{"id":4402,"date":"2019-04-15T10:48:58","date_gmt":"2019-04-15T10:48:58","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/?p=4402"},"modified":"2021-03-20T21:33:30","modified_gmt":"2021-03-20T21:33:30","slug":"e-proibido-proibir-na-era-de-trump-e-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2019\/04\/15\/e-proibido-proibir-na-era-de-trump-e-bolsonaro\/","title":{"rendered":"\u201c\u00c9 proibido proibir!\u201d na era de Trump e Bolsonaro"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/\u00c9-proibido-proibir.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/\u00c9-proibido-proibir.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4403\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/\u00c9-proibido-proibir.jpg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/\u00c9-proibido-proibir-300x225.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/\u00c9-proibido-proibir-768x576.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/\u00c9-proibido-proibir-370x278.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/\u00c9-proibido-proibir-570x428.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/\u00c9-proibido-proibir-770x578.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/\u00c9-proibido-proibir-773x580.jpg 773w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Com um clima de guerra cultural e de inseguran\u00e7a instalado, o resvalar para o iliberalismo e para o autoritarismo est\u00e1 em marcha. Resta saber o que vai ficar da democracia tal como a conhec\u00edamos.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>1. <\/strong>Talvez os ocidentais \u2014\u00ad sobretudo os que se v\u00eaem, a si pr\u00f3prios, como liberais ou progressistas \u2014 pudessem perceber melhor o que est\u00e1 a ocorrer no Ocidente se observassem atentamente os fen\u00f3menos sociais e pol\u00edticos em curso nas sociedades mu\u00e7ulmanas. Os valores seculares (e tamb\u00e9m, de alguma forma, liberais), que estavam a\u00ed em ascens\u00e3o at\u00e9 aos anos 1960\/1970, foram amplamente revertidos pela vaga islamista, ou seja, do \u201cIsl\u00e3o pol\u00edtico\u201d. Nos \u00faltimos anos, a transforma\u00e7\u00e3o da Turquia com Recep Tayyip Erdogan exemplifica esse rumo dos acontecimentos. Contraria a ideia ocidental de progresso e de crescente seculariza\u00e7\u00e3o da humanidade. Um aspecto maior dessa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 a ades\u00e3o dos jovens ao islamismo. Mostra a direc\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica social. Em m\u00e9dia, o eleitorado do Partido da Justi\u00e7a e Desenvolvimento (AKP), o partido Recep Tayyip Erdogan, \u00e9 um eleitorado mais jovem do que o eleitorado do secular Partido Republicano do Povo (CHP), herdeiro de Mustafa Kemal Atat\u00fcrk. Ser islamista \u2014 que, grosso modo, \u00e9 o equivalente a ser um radical de direita ou extrema-direita nas sociedades ocidentais \u2014 \u00e9 algo que atrai muitos jovens de ambos os sexos em contexto mu\u00e7ulmano. As raz\u00f5es s\u00e3o complexas, mas, por exemplo, o comportamento de uma jovem que passa a cobrir a cabe\u00e7a com um v\u00e9u pode ser motivado por um acto de rebeldia juvenil face a uma m\u00e3e \/ fam\u00edlia \/ sociedade onde isso tinha sido banido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. <\/strong>No Ocidente, a partir dos anos 1960, valores e causas que vinham das margens, de uma esquerda alternativa \u00e0 hegemonia ideol\u00f3gica dos partidos comunistas ao estilo sovi\u00e9tico, ganharam terreno pol\u00edtico e visibilidade social (grosso modo, na mesma altura em que os islamistas come\u00e7avam a reverter o secularismo liberal no Isl\u00e3o). Feministas, ambientalistas, sexualidades alternativas (<em>gays<\/em>, l\u00e9sbicas e transsexuais), minorias \u00e9tnicas e\/ou religiosas entraram em for\u00e7a na agenda social e pol\u00edtica de todos os pa\u00edses ocidentais. As suas causas afastaram-se, gradualmente, do proletariado e da l\u00f3gica marxista cl\u00e1ssica da luta de classes. Hoje s\u00e3o, em grande parte, o <em>mainstream<\/em>, social e pol\u00edtico. Em muitos aspectos, alteraram radicalmente o sentido usual da moral e dos bons costumes. Este enorme sucesso trouxe novos padr\u00f5es morais e de bom comportamento social. Fundamentalmente est\u00e3o hoje j\u00e1 enraizados na popula\u00e7\u00e3o com escolariza\u00e7\u00e3o mais elevada, sobretudo quando a sua forma\u00e7\u00e3o teve predomin\u00e2ncia nas ci\u00eancias sociais e humanidades. (A\u00ed essas ideias operaram uma enorme transforma\u00e7\u00e3o na forma de fazer teoria e nas tem\u00e1ticas estudadas, que passaram a incluir muitas das novas \u201ccausas\u201d). Os <em>media<\/em> usualmente considerados \u201cde refer\u00eancia\u201d, ou seja, vistos como exemplos de bom jornalismo, s\u00e3o um outro agente crucial do processo de enraizamento dos valores p\u00f3s-1960. N\u00e3o \u00e9 por acaso que s\u00e3o um alvo preferido dos que se lhes op\u00f5em no actual ambiente de guerra cultural.