{"id":4386,"date":"2019-04-08T09:44:34","date_gmt":"2019-04-08T09:44:34","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=4386"},"modified":"2019-04-09T08:59:39","modified_gmt":"2019-04-09T08:59:39","slug":"os-factos-nao-existem-apenas-interpretacoes-os-media-e-a-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2019\/04\/08\/os-factos-nao-existem-apenas-interpretacoes-os-media-e-a-verdade\/","title":{"rendered":"\u201cOs factos n\u00e3o existem, apenas interpreta\u00e7\u00f5es&#8230;\u201d: os media e a verdade"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4391\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News.png\" alt=\"\" width=\"1667\" height=\"908\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News.png 1667w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News-1568x854.png 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News-300x163.png 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News-768x418.png 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News-1024x558.png 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News-1536x837.png 1536w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News-370x202.png 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News-570x310.png 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News-770x419.png 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News-1170x637.png 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Fake-News-1065x580.png 1065w\" sizes=\"auto, (max-width: 1667px) 100vw, 1667px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cOs factos n\u00e3o existem, apenas interpreta\u00e7\u00f5es&#8230;\u201d: os media e a verdade<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>1. <\/strong>Est\u00e1 em curso um assalto aos factos, um assalto \u00e0 verdade. \u00c9 essa a den\u00fancia veemente que a imprensa de refer\u00eancia de bom jornalismo tem feito nos \u00faltimos anos, sobre as distor\u00e7\u00f5es e mentiras de Donald Trump e de outros pol\u00edticos de perfil populista. Para a imprensa de refer\u00eancia, os factos e a verdade s\u00e3o vistos como intoc\u00e1veis e n\u00e3o adulter\u00e1veis. \u201cA verdade \u00e9 um bem p\u00fablico\u201d diz-nos o <em>slogan<\/em> do jornal P\u00fablico. \u201cO coment\u00e1rio \u00e9 livre, mas os factos s\u00e3o sagrados\u201d (\u201cComment is free, but facts are sacred\u201d), declara, por sua vez, o <em>slogan<\/em> do jornal brit\u00e2nico <em>Guardian<\/em>, da autoria de CP Scott, editor do <em>Manchester Guardian<\/em> em 1921 (ver <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/sustainability\/cp-scott-centenary-essay\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cCP Scott&#8217;s centenary essay\u201d<\/a> in <em>Guardian<\/em>, 23\/10\/2017). Na mesma linha, um jornalista do <em>Washington Post<\/em> indigna-se com a complac\u00eancia de alguns <em>media<\/em>: \u201cIncrivelmente, apesar de Trump ter feito mais de 5.000 declara\u00e7\u00f5es falsas ou enganosas como Presidente, as maiores organiza\u00e7\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o e os <em>feeds<\/em> dos <em>media<\/em> sociais continuam a injectar as suas mentiras n\u00e3o adulteradas na corrente sangu\u00ednea pol\u00edtica, sem informarem claramente os leitores que s\u00e3o apenas isso \u2014 mentiras.\u201d (Ver Greg Sargent <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/blogs\/plum-line\/wp\/2018\/10\/11\/memo-to-the-media-stop-spreading-trumps-fake-news\/?noredirect=on&amp;utm_term=.0ed6f8af0b4f\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cMemo to the media: Stop spreading Trump\u2019s fake news\u201d<\/a> in <em>The Washington Post<\/em>, 11\/10\/2018). Mas o que s\u00e3o factos e o que \u00e9 a verdade da qual o bom jornalismo se afirma como garante?<\/p>\n<p><strong>2. <\/strong>Facto (do latim <em>factum<\/em>) significa \u201c1. Coisa feita, ac\u00e7\u00e3o realizada. 