{"id":5469,"date":"2021-03-16T22:40:31","date_gmt":"2021-03-16T22:40:31","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/?p=5469"},"modified":"2022-05-10T11:55:28","modified_gmt":"2022-05-10T11:55:28","slug":"a-europa-perdida-no-mundo-da-geopolitica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2021\/03\/16\/a-europa-perdida-no-mundo-da-geopolitica\/","title":{"rendered":"A Europa perdida no mundo da geopol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"625\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-1024x625.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5207\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-1024x625.jpeg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-1568x957.jpeg 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-300x183.jpeg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-768x469.jpeg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-1536x937.jpeg 1536w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-370x226.jpeg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-570x348.jpeg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-770x470.jpeg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-1170x714.jpeg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso-950x580.jpeg 950w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Mapa-da-Europa-nos-anos-1920-curso.jpeg 1763w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Mapa da Europa nos anos 1920<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Nem temos uma Europa genuinamente coerente com os seus valores internos na pol\u00edtica externa, nem temos uma Europa forte e cred\u00edvel geopoliticamente nas grandes quest\u00f5es mundiais.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>1. A hist\u00f3ria por vezes \u00e9 cruel. A geopol\u00edtica, um termo criado pelos europeus na transic\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX \u2014 a autoria deve-se ao sueco Rudolf Kjell\u00e9n \u2014, \u00e9 uma das maiores dores de cabe\u00e7a da actual Uni\u00e3o Europeia (por simplifica\u00e7\u00e3o, aqui designada tamb\u00e9m como Europa). As grandes pot\u00eancias europeias da primeira metade do s\u00e9culo XIX, que eram tamb\u00e9m grandes pot\u00eancias mundiais, impulsionaram o pensamento geopol\u00edtico. Nomes como Halford Mackinder (brit\u00e2nico), Karl Haushofer (alem\u00e3o) e Paul Vidal de la Blanche (franc\u00eas), este \u00faltimo com um trabalho precursor sobre a Fran\u00e7a do Leste e a Als\u00e1cia-Lorena, regi\u00e3o no cerne do conflito franco-germ\u00e2nico, foram fundamentais nesse processo. Todavia a Uni\u00e3o Europeia, que tem esse passado inscrito, goste ou n\u00e3o dele, d\u00e1-se muito mal com a geopol\u00edtica do s\u00e9culo XXI. Hoje os maiores actores mundiais n\u00e3o s\u00e3o europeus, nem se movem muitas vezes pelas regras e princ\u00edpios que os europeus gostariam de ver amplamente postos em pr\u00e1tica nas rela\u00e7\u00f5es internacionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>2. Na \u00f3ptica europeia do p\u00f3s II Guerra Mundial, o mundo da pol\u00edtica de poder e dos interesses, que \u00e9 largamente o mundo da geopol\u00edtica, \u00e9 um mundo do passado, sobretudo do passado tr\u00e1gico europeu de sucessivas guerras. Para o superar, a Uni\u00e3o Europeia criou institui\u00e7\u00f5es supranacionais e constru\u00edu uma (auto)imagem de um actor virtuoso das rela\u00e7\u00f5es internacionais, demarcando-se das suas grandes cria\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do passado: Estado soberano (vestefaliano) e na\u00e7\u00e3o \/ nacionalismo. Quando em 2019 Ursula von der Leyen formou a actual Comiss\u00e3o Europeia e prometeu uma \u201cComiss\u00e3o geopol\u00edtica\u201d, causou por isso uma certa surpresa e cr\u00edticas. Geopol\u00edtica e Uni\u00e3o Europeia eram palavras que n\u00e3o faziam parte do mesmo l\u00e9xico pol\u00edtico. Mas a ideia surgiu no contexto de mundo em grande transforma\u00e7\u00e3o que colocava novos problemas \u00e0 Europa. Os EUA, sob o governo de Donald Trump, afastavam-se do seu tradicional multilateralismo do p\u00f3s-II Guerra Mundial e questionavam o valor da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica (NATO). A China, durante