{"id":3875,"date":"2018-09-09T14:39:26","date_gmt":"2018-09-09T14:39:26","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=3875"},"modified":"2019-04-07T20:55:11","modified_gmt":"2019-04-07T20:55:11","slug":"o-preco-do-outsourcing-da-defesa-europeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2018\/09\/09\/o-preco-do-outsourcing-da-defesa-europeia\/","title":{"rendered":"O pre\u00e7o do \u201coutsourcing\u201d da defesa europeia"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-3876\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-1568x1045.jpg 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-300x200.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-768x512.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-370x247.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-270x180.jpg 270w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-570x380.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-770x513.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-1170x780.jpg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/NATO-1987-870x580.jpg 870w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>A ila\u00e7\u00e3o deve ser clara para os europeus: mais do que em qualquer outro momento do passado t\u00eam de perceber que o \u201coutsourcing\u201d da sua defesa n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o para o mundo do s\u00e9culo XXI.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"Corpo\">1. A cimeira entre Donald Trump e Vladimir Putin, em Hels\u00ednquia, na Finl\u00e2ndia, ecoa mem\u00f3rias da Guerra-Fria. Entre outros paralelismos, lembra os encontros de Ronald Reagan com <span lang=\"IT\">Mikhail Gorbachev<\/span>. Na altura, muitos europeus sentiam que embora fossem o principal terreno de disputa da Guerra-Fria, as decis\u00f5es fundamentais sobre o seu destino eram tomadas por outros, ou seja, os EUA e a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Os protagonistas mudaram e o contexto internacional hoje n\u00e3o \u00e9 o mesmo, mas esse sentimento de muitos europeus provavelmente persiste. As divis\u00f5es na \u00faltima cimeira da NATO, em Bruxelas, foram demasiado ostensivas para que o comum cidad\u00e3o n\u00e3o ficasse com a ideia de que algo vai mal na rela\u00e7\u00e3o transatl\u00e2ntica. \u00c9 tentador concentrarmo-nos nos problemas conjunturais da NATO e da defesa europeia, tal como habitualmente s\u00e3o discutidos, devido ao \u201cefeito Trump\u201d \u2014 este \u00e9 um provocador e \u201centertainer\u201d por natureza. Todavia, importa perceber o problema estrutural e n\u00e3o perder demasiado tempo com quest\u00f5es acess\u00f3rias.<\/p>\n<p class=\"Corpo\">2. Tradicionalmente, a quest\u00e3o da defesa da Europa \u00e9 marcada pela disputa entre os que advogam as abordagens europe\u00edsta e atlantista. Quanto aos primeiros, os europe\u00edstas, t\u00eam apontado como caminho a seguir a constru\u00e7\u00e3o de uma seguran\u00e7a e defesa intrinsecamente europeias. A Fran\u00e7a, desde os prim\u00f3rdios das Comunidades Europeias nos anos 1950 e 1960, foi o principal impulsionador dessa abordagem. O seu objectivo fundamental era evitar uma Europa sob influ\u00eancia anglo-sax\u00f3nica, a qual dava uma clara vantagem aos brit\u00e2nicos pela sua \u201crela\u00e7\u00e3o especial\u201d com os EUA. Na pr\u00e1tica, o objectivo era tamb\u00e9m retirar peso e influ\u00eancia pol\u00edtico-militar \u00e0 superpot\u00eancia norte-americana na Europa. Por sua vez, os segundos, os atlantistas, procuram preservar e aprofundar a rela\u00e7\u00e3o transatl\u00e2ntica considerando-a crucial na seguran\u00e7a e defesa europeia. H\u00e1 ainda uma \u201cterceira via\u201d, uma abordagem de compromisso entre europe\u00edsmo e atlantismo. Tem prevalecido na Uni\u00e3o Europeia, alinhando os desenvolvimentos em mat\u00e9ria de defesa europeia com o papel central da NATO.