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong> \u201c\u00c9 proibido proibir\u201d (\u201cIl est interdit d\u2019interdire!\u201d) foi um dos <a href=\"http:\/\/www.rtp.pt\/antena2\/cultura\/e-proibido-proibir-no-aniversario-de-maio-de-68-1-a-31-maio-9h50-19h00_3938\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">slogans mais ic\u00f3nicos do Maio de 68<\/a>. Captou particularmente bem o esp\u00edrito de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem social e pol\u00edtica estabelecida e \u00e0 moral e bons costumes (conservadores), tal como normalmente eram entendidos na \u00e9poca. Mas, como j\u00e1 notado, as causas dessa \u00e9poca e aquilo que era visto como uma transgress\u00e3o nos anos 1960 em geral \u2014 e no Maio de 68 em particular \u2014 hoje s\u00e3o, em grande parte, comportamentos normais na sociedade e na pol\u00edtica. Uma das consequ\u00eancias menos percebidas dessa transforma\u00e7\u00e3o, nas suas mais profundas implica\u00e7\u00f5es, \u00e9 que isso retira a essas ideias\/causas o apelo da contesta\u00e7\u00e3o, na sociedade e na pol\u00edtica. Transformou-as, paradoxalmente, na moralidade e bons costumes de muitos dos mais velhos, na popula\u00e7\u00e3o mais urbana e com mais escolariza\u00e7\u00e3o, retirando apelo aos mais jovens. Assim, o(a) jovem que hoje se afirme a favor da sexualidade fora do casamento, da emancipa\u00e7\u00e3o feminina, da defesa do ambiente, dos direitos das minorias, etc. n\u00e3o transgride nada. Na realidade, apenas adere aos valores estabelecidos como bons \u2014 pelo menos nos j\u00e1 referidos meios urbanos e na classe m\u00e9dia com mais educa\u00e7\u00e3o. Vejamos melhor a din\u00e2mica sociol\u00f3gico-pol\u00edtica instalada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong> Meio s\u00e9culo depois, nas sociedades ocidentais, os jovens rebeldes dos anos 1960 s\u00e3o hoje sexagen\u00e1rios ou septuagen\u00e1rios. Mant\u00eam uma (auto)imagem de rebeldia de progressismo e de defesa das boas causas dos mais fracos e exclu\u00eddos. Todavia, como j\u00e1 notado, para os mais novos, como os actuais jovens<em> millennials <\/em>(ou gera\u00e7\u00e3o Y), esses s\u00e3o j\u00e1 os valores da sociedade estabelecida em que nasceram. <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-41936761\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">N\u00e3o permitem actos de rebeldia e contesta\u00e7\u00e3o para se demarcaram dos adultos das gera\u00e7\u00f5es anteriores<\/a>. Assim, os sexagen\u00e1rios ou septuagen\u00e1rios que estiveram na origem do actual padr\u00e3o moral e pol\u00edtico usualmente aceite, por paradoxal que possa parecer, est\u00e3o hoje mais pr\u00f3ximos da imagem de guardi\u00e3es do passado, ou seja, de conservadores, do que imaginam. Ironicamente, est\u00e3o hoje numa situa\u00e7\u00e3o similar \u00e0 dos que suplantaram na fun\u00e7\u00e3o de guardi\u00e3es da moralidade da era pr\u00e9-1960. Como resultado dessa transforma\u00e7\u00e3o, quem parece estar a captar \/ manipular o sentimento de rebeldia \u00e9 outro movimento que veio tamb\u00e9m das margens da sociedade e do sistema pol\u00edtico: a <em>alt-right<\/em>. Tal como os islamistas conseguiram reverter a quest\u00e3o geracional a seu favor no Isl\u00e3o, e transformar o tradicional em radical, incorporando o sentimento contestat\u00e1rio, um processo algo similar parece estar em curso no Ocidente com a direita radical.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong> Nas sociedades ocidentais e em outras que lhes s\u00e3o culturalmente pr\u00f3ximas, a maior transgress\u00e3o das normas morais, sociais e pol\u00edticas estabelecidas \u00e9 hoje \u00e9 feita por indiv\u00edduos que se apresentam como anti-sistema e contestat\u00e1rios radicais. Numa l\u00f3gica de (extrema)direita prosseguem a sua pr\u00f3pria vers\u00e3o do \u201c\u00c9 proibido proibir\u201d e da \u201cnormalidade\u201d de transgredir \u2014 o sexismo, a homofobia, a xenofobia ou a islamofobia, s\u00e3o as suas transgress\u00f5es favoritas. Donald