muito tempo vista pelos europeus quase s\u00f3 por lentes econ\u00f3micas, como um novo grande mercado ou um investidor com grande liquidez, passou a ser percebida como um \u201crival sist\u00e9mico\u201d. Quanto \u00e0 R\u00fassia, que a geografia coloca como parte e em continuidade com a Europa, a rela\u00e7\u00e3o turbulenta persistia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>3. Para n\u00e3o ser apenas um&nbsp;<em>slogan<\/em>, a ideia de uma \u201cComiss\u00e3o geopol\u00edtica\u201d necessitava de uma concretiza\u00e7\u00e3o efectiva e cred\u00edvel. Mas aqui come\u00e7a o maior problema de&nbsp;Ursula von der Leyen&nbsp;e da Uni\u00e3o Europeia. A Europa continua presa aos fantasmas do passado da primeira metade do s\u00e9culo XX e enredada nas suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o lhe permitem transformar-se num actor geopol\u00edtico coerente, forte e cred\u00edvel. Um entrave fundamental \u00e9 o do conflito entre princ\u00edpios e valores, por um lado, e interesses e poder, por outro lado. Certamente que o problema n\u00e3o \u00e9 exclusivo da Uni\u00e3o Europeia, mas a\u00ed atinge um elevad\u00edssimo grau de intensidade pela sua pr\u00f3pria natureza. Mais do que qualquer outro Estado-na\u00e7\u00e3o soberano no mundo, a Uni\u00e3o Europeia pretendeu guiar a sua conduta por princ\u00edpios e valores \u2014 o Estado de direito, os direitos humanos, a democracia pluralista e a protec\u00e7\u00e3o das minorias est\u00e3o todos inscritos nos seus textos fundadores \u201cconstitucionais\u201d.&nbsp;&nbsp;Mas uma coisa \u00e9 actuar assim num mundo onde esses princ\u00edpios s\u00e3o amplamente aceites, outra \u00e9 actuar num mundo que em grande parte os ignora. Como \u00e9 f\u00e1cil de intuir, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel ser um interveniente maior na geopol\u00edtica mundial sem recorrer \u00e0 pol\u00edtica de poder e \u00e0 l\u00f3gica dos interesses num mundo onde os maiores problemas seguem essas l\u00f3gicas e est\u00e3o para al\u00e9m das suas capacidades transformadoras da realidade social-internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Para al\u00e9m do apontado, a experi\u00eancia europeia de v\u00e1rias d\u00e9cadas de integra\u00e7\u00e3o mostra ainda que raramente h\u00e1 coes\u00e3o interna que suporte uma pol\u00edtica externa assertiva nas quest\u00f5es mais importantes da geopol\u00edtica mundial. Por isso, o conflito dos princ\u00edpios e valores com a l\u00f3gica dos interesses e poder n\u00e3o&nbsp;\u00e9&nbsp;o \u00fanico obst\u00e1culo&nbsp;de fundo para se criar uma Europa como um actor geopol\u00edtico forte e cred\u00edvel. Grandes pot\u00eancias como a R\u00fassia e a China \u2014 por vezes tamb\u00e9m os EUA, o que foi muito evidente com Donald Trump, tal como j\u00e1 tinha acontecido com George W. Bush na altura da guerra do Iraque \u2014 alimentam a falta de coes\u00e3o europeia. Naturalmente tiram proveito dessa debilidade quando o seu interesse nacional est\u00e1 em causa. Mas \u00e9 necess\u00e1rio notar que n\u00e3o s\u00e3o apenas as grandes pot\u00eancias que facilmente a superam no terreno geopol\u00edtico a Uni\u00e3o Europeia. M\u00e9dias pot\u00eancias como a Turquia t\u00eam conseguido tirar tamb\u00e9m partido das contradi\u00e7\u00f5es e falta de coes\u00e3o interna europeia, suplantando-a, apesar de teoricamente estarem muito aqu\u00e9m do poder do conjunto europeu. Na realidade, nas \u00e1reas geopol\u00edticas onde a Uni\u00e3o Europeia tem um interesse directo apenas nos Balc\u00e3s \u2014 e mesmo a\u00ed s\u00f3 ap\u00f3s as interven\u00e7\u00f5es da NATO \/ EUA nos anos 1990 \u2014 \u00e9 que exerce uma influ\u00eancia significativa. Na zona tamp\u00e3o do Leste europeu, da Mold\u00e1via \u00e0 Bielor\u00fassia, passando pela Ucr\u00e2nia, a R\u00fassia \u00e9 o Estado geopoliticamente, dominante como mostrou pela anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia. No Mediterr\u00e2neo oriental, outra \u00e1rea geopol\u00edtica de interesse directo para a Uni\u00e3o Europeia, a Turquia ignora-a largamente nos conflitos que a op\u00f5em \u00e0 Gr\u00e9cia e a Chipre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>5. Com as contradi\u00e7\u00f5es