2. O que aconteceu em determinado tempo e lugar = acontecimento\u201d (ver Dicion\u00e1rio da L\u00edngua Portuguesa Contempor\u00e2nea da Academia das Ci\u00eancias de Lisboa). O termo \u201cfacto\u201d evoluiu de coisa feita, ac\u00e7\u00e3o realizada, ou seja, fazer (<em>facere<\/em> em latim), para significar aquilo ao qual corresponde uma afirma\u00e7\u00e3o verdadeira (<em>factum<\/em>). Por outras palavras, uma afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira se, e s\u00f3, quando corresponde aos factos, vistos como uma realidade exterior ao indiv\u00edduo. Foi nesta l\u00f3gica de aferi\u00e7\u00e3o dos factos\/verdade que come\u00e7aram a aparecer, um pouco por toda a imprensa internacional, como no <em>New York Times<\/em>, <em>fact checks<\/em>, ou seja, sec\u00e7\u00f5es e dedicadas \u00e0 \u201cprova de factos\u201d (por exemplo, ver NYT <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/spotlight\/fact-checks\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cFact check \/ Fact checks of the day\u201d<\/a>; ver tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/1761224\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cTrump diz que a imprensa n\u00e3o fala dos ataques terroristas. \u00c9 verdade?\u201d<\/a> in P\u00fablico 7\/0272017). Face a este esfor\u00e7o do bom jornalismo, de confrontar com a realidade (os factos), as afirma\u00e7\u00f5es sem base factual de pol\u00edticos como Donald Trump, j\u00e1 podemos estar mais descansados de que \u201cA democracia n\u00e3o morre nas trevas\u201d (<em>democracy dies in darkness<\/em>), como sugere o <em>slogan <\/em>do <em>Washington Post<\/em>, usado a partir de in\u00edcios de 2017? (Ver <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/lifestyle\/style\/the-washington-posts-new-slogan-turns-out-to-be-an-old-saying\/2017\/02\/23\/cb199cda-fa02-11e6-be05-1a3817ac21a5_story.html?utm_term=.58f47f9dcc3d\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201c<em>The Washington <\/em><em>Post\u2019<\/em>s new slogan turns out to be an old saying<\/a>\u201d in WP, 24\/02\/2017). A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o simples. Os ataques aos factos e \u00e0 verdade t\u00eam uma longa e complexa hist\u00f3ria. E a imprensa n\u00e3o \u00e9 apenas v\u00edtima ou garante da verdade. Um dos problemas mais profundos, o qual aqui vou analisar, radica na influ\u00eancia do p\u00f3s-modernismo, com origem nas humanidades e ci\u00eancias sociais, a \u00e1rea \u201ccient\u00edfica\u201d dos estudos de comunica\u00e7\u00e3o e dos <em>media. <\/em>Facilitou o ambiente intelectual e pol\u00edtico de cria\u00e7\u00e3o de \u201crealidades paralelas\u201d, no qual se move Donald Trump.<\/p>\n<p><strong>3. <\/strong>H\u00e1 cerca de doze anos, Ophelia Benson e Jeremy Stangroom publicaram um livro intitulado <em>Why Truth Matters<\/em> (Continuum, 2005). \u00c0 primeira vista poder\u00edamos pensar que \u00e9 uma das muitas publica\u00e7\u00f5es que, nos dois ou tr\u00eas \u00faltimos anos, espelham uma crescente preocupa\u00e7\u00e3o com os graves atropelos aos factos e \u00e0 verdade. (Ver, entre outros, Michiko Kakutani, \u201cA Morte da Verdade. A falsidade na era Trump\u201d, trad. port, Ed. Presen\u00e7a, 2018). Mas n\u00e3o \u00e9 esse o caso. No jornal brit\u00e2nico <em>The Independent<\/em>, Johann Hari fez uma recens\u00e3o do livro de Ophelia Benson e de Jeremy Stangroom particularmente presciente. Vale a pena reproduzir aqui um excerto. Nele vemos como os efeitos perversos do p\u00f3s-modernismo radical, a\u00ed denunciados, se tornaram demasiado evidentes no mundo em que hoje vivemos. \u201cA academia p\u00f3s-moderna apresenta isso [o ataque \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 hist\u00f3ria] como uma batalha a favor dos povos oprimidos, mas, na verdade \u00e9 uma profunda trai\u00e7\u00e3o a estes. Tais grupos n\u00e3o precisam que a ci\u00eancia e a hist\u00f3ria sejam distorcidas ou suspensas em seu nome. A verdade, a evid\u00eancia [ou seja, os factos], a raz\u00e3o e a l\u00f3gica, n\u00e3o s\u00e3o um feudo, um condom\u00ednio fechado ou um clube exclusivo. Pelo contr\u00e1rio. S\u00e3o propriedade de todos e a \u00fanica maneira de refutar mentiras [\u2026].\u201d (Ver Johann Hari, <a href=\"https:\/\/www.independent.co.uk\/arts-entertainment\/books\/reviews\/why-truth-matters-by-ophelia-benson-and-jeremy-stangroom-8699215.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cWhy Truth Matters by Ophelia Benson and Jeremy Stangroom. The truth? You can handle the truth\u201d<\/a> in <em>The Independent<\/em>, 14\/05\/2016).