T<a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/us-news\/2018\/oct\/19\/trump-greg-gianforte-guardian-reporter-assault\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">rump elogia a masculinidade viril de um pol\u00edtico republicano do Montana<\/a> com uma piada jocosa sobre agress\u00e3o a um jornalista. Jair <a href=\"http:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/7-vezes-em-que-gays-e-mulheres-foram-alvo-de-bolsonaro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bolsonaro usa similares t\u00e9cnicas de choque e transgress\u00e3o nos seus frequentes ataques verbais a feministas e <em>gays<\/em><\/a>. Quanto a<a href=\"http:\/\/www.scmp.com\/news\/asia\/southeast-asia\/article\/2124810\/philippine-president-rodrigo-duterte-it-was-another-year\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> Rodrigo Duterte, o actual Presidente das Filipinas, cultiva um radicalismo ainda maior <\/a>na linguagem e na transgress\u00e3o de c\u00f3digos de conduta moral. Dizer e\/ou fazer coisas que transgridem a sensibilidade moral e pol\u00edtica herdada dos anos 1960, vistas como politicamente incorrectas, parece ser a nova f\u00f3rmula de sucesso que mobiliza a contesta\u00e7\u00e3o e as massas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6. <\/strong>As ideias filos\u00f3fico-pol\u00edticas (e t\u00e9cnicas) que serviram para atacar o <em>status quo s<\/em>ocial e pol\u00edtico nos anos 1960 est\u00e3o agora a ser apropriadas e replicadas pela <em>alt-right<\/em> e outros movimentos similares. A plasticidade, o radicalismo e as contradi\u00e7\u00f5es do pensamento do fil\u00f3sofo Friedrich Nietzsche \u2014 que j\u00e1 entusiasmou fascistas (Benito Mussolini) e nazis (Adolf Hitler), bem com a esquerda intelectual e pol\u00edtica do Maio de 68 Michel Foucault, Jaques Derrida, etc.) \u2014 s\u00e3o um bom guia para perceber o radicalismo instalado nas sociedades democr\u00e1ticas e as suas contradi\u00e7\u00f5es. Ao contr\u00e1rio do que acontecia no passado do s\u00e9culo XX, a imagem de \u201crevolucion\u00e1rio(a)\u201d, de contestat\u00e1rio(a), ou de algu\u00e9m irreverente est\u00e1 a afastar-se, cada vez mais, das feministas, ambientalistas, sexualidades alternativas (<em>gays<\/em>, l\u00e9sbicas e transsexuais), ou da defesa das minorias \u00e9tnicas e\/ou religiosas. Esse \u00e9, ironicamente, o pre\u00e7o do sucesso das suas ideias. \u00c0 medida que se transformaram nas ideias pol\u00edticas e moralidade do <em>establishment<\/em>, tornaram-se, tamb\u00e9m, o rosto de um sistema que aos mais descontentes apetece atacar e transgredir, seja qual for o motivo. Ironicamente, \u00e0s vezes at\u00e9 contra os seus pr\u00f3prios interesses econ\u00f3micos ou pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.<\/strong> Em sociedades onde se cultivou, durante d\u00e9cadas, a transforma\u00e7\u00e3o e a desconstru\u00e7\u00e3o de valores e regras sociais \u2014 originalmente com proveni\u00eancia da esquerda radical e das margens do sistema \u2014, vive-se uma nova vaga que mimetiza essa l\u00f3gica \u2014 oriunda igualmente das margens, mas agora da direita radical. (N\u00e3o tem a sofistica\u00e7\u00e3o intelectual e pol\u00edtica da esquerda radical, sendo, nesse aspecto, bastante grosseira e rudimentar.) Ao mesmo tempo, nas democracias liberais, um dos pilares do sistema moral e de valores erigido no p\u00f3s-anos 1960, os <em>media <\/em>tradicionais, perdeu a hegemonia que detinha sobre a forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica. Hoje a esfera p\u00fablica \u00e9, cada vez mais, dominada pela Internet e redes socais, com as virtudes e problemas que da\u00ed decorrem. S\u00e3o o novo espa\u00e7o p\u00fablico de contesta\u00e7\u00e3o e radicalismo por excel\u00eancia, com o predom\u00ednio do emocional sobre o racional, do instant\u00e2neo sobre o comprovadamente factual e profundo. O novo terreno do &#8220;\u00c9 proibido proibir!&#8221;, agora numa l\u00f3gica quase antit\u00e9tica da original. Com um clima de guerra cultural e de inseguran\u00e7a instalado, o resvalar para o iliberalismo e para o autoritarismo est\u00e1 em marcha. Resta saber o que vai ficar da democracia tal como a conhec\u00edamos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 22\/10\/2018<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Imagem: Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com um clima de guerra cultural e de inseguran\u00e7a instalado, o resvalar para o iliberalismo e para o autoritarismo est\u00e1 em marcha. Resta saber o que vai ficar da democracia tal como a conhec\u00edamos. 1. 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