<\/p>\n<p class=\"Corpo\">3.\u00a0Pelas raz\u00f5es apontadas, o problema cl\u00e1ssico nas diverg\u00eancias euro-atl\u00e2nticas era a posi\u00e7\u00e3o francesa. Desde o general de Gaulle at\u00e9 Jacques Chirac, a Fran\u00e7a sempre tentou p\u00f4r em pr\u00e1tica uma pol\u00edtica de autonomia estrat\u00e9gica face aos EUA e ao resto da NATO. (Ver <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/international\/article\/2009\/03\/10\/1966-la-france-tourne-le-dos-a-l-otan_1165992_3210.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-brpx-seen=\"\">\u201c1966: la France tourne le dos \u00e0 l&#8217;OTAN\u201d, in Le Monde, 10\/03\/2009<\/a>). Mas essa \u201cexcep\u00e7\u00e3o francesa\u201d acabou muito provavelmente pela falta de meios para lhe dar credibilidade autonomamente. H\u00e1 cerca de uma d\u00e9cada a Fran\u00e7a voltou \u00e0 estrutura militar da NATO que tinha abandonado com De Gaulle nos anos 1960. Hoje h\u00e1 uma generaliza\u00e7\u00e3o do \u201coutsourcing\u201d da defesa por todas as velhas pot\u00eancias europeias, ou seja, a sua depend\u00eancia \/ entrega a um aliado externo (os EUA), nas tarefas militares mais exigentes, que v\u00e3o al\u00e9m de simples miss\u00f5es humanit\u00e1rias. Necessitam, entre outras coisas, de equipamento militar moderno e sofisticado, bem como meios de projec\u00e7\u00e3o adequados, algo que nos europeus escasseia. A situa\u00e7\u00e3o explica-se por raz\u00f5es hist\u00f3ricas, econ\u00f3micas e pol\u00edticas \u2014 a Uni\u00e3o Europeia v\u00ea-se, a si pr\u00f3pria, como um \u201csoft power\u201d. As vantagens usualmente apontadas a esta solu\u00e7\u00e3o de \u201coutsourcing\u201d residem no facto de ter a credibilidade militar da maior pot\u00eancia mundial, de ter custos humanos financeiros mais baixos para os europeus (pelos menos at\u00e9 agora) e de ser um factor de conten\u00e7\u00e3o das rivalidades intra-europeias, tr\u00e1gicas no passado. Ao mesmo tempo traz intr\u00ednsecas desvantagens cada vez mais evidentes: fragilidade pol\u00edtica e perda de autonomia estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p class=\"Corpo\">4.\u00a0No debate sobre a defesa europeia ningu\u00e9m antecipava \u2014 pelo menos at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo \u2014 que os EUA iriam ter um presidente que actuaria como \u201cCEO da Am\u00e9rica\u201d. (Ver <a href=\"https:\/\/edition.cnn.com\/2016\/05\/09\/us\/zakaria-trump-ceo-america\/index.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-brpx-seen=\"\">Fareed Zakaria \u201cThe problem with Trump as CEO of America\u201d in CNN, 9\/05\/2016<\/a>). E que iria olhar para a despesa militar da NATO n\u00e3o sob a \u00f3ptica estrat\u00e9gica que se espera do decisor de uma grande pot\u00eancia amiga, mas pelo prisma frio do gestor de uma empresa, sem outras considera\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas e de amizade. Trump acha que est\u00e1 a vender o servi\u00e7o de defesa demasiado barato aos clientes europeus, os quais nem sequer tem em grande conta. Assim, quer cobrar mais seja de que forma for. A diatribe contra os aliados por n\u00e3o gastarem 2% do PIB em termos militares \u2014 valor de refer\u00eancia da despesa militar da NATO h\u00e1 muito tempo \u2014 \u00e9 a sua justifica\u00e7\u00e3o. Como \u201cCEO da Am\u00e9rica\u201d \u2014 e algu\u00e9m que se v\u00ea, a si pr\u00f3prio, como um negociador ex\u00edmio \u2014, o que se trata \u00e9 de fazer o que os anteriores presidentes norte-americanos nunca conseguiram: p\u00f4r os europeus a assumirem um encargo