<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong> \u201cDepois de a raz\u00e3o e as evid\u00eancias terem sido removidas pelos p\u00f3s-modernistas, o que resta? A tradi\u00e7\u00e3o, a religi\u00e3o, o instinto, o sangue e o solo, a na\u00e7\u00e3o e a p\u00e1tria \u2014 os tropos da direita opressiva\u201d (<em>idem<\/em>). A conclus\u00e3o de Johann Hari \u00e9, tamb\u00e9m, particularmente \u00fatil para perceber como cheg\u00e1mos ao mundo de hoje. Mostra como h\u00e1 uma grande confus\u00e3o intelectual instalada, a qual permite um desprezo aberto pelos factos sem grande problema para os que o fazem, seja na vida intelectual ou pol\u00edtica. \u201cBenson e Stangroom respondem \u00e0s frases obscuras e impenetr\u00e1veis dos p\u00f3s-modernistas, com frases t\u00e3o claras que n\u00e3o \u00e9 preciso nadar nelas. Deveria haver uma lei exigindo que cada compra de um \u2018livro\u2019 de Jacques Derrida fosse acompanhada de uma c\u00f3pia gratuita desta esclarecedora e brilhante resposta\u201d (<em>ibidem<\/em>). Poder\u00edamos pensar que o livro discute meras questi\u00fanculas entre acad\u00e9micos, que se entret\u00eam a esgrimir argumentos favor e contra o p\u00f3s-modernismo, e que esse \u00e9 um problema filos\u00f3fico que s\u00f3 a eles diz respeito, sem qualquer interesse para a sociedade e a pol\u00edtica. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. O p\u00f3s-modernismo n\u00e3o est\u00e1 confinado \u00e0 academia. Fez o seu caminho para a sociedade e o jornalismo, ainda que, muitas vezes, sem muitos perceberem bem o alcance suas ideias, nem as consequ\u00eancias sociais e pol\u00edticas das mesmas a longo prazo, nomeadamente os seus efeitos nos factos, na verdade e nos pr\u00f3prios <em>media<\/em>. (Ver Julia M. Klein, <a href=\"https:\/\/archives.cjr.org\/review\/culture_clash.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cHow postmodernism destroyed journalism. A review of Scott Timberg&#8217;s new book, Culture Crash\u201d<\/a> in Columbia Journalism Review, Janeiro-Fevereiro de 2015).<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong> \u00c9 poss\u00edvel fazer bom jornalismo \u00e0 maneira cl\u00e1ssica, com o objectivo de respeitar o j\u00e1 referido moto de CP Scott na sua plenitude \u2014 \u201cO coment\u00e1rio \u00e9 livre, mas os factos s\u00e3o sagrados\u201d \u2014 estando, ao mesmo tempo, imbu\u00eddo de um quadro intelectual p\u00f3s-moderno, tal como foi descrito (e criticado) por Ophelia Benson e Jeremy Stangroom? \u00c9 poss\u00edvel, por um lado, defender a verdade, como correspond\u00eancia com os factos e uma realidade objectiva, e, por outro lado, estar imbu\u00eddo de ideias de que todas as culturas t\u00eam o mesmo valor e de que n\u00e3o existe uma verdade objectiva? Imp\u00f5e-se, assim, evidenciar uma contradi\u00e7\u00e3o fundamental entre defender a verdade, como correspond\u00eancia com os factos e uma realidade objectiva exterior ao indiv\u00edduo, a qual implica, tendencialmente, a irrelev\u00e2ncia da cultura, do grupo e do g\u00e9nero. (Isso ocorre, por exemplo, quando se denunciam as declara\u00e7\u00f5es de Donald Trump atrav\u00e9s de <em>fact checks,<\/em> no <em>New York Times<\/em> ou no <em>Guardian<\/em>.) E, paralelamente, usar crit\u00e9rios de \u201cverdade\u201d p\u00f3s-modernos \u2014 para avaliar, por exemplo, islamistas ou feministas \u2014, os quais sustentam que n\u00e3o existe uma verdade objectiva factual, mas \u201cverdades\u201d, no plural, condicionadas pela cultura, o g\u00e9nero e o grupo a que o indiv\u00edduo pertence. Assim, na l\u00f3gica p\u00f3s-moderna, a verdade de Donald Trump, aferida pelos crit\u00e9rios do seu grupo (o <em>Tea Party<\/em> e a <em>Alt-right<\/em>), \u00e9 igual \u00e0 verdade da CNN ou do <em>Washington Post<\/em>, aferida pelos crit\u00e9rios de quem partilha a vis\u00e3o do mundo dos <em>media<\/em> (os liberais, no sentido social e pol\u00edtico). N\u00e3o h\u00e1, por isso, motivo para nos preocuparmos com a \u201cmorte da verdade\u201d. J\u00e1 estava moribunda pelo ataque do p\u00f3s-modernismo radical.