vivemos num mundo global e de imagem. Emmanuel Macron, o rec\u00e9m-eleito presidente franc\u00eas, \u00e9 um caso curioso desta ambi\u00e7\u00e3o. Como estreante, n\u00e3o quis passar despercebido. Na foto de grupo, afastou-se do lugar que lhe estava reservado no protocolo, para se colocar bem vis\u00edvel ao lado do Presidente dos EUA: <em>fait-divers<\/em> ou <em>realpolitik <\/em><em>a la fran\u00e7aise<\/em>?<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 11\/07\/2017<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: Mapa dos pa\u00edses que integram o G20 (retirado do\u00a0<em>site<\/em> oficial do G20)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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