e debilidade apontadas, as expectativas de uma Europa mais assertiva na geopol\u00edtica mundial (muito) dificilmente poderiam ser realizadas. Um choque realidade \u2014 a desastrosa visita de Josep Borrel \u00e0 R\u00fassia em in\u00edcios de Fevereiro de 2021 \u2014 mostrou de forma bem crua a ilus\u00e3o criada por Ursula von der Leyen. Importa lembrar que Josep Borrel \u00e9 vice-presidente da Comiss\u00e3o Europeia e coordena a ac\u00e7\u00e3o externa da Uni\u00e3o, sendo, por isso, uma pe\u00e7a central na ideia de uma \u201cComiss\u00e3o geopol\u00edtica\u201d. Mas o que aconteceu foi que a diplomacia russa, atrav\u00e9s do seu ministro dos neg\u00f3cios estrangeiros, deu uma li\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia. Ignorou n\u00e3o s\u00f3 as suas cr\u00edticas sobre a deten\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico russo da oposi\u00e7\u00e3o, Alexei Navalny, como, enquanto decorria uma confer\u00eancia de imprensa conjunta, expulsava tr\u00eas diplomatas europeus \u2014 um alem\u00e3o, um sueco e um polaco. Mais uma vez as contradi\u00e7\u00f5es e fraquezas europeias ficaram demasiado expostas. Uma coisa \u00e9 condenar, por exemplo, a junta militar que tomou o poder na Birm\u00e2nia (Myanmar) e deteve Aung Suu Kyi, bem como as persegui\u00e7\u00f5es e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos sofridas pelos rohingyas. \u00c9 uma \u00e1rea geopol\u00edtica distante, onde ningu\u00e9m na Europa tem grandes interesses econ\u00f3micos, nem a Birm\u00e2nia tem qualquer capacidade de retalia\u00e7\u00e3o, pelo que \u00e9 f\u00e1cil fazer uma pol\u00edtica externa segundo princ\u00edpios e valores. Outra coisa \u00e9 aplicar san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas \u00e0 R\u00fassia devido \u00e0s viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e outras, cancelando, por exemplo, o gasoduto Nord Stream 2, que liga \u00e0 R\u00fassia \u00e0 Alemanha. Neste \u00faltimo caso, Angela Merkel e a Alemanha mostraram, de forma demasiado flagrante, como h\u00e1 \u201cdois pesos e duas medidas\u201d, descredibilizando, na pr\u00e1tica, mais uma vez a Uni\u00e3o Europeia. A Europa apregoa elevados valores morais, mas cede quase sempre quando est\u00e3o em causa interesses que envolvem grandes pot\u00eancias como a R\u00fassia ou a China, ou at\u00e9 m\u00e9dias pot\u00eancias com capacidade de retaliar como a Turquia \u2014 basta amea\u00e7ar abrir a porta aos migrantes \/ refugiados. Este \u00e9 o pior resultado para os europeus. Nem temos uma Europa genuinamente coerente com os seus valores internos na pol\u00edtica externa, algo que os seus rivais e inimigos exploram at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o para a descredibilizar; nem temos uma Europa geopoliticamente forte e cred\u00edvel nas grandes quest\u00f5es mundiais, ainda que \u00e0 custa de abandonar a pretens\u00e3o de uma pol\u00edtica externa coerente com os valores internos. O que temos \u00e9 uma Europa perdida no mundo da geopol\u00edtica que n\u00e3o faz bem uma coisa nem outra.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 19\/02\/2021<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Imagem: Wikimedia Commons \/ Realpolitik<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem temos uma Europa genuinamente coerente com os seus valores internos na pol\u00edtica externa, nem temos uma Europa forte e cred\u00edvel geopoliticamente nas grandes quest\u00f5es mundiais. 1. A hist\u00f3ria por vezes \u00e9 cruel. A geopol\u00edtica, um termo criado pelos europeus na transic\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX \u2014 a autoria deve-se ao sueco &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2021\/03\/16\/a-europa-perdida-no-mundo-da-geopolitica\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;A Europa perdida no mundo da geopol\u00edtica&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,6],"tags":[32,43],"class_list":["post-5469","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-imprensa","tag-geopolitica","tag-uniao-europeia","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5469"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5469\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}