<\/p>\n<p><strong>6. <\/strong>A resposta \u00e0 quest\u00e3o formulada no ponto anterior \u00e9, ou devia ser, muito clara: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer bom jornalismo \u00e0 maneira cl\u00e1ssica e estar, ao mesmo tempo, imbu\u00eddo de uma vis\u00e3o do mundo e de valores p\u00f3s-modernos. O p\u00f3s-modernismo faz mal aos factos e os <em>media<\/em> est\u00e3o a provar o veneno que, de forma consciente ou inconsciente, ajudaram a espalhar. Regressemos ao j\u00e1 referido moto do jornal brit\u00e2nico <em>Guardian<\/em>, os \u201cfactos s\u00e3o sagrados\u201d. Pode ter a virtude de apontar um (bom) caminho jornal\u00edstico, como na \u00e9poca de CP Scott, o editor do <em>Manchester Guardian<\/em> dos anos 1920. Todavia, ao mesmo tempo, cria a ilus\u00e3o de uma objectividade, no sentido cl\u00e1ssico, da qual o pr\u00f3prio <em>Guardian<\/em> se afastou. Se formos \u00e0s ra\u00edzes intelectuais do problema, especialmente ao pensamento de Friedrich Nietzsche, que, a partir dos anos 1960, o p\u00f3s-modernismo redescobriu e direccionou para as suas causas, vemos a quest\u00e3o de forma cristalina. Vemos como se criou um clima intelectual de cepticismo face aos factos, sem se antecipar o alcance pleno desse cepticismo face ao mundo em devir. \u201cContra esse positivismo que p\u00e1ra diante dos fen\u00f3menos, dizendo \u2018s\u00f3 existem factos\u2019, eu direi: n\u00e3o, s\u00e3o precisamente os factos que n\u00e3o existem, apenas [h\u00e1] interpreta\u00e7\u00f5es\u2026\u201d (ver <em>The Portable Nietzsche<\/em>, editado e traduzido por Walter Kaufmann, Penguin Books, 1954, p. 458). Um mundo onde os \u201cfactos n\u00e3o existem\u201d e \u201capenas h\u00e1 interpreta\u00e7\u00f5es\u201d \u00e9 o mundo onde habita Donald Trump, ainda que numa vers\u00e3o grotesca do p\u00f3s-modernismo nascido na academia.<\/p>\n<p><strong>7. <\/strong>No Ocidente, pelo menos at\u00e9 aos anos 1960\/1970, havia um largo consenso sobre a forma como se aferia a verdade, ou falsidade, de uma afirma\u00e7\u00e3o \u2014 confrontava-se essa afirma\u00e7\u00e3o com o \u201cteste dos factos\u201d. Aspecto crucial da quest\u00e3o: a verdade era vista como algo objectivo, n\u00e3o condicionado ou alterado pela cultura, pelo grupo, pelo g\u00e9nero, ou pelos valores de cada um. O resto eram apenas opini\u00f5es, naturalmente livres em democracia. Essa era, tamb\u00e9m, a vis\u00e3o da esquerda intelectual e pol\u00edtica. O pensamento marxista aceitava esses pressupostos, vendo-se, a si pr\u00f3prio, como cient\u00edfico e universalista. Mas nos anos 1960\/1970 emergiu uma outra esquerda, cultural e p\u00f3s-moderna, a qual difere substancialmente da tradicional esquerda marxista. Jacques Derrida, Michel Foucault ou Richard Rorty, s\u00e3o algumas das suas influ\u00eancias centrais. Pretendiam contestar o uso da ci\u00eancia pelo poder e o <em>establishment<\/em>. Mas, para al\u00e9m dos seus eventuais m\u00e9ritos, a desconstru\u00e7\u00e3o, o relativismo e o cepticismo que promoveram corroem a ci\u00eancia, os direitos humanos e a verdade factual. Assim, a objectividade e o esfor\u00e7o de distin\u00e7\u00e3o entre factos e interpreta\u00e7\u00f5es (opini\u00f5es) foram postos em causa, ou abandonados, emergindo o culto da subjectividade e da emo\u00e7\u00e3o, contra a objectividade e a raz\u00e3o. O que n\u00e3o foi antecipado \u00e9 que isso podia abrir caminho a outra contesta\u00e7\u00e3o radical \u00e0 direita, que hoje se est\u00e1 a instalar e da qual Donald Trump \u00e9 apenas a express\u00e3o mais vis\u00edvel. A imprensa acordou agora, depois de um longo <em>flirt<\/em> com tais ideias, ainda que sob o pretexto de apoiar \u201cboas causas\u201d, ou de um sensacionalismo (o apelo \u00e0 emo\u00e7\u00e3o). Est\u00e1 agora alarmada com o atropelo aos factos, e tem motivos para isso. Mas se continuarmos a ver o mundo com lentes p\u00f3s-modernas radicais, n\u00e3o h\u00e1 \u201cprovas dos factos\u201d que salvem o jornalismo e a verdade.<\/p>\n<div id=\"supplemental-slot_container\" class=\"pba_recommendation_widget supplemental-slot supplemental-slot--inline\"><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 28\/11\/2018<\/p>\n<p>\u00a9 Imagem: Wikimedia commons<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; \u201cOs factos n\u00e3o existem, apenas interpreta\u00e7\u00f5es&#8230;\u201d: os media e a verdade 1. 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