maior na sua defesa. Aspecto importante da quest\u00e3o: isso dever\u00e1 ser feito, tamb\u00e9m, pela compra de equipamento militar a empresas dos EUA. (Ver <a href=\"https:\/\/uk.reuters.com\/article\/uk-nato-summit-trump-arms\/trump-ready-to-help-some-nato-states-buy-u-s-arms-idUKKBN1K22VG\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-brpx-seen=\"\">\u201cTrump ready to help some NATO states buy U.S. arms in Reuters, 12\/07\/2018<\/a>). Quer dizer: os 2% do PIB de despesa militar (Trump j\u00e1 fala em depois aumentar a fasquia para 4% \u2014 os EUA gastam cerca de 3,5% do PIB) provavelmente s\u00e3o sobretudo instrumentais para incrementar as exporta\u00e7\u00f5es dos EUA, neste caso de material militar. N\u00e3o s\u00e3o resultado de uma preocupa\u00e7\u00e3o com a defesa europeia em si mesma.<\/p>\n<p class=\"Corpo\">5.\u00a0A atitude inusitada e radical de Trump n\u00e3o \u00e9 apenas explic\u00e1vel pela sua personalidade e vis\u00e3o do mundo. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por uma conjuga\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de circunst\u00e2ncias que ocorreram nos \u00faltimos tempos. A primeira circunst\u00e2ncia \u00e9 um sentimento existente nos EUA de que os europeus n\u00e3o assumem uma quota-parte justa da despesa militar da NATO. Essa percep\u00e7\u00e3o, embora enraizada h\u00e1 muito tempo, sobretudo no eleitorado republicano, intensificou-se com a grave crise que afectou a economia norte-americana a partir 2008, deixando sequelas pol\u00edticas e na sociedade. A segunda circunst\u00e2ncia \u00e9 relativamente nova, mas estruturalmente \u00e9 a mais problem\u00e1tica para os europeus. Resulta da enorme transforma\u00e7\u00e3o do mundo, sobretudo neste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI, com a sua recentragem na \u00c1sia-Pac\u00edfico. Tende a retirar, na \u00f3ptica norte-americana de pot\u00eancia global, interesse estrat\u00e9gico \u00e0 Europa. O resultado \u00e9 o acentuar de uma vis\u00e3o de que os europeus s\u00e3o \u201cfree-riders\u201d em termos de seguran\u00e7a e defesa. Por outras palavras e numa linguagem comum: \u201cpenduram-se\u201d nos EUA n\u00e3o assumindo os custos financeiros e os riscos militares que deviam. (Ver <a href=\"http:\/\/carnegieeurope.eu\/strategiceurope\/59767\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-brpx-seen=\"\">John Deni, \u201cBurden Sharing and NATO\u2019s 2 Percent Goal\u201d in Carnegie Europe, 14\/04\/2015<\/a>). Ao mesmo tempo, e ainda na l\u00f3gica dessa mesma vis\u00e3o norte-americana, os europeus da NATO aumentam de n\u00famero, mas de pouco servem onde os EUA tendem a ter a supremacia mais contestada \u2014 a \u00c1sia-Pacifico devido \u00e0 ascens\u00e3o da China. Face a tudo isto, que n\u00e3o se reduz a uma mera conjuntura desfavor\u00e1vel (a presid\u00eancia de Trump), a ila\u00e7\u00e3o deve ser clara para os europeus: mais do que em qualquer outro momento do passado t\u00eam de perceber que o \u201coutsourcing\u201d da sua defesa n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o para o mundo do s\u00e9culo XXI. A quest\u00e3o \u00e9 saber como ser\u00e1 poss\u00edvel p\u00f4r em pr\u00e1tica uma defesa europeia coerente e cred\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 15\/07\/2018<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: NATO (1987)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; A ila\u00e7\u00e3o deve ser clara para os europeus: mais do que em qualquer outro momento do passado t\u00eam de perceber que o \u201coutsourcing\u201d da sua defesa n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o para o mundo do s\u00e9culo XXI. &nbsp; 1. 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